Ano 3 - Volume 4
Capítulo 7: Estratagemas Entrelaçados
O SEGUNDO E O TERCEIRO dias do exame transcorreram em meio a uma sucessão incessante de tarefas. Individualmente, essas provas haviam produzido apenas pequenas alterações no total de tokens — mudanças quase insignificantes, insuficientes para despertar preocupação.
Porém, ganhos modestos tendem a se acumular. Como gotas d’água desgastando uma pedra, esse acúmulo constante havia remodelado sutilmente o panorama do exame. Em pouco tempo, alguns alunos já haviam reunido discretamente fortunas de três dígitos.
Foi nesse cenário tenso e instável que amanheceu o último dia. Um leve farfalhar do lado de fora da barraca arrancou Ibuki do sono. Por um momento, ela permaneceu imóvel, ouvindo. O ar carregava aquele silêncio característico do início da manhã, quando o acampamento ainda não havia despertado por completo.
Piscando contra a penumbra, moveu o braço para consultar o relógio de pulso. Os ponteiros luminosos marcavam pouco depois das seis horas. Ao aguçar os ouvidos, não demorou para identificar o som: passos. Eles passaram ao lado da barraca e continuaram adiante, desaparecendo gradualmente à distância. Pela direção, parecia que a pessoa estava indo em direção à praia.
Não era exatamente estranho alguém madrugador sair para caminhar logo cedo, e sua primeira reação foi ignorar aquilo. Ainda assim, por algum motivo, aqueles passos a incomodaram.
Tomando cuidado para não acordar Morofuji, Ibuki sentou-se silenciosamente e abriu a aba da barraca apenas o suficiente para espiar lá fora. A figura que se afastava em direção à floresta não era outra senão Kushida.
— Essa garota...
A imagem de Kushida pressionando a testa contra o chão em um desesperado dogeza no dia anterior surgiu na mente de Ibuki; uma demonstração crua e inesquecível de sua feroz determinação em sobreviver naquela escola.
Se o exame especial terminasse naquele instante, havia uma chance muito real de Ibuki acabar em último lugar absoluto. Ela havia conquistado tão poucos tokens por conta própria que aquilo era quase ridículo.
O que aconteceria com ela quando o exame terminasse naquele dia?
Seria mantida no navio de cruzeiro aguardando enquanto os outros retornavam, ou a colocariam em um pequeno barco para enviá-la imediatamente de volta ao continente?
De qualquer forma, talvez nunca mais tivesse outra oportunidade de conversar com Kushida a sós. Incapaz de conter a curiosidade, Ibuki saiu da barraca e seguiu o caminho que ela havia tomado. Não demorou muito para avistar as costas de Kushida. Ela estava descalça à beira da água, contemplando a vasta extensão do oceano.
Kushida travava uma guerra dentro da própria mente.
Uma enorme e sufocante onda de frustração vinha se acumulando dentro dela desde o início do exame especial. Sentia um impulso avassalador de gritar até perder a voz, mas o reprimia com firmeza.
Embora tivesse se afastado um pouco do acampamento, um grito alto ainda poderia ecoar pelo ar da manhã.
— Isso é irritante demais... — murmurou.
Além do esforço exaustivo de manter constantemente sua máscara de boa menina, o fato de sua verdadeira natureza ter sido exposta aos colegas era uma fonte imensurável de estresse. Shinohara confiscando seus tokens. Os olhares vulgares e persistentes de Ike. E, pior de tudo, ser forçada a fazer um dogeza humilhante; seu orgulho reduzido a pedaços sob a ameaça de ter seus segredos revelados às outras turmas.
Kushida nutria uma raiva mais sombria e intensa do que qualquer outra que já sentira em toda a vida.
Ainda assim, a única razão pela qual conseguia evitar gritar era a amarga lição que aprendera no passado. Desde que baixara a guarda de forma imprudente e permitira que Ayanokoji descobrisse sua verdadeira personalidade, as engrenagens de sua vida cuidadosamente construída haviam começado a sair dos eixos. Ela não cometeria — ou melhor, não podia cometer — o mesmo erro novamente.
Parada ali, confiava ao mar as emoções obscuras que giravam dentro dela, desesperada para que a maré as levasse embora. Viera até ali em busca de um pequeno mundo só seu, um breve refúgio nascido do puro desespero, como uma garota se afogando que luta por um gole de ar.
Kushida deu mais um passo à frente. A maré que retornava cobriu seus pés, molhando-a até os tornozelos. Estreitando os olhos diante da sensação fresca e reconfortante da água, regulou a respiração.
— Eu vou dar um jeito... — sussurrou ao vento. — Mesmo que aconteça o pior cenário possível e eu tenha que implorar chorando para a Horikita... eu vou ficar nesta escola com certeza───!?
Nesse instante, um impacto pesado atingiu suas costas. Antes que seu cérebro sequer processasse o que estava acontecendo, ela foi lançada para a frente. Instintivamente estendeu as mãos para se apoiar, mas, sem nada para amortecer a queda além do oceano, mergulhou de rosto na água do mar, ficando completamente encharcada.
Tossindo e totalmente atordoada, Kushida ergueu o tronco da areia molhada e virou a cabeça bruscamente. Logo atrás dela, de pernas afastadas e encarando-a com um olhar severo, estava Ibuki.
— Hã?
Kushida fitou-a em total incredulidade. Sua mente não conseguia compreender a situação, mas, no instante em que aquele som escapou de seus lábios, sua irritação avançou como uma onda gigantesca.
— Ibuki-san... — disse ela, a voz tornando-se sombria. — O que exatamente você acha que está fazendo?
