A Classe de Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 3 - Volume 4

Capítulo 3: Desafios Iminentes

ÀS SEIS E MEIA do segundo dia, o sol surgiu sobre a ilha, anunciando a chegada da manhã.

A luz ainda era jovem, pálida nas bordas, filtrando-se pelo tecido da barraca em um brilho suave e discreto. Acordei com o som distante de passos se aproximando através do silêncio da manhã e então me ergui lentamente.

Ao meu lado, Yoshida e Sanada ainda dormiam. Suas respirações permaneciam calmas e regulares, completamente alheias à presença do lado de fora. Ao espiar para fora da barraca, encontrei Katsuragi parado nas proximidades.

Por um breve instante, um leve traço de surpresa cruzou seu rosto, como se ele não esperasse que eu aparecesse tão rapidamente. Mas logo recuperou a compostura e me cumprimentou.

— Bom dia.

Retribuí o cumprimento e saí para o ar fresco da manhã.

— Desculpe — disse Katsuragi. — Eu te acordei?

— Eu já estava acordado.

— Entendo.

Ele fez uma breve pausa antes de continuar.

— Odeio trazer isso logo de manhã, mas gostaria de tomar um pouco do seu tempo. Há algo que quero discutir sobre este exame especial antes que as tarefas do segundo dia comecem.

Não dava para saber se ele havia passado a noite chegando às próprias conclusões ou se Ryuen havia lhe transmitido instruções nos bastidores. Ainda assim, assenti e o acompanhei em silêncio. Quando estávamos a uma distância segura das barracas, Katsuragi parou e se virou para mim.

— Neste exame especial, existem várias penalidades que envolvem o risco de expulsão — começou ele. — Entre elas, a única que absolutamente não pode ser evitada é a expulsão ligada ao último lugar. Mesmo que todos os alunos terminem empatados, ela ainda assim não pode ser anulada. No entanto, dependendo das circunstâncias, tenho certeza de que você entende que isso pode ser contornado com relativa facilidade, não é?

— Um aluno com um Ponto de Proteção poderia se tornar o bode expiatório — respondi. — Desde que as coisas aconteçam de forma limpa o bastante para tornar isso possível.

— Exatamente.

Katsuragi assentiu levemente.

— Se isso fosse apenas um problema dentro de uma única classe, o autossacrifício seria uma estratégia altamente viável. Mas, em uma competição envolvendo toda a série, esse tipo de sacrifício poderia facilmente acabar beneficiando o inimigo.

— Se existe alguém disposto a se sacrificar sem se importar se isso ajudaria aliados ou inimigos, provavelmente seria alguém da classe da Ichinose.

Ao ouvir isso, Katsuragi permaneceu em silêncio por um instante.

— Existe alguém na classe da Ichinose que tenha um Ponto de Proteção?

Havia certos detalhes que não haviam sido revelados às outras turmas. Katsuragi inseriu a pergunta casualmente, como se fosse apenas uma continuação natural da conversa.

— Desculpe, mas eu não saberia dizer — respondi. — E, mesmo que soubesse, não contaria.

— Justo.

A situação interna da classe da Ichinose não era algo que eu pudesse discutir casualmente com uma turma rival. Na verdade, eu já havia confirmado que, no momento, ninguém da Classe D possuía um Ponto de Proteção, nem mesmo Ichinose. Infelizmente, isso significava que executar tal estratégia estava completamente fora de questão.

— Isso é apenas uma especulação minha — continuei —, mas, independentemente de ela ter ou não um Ponto de Proteção, acredito que Ichinose vai esperar até o último instante antes de agir. Embora não hesitasse nem por um segundo se fosse para proteger seus próprios colegas, a Ichinose de agora não está disposta a estender essa mesma cortesia às outras classes.

— Se sua previsão estiver correta — refletiu Katsuragi —, então, a menos que um aluno com Ponto de Proteção acabe coincidentemente no fundo da classificação, há uma chance muito alta de alguém ser expulso depois de amanhã. E, como ninguém consegue ver a quantidade total de tokens de toda a série, os alunos naturalmente se concentrarão menos nos multiplicadores de tokens e mais em simplesmente evitar o último lugar dentro de seus próprios grupos.

Só isso já seria suficiente para se tornar uma forte âncora psicológica. Se alguém pudesse confirmar que possuía ao menos um pouco mais de tokens do que outro aluno, isso já proporcionaria uma sensação temporária de segurança.

Claro, a realidade estava longe de ser tão simples. A menos que você verificasse pessoalmente a quantidade de tokens de alguém, seria impossível ter certeza.

Além disso, como os tokens podiam ser transferidos livremente vinte e quatro horas por dia, a ansiedade subjacente em relação ao ranking jamais poderia ser completamente eliminada.

— Então, o que você pretende fazer? — perguntou Katsuragi.

— Essa foi uma pergunta bastante direta — respondi. — Você está realmente tão curioso sobre o meu próximo movimento?

— Há um limite para o que posso fazer — disse Katsuragi calmamente. — Não quero que ninguém da Classe B seja expulso, mas não consigo acompanhar colegas que estejam fora do meu próprio grupo. Então, pelo menos, quero garantir que ninguém do grupo ao qual fui designado seja expulso.

Katsuragi não era o único que pensava dessa forma. Na verdade, a grande maioria dos alunos provavelmente compartilhava desse sentimento.

Permitir que uma expulsão surgisse dentro do próprio grupo carregava um pesado senso de responsabilidade coletiva. Por isso, era natural querer salvar aqueles que estavam ao seu alcance.

— A forma como você foi atrás de Ike e Shinohara ontem... — continuou Katsuragi. — Não havia algum motivo por trás daquilo também?

A maneira como ele formulou a pergunta deixava claro que não acreditava que eu tivesse provocado uma discussão sem motivo, nem que minha atitude fosse fruto de ressentimentos pessoais mesquinhos. Ainda assim, balancei a cabeça levemente, descartando suas suspeitas.

