A Classe de Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 3 - Volume 4

Capítulo 6: Farei Qualquer Coisa

O AMANHECER DO terceiro dia chegou.

Como a maioria de nós já havia previsto, o supervisor explicou que a programação daquele dia seria fortemente centrada na categoria Grupo. O cronograma havia sido previamente organizado pela escola, colocando-nos diante de uma sequência de confrontos contra grupos rivais ao longo de todo o dia.

A vitória contra um grupo adversário renderia tokens, que poderiam ser distribuídos de duas formas distintas.

A primeira era uma divisão igualitária, concedendo a mesma quantidade de tokens a todos os integrantes do grupo vencedor. Nesse sistema, não surgiria nenhuma diferença de posição entre os membros do Grupo 3.

A segunda forma recompensava o mérito individual em vez do sucesso coletivo: independentemente de o grupo vencer ou perder no resultado geral, os três alunos com melhor desempenho seriam avaliados e receberiam uma quantidade determinada de tokens.

Contudo, independentemente do método de distribuição escolhido, os tokens seriam entregues primeiro ao representante do grupo. Para piorar, tarefas curtas das categorias Individual e Equipe seriam encaixadas nos intervalos entre esses eventos maiores.

Estava garantido que seria um dia exaustivo — tão desgastante quanto o segundo, ou talvez até mais. A sensação coletiva de apreensão compartilhada pelos alunos logo se mostrou totalmente justificada.

No instante em que desmontamos o acampamento, às oito da manhã, cruzamos imediatamente com o Grupo 10, ao qual Hashimoto pertencia. Mal tivemos tempo para trocar cumprimentos antes de sermos lançados diretamente em uma tarefa especial que aproveitava o terreno da ilha desabitada.

Quando a disputa de uma hora finalmente terminou, não houve sequer tempo para trocar palavras de reconhecimento pelo esforço de ambos os lados. Fomos imediatamente conduzidos para a próxima área designada.

Depois de repetir aquele ciclo exaustivo de caminhada e competição contra outros grupos três vezes seguidas, nosso tão aguardado intervalo para o almoço finalmente chegou. Embora aqueles trinta minutos teoricamente também fossem um período de descanso livre, a maioria dos estudantes permaneceu reunida com seus respectivos grupos enquanto comia.

Provavelmente havia muitos assuntos a discutir: conferir os tokens conquistados pela manhã, conversar sobre estratégias para a tarde e assim por diante. Até mesmo alguém normalmente tão solitária quanto Ibuki permaneceu próxima do grupo da Classe B.

Em meio a tudo aquilo, porém, Kushida era a única exceção evidente. Embora estivesse sentada mais perto da Classe A, mantinha deliberadamente certa distância física dos demais, almoçando sozinha em completo isolamento.

A fissura que havia surgido entre ela e Shinohara era dolorosamente óbvia, e não havia dúvidas de que ela estava sofrendo as consequências daquela relação quebrada. Não era como se seu isolamento repentino tivesse passado despercebido. Alunos como Yoshida e Katsuragi lançavam olhares preocupados em sua direção. Porém, considerando a natureza do exame e os constantes atritos entre os grupos, ninguém podia se dar ao luxo de oferecer ajuda de forma descuidada.

— Mal consigo suportar assistir a isso — murmurou Yoshida. — Eles ficam se escondendo atrás de desculpas como "estratégia" e "política da classe", mas isso não está indo longe demais? A Shinohara tem alguma espécie de vendeta contra a Kushida?

— Se observar a atitude do namorado dela, não é tão difícil de compreender — comentou Morishita. — Os olhos dele estão constantemente seguindo Kushida Kikyo.

— Você quer dizer o Ike? ...Está dizendo que ele fica comparando ela com a Shinohara ou algo assim?

Yoshida lançou um olhar cético para Morishita, claramente achando que ela estava exagerando.

— Até você odiaria se sua namorada estivesse encantada por outro homem, não é mesmo, Yoshida Fulano? Ah, espera. Como você não tem namorada e provavelmente nunca terá, talvez isso seja difícil demais para você entender.

— Cala a boca. Não fique me envenenando desse jeito do nada — resmungou ele. — Mas, se fosse verdade, sim, eu odiaria isso.

Mesmo sem ter uma namorada, ele conseguia imaginar perfeitamente o quanto aquilo seria doloroso.

— Mas também não dá para evitar, não é? Quero dizer, entre Kushida e Shinohara existe uma diferença enorme de nível, ou melhor...

— Essa forma de pensar faz de você um completo lixo, Yoshida Fulano.

— Já chega desse "Fulano". Pelo menos me chame de Kenta. Se vai usar meu nome completo, então use direito.

Os dois pareciam convencidos de que Shinohara havia isolado Kushida, mas a realidade provavelmente era outra. Era muito mais provável que Kushida estivesse se afastando de propósito, encenando cuidadosamente sua própria exclusão.

Ela estava desempenhando o papel de heroína trágica ao máximo, monopolizando os olhares de simpatia de todos ao redor. Seu objetivo era simples: consolidar firmemente a imagem de Shinohara como a vilã da história, a menos que ela cedesse alguns tokens para se redimir.

Era uma tática ousada, do tipo tudo ou nada. Resta saber se realmente funcionaria contra Shinohara.

— Ayanokoji-kun. Nishikawa-san está solicitando contato pelo rádio — informou o supervisor.

Eu estava curioso para saber o que Nishikawa faria depois de ter lhe dado um dia para refletir. Então ela já estava entrando em contato novamente. Aceitei o rádio que o supervisor me entregou.

— Ela está ligando para confirmar mais uma vez se Shiraishi Asuka continua viva? — perguntou Morishita.

— Hã? O que aconteceu com a Shiraishi? — perguntou Yoshida.

— Por favor, não interfira na conversa sem autorização. Sua participação só tornaria tudo desnecessariamente mais complicado, Kenta Yoshida.

— Por que meu nome veio antes do sobrenome dessa vez?!

Deixando Morishita cuidar de Yoshida — ou melhor, deixando Yoshida lidar com Morishita — afastei-me alguns passos para atender à chamada.

No fim das contas, as perguntas dela eram exatamente as mesmas de antes. Ela queria confirmar a quantidade de tokens de Shiraishi e precisava ouvir que a garota estava absolutamente segura. Minha resposta não havia mudado. Mas a situação certamente havia mudado.

Disse a ela pelo rádio que tivesse um pouco mais de paciência e garanti que, dentro de algumas horas, providenciaria um resultado que ela consideraria satisfatório.

*



Depois que todos terminaram de almoçar, devolvi o rádio ao supervisor. Em seguida, voltei para onde os alunos da Classe C já estavam arrumando suas coisas.

— Foi uma conversa bastante longa. Nishikawa Ryoko estava grudada em você novamente? — perguntou Morishita.

— Não. Eu estava falando com outra pessoa sobre um assunto diferente.

— Um assunto diferente? Entendo. Então Ayanokoji Kiyotaka finalmente fez seu movimento?