— E o que parece? Um encontrão, eu acho — respondeu Ibuki, indiferente. — Você estava de costas para mim, parecendo completamente indefesa e distraída. Eu simplesmente não consegui resistir.
— Eu não faço a menor ideia do que você quer dizer...! Por que faria isso?
— Por quê? — Ibuki olhou para ela sem o menor traço de arrependimento. — Há algum tempo, a Horikita estava andando por aí com exatamente essa mesma aura deprimente nas costas. Eu dei um belo chute nela quando fez isso, então... acho que senti uma vontade parecida?
— Não, mesmo com a explicação, eu continuo sem entender! — Kushida olhou para si mesma, encharcada. — Olha só para mim! O que você pretende fazer a respeito disso!?
A água salgada já havia penetrado até a roupa íntima. Não havia mais salvação.
— Bem feito — disse Ibuki.
— Não vejo por que eu tenho que ouvir isso de você... Ai...!
Kushida tentou se levantar, mas uma expressão de dor atravessou seu rosto. Suas forças falharam, e ela caiu de volta na água rasa com um pequeno respingo. Um gemido abafado escapou de seus lábios.
Ela levou uma das mãos à cintura e não tentou mais ficar de pé.
— O quê? — Ibuki franziu a testa. — Você realmente se machucou só com isso...?
Pensando que talvez tivesse exagerado com alguém sem experiência, Ibuki jogou os sapatos de lado e entrou na água.
— Eu não consigo ficar em pé... Me ajuda a levantar — disse Kushida, estendendo uma mão trêmula.
A contragosto, Ibuki a segurou. No instante seguinte, foi violentamente puxada para a frente.
— Quê───!?
Como realmente acreditara que Kushida estivesse machucada, sua guarda estava completamente baixa. Com um enorme respingo, caiu de rosto no mar, sentindo a água salgada invadir imediatamente sua boca aberta.
— Ptuí! Ptuí! Meu Deus, como isso é salgado!
Como se quisesse acrescentar insulto à humilhação, Kushida reuniu água do mar com as duas mãos e a lançou diretamente no rosto de Ibuki.
— Uwah! Mas que diabos você está fazendo!?
— Acho que essa fala é minha, não é? — rebateu Kushida, com um tom repentinamente alegre e venenoso.
— Fingir uma lesão? Sua trapaceira!
Levantando-se às pressas, Ibuki criou distância entre as duas e chutou violentamente a superfície da água, enviando uma onda de volta contra Kushida. A partir daí, a situação degenerou para uma briga infantil e ridícula, uma batalha interminável de respingos lançados de um lado para o outro.
Durasse um minuto ou dois, no fim das contas não houve vencedora. A batalha terminou em empate absoluto, deixando ambas encharcadas, sem fôlego e sentadas na água.

— Haa... haa... Por que eu tenho que lidar com isso logo de manhã...? — ofegou Ibuki. — Você é muito idiota, Kushida.
— Já falei, essa frase é minha... — respondeu Kushida, também sem fôlego. — Fufu... Você realmente é uma idiota, Ibuki-san…
As duas permaneceram sentadas no mar, com a água chegando ao peito, encarando uma à outra. Então, num repentino momento de lucidez compartilhada, ambas caíram na gargalhada diante do completo absurdo da situação.
— Sabe — murmurou Ibuki quando finalmente conseguiram parar de rir —, talvez você não precise ser tão pessimista quanto à possibilidade de ser expulsa.
Kushida voltou o olhar para ela.
— Os tokens iniciais — continuou Ibuki. — Eles foram distribuídos com base no tempo que cada aluno sobreviveu no exame especial do jogo de sobrevivência, certo? Você também chegou bem perto do final. Mesmo que a Shinohara esteja administrando seus tokens, sua margem de segurança ainda deve ser maior que a minha. Acho que não precisa entrar em pânico por perder alguns tokens agora.
— Isso é apenas uma margem de erro — descartou Kushida. — Mais importante, não acredito que Katsuragi-kun simplesmente abandonaria você desse jeito.
Se Katsuragi lhe desse vinte ou trinta tokens, a diferença entre ela e os demais desapareceria facilmente.
— Então você está dizendo que eu sou a principal candidata ao último lugar? — suspirou Ibuki. — Aquele Katsuragi... ele realmente pretende distribuir nossos tokens de forma igualitária. Estava falando sério. Dar tratamento preferencial a alguém como eu, que não consegue produzir resultados individuais, e possivelmente sacrificar outro colega esforçado no processo... ele jamais se perdoaria por isso. Além do mais, ele conversou com Ryuen pelo rádio ontem à noite. Talvez até tenha recebido ordens diretas para simplesmente me abandonar.
Era uma observação estranhamente incomum para Ibuki. Não havia raiva em sua voz. Apenas uma espécie de resignação distante. Ao ouvi-la, Kushida teve certeza de que a suspeita que cultivara no dia anterior estava correta.
— Entendo. É verdade que você não tem uma única qualidade redentora, Ibuki-san, então provavelmente essa é a decisão certa — respondeu Kushida sem rodeios.
Embora tivesse havido tarefas nas quais Ibuki poderia ter se destacado, ela fora forçada a competir diretamente contra Ayanokoji nos momentos mais importantes. Graças a uma sucessão implacável de azares, todos os seus esforços haviam girado em falso. Enquanto se preocupava ao ver as tarefas sendo concluídas uma após outra pelos demais, o tempo continuava avançando sem esperar por ela.
— Então acho que simplesmente desisti... — murmurou Ibuki. — Não sei. É uma sensação estranha.
Por algum motivo, o rosto de Manabe surgiu em sua mente, sua ex-colega de turma que havia sido expulsa. No caso de Manabe, tinha sido uma "morte" instantânea. Um ataque surpresa. Como ser abatida antes mesmo de perceber que a lâmina havia caído.