— Se foi isso que você pensou, então receio que esteja me superestimando — respondi. — Eu simplesmente não me dou bem com aqueles dois.

— Está dizendo que provocou membros do seu próprio grupo por motivos pessoais?

Katsuragi franziu ligeiramente a testa.

— Isso parece muito diferente da imagem que tenho de você. Sempre achei que fosse do tipo calmo e reservado.

— Ike e os outros disseram a mesma coisa, não disseram? — retruquei. — Que talvez eu tenha mostrado minha verdadeira personalidade depois de me tornar líder da classe.

Katsuragi ficou em silêncio por um momento, observando-me.

— Acho isso difícil de acreditar — disse por fim. — Mas tudo bem.

Talvez percebendo que insistir mais não o aproximaria da verdade, Katsuragi conduziu a conversa adiante.

— Quaisquer que sejam suas verdadeiras intenções, nossas prioridades fundamentais ainda devem coincidir. Nenhum de nós quer ver nossos colegas expulsos. Partindo desse princípio, certamente existe espaço para cooperarmos em alguns aspectos.

— É verdade que, como membros do mesmo grupo, existem áreas em que podemos trabalhar juntos — respondi. — Mas, em um nível fundamental, sua forma de encarar as penalidades difere bastante da minha. Dar as mãos pode acabar sendo difícil.

— Difere...?

— Katsuragi, o seu desejo de evitar expulsões existe exclusivamente porque se trata dos seus colegas de classe.

Fiz uma breve pausa antes de continuar.

— Mas traçar uma linha arbitrária entre sua própria classe e as demais perde completamente o ponto central. A verdadeira questão é se um aluno possui ou não o valor necessário para sobreviver a este exame especial. Ser membro do mesmo grupo ou da mesma classe é irrelevante. Se não estiver à altura desse padrão, então sua expulsão é simplesmente inevitável.

Katsuragi ouviu em silêncio antes de responder.

— Não vou negar essa lógica — disse ele. — Mas tratar todos com perfeita objetividade é muito mais fácil de dizer do que de fazer. Além disso, priorizar seus aliados não é algo errado. Pelo contrário, é um instinto completamente natural. Isso não é apenas uma regra criada por este exame especial; se você olhar para toda a história da humanidade, verá exatamente o mesmo princípio em ação.

Se compartilham o mesmo local de nascimento. A mesma raça. A mesma nação.

A humanidade sempre traçou alguma linha divisória. E, uma vez estabelecidas essas fronteiras, as pessoas lutaram com tudo o que tinham para proteger aqueles que consideravam aliados e derrubaram aqueles que reconheciam como inimigos.

— Não estou dizendo que você precisa pensar da mesma forma — concluiu Katsuragi. — Mas acredito que essa seja a ordem natural das coisas.

Não se tratava de forçar um resultado específico sobre ninguém. Pelo contrário, dentro da própria estrutura natural da sociedade, aqueles destinados a receber penalidades surgiriam por conta própria, enquanto aqueles inadequados para permanecer desapareceriam silenciosamente.

— Então você está dizendo que não teria problema algum se um aluno da Classe C terminasse em último lugar e fosse expulso neste exame? — perguntou Katsuragi, franzindo a testa. — Se for esse o caso, então talvez nossas visões sobre as penalidades realmente sejam diferentes.

Sua voz permaneceu calma.

— Mas, se você realmente pensa dessa maneira, tenho que dizer... estou um tanto decepcionado.

— Eliminar aqueles que não têm capacidade ou que prejudicam a harmonia da turma frequentemente provoca um efeito de autopurificação — respondi com naturalidade. — Claro, não estou dizendo que todos os alunos expulsos até agora se encaixavam nessa categoria. Mas, ao mesmo tempo, Yamauchi, Sakura e Maezono desapareceram. E, embora isso tenha acontecido antes da sua transferência, Manabe também foi removida da classe do Ryuen. Embora perder integrantes coloque uma turma em desvantagem, olhando para o panorama geral, isso não é necessariamente uma perda líquida.

Não era o tipo de lógica que encontraria eco em alguém como Katsuragi, que buscava proteger seus companheiros. Aliás, poucas pessoas se sentiriam confortáveis ouvindo algo tão frio.

— Desculpe por tomar seu tempo tão cedo pela manhã.

Foi uma conversa breve, que durou menos de cinco minutos. Katsuragi assentiu uma única vez, de forma seca, pediu desculpas rapidamente e retornou à sua barraca, sem fazer qualquer esforço para esconder sua decepção comigo.

Quando nos separamos, já passava um pouco das sete da manhã.

Depois de esperar um curto período, voltei para a barraca da Classe C. Yoshida já estava acordado, ocupado do lado de fora preparando o café da manhã. Sanada também estava de pé, cuidando de algumas tarefas a certa distância.

— Parece que você e o Katsuragi ficaram conversando por um bom tempo, hein? — comentou Yoshida.

— Você percebeu?

— Depois que você saiu da barraca, ouvi a voz do Katsuragi por um tempo — respondeu ele. — Fiquei curioso, mas achei que seria falta de educação interromper. Era sobre o exame especial?

Como ele já sabia que eu tinha saído para conversar, provavelmente não havia motivo para esconder.

— Ele perguntou se poderíamos cooperar para evitar expulsões em nossas turmas.

— Então você pretende se unir à Classe B?

Não havia aprovação nem reprovação em sua voz. Yoshida apenas parecia interessado em saber qual decisão eu tomaria como líder.

— Infelizmente, a negociação não deu certo — respondi. — Além disso, esse não é um problema que possa ser resolvido apenas entre duas classes. Ainda assim, neste segundo dia, talvez comecemos a ver movimentações em vários lugares à medida que as pessoas tentem formar esse tipo de cooperação.