O olhar de Morishita tornou-se ligeiramente mais afiado. Eu esperava que ela continuasse com alguma de suas piadas absurdas de sempre, mas aparentemente estava enganado.

— Você não precisa esconder isso — continuou ela. — Este exame especial tem parecido um pouco comum demais. Ou melhor, desprovido de qualquer acontecimento realmente significativo. Eu já suspeitava que você estava apenas esperando o momento perfeito para agir.

Apesar de todas as suas excentricidades e brincadeiras, ela realmente possuía uma mente extremamente afiada.

— Sim. Eu já disparei uma flecha.

— Ho-ho-ho. Uma flecha, é? E o que exatamente devemos fazer daqui para frente?

— As instruções não mudaram. Enquanto os grupos permanecerem separados, seu objetivo principal continua sendo acumular tokens honestamente. Embora não exista restrição para transferi-los, no instante em que um token muda de dono, ele passa a ser tratado como um token back-side. Portanto, tudo o que vocês precisam fazer é concentrar-se nas tarefas e adquirir o maior número possível de tokens front-side. Esse continua sendo o caminho mais eficiente para a vitória.

— De fato. Dentro do Grupo 3, Ayanokoji Kiyotaka está claramente acima dos demais e atualmente lidera. Mesmo que exista alguém em outro grupo com uma quantidade semelhante de tokens front-side, desde que você garanta um multiplicador de 100% no último dia, terá grandes chances de conquistar a vitória. Bem, imagino que nossos adversários estejam apostando exatamente na mesma lógica.

— Este não é um sistema que exige pontuações individuais esmagadoramente superiores — expliquei. — Pelo contrário. Ele foi projetado para que qualquer aluno equilibrado consiga acumular uma grande quantidade de tokens front-side, dependendo de como os confrontos aconteçam.

Apesar dos elementos estruturais de equipes e grupos, o exame era, no fim das contas, um sistema em que talento individual e esforço se convertiam diretamente em resultados. Complicar demais os mecanismos só faria com que alguém acabasse se perdendo em meio a eles.

— Mas isso só vale se o seu único objetivo for vencer — acrescentei. — A outra face deste exame especial é o peso severo das punições. O verdadeiro desafio está em elaborar uma estratégia capaz de evitá-las de forma confiável.

— Ah, então esse é o tipo de flecha que você disparou... Nesse caso, como exatamente pretende escapar disso?

— Isso ainda é segredo.

— Francamente. Será que os responsáveis não entendem que segredo demais só resulta em baixas desnecessárias?

Com um dar de ombros desinteressado, Morishita se virou e foi embora, parecendo ter perdido completamente o interesse no assunto.

— Ela desistiu surpreendentemente rápido — murmurei para mim mesmo.

Ou talvez tivesse concluído que apenas confirmar que eu já havia colocado algo em movimento era suficiente. 

Confiava em mim ou não? De qualquer forma, Morishita continuava sendo uma pessoa extremamente difícil de entender.

*

 

As provas continuaram, embora a rotina logo tenha se tornado monótona. Basicamente, estávamos apenas enfrentando tarefas semelhantes às de exames especiais anteriores, reunindo o máximo de tokens possível nas três categorias.

Naturalmente, os outros alunos lutavam com todas as forças para conquistar cada token disponível, mas meu foco já havia ultrapassado essa fase há muito tempo. A quantidade total de tokens em circulação estava definida desde o início. A única variável era para qual grupo, qual turma e quais indivíduos eles acabariam indo.

Para ser franco, eu já havia concluído que vencer ou perder o exame em si era pouco mais do que um bônus adicional. A flecha que eu havia disparado agora avançava sem erro em direção ao seu alvo predestinado.

Amanhã, ela atingiria o alvo. Sem sequer perceberem, a maioria dos alunos já acompanhava sua trajetória com os olhos, prevendo silenciosamente como tudo terminaria. Apenas alguns poucos ainda ignoravam o que estava por vir. Se tudo acontecesse conforme o planejado, a flecha atravessaria seu alvo e a maioria sairia ilesa.

Mas sempre existiam exceções. Com tantos olhos acompanhando seu voo, não seria surpreendente se alguém tentasse agarrá-la no ar antes que acertasse o alvo.

Às seis horas daquela tarde, chegamos ao nosso destino final do dia e finalmente recebemos um momento de descanso. Nesse instante, Yoshida soltou um longo suspiro, liberando de uma só vez todo o cansaço acumulado.

— Esta é a última vez que vamos ter de montar essas barracas, não é? — perguntou Sanada.

— Parece mesmo que o fim está à vista, mas quem sabe? — respondeu Yoshida. — Mesmo que este exame especial termine amanhã, ainda existe a possibilidade de a escola nos manter aqui na ilha.

— Eu realmente prefiro acreditar... que não será o caso — disse Sanada.

Enquanto ouvia a conversa dos dois, notei um movimento pelo canto do olho. Shinohara se afastava levando Kushida consigo, enquanto Ike e Mii-chan vinham logo atrás. Os quatro começaram a montar seu acampamento a uma distância considerável do restante do grupo.

Das quatro turmas presentes, apenas a deles estava se isolando de forma tão extrema.

— O que é isso? O que eles estão fazendo? — murmurou Yoshida, seguindo meu olhar.

— Talvez estejam insatisfeitos com o fato de pessoas de fora estarem se metendo nas decisões da Classe A — sugeriu Sanada. — Se ficarem tão longe assim, não teremos como ouvir nenhuma conversa deles.

Ele tinha razão. Por mais que tentássemos escutar, seria impossível captar qualquer palavra daquela distância. E se alguém tentasse se aproximar, a tentativa seria imediatamente percebida pela Classe A.

— Isso é totalmente coisa da Shinohara — concluiu Yoshida. — Melhor deixarmos eles em paz.

Depois disso, continuamos os preparativos com calma e, quando terminamos o jantar, a escuridão já havia tomado completamente a área ao redor. Mii-chan surgiu das proximidades das barracas da Classe A e examinou os arredores. Então seus olhos encontraram os meus. Seu olhar transmitia uma mensagem clara e desesperada: Ajude.

— Desculpem, mas vou deixar o resto com vocês por um instante — falei para Sanada.

Ele concordou prontamente, e eu caminhei rapidamente em direção a Mii-chan. Ao me ver aproximar, ela correu até a metade do caminho.

— É sobre a Shinohara e os outros, não é? — perguntei.

— Sim… — admitiu ela. — A Kushida-san implorou para que dividissem alguns tokens com ela, mas a Shinohara-san se recusou completamente a ouvir... Elas estão discutindo agora mesmo.

— Entendi. Vou ver o que está acontecendo.

— Hum... mas isso pode ser um problema...

Ela me interrompeu. Seu rosto estava carregado de culpa enquanto explicava em voz baixa.

— Mandaram que eu vigiasse para garantir que ninguém se aproximasse. Se alguém tentasse chegar perto, eu deveria impedir a qualquer custo... especialmente você, Ayanokoji-kun... Foram ordens da Shinohara-san.