Aquilo era diferente.
— Como posso explicar...? — disse ela. — Parece que estou "morrendo" lentamente por causa de um veneno.
Quando ela e Ryuen desafiaram Ayanokoji durante o jogo de sobrevivência e sofreram uma derrota esmagadora, jamais poderia imaginar que acabaria naquela situação. Um riso vazio escapou de sua garganta ao pensar em como seu ambiente e sua posição haviam mudado drasticamente em apenas alguns dias.
— Você ainda não sabe disso com certeza — disse Kushida. — Pode estar perto do fundo do ranking, mas existem muitos outros grupos por aí. É muito improvável que não haja nenhum outro aluno enfrentando dificuldades tão grandes quanto as suas.
— O quê? — perguntou Ibuki. — Isso deveria me consolar?
— Não exatamente. Eu só me importo em salvar a mim mesma. É reconfortante para mim saber que você está lá embaixo — respondeu Kushida. — E seria ainda mais reconfortante se houvesse alguém abaixo de você. Só falei porque foi o que pensei.
Era uma resposta tão tipicamente Kushida que, estranhamente, Ibuki sentiu certo alívio.
— Você realmente quer se formar na Classe A a esse ponto? — perguntou Ibuki.
— Obviamente. Afinal, sou uma aluna exemplar — declarou Kushida enquanto se levantava e começava a caminhar pela água em direção à praia. — Vou me formar na Classe A. Vou ser respeitada por todos ao meu redor, respeitada pelos meus pais e me tornar um membro da sociedade que todos invejam. Farei o que for preciso para que isso aconteça.
Ao alcançar a areia molhada, Kushida olhou para trás.
— Restam apenas algumas tarefas agora, e sinceramente não consigo imaginar você conseguindo uma reviravolta repentina, Ibuki-san. Ainda assim, não custa nada manter um pouco de esperança de que outra pessoa cometa um erro ou que Katsuragi-kun resolva salvá-la, certo?
— Estou voltando — acrescentou, deixando aquelas palavras para trás enquanto retornava ao acampamento.
Era uma situação muito parecida com a do dia anterior. Ainda assim, apesar da ameaça iminente de expulsão, o coração de Ibuki estava inegavelmente mais leve.
— Eu sou diferente da Kushida... — murmurou para a praia vazia. — Ainda não sinto nenhum desejo ardente de evitar a expulsão. Mas...
Se fosse expulsa daquele jeito… Pensando nisso, percebeu que havia exatamente um arrependimento persistente dentro dela.
*
Nossa localização atual era F7. O relógio acabara de marcar cinco horas da tarde quando o supervisor reuniu todos os alunos.
— Obrigado pelo esforço de todos durante este exame especial de quatro dias e três noites — disse Urushihara, indo direto ao assunto. — Agora anunciarei a tarefa final.
O fato de finalmente poderem retornar ao navio aliviou, ainda que discretamente, o coração dos estudantes.
— Sua tarefa é chegar ao ponto de chegada até às 19h. O destino é a Área F13.
F13 ficava praticamente no mesmo local onde havíamos começado. Em outras palavras, estavam nos instruindo a retornar ao ponto de partida dentro do tempo estabelecido.
— Os outros grupos estarão se dirigindo exatamente para o mesmo objetivo — continuou Urushihara. — Embora as localizações atuais sejam diferentes, todos estão aproximadamente à mesma distância do destino. Vocês podem até encontrar alunos de outros grupos pelo caminho.
Embora a escola tivesse tentado distribuir todos de maneira equilibrada, a realidade do terreno da ilha tornava inevitável que alguns grupos tivessem pequenas vantagens ou desvantagens em relação à distância.
— Sua chegada será oficialmente reconhecida trinta segundos após seus relógios registrarem a entrada na Área F13. Os alunos que alcançarem o objetivo dentro do limite de tempo receberão três tokens como recompensa. Caso não consigam chegar a tempo, Pontos de Classe serão descontados de acordo com o regulamento. Além disso, a penalidade por se afastar demais do supervisor deixa de existir a partir deste momento. Por fim, como mencionei durante a explicação inicial, lembrem-se de que, no instante em que cruzarem a linha de chegada, sua quantidade de tokens será permanentemente congelada. Depois disso, vocês não poderão mais transferir tokens de forma alguma, então planejem-se adequadamente.
Dito isso, Urushihara retirou quatro celulares.
— Agora distribuirei um destes telefones especiais para cada representante de turma. Consultar o GPS ajudará vocês a navegar até o objetivo. Além disso, esses aparelhos funcionam como rádios comunicadores. Ao vinculá-los ao relógio e pagar uma taxa de um token, vocês poderão entrar em contato com outros grupos ou revelar suas localizações. Sintam-se à vontade para utilizar esses recursos conforme julgarem necessário.
Parecia que as funções de comunicação e rastreamento disponíveis desde o início do exame haviam sido totalmente integradas àqueles aparelhos.
— A partir daqui, não poderei mais acompanhá-los. Portanto, quaisquer penalidades relacionadas à minha presença serão invalidadas — concluiu Urushihara. — Sigam em direção ao objetivo no ritmo que desejarem. Desejo boa sorte a todos.
Basicamente, cabia a cada grupo decidir se correria ou caminharia.
Os celulares não existiam apenas para evitar que perdêssemos de vista o destino ou que os integrantes se separassem. Provavelmente também serviam para conceder um período de tolerância que permitisse transferências de tokens antes da chegada, ampliando as possibilidades estratégicas.
No geral, os acontecimentos estavam se desenrolando exatamente como eu havia previsto. Não havia necessidade de alterar meu plano.