— Então é melhor ficarmos atentos.

A expressão de Yoshida se endureceu enquanto lançava um olhar cauteloso para as barracas das outras classes.

*

 

Pouco depois de terminarmos o café da manhã, as instruções do supervisor ecoaram pelo acampamento.

— Muito bem. Gostaria de anunciar a primeira tarefa do dia. Vocês enfrentarão um grande número de desafios a partir desta manhã, portanto mantenham o foco e abordem cada um deles com atenção.

Retirando quatro tablets, ele distribuiu um para cada representante de classe.

— Nesta tarefa em equipe, as quatro classes competirão em um simples teste acadêmico, utilizando um tablet em turnos. A ordem em que os quatro membros de cada equipe realizarão a prova será completamente aleatória. O primeiro lugar receberá 3 tokens, o segundo receberá 2, o terceiro receberá 1 e o quarto não receberá nenhuma recompensa.

Concluída a introdução, o supervisor passou aos detalhes. Se os quatro integrantes de uma turma vencessem suas respectivas rodadas, a classe poderia ganhar doze tokens. Por outro lado, se todos terminassem em último lugar, sairiam de mãos vazias.

Não havia qualquer risco direto associado à tarefa. Ainda assim, era o tipo de prova capaz de criar diferenças sutis na quantidade de tokens acumuladas por cada turma. O fator mais importante era a ordem em que cada aluno enfrentaria o teste. Em vez de colocar os melhores estudantes frente a frente, o cenário ideal era enfrentar adversários que pudessem ser superados por uma pequena margem.

Na Classe C, a ordem sorteada foi: Morishita, Sanada, Yoshida e eu.

Fiel às palavras do supervisor, o formato era extremamente simples. Cada rodada consistia em dez questões de múltipla escolha, cada uma com cinco alternativas, extraídas de uma disciplina específica. Caso dois ou mais alunos terminassem com o mesmo número de acertos, a classificação seria decidida pelo tempo gasto para concluir as dez questões.

Morishita ficou em terceiro lugar em sua rodada, enquanto Sanada conquistou o primeiro. Yoshida veio em seguida, mas seus adversários eram Katsuragi, Mii-chan e Amikura. Com essa combinação, acabou terminando em quarto lugar.

Por fim, fui o último representante da equipe e garanti uma vitória. Ao final, a Classe C conquistou sete tokens.

Na Classe A, apesar de Ike e Shinohara terminarem em último lugar em suas respectivas rodadas, Kushida e Mii-chan tiveram confrontos favoráveis e ambas ficaram em primeiro, garantindo um total de seis tokens para a turma.

A Classe B obteve cinco tokens, enquanto a Classe D igualou a Classe A com seis. Considerando tudo, a primeira tarefa produziu pouquíssima diferença significativa entre as classes.

— A distância não aumentou nem de longe tanto quanto eu esperava — murmurou Yoshida.

Ele tinha razão. Como tarefa isolada, a diferença era de apenas um ou dois tokens, algo perfeitamente dentro da margem de erro. No entanto, julgando pela forma fluida como a primeira atividade havia transcorrido, era improvável que tudo terminasse ali.

— Muito bem. Agora passaremos para a próxima tarefa. A ordem será novamente sorteada.

O supervisor anunciou que a matéria mudaria e, naquela ilha desabitada, todos nós voltamos nossa atenção para os tablets. Ao todo, repetimos o mesmo processo cinco vezes.

No início, os resultados eram separados apenas por margens estreitas. Porém, à medida que a sorte e a habilidade começaram a revelar sua distribuição desigual, as pontuações gradualmente convergiram para aquilo que poderia ser considerado seu valor esperado natural.

A partir da segunda rodada, o formato permaneceu inalterado, mas sua natureza havia mudado completamente.

Enquanto a sorte dos confrontos e as coincidências influenciaram os resultados iniciais, essas variáveis foram sendo gradualmente eliminadas conforme as rodadas se acumulavam, permitindo que a verdadeira capacidade acadêmica e a velocidade de processamento de cada indivíduo se refletissem diretamente em sua classificação.

A estrutura simples de dez questões de múltipla escolha eliminava qualquer espaço para blefes.

Como os empates eram decididos pelo tempo, pontuações quase perfeitas tornaram-se o padrão entre os melhores alunos. No fim, o fator decisivo era a eficiência com que cada um processava as questões sem desperdiçar tempo.

A ausência de hesitação, a rapidez para compreender a intenção da pergunta e a precisão ao eliminar alternativas incorretas.

Um pequeno atraso em qualquer um desses aspectos já era suficiente para fazer alguém cair uma ou até duas posições.

Entre todos os participantes, dois nomes permaneceram consistentemente próximos ao topo:

Sanada e Katsuragi.

Sanada foi constante do começo ao fim. Não importava o tipo de questão que surgisse diante dele, seu julgamento jamais vacilava.

Sua eficiência era tão impressionante que parecia ter decidido a resposta no exato instante em que terminava de ler a pergunta, colocando-o muito acima dos demais no equilíbrio entre velocidade e precisão.

Katsuragi, por sua vez, abordava a competição de forma diferente.

Em vez de perseguir pontuações perfeitas, priorizava manter-se firmemente entre os primeiros colocados. Concentrando seu tempo apenas nas partes necessárias, otimizava seu processamento geral.

Como resultado, demonstrava enorme força nos critérios de desempate por tempo e cometia surpreendentemente poucos erros. Logo abaixo deles, outro grupo começou gradualmente a se destacar:

Mii-chan e Kushida.

Nenhuma das duas possuía uma velocidade extraordinária, mas raramente interpretavam uma questão de forma equivocada. Seu domínio sólido dos fundamentos garantia que jamais sofressem grandes quedas de desempenho.

Kushida terminou em último lugar na segunda rodada, mas recuperou o equilíbrio nas etapas seguintes. Assim que retomou seu ritmo, começou a acumular respostas corretas de forma constante.