Exatamente como eu imaginava. Shinohara estava extremamente vigilante quanto a qualquer contato entre Kushida e eu. Desde o início deste exame especial, minha postura de avaliar Kushida de forma consistentemente positiva enquanto tratava Shinohara e Ike com aparente indiferença havia despertado sua desconfiança.

Do ponto de vista dela, minhas intenções eram uma variável desconhecida. Impedir qualquer interação entre nós era a opção mais segura. Considerando as alternativas limitadas que possuía, provavelmente era a melhor estratégia que conseguia elaborar.

Ainda assim, se eu simplesmente a ignorasse e passasse à força, existia a possibilidade de Mii-chan se tornar o próximo alvo deles. Eu queria evitar isso.

— Mas... talvez eu devesse deixar você passar...? Eu simplesmente não sei o que fazer...

Embora tecnicamente estivéssemos funcionando como um único grupo, passávamos a maior parte do tempo separados por turma. Parecia que o ambiente interno da Classe A estava muito pior do que aparentava. Como a entrada da barraca estava voltada para o lado oposto ao nosso, eu não conseguia observar os três dali.

— Por enquanto, vou dar a volta pela mata e verificar a situação discretamente. Mii-chan, apenas continue aqui vigiando.

Pedi que ela retornasse ao seu posto e desapareci entre as árvores. Movendo-me rapidamente pela cobertura da floresta, contornei o acampamento da Shinohara até alcançar um ponto de observação à frente.

As duas barracas da Classe A estavam montadas lado a lado. Consegui ver Shinohara e Ike em pé do lado de fora da barraca da direita.

Kushida... estava lá dentro?

À primeira vista, não consegui encontrá-la. Então mudei lentamente meu ângulo de visão até enxergar o interior da barraca. Foi nesse momento que percebi por que não a tinha visto imediatamente.

Bem na entrada, Kushida estava ajoelhada no chão, fazendo uma reverência completa em dogeza diante de Shinohara e Ike.

(N/SLAG: Dogeza (土下座) é um dos gestos mais extremos de pedido de desculpas)

Observando-a de cima, Shinohara exibia uma expressão de puro e absoluto deleite. Eu só podia imaginar o violento turbilhão de ódio que devia estar se formando no coração de Kushida naquele momento.

Mas, embora o acampamento deles estivesse muito mais distante do restante do grupo do que o normal, ainda era uma área compartilhada. Se ela levantasse a voz de forma descuidada ou permitisse que sua verdadeira personalidade agressiva fosse revelada a um terceiro, todo o esforço que havia dedicado durante anos para manter sua fachada de "boa garota" desmoronaria instantaneamente.

Parecia que ela estava determinada a interpretar até o fim o papel da vítima humilde e submissa, esperando de alguma forma conseguir apaziguar a situação. Sabendo que também não podia simplesmente chamá-los sem pensar, eu tentava decidir qual seria meu próximo passo quando as provocações de Shinohara finalmente chegaram aos meus ouvidos.

Como ela estava despejando seu veneno em direção à barraca, as palavras exatas chegavam abafadas, mas a fúria contida em seu tom era inconfundível. Enquanto observava a situação das sombras por mais alguns instantes, notei outra presença se aproximando da área.

Tendo compreendido o suficiente sobre o conflito, concluí que o melhor seria voltar discretamente para as barracas da Classe C antes que minha presença fosse descoberta.

*

 

Pouco antes de Ayanokoji começar a contornar a área pela mata, as suspeitas que vinham fermentando dentro de Shinohara finalmente explodiram em pura fúria. Ela simplesmente não conseguia esquecer o incidente da segunda noite, quando ficou óbvio que a política de negar tokens a Kushida havia vazado para as outras turmas.

— Foi você quem contou para todo mundo que eu não pretendia te dar nenhum token, não foi, Kushida-san? — exigiu Shinohara. — Apenas admita logo.

— Eu não contei... — implorou Kushida. — Não importa quantas vezes eu negue, você não vai acreditar em mim, vai...?

— Então o quê? Se existe outra pessoa, quem foi? Está dizendo que a Mii-chan vazou a informação?

— Eu não sei sobre isso, mas... não fui eu. Teria que ter sido a Mii-chan ou o Ike-kun.

Apesar de suas negativas desesperadas, nada parecia capaz de abalar a convicção absoluta de Shinohara de que Kushida era a principal suspeita.

— Satsuki — interveio Ike, hesitante. — Não parece que a Kikyo-chan esteja mentindo...

— Hã? — Shinohara se virou para ele imediatamente. — Então quem você está dizendo que vazou a informação? Não foi você, Kanji?

— Claro que não foi! Não tem como eu fazer uma coisa dessas!

Ike balançou a cabeça rapidamente e logo procurou outro culpado.

— Olha, talvez aquele Ayanokoji tenha espalhado isso ou algo do tipo... Você sabe que ele é capaz de qualquer coisa.

— Escuta aqui — retrucou Shinohara. — Mesmo que isso fosse verdade, foi a Classe A que decidiu essa política, certo? Mesmo que Ayanokoji-kun esteja envolvido, alguém da nossa turma precisou contar isso para ele primeiro. Sério, Kanji, você é muito idiota.

— F-Foi mal...

— A Mii-chan odeia a Kushida-san, então não tem motivo para vazar nada — continuou Shinohara. — A única pessoa que ganha alguma coisa tornando isso público é a Kushida-san. A culpada era óbvia desde o começo.

— Mas mesmo assim, a Kikyo-chan é inteligente o bastante para saber que você brigaria com ela se vazasse isso descuidadamente, não é?

— Ela está tentando nos manipular! A Kushida-san não é aquela aluna brilhante e perfeita que todo mundo elogia?

Sem conseguir olhar diretamente para Kushida, que estava sentada em seiza com uma expressão arrependida, Ike desviou os olhos e falou em voz baixa.

— Mas você não tem nenhuma prova concreta de que foi a Kikyo-chan. Nesse caso...

— Kikyo isso, Kikyo aquilo! É só isso que você sabe dizer!

A raiva de Shinohara explodiu de uma vez.

— Por que você se sente tão à vontade para chamar só a Kushida-san pelo primeiro nome?!

— N-Não é isso...!

Foi uma explosão emocional repentina e violenta. Ike entrou em pânico, tropeçando nas próprias palavras enquanto tentava formular uma defesa. Antes que Shinohara voltasse a atacá-lo, ele a interrompeu à força.

— Mesmo que você diga isso... eu já chamava ela assim muito antes de nós começarmos a namorar...

— Então volte a chamá-la pelo sobrenome a partir de agora! — disparou Shinohara. — Sério! Foi a Kushida-san quem me chamou de feia na frente da sala inteira! Ela falou aquelas coisas horríveis para a sua própria namorada e, mesmo assim, você continua todo amigável com ela? Não acha isso patético? É humilhante para mim!

