Volume 1
Capítulo 18: O Lugar Que Nunca Foi Dele
⚠ ️ Aviso de conteúdo: temas sensíveis.
A voz da Rainha atravessou o silêncio.
— O bastardo encontrou outro buraco para se esconder? Ou a biblioteca agora abriga humanos imundos?
O ar pareceu endurecer.
Ronan baixou a cabeça. Os dedos se fecharam sozinhos ao lado do corpo. Um nó se formou em seu peito, apertado demais para ser só medo.
Thalindra deu um passo.
Depois outro.
Movia-se como um predador que não precisa correr — apenas se aproximar, certa da caça.
— Eu esperava encontrá-lo coberto de fuligem — disse, num tom quase distraído. — Ou perdido nas vielas do subsolo. Não entre os livros sagrados do nosso povo.
A mão de Ronan se fechou em punho. Um reflexo inútil.
O guarda à direita dela avançou meio passo.
Bastou.
O corredor inteiro pareceu lembrar quem mandava ali.
Thalindra inclinou o rosto, observando-o como quem examina um inseto raro. Algo entre a curiosidade e o nojo.
— Diga-me, Ronan — a voz era baixa, sem pressa. — O que uma criança humana veio fazer aqui?
O silêncio pesou.
Ronan não respondeu. Apenas curvou mais a cabeça.
Um segundo.
Dois.
— Ei! — o guarda bateu o pé no chão.
O impacto ecoou pelo corredor… e dentro do peito de Ronan.
— A Rainha falou com você.
Ele engoliu em seco. A língua parecia grande demais para a boca.
— E-eu… eu estava lendo… s-sobre Aldebaran… só queria entender a história.
Thalindra inclinou a cabeça.
— Ah, sim. O Rei dos Reis. Sempre tão belo nos livros. Tão reconfortante para quem prefere acreditar que destino é sinônimo de perdão… e que a carne nunca trai.
Deu mais um passo.
A voz não se elevou. Apenas ficou mais fina. Mais afiada.
— Um bastardo buscando sabedoria nos salões sagrados. Como se o conhecimento pudesse lavar o sangue que corre em suas veias.
Ela parou diante dele.
— Você está proibido de entrar aqui sem minha autorização.
Ronan ergueu o olhar num sobressalto. O ar ficou preso no peito.
— O quê…? Mas… eu só estava…
— Porque não considero justo — cortou ela — permitir que alguém como você respire o mesmo ar que repousa sobre nossos livros.
Não havia ódio em sua voz.
Havia convicção.
E isso doía mais.
Ronan baixou a cabeça outra vez. O rosto ardia, como se tivesse sido marcado. Os olhos se encheram de água, contra sua vontade.
A voz saiu baixa. Não fraca — cansada.
— Por quê…? — ele perguntou. — Po-por que você é assim comigo? O que eu te fiz…?
Thalindra permaneceu imóvel por um instante, avaliando-o como quem decide se algo merece resposta.
Quando falou, a frieza soou limpa. Quase honesta.
— Não se trata do que você fez — disse, avançando um passo. — Trata-se do que você é.
O silêncio pesou entre eles.
O olhar da rainha desceu até Ronan como se examinasse uma falha em uma peça rara.
— Sua mãe entrou neste reino quebrando votos que nunca deveriam ser tocados. — Inclinou-se levemente, sem perder a postura. — E você nasceu disso. Um erro… que alguém tentou transformar em dever.
O ar pareceu recuar do corredor.
— É por isso que seu nome não é celebrado — continuou, com calma cruel. — Não há canções para você. E nenhum anão jamais o chamará de príncipe.
Cada palavra encontrava um lugar fundo demais.
Ronan ergueu o rosto devagar, lutando para manter o corpo firme. Os olhos ardiam.
— Eu… eu nunca pedi isso… — murmurou. — Não pedi título. Não pedi trono. Eu só…
A voz quebrou.
Ele fechou os dentes por um instante, respirando pelo nariz.
— Eu só queria existir sem ser tratado como… uma falha.
Thalindra soltou um suspiro curto. Não de tristeza. De cansaço.
— Infelizmente, Ronan… — disse, ajeitando o manto com precisão — alguns nascem para lembrar ao mundo os pecados que os criaram.
A frase ficou suspensa, pesada como pedra.
Ronan respirou fundo. Quando falou, a voz ainda tremia.
— Se eu sou um problema tão grande assim… — disse, sem levantar totalmente a cabeça — por que me trouxeram para este reino? Teria sido mais fácil… me deixar do lado de fora.
Não havia revolta na pergunta.