Já Mii-chan resolveu os problemas mantendo exatamente o mesmo ritmo durante toda a competição. Como resultado, suas classificações oscilaram muito pouco, desempenhando o papel de alguém que acumulava regularmente segundos e terceiros lugares.

Em uma disputa prolongada como aquela, a existência de alunos que simplesmente mantinham a consistência e evitavam erros se traduzia diretamente em um acúmulo constante de tokens.

Naturalmente, nem todos se adaptaram tão bem. À medida que as rodadas avançavam, também ficou cada vez mais claro quais rostos continuavam aparecendo próximos ao fundo da classificação.

Entre eles, o declínio de Ibuki foi o mais evidente. As questões em si não eram particularmente difíceis. Mesmo assim, Ibuki tinha o péssimo hábito de abandonar um problema antes de compreender totalmente o que ele exigia. No momento em que sua compreensão vacilava, ela simplesmente desistia e escolhia uma resposta qualquer, praticamente deixando o resultado ao acaso.

À primeira vista, esse tipo de tomada de decisão podia parecer eficiente. Afinal, permitia que avançasse rapidamente. Mas, sem qualquer raciocínio sólido sustentando suas escolhas, seus resultados eram inevitavelmente instáveis.

Embora ocasionalmente acertasse alguma resposta por pura sorte, esses lampejos de fortuna não duravam. Conforme as rodadas se acumulavam, a probabilidade suavizava as flutuações e sua posição naturalmente afundava para o fundo da tabela.

Não se tratava de um simples período de azar temporário, mas da consequência direta de uma abordagem profundamente falha. O que causou uma leve surpresa foi o desempenho de Ike e Shinohara, dois alunos que também tinham dificuldades acadêmicas.

Ao contrário do que muitos esperavam, eles não desistiam das questões. Mantinham a postura de tentar chegar o mais perto possível da resposta correta dentro dos limites de seus conhecimentos.

Analisavam cada alternativa cuidadosamente e, mesmo hesitando, procuravam construir algum raciocínio para eliminar opções e restringir as possibilidades.

O método estava longe de ser eficiente, e houve muitos momentos em que demoraram bastante para tomar uma decisão. Ainda assim, pelo menos não abandonavam o processo de pensar. Infelizmente, o esforço sincero não se traduziu diretamente em bons resultados.

Eles simplesmente não conseguiam compensar a falta de conhecimento básico, o que impunha um limite rígido ao número de respostas corretas que podiam alcançar. Além disso, sua extrema cautela aumentava drasticamente o tempo de conclusão, colocando-os em enorme desvantagem sempre que ocorria um desempate.

Como consequência, permaneceram firmemente presos às posições inferiores. Embora raramente terminassem em último lugar absoluto como Ibuki, também nunca conseguiam escapar das duas ou três últimas posições.

Quando as cinco rodadas finalmente chegaram ao fim, uma diferença gradual, porém inegável, havia surgido entre as quantidades de tokens acumulados pelas classes.

Na primeira rodada, diferenças de uma ou duas posições não passavam de margens de erro. Mas, a cada repetição, essas pequenas diferenças se acumulavam. Eventualmente, transformaram-se em uma distância impossível de ignorar.

A divisão não era dramaticamente grande, mas era justamente isso que a tornava tão difícil de reverter. Acima de tudo, ela representava um reflexo extremamente preciso da verdadeira capacidade de cada grupo. Em outras palavras, o sucesso ali não era determinado por uma única vitória isolada, mas por quem conseguia continuar apresentando resultados sob pressão de forma consistente.

No fim, tudo se resumia a uma única métrica: A capacidade fundamental dos alunos. E aqueles que não conseguiam atingir esse padrão eram deixados para trás, silenciosa e inevitavelmente.

*

 

Até aquele momento, o exame da ilha desabitada havia sido, principalmente, uma provação física. Após essa mudança repentina para uma sequência de desafios que exigiam intenso esforço mental, os alunos exaustos simplesmente desabaram onde estavam assim que uma pausa foi anunciada.

Diferente da dor aguda e ardente do cansaço físico, aquele desgaste mental prolongado deixava um peso surdo e persistente no fundo da mente. Incapazes de mudar imediatamente o foco e planejar seus próximos movimentos, todos apenas se renderam ao breve e pesado silêncio.

Durante esse intervalo, os alunos naturalmente se aproximaram de seus próprios colegas de classe, mantendo uma distância cautelosa dos outros grupos. Enquanto isso, os representantes de turma começaram o trabalho meticuloso de distribuir os tokens conquistados nas tarefas, seguindo as regras que haviam estabelecido previamente.

A Classe C não foi exceção.

Peguei o total de tokens que havíamos obtido e o dividi por quatro, distribuindo as respectivas partes para Yoshida, Morishita e Sanada. Optei deliberadamente por uma divisão completamente igualitária, sem escalonar as quantidades com base no desempenho individual.

— Ike não para de olhar para cá — murmurou Yoshida.

— Não se preocupe com isso — respondi. — Não somos só nós. Ele está curioso sobre as três outras classes também.

Afinal, a distribuição de tokens era muito mais do que uma simples entrega de recompensas. Era uma demonstração numérica das contribuições de cada pessoa. Naturalmente, era difícil não prestar atenção, ainda que inconscientemente, à quantidade de tokens que os outros estavam recebendo.

— Afinal, esta é uma batalha contra o medo de terminar em último lugar — comentou Sanada.

Talvez suas lentes estivessem sujas, pois ele retirou os óculos silenciosamente e os limpou com a barra da camisa.

— Eu não faço ideia de quantos tokens cada um está recebendo — disse Yoshida após conferir a quantidade que havia ganhado.

Seu olhar se desviou casualmente para as outras três classes.

— Mesmo olhando por turma, está ficando difícil dizer o tamanho da diferença entre elas.