Com os olhos avermelhados de raiva, Shinohara desviou o olhar de Ike e voltou a encarar Kushida.

— Se você não quer dizer a verdade, tudo bem. Talvez eu não tenha provas de que você nos traiu, mas nossa relação de confiança acabou oficialmente. E por causa disso, eu não posso mais te dar nenhum token.

Depois de declarar seu ultimato, Shinohara abriu um sorriso venenoso.

— Ou será que você já encontrou alguma forma de evitar a expulsão? — continuou ela. — Afinal, a Kushida-san é inteligente. Não me surpreenderia se você estivesse abanando o rabo para outros garotos além do Kanji e os convencendo a prometer tokens para você.

— Eu não fiz isso... — sussurrou Kushida. — Nem sequer pensei nisso...

— Isso não parece você, Satsuki... Já chega — implorou Ike.

— Eu mandei você calar a boca! Por quê...? Por que você está sempre defendendo alguém como a Kushida?!

Abandonando completamente os honoríficos, Shinohara caiu em um acesso quase histérico. Ike não conseguiu esconder a expressão confusa e impotente em seu rosto.

— Nós não somos companheiros? — insistiu ele. — Você está agindo de forma muito estranha desde que este exame especial começou...

Ike abaixou a voz, alertando-a rapidamente para se acalmar. Mesmo naquela distância, alguém de outra turma certamente acabaria ouvindo se ela continuasse gritando.

— Eu não consigo evitar! Você, o Yoshida, o Ayanokoji... todos vocês! Vocês sempre ficam do lado da Kushida!

Em vez de se acalmar, as emoções de Shinohara ficaram ainda mais intensas.

— Sua voz! Você está falando alto demais! — sibilou Ike.

O peito de Shinohara subia e descia em respirações irregulares. Durante vários segundos ela não disse nada, apenas tentou recuperar o controle. Por fim, puxou o ar profundamente e afastou com violência a franja desarrumada do rosto.

— Ninguém está ouvindo daqui — disse ela, agora em tom mais baixo, mas não menos agressivo. — Então por que você não mostra sua verdadeira personalidade, Kushida-san? Talvez se sinta melhor depois disso.

— Mesmo que você me peça para mostrar minha verdadeira natureza, isso me deixa sem saber o que fazer. Eu realmente não tenho intenção de brigar com você, Shinohara-san...

— Ah, é mesmo? Então por que está andando por aí como uma heroína trágica? Fazendo de mim a vilã da história? Por que está encenando esse teatrinho de "não recebo nenhum token" para todo mundo?

— Eu só...

Kushida hesitou antes de corrigir suas palavras.

— Eu só quero que você cumpra sua promessa... Não, eu só quero receber corretamente a parte dos tokens que me cabe até agora. Quando penso na possibilidade de ser expulsa, não consigo evitar ficar ansiosa...

— Ansiosa? — repetiu Shinohara. — Mesmo depois de eu dizer que entregaria tudo depois? Viu só? No fundo você não confia em mim.

— Não é que eu não confie. Mas...

— Eu já disse isso repetidas vezes, não disse?

Shinohara a interrompeu imediatamente.

— Eu vou te entregar seus tokens antes de chegarmos ao objetivo final. Até lá, estou apenas guardando eles para fazer ajustes. Coloque isso na cabeça de uma vez.

"Ajustes".

Era uma desculpa extremamente conveniente. Ela não havia revelado um único detalhe sobre essa suposta estratégia nem explicado de que forma ela beneficiava alguém. Naturalmente, Kushida entendia perfeitamente o que estava acontecendo. Seus tokens estavam sendo confiscados pura e simplesmente por rancor.

Eles eram mantidos como reféns para garantir que, no pior cenário possível, Shinohara e Ike não fossem os expulsos. Obrigada a suportar aquela opressão unilateral, a frustração de Kushida certamente já devia estar fervendo.

Ainda assim, ela não explodia em um ataque de raiva como Shinohara. Mesmo com o acampamento isolado, eles continuavam relativamente próximos dos demais. Não havia como saber quando alguém poderia passar por ali e vê-la.

— Em primeiro lugar — continuou Shinohara —, tudo isso é culpa sua por ter me insultado na frente de todo mundo. Pelo menos disso você tem consciência, não tem?

— Você está certa…. — respondeu Kushida. — Eu realmente me arrependo do que fiz naquela ocasião...

— Hmph. Se está mesmo arrependida, então mostre alguma sinceridade de verdade por ter começado tudo isso.

— Sinceridade...? — perguntou Kushida em voz baixa. — Basta que eu deixe os tokens sob seus cuidados até pouco antes da chegada ao objetivo?

Ao ouvir a pergunta de Kushida, Shinohara soltou um riso de desprezo. Ela rejeitou completamente aquela ideia e finalmente apresentou aquilo que realmente queria.

— As pessoas podem até rir de mim por causa disso, e talvez seja um pouco irracional. Mas todo mundo tem um limite que simplesmente não permite que alguém ultrapasse, certo? Kushida-san, você ultrapassou esse limite. Acho que é necessário demonstrar uma submissão adequada.

Com isso, Shinohara apontou para o chão de terra dentro da barraca.

— Então se ajoelhe e faça um dogeza bem aqui, na minha frente. Como prova de que você confia em mim. Em mim, de todas as pessoas.

Era uma exigência que realmente ultrapassava todos os limites. Por um breve instante, tanto a expressão quanto o coração de Kushida congelaram por completo. Chocado com aquele ultimato absurdamente cruel, Ike estendeu a mão para tocar o ombro de Shinohara e acalmá-la, mas ela afastou sua mão com violência.

— Você consegue fazer isso? — perguntou Shinohara. — Ou não?

Em essência, era uma escolha forçada e binária: Você quer seus tokens ou não? Para Kushida, não havia espaço para escolher.

— Eu imploro... por favor, acredite em mim...

Colocando as mãos no chão, ela abaixou profundamente a cabeça, executando um dogeza perfeito e impecável aos pés de Shinohara.

Era uma postura profundamente humilhante. Ainda assim, longe de se sentir satisfeita, Shinohara sentia uma irritação indescritível crescer dentro de si. Para Shinohara, era uma realidade insuportável que, mesmo se arrastando no chão naquela posição degradante, que deveria ser feia e vergonhosa, Kushida ainda parecesse infinitamente mais elegante e composta do que ela jamais conseguiria ser.

— De alguma forma, não estou sentindo nenhuma sinceridade verdadeira nisso. Quer dizer, você tem duas caras, não é, Kushida-san? Aposto que está tão furiosa comigo agora que mal consegue se conter.

Não era como se a mera existência de Kushida estivesse causando algum dano direto a Shinohara. Os sentimentos de Ike por Shinohara eram genuínos, e nunca havia acontecido nada romântico entre ele e Kushida.