— Qual é o nosso próximo passo, Ayanokoji? — perguntou Yoshida. — Poderíamos seguir para o objetivo separadamente, mas a maioria do grupo precisa chegar lá. Se perdermos o ritmo e nos separarmos, isso pode virar um enorme problema depois. Definitivamente deveríamos continuar juntos.
— Concordo — respondi. — Alguém tem alguma objeção?
Partindo do princípio de que nenhum dos alunos da Classe D levantaria problemas, voltei minha atenção para os integrantes restantes da Classe A.
— Eu também concordo — respondeu imediatamente a representante deles, Shinohara. Era o sorriso mais radiante que ela exibira em dias. — No fim das contas, todos nós precisamos cruzar a linha de chegada juntos.
*
Já passava das 17h30. O Grupo 2 já havia partido, determinado a ser o primeiro a alcançar o objetivo.
Considerando que todos os grupos haviam começado a uma distância aproximadamente igual do destino, era extremamente improvável que alguém já tivesse cruzado a linha de chegada.
Hirata avançava em um ritmo acelerado e constante, sua expressão tornando-se mais sombria a cada minuto. O mesmo podia ser dito de Ryuen.
No entanto, suas preocupações eram completamente diferentes. Hirata estava concentrado exclusivamente na segurança física do grupo e na estabilidade de sua turma. Ryuen, por outro lado, estava totalmente consumido pelos resultados iminentes do exame e pela enorme mudança nas classificações das turmas que eles provocariam.
Até aquele momento, Ryuen havia acumulado um total de 110 tokens front-side. Sem dúvida, era o maior arrecadador de seu grupo, conquistando um resultado que poderia facilmente ser considerado sólido.
Ao chegar ao objetivo, acrescentaria mais três tokens ao total. E, caso seu grupo terminasse em primeiro lugar, manteria 100% dos seus tokens graças ao multiplicador final.
Não era uma posição ruim de forma alguma. Ainda assim, segundo seus próprios cálculos, havia deixado escapar pelo menos vinte tokens ao longo do caminho. Conhecendo Ayanokoji, havia uma probabilidade muito alta de que ele tivesse conseguido muito mais tokens do que Ryuen.
Mesmo supondo que Ayanokoji tivesse apenas 130, Ryuen precisaria de uma vantagem de pelo menos 20% no multiplicador para superá-lo. Isso significava que, mesmo que o Grupo 2 defendesse a primeira colocação com unhas e dentes, o grupo de Ayanokoji ainda precisaria terminar em quinto lugar ou pior.
Esse era o requisito mínimo absoluto para manter viva qualquer esperança de vitória. Seria fácil entrar em contato com Katsuragi e ordenar que ele permanecesse fora da área de chegada para atrasar o grupo. Porém, como a classificação era definida no momento em que uma simples maioria dos integrantes concluía a prova, as condições ainda seriam satisfeitas mesmo que Katsuragi e todos os alunos da Classe B daquele grupo resistissem.
Tudo o que essa sabotagem conseguiria seria deixar os resistentes sujeitos a uma severa penalidade por não chegarem ao destino.
Se Ayanokoji simplesmente alcançasse a linha de chegada em segurança, a diferença de Pontos de Classe entre eles diminuiria em cem pontos.
E se, por alguma sorte extraordinária, o grupo dele também terminasse em primeiro lugar?
A diferença aumentaria em duzentos pontos. Seria uma derrota esmagadora e incontestável.
Como poderia sabotar Ayanokoji de forma proativa e arrancar essa vitória de suas mãos?
— Acho que não tenho escolha — murmurou Ryuen.
Era preciso estar disposto a deixar o inimigo cortar sua carne para poder quebrar seus ossos. Sem esse tipo de determinação impiedosa, jamais conseguiria arrastar Ayanokoji para a lama e impor sua primeira derrota verdadeira.
Não poderia alcançar a vitória sem abandonar suas hesitações e assumir um risco enorme. Desde o momento em que decifrara as mecânicas ocultas daquele exame especial, uma determinada estratégia vinha ardendo silenciosamente no fundo de sua mente. E justamente quando estava prestes a colocá-la em prática, Hirata agiu.
— Ryuen-kun, se importa se eu confirmar uma coisa com você?
Apesar da necessidade de se apressarem, Hirata parou de caminhar, forçando Ryuen a participar de uma conversa.
— O que foi? — perguntou Ryuen.
— Depois de chegarmos até aqui, não tem como você não ter percebido nada, certo?
As palavras de Hirata carregavam um significado implícito. Seu olhar estava fixo em Ryuen, afiado e analítico, como se tentasse enxergar diretamente seus pensamentos.
— Não faço ideia do que você está falando — respondeu Ryuen casualmente. Então, achando a situação involuntariamente engraçada, deixou escapar uma risada sombria. — E o que exatamente você está tentando fazer, Hirata? Vamos ouvir.
— Nós levamos este exame a sério e conquistamos o máximo de tokens que podíamos — começou Hirata. — E, neste momento, estamos usando um único "indicador" para comprar uma sensação temporária de segurança. Mesmo assim, sei que ainda existem alunos aqui que estão preocupados. Então, antes de seguirmos adiante, quero que qualquer pessoa que esteja ansiosa se manifeste, independentemente da turma a que pertença.
Hirata olhou para todos os membros do grupo.
— Se vocês verificarem sua quantidade de tokens e sentirem que existe sequer uma pequena possibilidade de terminarem em último lugar, digam isso agora. Eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-los.
Ele se dirigiu ao grupo inteiro, num tom que deixava claro que nem mesmo Ryuen estava excluído daquela oferta.