Como a maior parte da nossa atenção havia sido dedicada às provas, não era surpreendente que ninguém tivesse conseguido acompanhar perfeitamente quem terminou em qual posição em todas as rodadas.

— Estou começando a ficar um pouco ansiosa também — comentou Morishita. — Por favor, me deem cinco tokens extras para preservar minha estabilidade emocional.

Decidi ignorar seu pedido absurdo. Mais do que as classificações em si, o que permanecia na mente de todos eram impressões fragmentadas e resultados vistos pela metade. As pessoas tentavam juntar esses fragmentos para compreender o quadro geral, mas simplesmente não havia informação suficiente para chegar a uma conclusão segura.

E essa incerteza apenas alimentava ainda mais a ansiedade coletiva.

— Katsuragi-kun, Wang-san e Kushida-san pareciam estar ficando constantemente entre os primeiros colocados — observou Sanada. — Então, olhando por turma, talvez a diferença não seja tão grande quanto imaginamos.

Sanada, que tinha uma compreensão mais clara da situação do que Yoshida, respondeu com a habitual calma. Suas palavras apenas descreviam os fatos. Ainda assim, havia mais do que isso por trás delas. Por um lado, transmitiam a tranquilidade de que nenhuma diferença decisiva havia surgido até aquele momento.

Por outro, sugeriam que justamente por tudo ainda estar equilibrado, o próximo movimento poderia mudar completamente o cenário. Naturalmente, era verdade que as diferenças entre as classes estavam aumentando pouco a pouco. Mas cada tarefa oferecia apenas uma quantidade limitada de tokens, então a distância ainda não havia se tornado dramática.

Isso também era verdade. Contudo, isso só valia quando se observava o quadro geral. Quando os resultados eram analisados em nível individual, a situação era diferente. Como o desempenho de cada aluno aparecia diretamente em forma de números, diferenças começaram a surgir silenciosamente até mesmo entre colegas da mesma classe.

Se voltássemos nossa atenção para os indivíduos, provavelmente as distâncias já estavam chegando ao ponto em que começariam a crescer mais rápido do que o esperado.

— Espera aí! — a voz de Ibuki cortou abruptamente o silêncio da pausa. — Como assim eu só vou receber dois?!

Em circunstâncias normais, a quantidade exata de tokens recebido por cada pessoa não era uma informação que deveria vazar para as outras classes.

Era um dado estratégico. Algo que deveria permanecer oculto. Mas em uma classe cuja distribuição era baseada diretamente na comparação das contribuições individuais, manter total sigilo era extremamente difícil.

E quando o resultado era algo que um aluno não conseguia aceitar, a insatisfação tinha o hábito de escapar antes que pudesse ser contida. Furiosa, Ibuki parecia não ter a menor preocupação com as informações que estava expondo.

Ela se virou para Katsuragi e começou a gritar alto o suficiente para que todos ao redor ouvissem. Suas emoções haviam tomado conta.

Lucro, prejuízo, riscos… Nada disso parecia importar naquele momento. A única coisa que movia suas ações era a incapacidade de aceitar o resultado.

— Eu deixei isso claro desde o começo — respondeu Katsuragi com firmeza. — Os tokens seriam distribuídos de forma justa, de acordo com o desempenho de cada um. Até agora, as tarefas foram totalmente voltadas para habilidades acadêmicas, que são justamente o seu ponto fraco. Você prejudicou significativamente o grupo. Terminou em último lugar em todas as rodadas. Se quiser saber, eu até fui generoso por lhe dar alguma recompensa.

Suas palavras não carregavam emoção aparente. Mas justamente por isso não deixavam espaço para ambiguidades. Katsuragi não tentou suavizar a verdade nem revesti-la de gentileza.

Apenas apresentou os fatos. E, ao fazer isso, eliminou qualquer margem para contestação. Os outros dois integrantes da Classe B pareciam não ter qualquer objeção ao raciocínio dele. Se alguma coisa, pareciam concordar. Enquanto o critério de distribuição fosse claro, introduzir sentimentos pessoais apenas abriria a possibilidade de que eles próprios fossem prejudicados no futuro.

Não havia motivo para contrariar Katsuragi naquele momento. Eles tinham visto com os próprios olhos. Ibuki havia terminado em último lugar em todas as rodadas. Em outras palavras, a quantidade de tokens que ela havia conquistado por mérito próprio era zero.

Sob essa perspectiva, receber dois tokens só podia ser considerado um ato de generosidade por parte de Katsuragi.

— Está tentando me fazer terminar em último lugar ou algo assim? — retrucou Ibuki.

— Não diga absurdos — respondeu Katsuragi. — Não tenho o menor desejo de ver alguém da nossa classe ser expulso. No entanto, se eu distribuísse tokens igualmente para uma aluna que nos prejudicou, estaria causando problemas para Sonoda e Morofuji.

Seu olhar permaneceu firme.

— Este é um exame especial em que as expulsões estão em jogo. Não posso colocar aqueles dois em risco por causa de um julgamento injusto.

Mesmo para Katsuragi, aquela era uma decisão amarga. Era justamente esse ponto que ele queria enfatizar. Para proteger alguém, outra pessoa precisava aceitar sua própria insatisfação. Essa estrutura permanecia constante ao longo de todo o exame. E aquela situação não era exceção.

— Então... — disse Ibuki, em um tom mais baixo, embora sua raiva não tivesse desaparecido. — Se eu realmente contribuir direito, você vai me dar mais tokens, certo?

— Claro.

Katsuragi respondeu sem a menor hesitação. Ibuki estalou a língua em irritação e se afastou. Suas costas deixavam evidente sua frustração e descontentamento. Mas, ao mesmo tempo, ela compreendia a realidade diante dela.

Se quisesse contestar o julgamento de Katsuragi, palavras não seriam suficientes. Precisaria fazê-lo através de resultados.

