Volume 1
Capítulo 17: O Peso do Nome
Ronan franziu a sobrancelha, o corpo em alerta.
— O-o quê...? Por quê?
Baragor permaneceu em silêncio. Ele não precisava de justificativas. Seu olhar carregava a autoridade de um monarca e a paciência de um artesão, tornando qualquer explicação desnecessária. A ordem estava dada.
Ronan voltou os olhos para o cristal. Respirou fundo, tentando estabilizar o tremor que subia dos joelhos para as mãos. Estendeu os dedos com cuidado reverencial e, no instante em que o indicador tocou a superfície fria e facetada, seus olhos se fecharam por instinto.
Um som grave, como o ressoar de um sino submerso, tomou conta do ambiente. Era um pulso que vibrou pelo braço com um impacto abafado, repetindo-se em intervalos rítmicos. A vibração escalou pelo ombro, alcançou o peito e, por um segundo, a batida de seu coração ajustou-se à da pedra.
Ronan abriu os olhos. O cristal emitiu um zumbido baixo. Linhas douradas serpentearam pela superfície escura, rápidas como raízes de fogo. O tempo pareceu denso, suspenso no ar quente do escritório.
Depois, a pedra simplesmente se desfez.
Não houve estilhaços ou barulho; o cristal transformou-se em fragmentos que cintilaram como poeira de estrelas, desmoronando sobre o pano negro. Ronan recuou, atordoado. Ergueu o rosto e encontrou o olhar de Baragor fixo nele. O pânico subiu por sua garganta enquanto olhava para os restos brilhantes:
— D-desculpa… eu não queria… eu não sabia que… eu destruí…
Baragor interrompeu-o com uma voz que não carregava raiva, mas algo muito mais inquietante:
— Por que está se desculpando, garoto?
Ronan abriu a boca, mas o ar parecia ter se transformado em chumbo. Seus olhos voltavam, hipnotizados, para os pedaços desintegrados. Baragor soltou um bufo ruidoso, balançando as tranças da barba.
— É fascinante… Nunca vi essa reação em todos os meus anos.
O tom do rei agora era carregado de curiosidade.
— Essas pedras não reagem assim só por serem tocadas. Não por qualquer um.
Ele inclinou o rosto para os fragmentos, como se pudesse ler o destino neles. Ronan tentou puxar o ar, o peito travado.
— Mas eu sou humano… — Sua voz saiu como um sopro desamparado, um pedido de perdão pela própria existência.
A resposta veio em forma de uma risada forte e ruidosa. Baragor riu com a satisfação de quem testemunha o impossível.
— Mas é meio anão… e isso não quer dizer que a Graça esteja com você — explicou, a risada diminuindo para um sorriso satisfeito. — É um ótimo sinal, Ronan. A montanha te respeita. O que não é novidade para mim, e não deveria ser para você.
Com um gesto contido, o rei bateu o punho na mesa, fazendo os fragmentos saltarem.
— Quando a montanha respeita alguém… ela cria ouvidos. E, quando quer, tem braços também. Às vezes, dá pedra para quem cava… outras vezes, dá abrigo para quem precisa se salvar de si mesmo.
Baragor caminhou. A luz da lareira projetava sua sombra imensa contra as tapeçarias, fazendo os guerreiros de tecido parecerem se mover. Ele parou diante de Ronan, obrigando o garoto a inclinar a cabeça.
— A montanha quer saber se você a respeita — concluiu, os olhos brilhando como ônix sob o fogo.
Respeito.
Ronan repetiu a palavra mentalmente, mas ela soava oca, como um balde batendo no fundo de um poço seco. Se a montanha o respeitava, era a única em Karak-Dûm a fazê-lo.
O calor da lareira ardia em seu rosto, mas sua mente revirava as memórias daquela manhã e de todas as anteriores. Pensou nos olhares que recebia nos corredores — uma curiosidade nojenta, como se ele fosse um inseto preso em um frasco de vidro.
Dizem que respeito é quando alguém te escuta sem rir… quando não cospem na sua comida quando acham que ninguém está vendo…
Por que as pedras teriam ouvidos para mim, raciocinou amargamente, se os guardas fingem que sou invisível até que eu tropece no caminho deles?