Mesmo assim, Shinohara era consumida por um complexo de inferioridade sufocante, pela sensação inevitável de ser inferior em todos os aspectos imagináveis: no rosto, na inteligência e até mesmo nas curvas do corpo. Era uma realidade cruel. Mesmo depois de descobrir o quão podre Kushida era por dentro, não era de se admirar que Ike ainda se sentisse atraído por ela.

Shinohara sabia disso. Sabia que, se competissem em condições iguais, jamais venceria. A diferença entre elas era grande demais. Por isso, sua única alternativa era usar sua posição e autoridade para arrastar Kushida à força para a lama.

— Isso não é verdade... — implorou Kushida, ainda curvada. — Por favor... você precisa acreditar em mim...

As palavras se repetiam. Shinohara sabia muito bem que eram completamente vazias. A verdadeira personalidade venenosa que Kushida revelara durante o Exame Especial da Unanimidade havia sido intensa demais para ser esquecida.

Mas também era verdade que ela não podia obrigá-la a permanecer em dogeza para sempre. Precisava decidir quando recuar.

— Você é mesmo uma boa garota, se humilhando tão obedientemente assim, não é? — disse Shinohara por fim. — Tá bom, eu entendi. Vou te dar os tokens, como prometi. Mas será bem antes da chegada no objetivo final. Bem antes de as transferências se tornarem impossíveis.

Dentro do Grupo 3, os candidatos mais prováveis a terminar em último lugar em número de tokens eram Ibuki e Kushida. Do ponto de vista de Shinohara, bastava cruzar a linha de chegada com um único token a mais do que qualquer uma das duas para ter 100% de garantia de sobrevivência nesse exame especial.

Quanto a Ibuki, Katsuragi a estava pressionando por não apresentar resultados, mas ninguém sabia se ele acabaria intervindo para salvá-la no último momento. Shinohara precisava acumular o máximo de garantias possível.

— Isso... já basta? — perguntou Kushida em voz baixa. — Alguém pode acabar aparecendo...

— Não — ordenou Shinohara. — Fique exatamente assim por mais um minuto. Ainda assim, é uma pena não estarmos com nossos celulares, não é, Kanji?

— N-Não... quer dizer... — a voz de Ike vacilou. — Você não acha que está indo longe demais? A essa altura isso já é bullying...

— Hã? — A raiva de Shinohara, que mal havia começado a se acalmar, voltou a explodir instantaneamente. Ela se virou para ele com um olhar cortante. — E a humilhação que eu sofri? Aquilo também foi bullying, não foi? Por que você continua tomando o lado dela? Você prefere a Kushida do que a mim, não prefere!? É isso, não é!?

— N-Não! Estou te dizendo que não é assim!

Com o rosto se contorcendo diante daquela explosão incontrolável, Ike tocou cautelosamente o ombro dela mais uma vez, desesperado para acalmá-la.

— Ei... que tipo de brincadeira doentia vocês estão fazendo? — Uma voz anormalmente baixa e completamente apática ecoou de repente da escuridão atrás deles.

Ike entrou em pânico. Segurando a mão de Kushida, que ainda permanecia em dogeza, tentou puxá-la para se levantar. Mas era tarde demais. Ibuki, que havia dado a volta para investigar a confusão, tinha uma visão perfeita de Kushida prostrada no chão da barraca.

— Hã? — gaguejou Shinohara. — Do... do que você está falando, Ibuki-san?

— Do dogeza.

O olhar de Ibuki permaneceu completamente vazio.

— Vocês não deveriam ser aliadas?

— Foi a própria Kushida-san quem fez isso por vontade própria — respondeu Shinohara rapidamente. — Não foi, Kanji?

— B-Bem... sim... — respondeu Ike, sem convicção alguma. — Algo assim... Espera, por que diabos você está aqui, Ibuki!?

— Como assim "por quê"? Eu estava dando uma volta quando ouvi toda aquela gritaria e vim dar uma olhada.

Depois de dizer isso, Ibuki acrescentou, como se tivesse acabado de se lembrar de algo:

— Ah, aliás, eu já sei tudo sobre a verdadeira personalidade da Kushida, então relaxem. Essa garota tem uma personalidade realmente irritante pra caramba, então eu entendo perfeitamente a vontade de fazê-la se humilhar.

Ao ouvi-la mencionar casualmente o segredo que eles tanto tentavam proteger, Shinohara e Ike trocaram olhares aterrorizados.

— V-Você sabia...? — perguntou Ike. — Espera... o resto da Classe B também sabe?

— Tenho quase certeza de que não.

Ibuki deu de ombros.

— Então esse segredinho que vocês estão protegendo com tanto esforço continua seguro. Mas...

Sem interromper seus passos, Ibuki desviou o olhar de Kushida e parou bem na frente de Shinohara.

— O que foi? — rebateu Shinohara, na defensiva. — Tem algum problema comigo? Você mesma disse que entendia como eu me sentia.

— É, entendo. Se eu fizesse a Kushida se humilhar assim, provavelmente também me sentiria muito bem. Mas acabei de perceber que ver outra pessoa fazendo isso é incrivelmente irritante. Enfim, por que você não se levanta logo?

— Só nos deixe em paz, Ibuki-san — disse Kushida finalmente, com a voz calma. — Isso é um assunto interno da Classe A. Não tem nada a ver com você.

Então ela voltou suas palavras para Shinohara.

— E não se preocupe, Shinohara-san. A Ibuki-san realmente sabe sobre mim, então você não precisa ficar preocupada.

Ao ouvir aquilo, o ressentimento de Shinohara esfriou um pouco, permitindo que ela recuperasse parte da compostura. O fato de Ibuki ter aparecido significava que outros alunos poderiam surgir em breve. Se a história daquele dogeza se espalhasse pelo acampamento, isso só traria problemas para Shinohara e Ike.

— Fico feliz que esteja do meu lado, Kushida-san — disse Shinohara, com a voz voltando a um tom mais calmo. — Vamos, Kanji. Vamos voltar para junto dos outros.

— S-Sim….

Ainda carregando uma culpa visível no rosto, Ike deixou que Shinohara agarrasse sua mão e o arrastasse apressadamente para a escuridão. Ibuki observou os dois se afastarem e então voltou seu olhar para Kushida.

— Eu me dei ao trabalho de salvar a sua pele, e você me manda "nos deixar em paz"? — zombou Ibuki. — Quem diabos você pensa que é?

— Estou apenas lutando desesperadamente para sobreviver do meu próprio jeito — respondeu Kushida, sem emoção. — Enquanto a Shinohara-san tiver o controle real dos tokens, preciso fazer tudo o que for necessário, não é?

— E "tudo o que for necessário" significa beijar o chão? Você não tem nenhum orgulho?

— Estou lutando justamente porque tenho orgulho. Imagino que você não entenderia isso, Ibuki-san.

Kushida se levantou lentamente, massageando os joelhos doloridos pela posição em que fora obrigada a permanecer.

— Desculpe, mas, aconteça o que acontecer daqui para frente, poderia não interferir? Mesmo que eu pareça miserável agora, ainda é melhor do que ser expulsa. Se eu obedecer àqueles dois, consigo obter mais tokens do que você. Nesse caso, passar por algo assim não é grande coisa.