— Eu achava que já tinha entendido sua personalidade até certo ponto — zombou Ryuen. — Mas parece que você é um idiota de coração mole ainda maior do que eu imaginava. Ou será que tem alguma segunda intenção?
— Você acha que eu tenho uma segunda intenção? — Os olhos de Hirata permaneceram perfeitamente calmos, impossíveis de decifrar enquanto encaravam Ryuen. — Depois de passarmos este exame inteiro no mesmo grupo, acho que você já sabe a resposta para isso, Ryuen-kun.
— Hah. Faça o que quiser, então — rebateu Ryuen. — Desde que a quantidade total de tokens do grupo não diminua, isso não tem absolutamente nada a ver comigo.
Após a declaração de Hirata, dois alunos avançaram cautelosamente. Depois de confirmar suas posições, Hirata transferiu parte de seus próprios tokens para eles, garantindo sua segurança.
— Certo, não podemos nos atrasar mais do que já estamos — anunciou Hirata, voltando-se para a trilha. — Estamos quase chegando. Vamos dar o nosso melhor.
Enquanto Hirata retomava seu ritmo acelerado, Ryuen seguiu logo atrás. Mas, dentro de sua mente, as engrenagens de sua estratégia continuavam girando sem parar.
— Nem ferrando que vou deixar este exame especial terminar desse jeito — murmurou Ryuen.
— O que você quer dizer com isso….? — perguntou Hirata.
— As tarefas de coleta de tokens deste exame foram praticamente feitas sob medida para gente altamente capaz — explicou Ryuen. — Um sujeito com grande capacidade acadêmica podia juntar perto de cem tokens só com isso. Se ainda fosse ágil e tivesse boa intuição, conseguiria acumular ainda mais.
Ao gesto de Ryuen, Kaneda imediatamente se aproximou dele.
— De fato. Ao contrário do absurdo teste de sobrevivência na ilha desabitada, o conteúdo deste exame constituiu uma avaliação acadêmica adequada — observou Kaneda.
— O que nos leva à pergunta... Quantos tokens você acha que aquele desgraçado do Ayanokoji conseguiu reunir?
Ryuen voltou seu olhar para Hirata, ex-colega de classe do assunto em questão.
— Imagino que uma quantidade proporcional ao seu desempenho — respondeu Hirata calmamente. — Conhecendo-o, não me surpreenderia se ele já tivesse ultrapassado cento e trinta ou até cento e quarenta tokens.
— Compartilho dessa avaliação, Hirata-shi — concordou Kaneda. — É precisamente por isso que é fundamental reduzirmos seu multiplicador de recompensa, nem que seja um pouco. Essa é a razão pela qual estamos correndo em direção ao objetivo neste momento.
— Mas mesmo que consigamos reduzir o multiplicador dele, isso não vai significar porcaria nenhuma se aquele bastardo tiver tokens suficientes para compensar a diferença de qualquer jeito — retrucou Ryuen.
Desde que as regras daquele exame especial haviam sido anunciadas, um único pensamento permanecia rondando o fundo de sua mente. Uma aposta gigantesca para impedir a vitória de Ayanokoji.
— Tem alguém com quem preciso falar agora mesmo — declarou Ryuen, com a voz áspera.
Relembrando sua decisão de não demonstrar misericórdia, fez Kaneda gastar um token e tomou o celular em suas mãos.
Uma ligação para Shiina.
Depois de cerca de sete toques, a chamada foi atendida, e Ryuen falou.
"Aconteceu alguma coisa, Ryuen-kun?"
A voz de Shiina ecoou através do comunicador. Ryuen pretendia ir direto ao ponto. Mas, por uma fração de segundo, as palavras ficaram presas em sua garganta.
"Não───"
Ele era um homem acostumado a ser chamado de monstruoso, um tirano que se deleitava com a própria crueldade. Então por que, justamente no último instante, estava hesitando? Ainda assim, aquela breve pausa foi mais do que suficiente para que Shiina entendesse exatamente o motivo da ligação.
"Você está pensando... que, se as coisas continuarem como estão, vamos perder. Pelo menos em termos da quantidade individual de tokens. Estou certa?"
"De acordo com o relatório do Katsuragi, Ayanokoji se saiu bem pra caramba", admitiu Ryuen.
"Entendo...", murmurou ela suavemente. "O que devo fazer? Por favor, me dê suas ordens."
"...Certo. Vou transmitir as instruções agora."
Enquanto Ryuen explicava friamente o plano, Kaneda, que ouvia tudo em silêncio ao seu lado, empalideceu rapidamente. E, quando ele finalmente terminou, Shiina expressou apenas um desejo.
"Mesmo que eu acabe sendo expulsa por causa disso... por favor, não use seus Pontos Privados para me salvar."
Ryuen vinha acumulando Pontos Privados havia muito tempo, economizando desesperadamente para aproximar seu plano da realidade. Se os utilizasse agora, poderia anular a expulsão dela.
Mas, ao fazer isso, toda a sua estratégia de longo prazo desmoronaria. Se o adversário soubesse que salvar alguém com Pontos Privados fazia parte da premissa, então, mesmo que Ryuen utilizasse métodos semelhantes no futuro, eles não teriam mais o mesmo efeito.
Era justamente porque ele realmente a abandonaria que aquilo se tornava uma estratégia significativa.
"Obviamente."
"Fico aliviada em ouvir isso. Bem, então..."
Com essas palavras suaves, a ligação foi encerrada abruptamente. Ryuen abaixou o celular e lançou um olhar de lado para Kaneda, cujos lábios tremiam.
*
Eram 17h40. Nosso grupo havia avançado em bom ritmo, percorrendo distância suficiente para finalmente deixar a Área G11 para trás. Até aquele momento, nossa marcha havia transcorrido sem problemas, sem que ninguém sofresse ferimentos graves. No entanto, foi também por volta daquele horário que a ansiedade crescente começou a cobrar seu preço de forma visível dos estudantes.
— Droga... fico me perguntando como estamos em comparação com os outros grupos — murmurou Sonoda, inquieto, do meio da formação. — Não consigo parar de pensar onde todos eles estão agora.
Podíamos usar nossos tokens para verificar a localização dos outros grupos. Porém, cada token revelava apenas a posição de uma única pessoa. Para localizar os nove grupos que disputavam a corrida rumo ao objetivo, precisaríamos gastar, no mínimo, nove tokens.
Tínhamos autoridade e meios para conferir, mas simplesmente não podíamos nos dar a esse luxo. Era como uma coceira insuportável. Coçar para aliviar o incômodo era fácil, mas, se você quisesse que a ferida realmente cicatrizasse, precisava suportar a agonizante vontade de tocá-la.
Enquanto os alunos continuavam marchando através daquele período frustrante, o celular da Classe C em meu bolso começou a vibrar.
Eu o retirei.
Na tela aparecia apenas o nome "Ayanokoji Kiyotaka", indicando que a ligação era direcionada especificamente para mim. Como não havia identificação do chamador, eu não saberia quem estava do outro lado até atender, mas já tinha uma boa ideia.
Pedindo a Yoshida e aos demais que seguissem em frente, deixei-me ficar para trás até ocupar a última posição do grupo. Ike e Shinohara vinham na retaguarda, caminhando lado a lado. Fiz um breve gesto com o telefone para indicar que atenderia uma ligação, e eles passaram por mim.
"Parece que você se deu muito bem nessas tarefas", a voz de Ryuen estalou no fone assim que a chamada foi conectada. "Já recebi o relatório do Katsuragi sobre você."
"Fui razoavelmente bem", respondi. "Você fez questão de confirmar algo assim justamente antes da chegada?"
"Quantos tokens você conseguiu?"
"Essa foi uma pergunta bem direta. Infelizmente, não posso responder."
"Cento e trinta? Cento e quarenta? Talvez eu não saiba o número exato, mas posso apostar que conseguiu mais do que eu."
Ele sabia que eu não tinha intenção de responder, mas continuou mesmo assim.
"Se eu tivesse que apontar uma única vantagem real que tenho agora, seria o fato de que a linha de chegada está logo ali na frente."
Se estivesse dizendo a verdade ou blefando, havia apenas uma resposta lógica.
"Então recomendo que se apresse e alcance logo o objetivo."
"É... mas eu imaginei que não precisaria nem suar se pudesse vencer só com o multiplicador", disse Ryuen. "Você provavelmente já decorou todas as regras, então vou simplificar. O Grupo 4 está atualmente na Área H10. E eu acabei de ordenar que um dos meus colegas daquele grupo marchasse diretamente para K14, exatamente na direção oposta ao objetivo. Você entende o que isso significa, não entende?"
Grupo 4. Um dos poucos grupos que eu não havia encontrado nem uma única vez durante este Exame Especial. E era o grupo ao qual Shiina Hiyori, da turma de Ryuen, pertencia.
"E daí?"
"Hah, e daí?", Ryuen zombou. "Se as coisas derem errado, a Shiina vai ser expulsa."
Fiz rapidamente os cálculos de cabeça.
Mesmo supondo que Hiyori levasse apenas uma hora para chegar à Área K14, ela precisaria de pelo menos uma hora e meia para retornar ao objetivo em F13. Considerando seu ritmo de caminhada, era uma certeza matemática: ela não voltaria a tempo.
"Isso não me parece algo necessariamente ruim", respondi. "Mas qual é o objetivo de mandar a Hiyori numa marcha solitária na direção oposta? O problema envolvendo a Classe B é seu, não meu."
"Fico me perguntando se você realmente acredita nisso ou se está apenas fingindo indiferença."
Baixando o tom de voz, Ryuen continuou:
"Fiz ela ficar com apenas um token e entregar todos os outros aos companheiros de equipe. Depois mandei que esperasse em K14 até o Exame Especial terminar—"
"Você queria escolher pessoalmente quem seria expulso?", interrompi. "Se não precisava do terreno que preparei para você, teria apreciado ser informado."
"Para você, a Shiina é alguém valiosa."
"Usar uma amiga como isca é certamente uma jogada estratégica interessante", admiti. "Mas, como pertencemos a turmas diferentes, a eficácia disso é extremamente limitada. Somos amigos, nada mais, nada menos. Você está me ligando porque presume que vou abandonar minha posição para ir salvá-la. Se estiver enganado, tudo isso não passa de um ato de autodestruição."
Se Hiyori chegasse ao objetivo ou fosse expulsa, isso não influenciaria em nada o resultado deste exame. Por outro lado, perder uma aluna tão excelente causaria um enorme impacto negativo à Classe B a longo prazo.
"Você não é tão tolo assim", continuei. "O que significa que existe uma possibilidade muito real de tudo isso ser apenas uma história inventada."
Uma mentira de Ryuen, criada com a expectativa de que eu, preocupado com a localização de Hiyori, gastasse tokens várias vezes para verificar a veracidade da informação. Seu objetivo era simples: fazer-me desperdiçar recursos, ainda que apenas um pouco.
Mas evitar isso também era fácil. Bastava pedir a Yoshida, Sanada e aos outros que gastassem os deles.
"Mesmo que tudo o que você disse seja verdade", acrescentei, "perder a Hiyori seria um golpe enorme para a Classe B. Você a salvaria mesmo que precisasse gastar vinte milhões de pontos privados."