Lembrou-se de como os anões do Conselho baixavam o tom de voz quando ele passava, como se sua presença contaminasse a conversa. E, acima de tudo, havia a Rainha. Conseguia visualizá-la agora: o brilho gélido da coroa, a postura de ferro. Ela nunca precisara gritar para humilhá-lo; bastava a forma como o observava, com uma distância absoluta que o fazia sentir-se menos que um humano — um erro de cálculo.
Respeito não é isso, pensou, fechando as mãos até as unhas picarem a palma. Respeito é o que o Rei recebe ao entrar em uma sala. É o que os ferreiros sentem pelo metal. O que eu recebo... é tolerância. E uma tolerância por um fio.
Olhou para as próprias mãos, grandes e desajeitadas para os padrões anões, e sentiu uma onda de frustração. Se nem quem o criara conseguia olhá-lo sem desdém, por que a fundação do mundo se daria ao trabalho de "ouvi-lo"?
Baragor está vendo o que quer ver, concluiu. Era mais lógico. O Rei estava envelhecendo, ou talvez a solidão do trono o fizesse criar sinais onde só existia um cristal quebrado.
Ronan ergueu o olhar. Baragor estava de costas, movendo-se com a calma pesada de quem é dono de cada átomo de rocha ao redor. Ele recolhia os fragmentos dourados com um cuidado que Ronan nunca vira ser dedicado a um ser vivo.
É um sinal, o Rei dissera. Mas para Ronan, parecia apenas mais um pedaço de algo bonito que ele, sem querer, destruíra. Nada fazia sentido. Se o respeito era algo que a terra dava, ele preferia que ela lhe desse um lugar para se esconder.
…
Karak-Dûm não era apenas um reino; era um suspiro preso há eras nas entranhas da terra.
Lá, o sol e a lua eram conceitos abstratos. A luz vinha de cristais cravados nas paredes, pulsando em ouro ou azul conforme as horas. O castelo surgia do rochedo como se tivesse crescido organicamente, com salas e corredores escavados com uma precisão tão antiga que a história esquecera quando a primeira picareta golpeara a rocha. As casas eram invariavelmente iguais: portas pesadas de metal negro, projetadas para manter o mundo fora e o calor dentro. O som das minas era um ruído constante, um coração batendo no fundo do abismo. Tavernas barulhentas se espalhavam pelas ruas, e o calor sufocante das fornalhas iluminava os rostos sujos dos ferreiros.
Mas o destino de Ronan ficava abaixo de tudo aquilo.
A biblioteca, Thazrim-Kel. Na entrada, os guardas mal notaram sua presença; abriram caminho com a indiferença que Ronan já esperava. O problema eram as sentinelas seguintes.
Um som de atrito, como rochas se esmagando, ecoou pelo corredor. Das paredes, os Golems se ergueram. Eram gigantes de pedra bruta com olhos que ardiam em âmbar profundo. Eles não precisavam de armas; a simples presença daquelas criaturas tornava o ar denso, como se o espaço ao redor se curvasse. Ronan sentiu o brilho das fendas oculares sobre si — um julgamento silencioso. Sabia que só passava por ali porque Baragor ordenara, e os Golems obedeciam à hierarquia antes de qualquer lógica.
Lá dentro, o silêncio era absoluto. A biblioteca era um labirinto de níveis e rampas de pedra polida, com estantes que subiam até o teto desaparecer na escuridão. Ronan avançou, o som de seus passos engolido pelo ar seco. Passou os dedos pela borda de uma mesa marcada por séculos de uso. As cicatrizes no tampo eram a única coisa que parecia real ali.
— Histórias — murmurou para o vazio.
Baragor sempre dizia que a verdade gostava de se esconder em versos bonitos e exageros.
Ele subiu a escada e puxou três volumes pesados da seção das Guerras Mágicas. O couro das capas estava rígido e frio. Levou-os até a mesa e abriu o primeiro; o rangido das páginas foi o único som a quebrar a quietude. Entre as linhas, uma ideia pulsava: a Graça primordial… era o motivo de sua vinda.