— Entendo — a expressão de Ibuki se contorceu levemente. — Agora que você mencionou, você sempre teve uma cara de pau impressionante.

Kushida saiu da barraca e virou as costas, como se a conversa já não tivesse importância.

— Você também deveria se esforçar mais, Ibuki-san. Caso contrário, será expulsa.

— Cala a boca. Eu sei disso.

— Será que você já desistiu pela metade?

Ibuki, que já havia se virado para voltar à própria barraca, congelou no meio do passo.

— Eu não desisti nem nada...

— Tudo bem. Para ser sincera, se você acabar abandonando a escola, minhas chances de sobreviver aumentam exatamente nessa mesma proporção.

Com um pequeno resmungo desdenhoso por sobre o ombro, Kushida se afastou e desapareceu na escuridão da noite.

— Que mulher insuportável. Eu nunca deveria ter me metido para ajudá-la — murmurou Ibuki para si mesma no espaço vazio.

Mesmo depois de cuspir aquelas palavras na escuridão, não conseguiu sair do lugar. Estava irritada, sem dúvida. Mas não era apenas raiva. A obsessão distorcida e mesquinha de Shinohara. A indecisão covarde de Ike, incapaz de impedi-la de verdade. E aquela atitude irritantemente pragmática de Kushida.

Ela odiava tudo aquilo. Cada parte daquela situação a enfurecia. Mas o que mais a irritava naquele momento era a si mesma. Se fosse um problema que pudesse resolver apenas distribuindo socos, tudo seria fácil. Mas aquele exame especial não era algo que pudesse superar na força bruta.

Não podia subjugar a situação com violência física, nem abrir caminho apenas pela teimosia ou pela força das emoções. Era uma vida escolar sufocante e frustrante.

Para sobreviver, precisava pensar. E jamais imaginara que pensar pudesse ser algo tão irritante e trabalhoso. Estalou a língua e baixou o olhar para o chão. Sabia que sua contagem de tokens estava afundando diretamente para o fundo do ranking. Ainda assim, não fazia ideia de qual deveria ser seu próximo movimento.

Devo simplesmente deixar tudo nas mãos de Katsuragi? Quando chegar a hora, ele me salvaria dizendo que não havia outra escolha?

Não. Ela não possuía esse valor.

Então devo agir por conta própria e encontrar uma oportunidade sozinha?

Naquele exame, alguém seria expulso sem falta. Era justamente essa realidade cruel que levava Kushida a lutar de forma tão impiedosa, sem sequer hesitar em fazer uma dogeza.

Eu não consigo encontrar uma resposta.

Ou talvez...

Já a tenha encontrado.

— Não faz sentido eu me agarrar a esta escola se isso significa ficar obcecada com porcarias como essa — sussurrou para o vazio. — Eu simplesmente não sirvo para este lugar.

Depois de verbalizar aquela silenciosa conclusão, Ibuki finalmente obrigou suas pernas a se moverem.

*

 

Depois disso, Shinohara voltou tranquilamente para junto do restante do grupo, exibindo uma expressão perfeitamente inocente enquanto se juntava à conversa casual dos demais. Seu rosto não revelava absolutamente nada.

Conversava de maneira leve, com a mesma expressão despreocupada de sempre, e então confirmou com os próprios olhos que Ayanokoji ainda estava ali, falando amigavelmente com Yoshida.

Poucos segundos depois, Ike também retornou. Diferentemente de Shinohara, ele não conseguia esconder completamente o que havia acontecido. Seus passos eram inquietos e seus movimentos transmitiam um leve desconforto, como se parte de sua mente ainda estivesse presa àquela barraca.

— Obrigada, Mii-chan. Parece que o Ayanokoji-kun não fez nada, afinal — sussurrou Shinohara.

— S-Sim... — respondeu Mii-chan, hesitante.

Alguns minutos depois, Kushida saiu da barraca. Após limpar cuidadosamente a poeira e arrumar a aparência, ela exibia novamente seu habitual sorriso brilhante e impecável.

Você está bem?

Mii-chan queria desesperadamente perguntar isso. Mas, com Shinohara por perto, observando tudo com um sorriso satisfeito e vitorioso, ela não teve coragem de abrir a boca.

— Shinohara-san, você recebeu uma chamada da Horikita-san — anunciou Urushihara ao se aproximar do grupo.

— Da Horikita-san...? — murmurou Mii-chan.

— Parece que sim — respondeu Shinohara.

Durante o primeiro contato por rádio, Shinohara havia ficado profundamente irritada pelo fato de Horikita ter procurado Kushida em vez dela. Por causa disso, obrigara Kushida a informar Horikita de que todas as futuras comunicações deveriam ser direcionadas à verdadeira representante do grupo: ela mesma.

Ver aquela exigência finalmente se concretizar lhe proporcionava uma satisfação mesquinha e persistente. Pouco antes de aceitar o rádio do supervisor, Shinohara estendeu a mão e agarrou firmemente o pulso de Kushida quando ela tentou se afastar.

— Não tente fazer nada engraçado para me trair, entendeu? — disse em voz baixa. — Se fizer isso, vou revelar sua verdadeira personalidade para todo mundo aqui.

— Eu sei — respondeu Kushida suavemente. — Não vou fazer nada disso.

Shinohara estava se antecipando a qualquer possibilidade, prendendo agressivamente cada palavra e ação de Kushida. Mesmo que Kushida conseguisse, de alguma forma, preparar secretamente o terreno para receber ajuda em tokens de outra pessoa, a transferência efetiva exigiria proximidade física diante de todos.

Enganar Shinohara naquele momento decisivo seria uma tarefa monumental. Naquela noite do terceiro dia, a determinação de Shinohara se solidificou. Ela decidiu, naquele exato instante, que não tiraria os olhos de Kushida até cruzarem a linha de chegada final.

Não importava se fosse alguém da Classe A, Ayanokoji ou algum estudante aleatório tentando conquistar a simpatia de Kushida por interesses próprios. No instante em que qualquer pessoa demonstrasse a menor intenção de transferir tokens para ela, Shinohara interviria e impediria.

Se Kushida afirmasse repentinamente que não precisava mais de tokens pouco antes da chegada, ou se se recusasse a revelar sua quantidade atual, Shinohara concluiria imediatamente que uma transferência secreta havia ocorrido.

Nesse caso, ela e Ike simplesmente ficariam com todo o estoque de tokens que supostamente estavam guardando para Kushida e o dividiriam entre si.

Fazendo isso, eliminariam completamente o risco de terminarem em último lugar naquele ano letivo.

Sem perceber, a obsessão distorcida de Shinohara por Kushida continuava crescendo, eclipsando completamente sua preocupação com Ibuki, que era, na verdade, a candidata mais provável a terminar em último.

— Desculpe, Kanji, mas fique de olho na Kushida-san por um instante.

— E-Entendido.