*

 

O sol já estava alto no céu, e o ar da ilha começava a ficar úmido. O relógio mal havia passado das nove da manhã, mas as horas tranquilas do amanhecer já pareciam pertencer a um passado distante.

Uma brisa atravessava os espaços entre as árvores, roçando levemente a pele úmida de suor. Em circunstâncias normais, a sensação poderia ter sido agradável. Agora, parecia apenas mais um fator contribuindo para o entorpecimento da mente. Depois de tantas tarefas mentalmente exaustivas em sequência, a concentração de todos claramente estava no limite.

O breve silêncio antes da próxima atividade física parecia se prolongar muito mais do que realmente durava. Ninguém conseguia relaxar completamente enquanto aguardava a próxima tarefa. Todos permaneciam onde estavam, carregando uma tensão desconfortável que se recusava a desaparecer.

— A partir deste momento — anunciou Urushibara —, vocês enfrentarão diversas tarefas voltadas para capacidades físicas.

A atmosfera entre certos alunos ficou visivelmente mais leve. Depois de serem obrigados a atravessar uma sequência interminável de batalhas mentais, a perspectiva de um desafio físico trouxe alívio para aqueles que vinham acumulando frustração.

Para quem havia ficado para trás nas disputas acadêmicas, finalmente chegara a oportunidade de mostrar aquilo de que realmente era capaz.

— Esta também será uma tarefa em equipe — continuou Urushibara. — Cada classe formará duplas. Assim como antes, as duplas serão escolhidas aleatoriamente por nós. Esta prova testará a força do core e o equilíbrio corporal. A dupla que conseguir permanecer apoiada em uma única perna pelo maior tempo possível, sem tocar o chão com o outro pé, será a vencedora. A classe cuja dupla terminar em primeiro lugar receberá dez tokens. O segundo lugar receberá cinco tokens, e o terceiro receberá três. Já a classe cuja dupla terminar em último lugar terá dois tokens descontados do representante da equipe.

As regras eram simples o suficiente. Se qualquer um dos integrantes de uma dupla colocasse os dois pés no chão, a dupla inteira seria eliminada.

Embora fosse classificada como uma prova física, havia espaço para estratégia. Desde que um dos pés permanecesse suspenso, os participantes podiam dar as mãos, apoiar-se nos ombros um do outro ou utilizar qualquer método que julgassem conveniente. Os detalhes ficavam a critério de cada dupla.

À primeira vista, parecia apenas um simples teste de resistência física. No entanto, a prova exigia compatibilidade e coordenação entre os parceiros.

A capacidade individual, por si só, não seria suficiente. A vitória dependeria da habilidade de cada dupla em se adaptar à condição do outro e distribuir adequadamente o esforço.

— Hã? Duplas? Por que não é individual...? — resmungou Ibuki.

Para alguém tão confiante em suas habilidades físicas quanto ela, ser obrigada a cooperar com outra pessoa era uma clara desvantagem. Dependendo do parceiro sorteado, ela poderia acabar carregando todo o peso da prova ou, pior ainda, sendo arrastada para baixo.

Era natural que não estivesse satisfeita. Quanto mais alguém acreditava que poderia vencer sozinho, mais odiava variáveis imprevisíveis como outras pessoas. Para Ibuki, esse tipo de cooperação era menos uma vantagem e mais uma limitação.

Enquanto isso, eu havia sido emparelhado com Sanada, e Yoshida acabou formando dupla com Morishita. Considerando o porte físico de Sanada, seu centro de gravidade mais elevado e os prováveis limites de sua resistência, tentar dividir o esforço igualmente seria uma má ideia. A abordagem mais estável seria eu servir como eixo de sustentação, absorvendo o máximo possível da carga.

Ibuki, que já vinha reclamando desde antes, não fez qualquer esforço para esconder sua decepção quando descobriu que Morofuji seria sua parceira. Conhecendo o temperamento de Morofuji, era óbvio que qualquer instabilidade emocional afetaria diretamente sua postura.

Para Ibuki, provavelmente era uma das combinações que menos gostaria de tirar.

— Então, qual seria a melhor estratégia aqui? — perguntou Sanada. — Há uma certa diferença de altura entre nós, então apoiar os ombros parece que só prejudicaria nosso equilíbrio... Além disso, para ser sincero, não estou muito confiante.

Se as regras permitissem que um integrante fosse eliminado enquanto o outro continuasse, a melhor estratégia seria simplesmente eu permanecer sozinho. Na verdade, eu preferiria não depender de apoio ou cooperação desnecessários. Mas, se Sanada caísse, eu seria eliminado junto com ele.

Como não havia vantagem alguma em apenas um dos dois continuar, tudo dependia de como distribuiríamos a carga.

— Devemos evitar nos apoiar demais um no outro — respondi. — Esse tipo de estratégia só funciona quando ambos estão correndo grande risco de cair.

— Então você está confiante em ficar apoiado em uma perna só?

— Mais ou menos.

Desloquei levemente o peso do corpo.

— Pense em mim como um objeto fixo, como uma árvore. Faça o que precisar para permanecer equilibrado por pelo menos um segundo a mais.

— Quer dizer que eu posso me apoiar em você da forma que quiser...? Tem certeza?

— Sim. Como dupla, provavelmente essa é a solução mais eficiente disponível para nós.

Ao assumir parte do peso de Sanada, poderíamos prolongar nossa resistência total. Era uma estratégia pensada para evitar um colapso no longo prazo, em vez de buscar estabilidade imediata.

— Muito bem — anunciou Urushibara. — Vamos começar a prova. Preparar... começar.

Ao sinal do supervisor, os dezesseis alunos ergueram um dos pés ao mesmo tempo. Embora todos tivessem iniciado simultaneamente, as diferenças reais não apareceriam de imediato. A verdadeira questão era quanto tempo cada dupla conseguiria resistir.

