Volume 1

Capítulo 18: Cada Palavra



O ar ao redor de Thalindra pareceu esfriar dez graus em um único segundo. Ronan baixou a cabeça, sentindo os dedos se fecharem ao lado do corpo; um nó apertado e quente subia por sua garganta, mistura de pânico e uma humilhação que conhecia bem demais.

Thalindra deu um passo à frente.

— Eu esperava encontrá-lo coberto de fuligem… coberto mesmo… — disse ela, o tom tão leve que chegava a ser cruel. — Ou perdido nas vielas do subsolo, como convém. Mas aqui? Entre os livros sagrados do meu povo? — Ela fez uma pausa, olhando para as estantes monumentais como se a presença de Ronan as tivesse manchado. — Alguns lugares deveriam ter a decência de se proteger.

Ronan sentiu um impulso de retrucar, mas o guarda à direita da Rainha avançou meio passo, a armadura prateada rangendo em advertência. Foi o suficiente. O corredor inteiro parecia ter se inclinado em direção a ela, reconhecendo quem detinha o poder. Thalindra inclinou o rosto, examinando-o com a curiosidade técnica que um naturalista dedicaria a um inseto desagradável.

— Diga-me, Ronan… diga-me. O que uma criança humana veio fazer aqui? Se perdeu no caminho da cozinha? Ou ainda não entendeu que este salão não foi feito para os seus pés?

O rapaz permaneceu em silêncio, estudando as rachaduras no piso.

— Ei! — O guarda bateu a base da lança contra o chão. O impacto ecoou como um tiro pelas colunas. — A Rainha falou com você.

Ronan engoliu em seco. Sua língua parecia ter dobrado de tamanho, pesada. Não ousaria mencionar o seu interesse pela Graça Primordial; bastava o que já sofria por segurar um volume de um livro comum.

— E-eu... estava lendo sobre Aldebaran — murmurou, a voz falhando. — Só queria entender a história.

Thalindra deu um sorriso que não chegou aos olhos.

— Ah, sim. O Rei dos Reis. Sempre tão belo nos livros… tão, tão belo. É reconfortante para pessoas como você acreditar que o destino apaga pecados. Uma fantasia elegante e nada além disso. — Ela se aproximou, e o cheiro de sândalo de suas vestes pareceu sufocá-lo. — Engraçado… um bastardo buscando sabedoria nos salões anões sobre um deus humano. Soa como um insulto ao nosso povo. Embora… alguns dos nossos já tenham se corrompido e traído aquilo em que acreditamos.

Ela parou diante dele, bloqueando a luz do cristal azul.

— Você está proibido de entrar nesta biblioteca sem minha autorização expressa.

Ronan ergueu os olhos num sobressalto, o choque rompendo sua guarda.

— O quê? Por quê? Eu não estava fazendo nada…

— Porque não considero justo — cortou ela, a voz subindo um tom, fria como gelo — permitir que alguém como você respire o mesmo ar que repousa sobre os registros do meu povo.

Não havia um pingo de fúria no rosto dela; apenas uma convicção absoluta e gélida, o que era muito pior. Ronan baixou a cabeça novamente, sentindo a face arder como se tivesse levado um tapa.

— Por quê? — perguntou ele, em um fio cansado. — O que foi que eu fiz para você?

Thalindra permaneceu imóvel por um instante, como se considerasse a pergunta seriamente. Quando falou, sua voz era um sussurro íntimo que cortava mais que um grito.

— Não, não, não…  não é sobre o que você fez. É sobre o que você é… entende? Porque olho para você e sinto nojo. Repulsa. Dá vontade de arrancar essa existência da minha frente. Para mim, você devia viver trancado. Com uma coleira bem justa… aprendendo a ficar quieto. Sendo alimentado dia sim, dia não… só o suficiente para não morrer.

Ela inclinou a cabeça, os olhos fixos nele.

— Sua mãe entrou neste reino quebrando votos que nunca deveriam ter sido sequer pensados. E você veio disso. Um erro. Não, pior… um erro que alguém teve a audácia de vestir como dever. — Ela soltou um riso curto e seco. — Como se mudar o seu nome pudesse limpar sua origem.

O ar no corredor parecia ter acabado. Ronan sentia que ia desmaiar.

— É por isso que seu nome não é celebrado… não é, não é. Não há canções pra você; ninguém se daria ao trabalho de lembrar. E nenhum anão… nenhum mesmo… jamais vai sujar a própria boca chamando-o de príncipe. Porque até o silêncio tem mais respeito do que você merece.

Cada palavra era como um prego sendo martelado. Ronan ergueu o rosto devagar, os olhos nublados por lágrimas que se recusava a deixar cair.

— Eu... nunca pedi nada disso — murmurou, dentes cerrados para manter a voz firme. — Não pedi título. Não pedi trono. Eu só…

Sua voz quebrou. Ele respirou fundo pelo nariz, tentando desesperadamente encontrar algum lugar dentro de si que Thalindra não pudesse alcançar.

O suspiro dela veio como um golpe seco.

— Infelizmente… infelizmente mesmo… alguns nascem só para isso — disse ela, com voz de seda e aço. — Para lembrar ao mundo… não, para esfregar nele os pecados que os criaram. Você cumpre esse papel com uma perfeição quase ofensiva.

Ronan respirou fundo. O ar da biblioteca, antes apenas frio, agora tinha um gosto metálico.

— Se eu sou um problema tão grande assim… — começou ele, sem levantar a cabeça, a voz abafada pelo nó na garganta — por que me trouxeram para este reino? Teria sido mais fácil me deixar do lado de fora.