Só um vazio cansado.
O guarda ao lado de Thalindra deu um passo brusco à frente.
— COMO OUSA—?!
O guarda avançou um passo, a armadura soando pelo corredor—
A mão da rainha se ergueu, elegante.
Ele congelou.
O olhar de Thalindra pousou sobre Ronan como pedra.
— Se morrer é uma opção que lhe agrada… — disse, num tom calmo demais — não espere que alguém aqui tente impedi-lo.
Ronan piscou, atônito. O ar entrou curto, irregular.
Ela se aproximou, como quem examina uma rachadura numa parede antiga.
— Pode vestir nossas roupas, estudar nossos livros, copiar nossa disciplina… — inclinou levemente o rosto. — Mas sempre carregará o cheiro da superfície. Não importa quanto tente esconder.
O guarda ao fundo assistia em silêncio, como quem presencia algo inevitável.
O corpo de Ronan reagiu antes do pensamento.
O punho se fechou.
O maxilar travou.
E, mesmo tremendo, ele disse:
— A montanha me ouviu… — a voz era baixa, mas firme. — Mesmo quando você finge que não.
O tapa veio como vento cortante.
THAP.
A cabeça virou. O mundo perdeu o eixo por um instante. Um zumbido tomou seu ouvido. A mão subiu tarde demais para conter o fogo no rosto.
— Não ouse dar voz à montanha para justificar sua existência — disse Thalindra, fria como rocha. — A pedra não reconhece sangue que não é seu.
Por um instante, pareceu que diria mais.
Algo pior.
Algo final.
Mas se conteve.
Ajustou o manto.
Endireitou a postura.
— O rei insiste em tratá-lo como filho — afirmou, sem emoção. — Cabe a você fingir que acredita nisso… e manter distância suficiente para não envergonhá-lo.
Os olhos passaram por ele como se já não estivesse ali.
— Saia do meu caminho.
O corredor pareceu encolher ao redor de Ronan.
...
Ele saiu do corredor como quem foge de um medo ainda sem forma.
Primeiro andando rápido. Depois tropeçando no próprio ritmo.
Até que o corpo decidiu correr.
As luzes presas às paredes — tochas, cristais, runas — viraram riscos, brilhos, sombras.
O ar pesava a cada passo.
"Eu não devia estar aqui."
A frase se repetia, não como pensamento, mas reflexo.
"Eu nunca fui um deles."
"Nunca vou ser."
"Então por que ele me trouxe?"
O som das botas contra o chão não ajudava. Só ecoava aquilo que ele tentava enterrar.
"Eu não quero isso."
"Eu não quero ser isso."
"Eu… sou só o erro dele?"
As lembranças não pediram licença.
Invadiram.
A mão do empregado afastando o prato.
O cuspe ao lado, deliberado.
A anciã que mudou de direção para não responder seu “bom dia”.
O “bastardo” sussurrado atrás da porta do próprio quarto — como se o ar ali dentro fosse sujo só por causa dele.
Ronan fechou os olhos enquanto corria.
Os pulmões queimavam.
"E eu fiquei quieto."
"Sempre fiquei quieto."
"Achei que, se fosse discreto o bastante… alguém ia me querer aqui."
Um erro.
Mais um.
Chegou ao quarto quase sem perceber.
Empurrou a porta com força — o impacto fez a parede estremecer.
Entrou.
Fechou.
Girou a chave.
A madeira pareceu vibrar com sua respiração.
Encostou a testa na porta. Depois as costas. Depois deslizou até o chão, as pernas recolhidas, o peito tremendo.
Por um instante, só havia silêncio.
O silêncio ocupava o quarto inteiro, como se não houvesse espaço nem para ele.
Os olhos arderam antes da lágrima cair.
Uma só.
Grande.
Lenta.
Depois outra.
E outra.
O som do choro não saiu bonito. Foi baixo, rouco — como se a garganta pedisse desculpas por falhar.
— Por… quê… — tentou respirar. O ar não veio. — Por quê… por quê… por quê…
As mãos cobriram o rosto. O corpo se inclinou para frente, como se algo o empurrasse.
O quarto inteiro pareceu encolher ao redor dele.
Caiu de lado no chão frio. Não teve forças para levantar. A voz saiu num sussurro, mais frágil do que ele jamais admitiria:
— Eu… não aguento mais…
A respiração falhou de novo.
— Eu só queria… parar…
Os dedos se fecharam na própria roupa, tentando agarrar uma âncora que não estava lá.
— Eu… quero desaparecer…
— Eu...
— ... queria morrer.
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