No começo, não havia grandes diferenças entre elas. Algumas se apoiavam mutuamente. Outras mantinham certa distância. Algumas repousavam parte do peso sobre os ombros do parceiro.

Os métodos variavam, mas nenhuma postura parecia frágil o suficiente para desmoronar imediatamente.

O verdadeiro problema viria depois.

Após algumas dezenas de segundos, ou quando o primeiro minuto fosse ultrapassado, as menores distorções corporais começariam a se acumular. Essas distorções não seriam grandes o bastante para serem percebidas à primeira vista, mas certamente se tornariam as sementes do colapso.

Se não fossem corrigidas a tempo, uma reação em cadeia acabaria derrubando a dupla. A tensão concentrada na perna de apoio aumentava continuamente a cada segundo.

A sensação da sola do pé em contato com o chão começava a ficar confusa. O tornozelo, que até então realizava pequenos ajustes silenciosos, já não conseguia conter completamente os tremores.

O equilíbrio inicialmente mantido através do esforço consciente acabava cedendo lugar a uma luta desesperada e dolorosa apenas para continuar de pé. A transição entre simplesmente manter uma postura e suportá-la desesperadamente. A rapidez com que cada aluno se adaptasse a essa mudança determinaria quanto tempo conseguiria sobreviver.

— D-Desculpa, Kikyo-chan... — disse Ike. — É que... acabamos ficando bem colados assim...

Se era pelo tokens ou porque a prova lhe oferecia uma desculpa legítima para se aproximar dela, Ike tentava ao máximo soar tranquilo. Sua voz, porém, o traía. Uma empolgação evidente já havia escapado pelo seu tom.

Sob o pretexto de manter o equilíbrio, seu ombro encostava no de Kushida. Era óbvio que ele estava excessivamente consciente daquela sensação e da pouca distância entre os dois.

Seus olhos também não estavam focados na prova. Continuavam se desviando para Kushida ao seu lado. No instante em que sua atenção deixou de estar onde deveria, o risco já havia começado a se instalar. O problema era que o próprio Ike não percebia isso.

— Aquele maldito Ike... — murmurou Yoshida ao meu lado enquanto tentava manter o equilíbrio junto com Morishita. — Sinceramente... estou até com inveja...

Talvez estivesse imaginando a si mesmo emparelhado com Shiraishi, a garota de quem gostava. Ou talvez simplesmente não suportasse o fato de Ike ter acabado em dupla com uma garota bonita.

— Você sabe que, neste momento, está legalmente autorizado a tocar meu corpo, não é? — comentou Morishita. — No fundo, você está adorando isso, não está?

— Quem é que ficaria feliz com isso, sua idiota?!

Sua negação saiu com força demais. Se aquele breve surto de emoção afetou seu centro de gravidade ou simplesmente prejudicou sua concentração, ninguém saberia dizer. O fato era que Yoshida perdeu o equilíbrio. Morishita, arrastada pelo movimento, acabou tocando o chão com o pé também.

Os dois foram eliminados. Talvez percebendo que levantar a voz poderia atrapalhar Sanada, que ainda lutava para permanecer na disputa, ambos imediatamente ficaram em silêncio.

Uma única reação dos eliminados poderia quebrar a concentração daqueles que ainda estavam competindo. Seu silêncio demonstrava que compreendiam isso perfeitamente.

Enquanto isso, Kushida não demonstrava qualquer sinal de rejeição ao comportamento de Ike. Tampouco lhe dava qualquer incentivo especial. Ela apenas sorria naturalmente, tratando a proximidade como nada mais do que uma parte da cooperação necessária para a prova.

Seu senso de distância era impecável.

Nem perto demais.

Nem longe demais.

Ela mantinha exatamente a posição que permitia ao outro interpretar aquilo como uma forma de aceitação. Pelo menos, ele não estava sendo rejeitado. Só isso já era suficiente para alguém como Ike enxergar a situação de forma positiva.

E talvez esse pensamento estivesse tornando sua consciência sobre ela ainda mais intensa. Por um instante, ele quase perdeu o equilíbrio. Mas, de alguma forma, conseguiu se recuperar.

— Uwooooh! Eu ainda não acabei!

Shinohara, que fazia dupla com Mii-chan, lançou um olhar afiado para Ike ao vê-lo se empolgar daquele jeito. Mas talvez por não ter margem para chamá-lo a atenção sem comprometer o próprio equilíbrio, permaneceu em silêncio.

Ainda assim, seu olhar transmitia emoções de forma inconfundível.

Ela estava se esforçando desesperadamente para não perder o equilíbrio, mas parte de sua atenção continuava fixa em Ike e Kushida. Não deveria ter espaço mental para se distrair com algo tão irrelevante naquele momento, porém a cena diante de seus olhos era impossível de ignorar.

Como resultado, pequenas perturbações começaram a surgir em sua postura. Ela tentou corrigi-las, mas Mii-chan acabou sendo arrastada junto, e sua própria concentração também foi afetada pelo movimento. A situação se tornou cada vez mais difícil para ambas.

Enquanto fossem uma dupla, a instabilidade de uma inevitavelmente se espalharia para a outra. Aqui também, o mesmo peso que compartilhavam acabava se tornando sua fraqueza. Sem perceber o sofrimento pelo qual as duas passavam, Ike manteve o braço ao redor dos ombros de Kushida e sussurrou próximo ao ouvido dela.

— Heh... Talvez a gente seja mais compatível do que eu imaginava.

— Mm, talvez mesmo — respondeu Kushida com um sorriso suave. — Você é muito bom nisso, Ike-kun, então isso ajuda bastante. Vamos continuar o máximo que conseguirmos.

— C-Claro. Eu vou continuar... nem que seja por mais um segundo...!

Um único elogio foi suficiente para distorcer ainda mais sua concentração. O que ele precisava manter era sua postura. Mas sua atenção já havia sido completamente desviada para outro lugar.