Um momento depois, ela ergueu o rádio.

"Alô, Horikita-san? Precisa de alguma coisa?"

Atendendo com um humor excepcionalmente bom, Shinohara abriu um sorriso presunçoso e se afastou alguns metros. Era uma demonstração deliberadamente excludente. Uma declaração física de que ela era quem detinha o poder dentro daquele grupo, e que meros subordinados não tinham permissão para ouvir sua conversa.

— Ike-kun... você tem um minuto? — sussurrou Kushida.

Ela manteve a voz baixa o suficiente para não despertar suspeitas de Shinohara enquanto falava com seu recém-nomeado vigia.

— Hm? O-O que foi?

— A Shinohara-san realmente vai me entregar os tokens antes de chegarmos ao objetivo... não vai?

— Claro que vai — respondeu Ike. — Sério, não há nada com que se preocupar.

— Sim, eu confio na Shinohara-san. É só que... eu simplesmente não consigo deixar de me sentir ansiosa. É verdade que eu disse coisas horríveis sobre ela, mas... naquela época eu estava desesperada. Houve tantas coisas que falei sem realmente querer dizer…..

Enquanto falava, Kushida estendeu a mão e segurou delicadamente a barra da camisa de Ike entre os dedos.

— K-Kikyo-chan!? — a voz de Ike quase falhou. — Se a Satsuki nos pegar fazendo isso, vai dar muito ruim...!

— Não se mexa — sussurrou Kushida. — A Shinohara-san não consegue nos ver daqui.

Era uma ameaça velada. Se fossem descobertos, Kushida certamente atrairia ainda mais a ira de Shinohara. Mas Ike também acabaria diretamente na linha de fogo.

— Eu não tenho mais ninguém em quem possa confiar — disse Kushida. — Só tenho você, Ike-kun...

— V-Vai ficar tudo bem — disse Ike rapidamente. — Eu prometo. Não existe a menor chance de a Satsuki abandonar você, Kikyo-chan.

— Sério...?

— Se a Satsuki realmente disser que não vai te dar nenhum token, eu vou intervir e fazê-la mudar de ideia. Pode ficar tranquila quanto a isso.

Sua expressão se contraiu de culpa.

— Me desculpe... Fazer você se ajoelhar daquele jeito e encostar a testa no chão foi longe demais, não importa por qual ângulo se olhe...

— Não, a culpa também foi minha... Mas, mesmo assim... só ouvir você dizer isso... me deixa muito feliz.

Kushida fez uma breve pausa. Então, com os olhos úmidos e brilhando como se estivessem prestes a se encher de lágrimas, ergueu suavemente o rosto para encará-lo.

— Se você realmente me salvar quando isso importar, Ike-kun... então, quando essa hora chegar... eu farei qualquer coisa que você quiser.

— E-Eh...?

Ele sentiu o calor doce da respiração dela roçar sua pele. Uma fração de segundo depois de inspirar o perfume de Kushida, os dedos dela deslizaram suavemente para longe da camisa que seguravam.

Pouco depois, Shinohara retornou com o rádio na mão.

Completamente alheia ao que havia acabado de acontecer, agarrou o braço de Ike, que parecia visivelmente abalado, e praticamente o arrastou de volta em direção à barraca.

— Escuta só, Kanji. O Ayanokoji-kun está planejando uma coisa completamente absurda.

Ao ouvir o nome de Ayanokoji sair dos lábios sorridentes de Shinohara, os olhos de Ike se arregalaram.

*

 

Os quatro alunos da Classe A estavam inicialmente reunidos em seu acampamento isolado, mas, no instante em que Shinohara terminou sua comunicação pelo rádio, ela puxou Ike para um local um pouco mais afastado. Depois de se refugiarem na barraca, os dois começaram a conversar em segredo, lançando olhares ocasionais na minha direção.

O fato de alguém — não, o fato de Horikita ter contatado diretamente Shinohara — significava que ela finalmente havia começado a agir também. Considerando o momento, era seguro presumir que Horikita havia feito aquilo esperando plenamente que eu descobrisse.

— Ela realmente cresceu, pouco a pouco, mas de forma constante — murmurei para mim mesmo. — Então, no fim das contas, ela realmente estendeu a mão para a flecha.

Fiquei genuinamente surpreso. Eu havia calculado que havia mais de cinquenta por cento de chance de ela não tentar impedir a flecha em pleno voo.

Não.

Ainda era cedo demais para concluir isso. Eu ainda não sabia se a ação de Horikita tinha realmente a intenção de interromper o voo da flecha ou se ela apenas fingia fazê-lo. De qualquer forma, ao realizar um movimento tão visível, ela estava sondando minha reação.

Naquele momento, com Shinohara completamente distraída pelo que quer que tivesse ouvido no rádio, entrar em contato com Kushida seria incrivelmente simples.

— Yoshida, venha aqui um instante.

— Hm? Ah, claro.

Sem sequer perguntar o motivo, Yoshida se levantou e saiu da barraca. Com ele ao meu lado, caminhei diretamente até Kushida.

— Pode me conceder apenas cinco minutos? Há algo que gostaria de perguntar.

Kushida se virou para nós. Imediatamente exibiu seu sorriso perfeitamente ensaiado e respondeu sem hesitar:

— Claro.

— Desculpe, Yoshida, mas pode voltar para a barraca? — falei, voltando-me para ele. — Quero conversar com Kushida a sós.

— Hã? Então por que me trouxe até aqui...? — respondeu Yoshida, surpreso. — Bem, tanto faz.

Ele inclinou a cabeça, confuso, mas em vez de insistir no assunto, simplesmente retornou ao acampamento da Classe C.

— Isso foi bem desleal da sua parte, usar o Yoshida-kun desse jeito — comentou Kushida em voz baixa assim que ele ficou fora de alcance.

— Se eu não fosse tão longe, achei que havia uma boa chance de você nem sequer aceitar conversar comigo.

Como eu me aproximara dela na presença de Yoshida, Kushida — sempre extremamente consciente da própria imagem pública — fora obrigada a aceitar prontamente meu pedido para manter sua fachada amigável. Agora que havia concordado publicamente, não tinha escolha além de permanecer ali e ouvir o que eu tinha a dizer, gostasse ou não.

— O que você quer agora? — perguntou Kushida, voltando ao seu tom habitual assim que ficamos sozinhos.

— Parece que Shinohara ainda não pretende transferir seus tokens.

— Parece que ela guarda um rancor enorme por eu ter chamado ela de feia. Então acho que não posso culpá-la. Mas, sinceramente, parte de mim tem vontade de dizer: "Qual é o problema de falar a verdade?"... Hahaha, deixa pra lá.

Soltando um resmungo zombeteiro, Kushida lançou um olhar na direção do acampamento de Shinohara sem sequer virar a cabeça. A principal razão para Shinohara se recusar a entregar os tokens parecia ser o rancor que ela alimentava desde o Exame Especial da Unanimidade.