"A própria Shiina disse exatamente a mesma coisa. Foi por isso que ela me proibiu terminantemente de salvá-la usando pontos."
"Se você realmente colocou esse plano em prática, então essa foi a única resposta correta. Uma isca só funciona quando realmente serve como isca. Ainda assim, você e a Hiyori cometeram o mesmo erro de cálculo."
Mantendo o olhar fixo à frente, continuei caminhando rumo ao objetivo.
"Eu adquiri o máximo de tokens possível. Se conseguir uma boa colocação geral, há uma grande chance de receber um prêmio especial pelo meu desempenho individual. Além disso, agora que temporariamente caímos para a Classe D, conquistar Pontos de Classe é absolutamente essencial. Sob qualquer perspectiva razoável, eu não vou salvar a Hiyori."
Sem esperar resposta, encerrei a ligação. Aumentando o passo, alcancei rapidamente Yoshida e o restante do grupo.
— Quem era ao telefone? — perguntou Yoshida.
— Apenas um último obstáculo vindo de outra turma — respondi. — Uma tentativa desesperada e inútil.
— Obstáculo...? Está tudo bem?
— Não se preocupe com isso. Mais importante, vamos acelerar o ritmo e alcançar logo o objetivo. A classificação do nosso grupo é muito mais importante neste momento.
Eu não esperava qualquer reação à flecha que havia lançado, muito menos uma tentativa de me pegar desprevenido, mas...
— Você fez uma jogada ousada, Ryuen... — murmurei baixinho.
Mesmo sabendo que havia uma grande chance de tudo aquilo não servir para nada, ele decidiu seguir em frente.
*
Logo após o término da comunicação com Ayanokoji, Kaneda, incapaz de conter as emoções que vinha reprimindo, confrontou Ryuen.
— Quais são exatamente as suas intenções aqui... Ryuen-shi?!
— Hã? O que há para questionar? É exatamente o que você ouviu — respondeu Ryuen friamente. — Sinto muito pela Shiina, mas a transformei em isca para atrair Ayanokoji. Se aquele desgraçado não morder a isca, vou simplesmente deixá-la ser expulsa.
— I-Isso é completamente absurdo! Shiina-shi é uma estudante extremamente importante para nossa turma! Como você pode fazer algo assim...?!
— Não é só que seus sentimentos estão atrapalhando seu julgamento porque você não quer vê-la expulsa?
Como um sapo diante do olhar de uma cobra, Kaneda enrijeceu, momentaneamente paralisado pelo medo. Ainda assim, ele rompeu imediatamente aquela maldição invisível pela força da própria vontade e rebateu:
— Não, você está completamente enganado...! Até você deveria compreender isso, Ryuen-shi! É claramente um plano estúpido... Não, chamar isso de estúpido seria generoso demais. Isso não passa de barbárie!
Por trás das lentes dos óculos, os olhos de Kaneda ardiam com uma intensidade jamais vista, quase inconsciente.
— Acho melhor você se acalmar e esfriar a cabeça, Kaneda-kun — interveio Hirata suavemente, tentando apaziguar a situação.
Como havia recebido permissão para ouvir toda a conversa de Ryuen, ele acompanhara tudo do começo ao fim.
— Eu estou calmo! — retrucou Kaneda. — É justamente porque estou calmo que estou dizendo isso!
— É muito simples — disse Ryuen, baixando a voz. — Feche a boca e obedeça ao que eu decidi.
— Não posso obedecer... Por favor, me empreste o telefone. Vou entrar em contato com Shiina-shi e dizer que isso é desnecessário.
— Se realmente não consegue me obedecer, então vai ter que tentar me fazer mudar de ideia à força — zombou Ryuen, desviando o olhar de maneira displicente.
— Tsc! — estalou Kaneda.
Tomado pela indignação diante daquele desrespeito descarado, Kaneda impulsivamente lançou o braço direito para a frente e agarrou Ryuen pela gola.
— Você está tremendo, Kaneda — zombou Ryuen em voz baixa. — Tem mesmo coragem de me bater?
— S-Se a força bruta é a única linguagem que você entende... então, mesmo assim... estou preparado para...!
— Pare com isso! — Hirata interveio antes que a situação escalasse ainda mais, afastando à força a mão de Kaneda do uniforme de Ryuen. — Fazer isso não vai resolver nada.
Kaneda cambaleou para trás e ajustou os óculos com dedos trêmulos.
— Perdoem-me. Esta é a primeira vez que me sinto assim... Mas agora tudo ficou claro. Então esta é a emoção chamada raiva... Ryuen-shi, não me importa que lógica você use. Eu jamais aceitarei isso.
— É verdade que, como estratégia, não há nada aqui que mereça elogios — disse Hirata, posicionando-se entre os dois. — Eu também acho que você deveria entrar em contato com Shiina-san novamente, mesmo agora. Mas deixe-me perguntar uma coisa. Você pode afirmar que este é o melhor plano possível para impedir Ayanokoji-kun de vencer? Estou genuinamente curioso.
— Dei a ordem porque foi isso que eu decidi — rosnou Ryuen, encarando Hirata. — Não tenho obrigação nenhuma de ficar aqui explicando tudo para vocês.
Kaneda havia se intimidado diante daquele mesmo olhar. Hirata, porém, o recebeu de frente, sem recuar nem um centímetro.
— Entendo…. — murmurou Hirata. — Então você realmente acredita que Shiina-san é alguém que Ayanokoji-kun salvaria mesmo ao custo da própria vitória.
Por lhe faltar contexto, havia partes daquele conflito que Hirata não compreendia completamente. Ao mesmo tempo, algumas coisas lhe pareciam fáceis de aceitar. Era verdade que Ayanokoji tratava Shiina de maneira diferente das demais pessoas. Ainda assim, Hirata jamais a imaginara como alguém por quem Ayanokoji abriria mão da vitória voluntariamente, alguém que ele tentaria salvar mesmo correndo o risco de ser expulso.