Um minuto se passou. Depois, dois.

Uma posição apoiada em uma única perna, algo que dificilmente duraria muito tempo sozinho, estava sendo prolongada graças à cooperação entre os parceiros. A partir dali, já não era mais uma competição de resistência. Era uma disputa para ver quem conseguiria adiar o colapso por mais tempo.

Ainda assim, permanecer em uma única perna jamais seria algo que o corpo humano pudesse sustentar indefinidamente. Mesmo com apoio mútuo, o tempo extra conquistado não era tão significativo.

Quando a marca dos três minutos se aproximou, uma dupla caiu. Depois outra.

Os limites não chegavam para todos ao mesmo tempo. O colapso de uma pessoa surgia de forma repentina e frequentemente arrastava seu parceiro junto. A próxima dupla a cair foi, como esperado, Shinohara e Mii-chan.

No instante em que uma delas perdeu o equilíbrio, a instabilidade se propagou diretamente para a outra, e ambas desabaram em uma reação em cadeia, sem qualquer chance de recuperação.

A decisão de se apoiarem mutuamente havia sido eficaz. Mas, ao mesmo tempo, carregava o risco de caírem juntas. Por outro lado, as duplas que mantinham distância excessiva também começaram a ser eliminadas. Confiar apenas na estabilidade individual tornava os primeiros momentos mais fáceis, mas, com o passar do tempo, o peso de sustentar-se sozinho se acumulava.

Quando uma pessoa atingia seu limite, se o apoio não chegasse a tempo, tudo terminava imediatamente. As duplas que permaneciam na disputa ocupavam justamente o espaço entre esses dois extremos.

Nem dependiam completamente uma da outra. Nem eram totalmente independentes. Entravam em contato apenas quando necessário e distribuíam o peso conforme a situação exigia. A capacidade de realizar esses ajustes era o que fazia a diferença.

— Se recomponha — disparou Ibuki. — Nem pense em colocar esse pé no chão até eu permitir. Nós vamos vencer isso de qualquer jeito!

Em contraste com a determinação feroz de Ibuki, o rosto de Morofuji já estava completamente contorcido pela dor.

— Isso é... muito mais difícil do que parece...

A pressão mental e a exaustão física a atingiam simultaneamente. Sanada, que se apoiava em mim, encontrava-se em uma situação semelhante. A tensão acumulada na sola e no tornozelo de sua perna de apoio já havia ultrapassado o limite suportável, e, pouco a pouco, mais do seu peso começou a ser transferido para mim.

— Desculpe — disse Sanada, com a voz carregada de esforço. — Acho que isso está começando a ficar difícil para mim também...

— Apenas aguente o máximo que puder.

— Mas, Ayanokoji-kun...

Os pequenos tremores em seu corpo começaram a aumentar.

— Você ainda está bem?

Respondi apenas com um breve olhar. Naturalmente, sustentar um Sanada cada vez mais instável significava que eu também não poderia continuar indefinidamente. Não importava o quão firme eu permanecesse. Absorver constantemente o peso variável de outra pessoa inevitavelmente consumiria minha resistência.

As únicas duplas ainda na disputa eram a de Ibuki e Morofuji, e a de Amikura e Minamikata. O terceiro lugar não teria sido um resultado ruim. Mas aquele provavelmente era o momento de agir.

Se existisse a possibilidade de subir ao menos uma posição, valia a pena tentar. A questão era como fazer isso acontecer.

— Morofuji.

Chamei seu nome deliberadamente. Não havia nenhuma regra proibindo os participantes de falar enquanto permaneciam apoiados em uma perna. No instante em que ouviu seu nome, os ombros de Morofuji estremeceram. Seu olhar, que até então permanecia desesperadamente focado em seus pés, voltou-se imediatamente para mim.

Tudo o que eu precisava era desviar sua atenção. Só isso já bastava para perturbar seu equilíbrio.

— O-O-O quê?

O medo que Morofuji carregava em relação a mim desde a formação do grupo ainda permanecia. Não disse mais nada. Apenas sustentei seu olhar e continuei encarando diretamente seus olhos. Ela claramente sentia um forte desconforto na minha presença.

E isso era suficiente. O medo, por si só, impõe um peso tanto à mente quanto ao corpo. E o que ela sustentava naquele momento não era apenas peso físico.

— E-Eh, Morofuji! Você está balançando! — gritou Ibuki.

A própria Ibuki ainda tinha alguma margem de segurança. Mas, no momento em que a estabilidade de sua parceira começou a ruir, o peso sobre ela aumentou drasticamente. Uma perturbação em um dos lados levava diretamente ao colapso. Enquanto isso, Sanada já não possuía condições de prestar atenção aos movimentos dos adversários.

— Por que isso é tão difícil...?

O barulho ao redor parecia não mais alcançá-lo. Sua consciência havia se voltado completamente para dentro de si, concentrada na batalha contra o próprio corpo.

A força do core era importante, mas as panturrilhas e os tornozelos suportavam muito mais carga do que a maioria das pessoas imaginava. Quando alguém chegava a um estado extremo, todas as informações externas eram descartadas.

Restava apenas a luta interior. O peso de Sanada inclinava-se gradualmente em minha direção. Sempre que isso acontecia, eu utilizava uma pequena quantidade de força para corrigir o desequilíbrio.

Um leve ajuste dos ombros. Uma pequena compensação através do quadril. Uma discreta correção utilizando a perna que servia de eixo. Nenhuma dessas ações era significativa por si só.

Mas o acúmulo constante desses pequenos ajustes consumia rapidamente minha resistência física. O limite de um ser humano. Pouco depois, Sanada finalmente atingiu seu limite e colocou o pé no chão.

Felizmente, Morofuji havia feito o mesmo apenas alguns instantes antes. Graças a isso, conseguimos garantir o segundo lugar.

 

 

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag

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