Perto da barraca, Shinohara, que observava atentamente nossos movimentos, já havia percebido nossa conversa. Ike tentou caminhar em nossa direção, mas Shinohara segurou seu braço e o impediu, rindo.

— O jeito como Ike me olha... completamente incapaz de esconder suas segundas intenções nojentas... me dá náuseas — murmurou Kushida. — Aqueles dois realmente nasceram um para o outro.

Talvez porque eu fosse o único ouvindo, ela despejava livremente seu veneno bem no meio do acampamento.

— Se você se afastasse de Ike, Shinohara não se acalmaria um pouco? — perguntei.

— Fazer isso só me renderia ainda mais hostilidade da parte dela. Além disso, mesmo que eu não estivesse manipulando o Ike agora, a atitude dele em relação a mim não mudaria, mudaria?

Talvez fosse verdade. O fato de Ike ter uma fraqueza óbvia por Kushida, combinado com o fato de eu valorizá-la abertamente enquanto tratava Shinohara com indiferença, provavelmente apenas alimentava um fogo que já ardia havia muito tempo.

— De qualquer forma, no pior cenário, vou ser abandonada. Para impedir isso, preciso pensar não apenas em arrancar tokens de Shinohara, mas também de Ike. Mesmo que eu tente contar com Mii-chan... bem, como ela não gosta de mim, provavelmente é impossível.

Durante o Exame Especial da Unanimidade, a situação amorosa particular de Mii-chan fora exposta publicamente como consequência direta das ações de Kushida. Mesmo que atualmente ela interagisse normalmente com ela, aquela humilhação ainda era uma ferida difícil de esquecer.

Embora conseguisse controlar seu ressentimento a ponto de se preocupar com Kushida, sua posição tornava praticamente impossível que lhe transferisse tokens. Era certo que não podia contar com ela.

— Sei que isso vai soar horrível — continuou Kushida —, mas parte da razão de eu estar sofrendo tanto agora é por sua culpa, Ayanokoji-kun. Você me elogiou na frente de todo mundo quando os grupos foram formados, não foi? Parece que foi isso que acendeu o pavio nela. Esta é sua forma de se vingar porque eu guardei rancor e me recusei a dizer quem era o VIP durante o Exame Especial do Jogo de Sobrevivência?

Naquela ocasião, quando eu havia chegado ao acampamento da Classe A por pouco, dentro do limite de tempo, fiz um breve contato visual com Kushida para confirmar silenciosamente se ela me revelaria a identidade do VIP.

Ela recusou apenas pela expressão. Foi uma troca silenciosa que durou menos de alguns segundos. Ninguém poderia ter percebido aquilo.

— Achei que você apenas estivesse hesitando sobre de que lado ficar — respondi. — Você não tinha medo de que eu revelasse sua verdadeira personalidade para os outros? Se a escola inteira descobrir, você não terá mais lugar aqui.

— Já é tarde demais para isso. As pessoas da minha turma já conhecem meu segredo.

Na realidade, Kushida havia sido completamente dominada e neutralizada por alguém como Shinohara. Mas essa não era toda a história. Era evidente que sua avaliação de Horikita havia começado a mudar, e que sua própria forma de pensar também estava se transformando gradualmente. Não que ela admitisse isso se eu apontasse.

— Não foi uma vingança — falei. — O que aconteceu com Shinohara foi totalmente involuntário.

— Bem, se você me disser que fui eu quem plantou as sementes desse problema desde o começo, não tenho muito como argumentar. De qualquer forma, o que está claro agora é que nem Shinohara nem Mii-chan vão ficar do meu lado. Sendo assim, minha única opção é conquistar pelo menos o Ike e convencê-lo a me transferir os tokens dele.

Havia uma determinação extraordinária estampada em seu rosto.

— Você está com uma expressão de quem faria absolutamente qualquer coisa.

— Com toda certeza — respondeu friamente. — Se for necessário, eu até deixaria ele apalpar meus peitos. Depois disso, até aquele idiota me daria alguns tokens, não acha?

— Provavelmente seria uma estratégia extremamente eficaz.

— Estranho. Um trunfo desse nível não pareceu funcionar com certa pessoa, no entanto — acrescentou ela, lançando-me um olhar frio de soslaio por uma fração de segundo. Parecia ter acontecido há uma eternidade, mas, é claro, eu me lembrava perfeitamente daquele incidente.

Kushida dizia que seu trunfo não tinha surtido efeito, mas isso se referia apenas ao resultado envolvendo minhas impressões digitais e tudo o que veio depois. Se estivéssemos falando apenas do meu estado de espírito naquela época... bem, certamente tinha sido bastante eficaz para um estudante saudável do ensino médio.

— Se eu conseguir fazer o Ike sacrificar os próprios tokens por minha causa, a Shinohara não vai ter escolha a não ser ajudá-lo no final, mesmo que fique furiosa por isso. Talvez uma jogada dessas faça com que eles me odeiem de vez, mas sobreviver a esta prova especial vem em primeiro lugar. Se o Ike sozinho não bastar, vou atrás do Yoshida ou do Sonoda. No pior dos casos, simplesmente mudarei meu alvo para eles.

Isso significava que, se fosse necessário, ela estava totalmente disposta a usar o mesmo trunfo físico que pretendia empregar com Ike em alunos de outras turmas. Claro, se avaliasse mal a personalidade do alvo, a situação poderia facilmente se transformar em um incidente sério, aumentando exponencialmente os riscos.

— Vou perguntar só por garantia, mas... você não tem a menor intenção de me ajudar, tem, Ayanokoji-kun?

— Em troca, você estaria disposta a me oferecer aquele trunfo de novo — o seu corpo?

Quando devolvi a pergunta com a maior naturalidade do mundo, Kushida congelou por um instante antes de arregalar os olhos.

— H-Hã!? Q-Que tipo de idiotice é essa que você está falando!? Nem morta!

— Achei que você estivesse perfeitamente disposta a jogar sua dignidade fora se isso bastasse para fazer o Ike e os outros caírem na sua armadilha.

— Isso é... bem, porque aqueles caras são praticamente lixo... e incrivelmente fáceis de manipular. Ou melhor, você está só tirando sarro da minha cara, não está? Você não vai me ajudar de verdade, Ayanokoji-kun. Vai?

— Infelizmente, você está certa. Eu vou produzir resultados para a minha turma atual; essa continua sendo minha prioridade absoluta.

— Então terminamos aqui? Não quero continuar conversando com você quando nem pretende me ajudar, só para acabar atraindo ainda mais a antipatia da Shinohara. Apenas me deixe em paz.

Dizendo isso, Kushida instantaneamente trocou de expressão, voltando ao seu sorriso radiante e perfeitamente ensaiado. Ela me acenou de forma alegre, encenando uma despedida amigável para qualquer um que estivesse observando, enquanto se afastava naturalmente de mim.

Resta saber se as coisas realmente correriam tão bem quanto ela imaginava. Afinal, o cofre da outra parte era consideravelmente difícil de abrir.

 

 

 

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag

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