Ronan folheou as páginas amareladas por mais algum tempo, os olhos ardendo sob a luz fria dos cristais, mas não encontrou nada além de poeira e feitos de anões antigos. Já estava prestes a desistir quando um nome, escrito em letras serifadas e imponentes no meio de um parágrafo, saltou aos seus olhos.
“Aldebaran.”
Ele parou. Era impossível escapar daquele nome; estava em todo lugar, desde as canções de ninar que os anciãos cantarolavam até os bustos de pedra que decoravam as praças superiores. O grande salvador. O homem que, sozinho, havia colocado fim às trevas.
Ronan sentiu um gosto amargo na boca. Sempre achou aquelas histórias convenientes demais, com seus finais arrumados e heróis sem manchas. Se o mundo fora salvo, ele certamente não tinha recebido o memorando. Para ele, parecia que Aldebaran havia derrotado os monstros gigantes que todos temiam, mas se esquecera de limpar a sujeira que ficava nos cantos — as palavras cruéis, os olhares de desprezo e o silêncio que esmagava quem não tinha importância.
— Talvez os deuses esqueçam as coisas pequenas — murmurou ele, fechando o livro com um baque surdo.
De repente, um som baixo e gutural quebrou o silêncio da biblioteca.
…grrr…
Ronan deu um pulo na cadeira, o coração martelando contra as costelas. Olhou freneticamente por cima do ombro, esperando ver uma das sentinelas ganhando vida atrás de si, mas não havia nada além de sombras. Um segundo depois, suas orelhas ficaram vermelhas de vergonha. O som vinha de seu próprio estômago.
Fazia horas que não comia. Na verdade, sua última refeição real fora na tarde anterior. Com um suspiro de derrota, levantou-se, reuniu os tomos pesados e começou a caminhada de volta às prateleiras.
Enquanto encaixava os livros na seção de Guerras Mágicas, um vulto rápido cruzou o corredor adjacente. Ronan congelou. Não conseguiu ver o rosto, apenas o movimento fluido de cabelos longos que pareciam brilhar com um tom de verde claro, quase pálido. Era uma cor que não pertencia àquele reino de cinzas e negros. Ele piscou, confuso, mas a figura já havia desaparecido atrás de uma coluna em espiral. Soltando o ar devagar, empurrou o último volume para o lugar e decidiu que a fome estava começando a lhe causar alucinações.
No entanto, ao dobrar o corredor principal, onde a luz dos cristais flutuava como uma névoa dourada entre as colunas altas, Ronan estancou. Seus pés pareceram criar raízes no chão.
Lá estava ela. A Rainha Thalindra.
Caminhava com uma elegância gélida, cada fio de seu cabelo ruivo preso em um penteado que desafiava a gravidade. Ao seu lado, um guarda de armadura prateada marcava o passo com precisão metálica, seguido por atendentes carregando pilhas de livros com runas de ouro.
O instinto de Ronan foi imediato: encolheu os ombros, tentando ocupar o menor espaço possível no universo. Baixou a cabeça, fixando os olhos na ponta de suas botas gastas, e prendeu a respiração. Se ficasse parado o suficiente, talvez ela passasse por ele como se fosse apenas mais uma mancha de umidade na parede de pedra.
O ar em seus pulmões começou a queimar. O gosto de ferro da ansiedade subiu por sua garganta.
Thalindra passou. O farfalhar de suas vestes de seda soou como o rastro de uma serpente sobre o cascalho. Ronan sentiu um alívio momentâneo, mas ele durou pouco. O som dos passos parou abruptamente.
A Rainha virou-se devagar. Levou a mão ao nariz em um gesto de extrema delicadeza e profundo nojo, como se tivesse acabado de sentir o cheiro de algo apodrecendo sob o assoalho.
— O bastardo encontrou um novo buraco para se esconder? — A voz dela cortou o ar, afiada e fria como uma adaga de gelo. — Ou a biblioteca agora virou abrigo para humanos imundos?
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