— Parece que você também tem suas próprias ideias sobre o Ayanokoji — zombou Ryuen. — Bem, não posso te culpar por isso.
— Eu gostaria de ver — murmurou Hirata, estreitando ligeiramente os olhos. — Gostaria de ver qual será a resposta de Ayanokoji-kun à sua pergunta.
— Hirata-shi, no fim das contas você é apenas um observador — retrucou Kaneda, voltando-se para ele. — Você fala disso com tanta leveza porque não é um aluno da nossa turma! E o mesmo vale para Ayanokoji-shi! Ele está numa posição em que precisa continuar produzindo resultados para conduzir sua classe à vitória. Eu me recuso terminantemente a acreditar que ele se colocaria voluntariamente em um risco tão grande apenas para salvar Shiina-shi!
— Você não consegue acreditar? — provocou Ryuen. — Ou é só que não quer acreditar?
— I-Isso não é...!
Uma lembrança vívida atravessou a mente de Kaneda. Uma conversa que testemunhara entre Ayanokoji e Shiina na biblioteca. A maneira como a expressão dela suavizava quando falava com ele. Parecia o mesmo sorriso de sempre, mas ao mesmo tempo era diferente. Inquestionavelmente especial. Algo reservado apenas para Ayanokoji.
A percepção o atingiu como um golpe físico. O encanto provocado pela pureza daquele rosto sem máscaras chocou-se imediatamente contra uma raiva ardente e defensiva. Um turbilhão de emoções conflitantes percorreu violentamente todo o seu corpo.
— Se quer impedir isso tanto assim, então vá buscá-la você mesmo agora — provocou Ryuen. — Mas com essas pernas lentas, nunca vai chegar a tempo.
— Então eu a salvarei mesmo que precise consumir meu Ponto de Proteção! Neste exato momento, vou reduzir meus tokens a zero—
— Isso não vai adiantar, Kaneda-kun — interrompeu Hirata com suavidade. — Mesmo que você transfira todos os seus tokens e fique com zero, a penalidade por insolvência deliberada é completamente diferente da punição por terminar em último lugar. O fato de você nem sequer ter pensado nisso já prova que não está raciocinando com clareza.
Se Kaneda reduzisse seus tokens a zero naquele momento, seria simplesmente desclassificado e obrigado a passar o restante do exame aguardando no navio. Isso não salvaria Shiina de forma alguma.
— Além disso, mesmo que você terminasse o exame com exatamente um token e empatasse com Shiina-san — continuou Hirata —, sua avaliação geral no OAA é superior à dela. O critério de desempate ainda determinaria que Shiina-san fosse a expulsa.
Na verdade, Hirata não se lembrava das pontuações exatas de OAA de Shiina e Kaneda. Mas havia deduzido que, se Kaneda pudesse se tornar um substituto usando esse método, Ryuen jamais teria permitido que ele ouvisse a ligação desde o início.
— Guh...! — Kaneda rangeu os dentes.
Desesperado para formular um plano alternativo, ele chegou a considerar reduzir a classificação geral do Grupo 2 para diminuir o multiplicador final de tokens. Mas logo percebeu que, se Hiyori possuía apenas um único token, o cálculo do multiplicador praticamente não faria diferença para ela.
Não havia nada que Kaneda pudesse fazer naquele momento para protegê-la da expulsão.
— A única maneira confiável de salvá-la é alcançar Shiina-san fisicamente antes do fim do exame e transferir seus tokens diretamente para ela — explicou Hirata. — Ryuen-kun trouxe isso à tona justamente agora porque sabia disso.
— Se Ayanokoji for salvar a Shiina, ele não vai conseguir voltar ao objetivo a tempo, e o multiplicador final dele vai cair para setenta por cento — explicou Ryuen. — E, se ele transferir os próprios tokens para salvá-la, também vai reduzir a reserva total do Grupo 3. Mato dois coelhos com uma cajadada só.
A única variável que Ryuen não podia controlar era se conseguiria forçar Ayanokoji a gastar seus tokens visíveis. Sempre existia a possibilidade de que os colegas de grupo de Ayanokoji lhe tivessem confiado tokens ocultos, não registrados, funcionando como uma rede de segurança secreta.
— Desde quando...? — a voz de Kaneda tremia. — Desde quando você decidiu usar Shiina-shi dessa forma?
— Não vou responder.
Aquilo também era uma enorme aposta para Ryuen. Ele podia ter colocado tudo em movimento, mas agora o poder de decidir o resultado estava nas mãos de Ayanokoji.
Ou Shiina seria expulsa.
Ou Ayanokoji seria derrotado.
Não existia uma terceira possibilidade.
— Se, por acaso, Shiina-shi realmente acabar sendo expulsa... — cuspiu Kaneda, a voz carregada de veneno. — Eu nunca vou perdoar você.
— Antes de sair latindo sobre perdão, cumpra sua própria responsabilidade como membro deste grupo — ordenou Ryuen friamente. — Use essas pernas e chegue ao objetivo o mais rápido possível para garantir a vitória da turma.
Ryuen estava lhe dizendo a verdade mais dura. A única coisa que Kaneda podia fazer agora era alcançar o objetivo. Nada além disso.
— E mais uma coisa...
Ryuen exibiu um leve sorriso de canto.
— Se quiser me dar um soco, da próxima vez me agarre pela gola com a mão esquerda.
Segundo ele, o importante era golpear com o braço dominante. O sorriso de Ryuen se ampliou ligeiramente.
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag
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