Não havia revolta na pergunta. Mas para o guarda ao lado da Rainha, foi uma insolência imperdoável.

— COMO OUSA—?! — O homem avançou, sua armadura de prata soltando um estalo que ecoou como um tiro. Ele já erguia a lança quando Thalindra ergueu a mão. Foi um gesto mínimo, mas o soldado estancou.

O olhar da Rainha pousou sobre Ronan.

— Se morrer… é algo que lhe agrada… então não se iluda. Ninguém aqui vai mover um dedo para impedi-lo. Ninguém. Você poderia simplesmente desaparecer agora mesmo… e o silêncio da montanha iria agradecer.

Ronan piscou, atônito. O impacto daquelas palavras foi físico, como se o chão tivesse cedido sob seus pés. Ela se aproximou mais, diminuindo a distância até que ele pudesse ver as fagulhas de desprezo em seus olhos.

— Pode vestir nossas roupas… pode, pode estudar nossos livros e imitar nossa disciplina até o cansaço… Mas o cheiro… — ela torceu o nariz com repulsa — o odor da superfície nunca sai de você. Não importa o quanto tente esconder, ele sempre volta.

Ao fundo, o guarda soltou uma risada abafada por trás do elmo. O corpo de Ronan reagiu antes que sua mente pudesse processar a vergonha; seus punhos se fecharam e o maxilar travou com tanta força que os dentes latejaram.

— A montanha me ouviu… — a voz do rapaz saiu baixa, mas carregada de uma firmeza súbita. — Mesmo quando você finge que não.

 

THAP.

 

A cabeça de Ronan virou violentamente para o lado. O mundo perdeu o eixo e um zumbido agudo tomou conta de seu ouvido esquerdo. Sua mão subiu, trêmula, para tocar o rosto que agora queimava como se tivesse sido marcado a ferro.

— Não ouse dar voz à montanha para justificar sua existência — disse Thalindra. — A pedra não reconhece sangue que não é o seu. Não reconhece e NÃO aceita.

Por um instante, ela pareceu prestes a dizer algo ainda mais cruel, mas se conteve. Endireitou a postura com elegância e ajustou as dobras do vestido.

— O rei insiste em tratá-lo como filho… insiste, veja só. Cabe a você fingir que acredita nisso para não passar por tolo. E, por favor… mantenha distância. Distância suficiente para não constrangê-lo ainda mais. Nem todo erro pode ser ignorado para sempre. Suponho.

Os olhos dela passaram por Ronan.

— Saia do meu caminho.

O corredor pareceu encolher enquanto ele recuava, trêmulo, sentindo o peso de cada tonelada de rocha acima de sua cabeça.

 

...

 

Ronan disparou pelo corredor como se as sombras das estantes tentassem agarrar seus calcanhares. Primeiro, os passos eram rápidos e desajeitados; depois, seus pés tropeçaram no ritmo frenético do próprio coração.

Até que ele simplesmente começou a correr.

As luzes de cristal transformaram-se em vultos passando por ele. O ar parecia mais espesso, difícil de engolir, transformando-se em chumbo nos pulmões.

Eu não devia estar aqui, martelava uma voz em sua mente. Nunca fui um deles. Nunca serei. Por que ele me trouxe?

O som das botas contra a pedra ecoava como uma acusação. Cada batida trazia de volta as lembranças que ele tentava soterrar sob camadas de silêncio.

Lembrou-se do dia em que tentou se sentar à mesa com os outros jovens nobres, e como o silêncio resultante foi tão gélido que sentiu o sangue congelar. Ouviu, por trás de uma porta entreaberta, que era "o preço de uma noite de fraqueza" que o reino pagaria para sempre. Lembrou-se dos olhares de desprezo que se dá a uma poça de lama sobre um tapete real.

Achei que, se fosse discreto o bastante… se não fizesse barulho… alguém ia acabar me querendo aqui, pensou, sentindo uma pontada de autodesprezo.

Era um erro. Mais um.

Chegou ao quarto quase sem ver o caminho. Empurrou a porta com tanta força que o impacto fez a poeira dançar sob a luz das velas. Girou a chave com as mãos trêmulas.

Ronan encostou as costas na madeira fria e escorregou lentamente até o chão. Os joelhos subiram contra o peito e ele abraçou as pernas, sentindo o corpo sacudir. O silêncio do cômodo era vasto demais, um vazio que parecia apertar seus ombros.

Seus olhos arderam antes que a primeira lágrima caísse, traçando um caminho quente pelo rosto antes de mergulhar na escuridão da pedra. Depois veio outra. E mais outra.

O choro não saiu como nos livros que ele lia;  não era heroico ou suave. Foi um som baixo e feio, como se sua garganta pedisse desculpas por cada palavra que fora obrigado a engolir.

— Por… quê… — tentou puxar o ar, mas o oxigênio parecia recusar-se a entrar. — Por quê…

Ronan enterrou os dedos no cabelo, puxando-o com força, como se tentasse arrancar a dor de dentro da cabeça. Inclinou-se para frente. O quarto parecia encolher, as paredes se fechando para terminar o serviço de Thalindra.

Tombou de lado no chão, sem forças para se manter sentado. Sua voz saiu em um sussurro, mais frágil do que jamais tivera coragem de admitir:

— Eu… não aguento mais…

Sua respiração falhou, um soluço seco rasgando o peito. Os dedos se fecharam no tecido da roupa, amassando-o.

— Eu só queria… parar… — soluçou, fechando os olhos com força. — Eu… quero desaparecer…

Sentiu o frio da pedra contra a bochecha, o mesmo frio que Thalindra dizia ser seu único direito.

— Eu… queria morrer.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora