Ano 2 - Volume 1
Capítulo 6: Os Sinais da Expulsão
JÁ PASSAVA UM POUCO das oito e meia da noite de domingo. O dia escolhido por Nanase finalmente havia chegado, e era muito provável que a conversa que teríamos naquela noite determinasse se conseguiríamos ou não cooperar com a turma 1-D.
Ou melhor… precisávamos garantir que conseguiríamos.
A maioria dos alunos, fora das nossas duas turmas, já havia encontrado parceiros. Se não chegássemos a um acordo, poderíamos ser forçados a fazer concessões bastante significativas para evitar penalidades.
Ficou decidido que eu e Horikita conduziríamos a negociação, com Sudou acompanhando Horikita depois de insistir bastante para ir junto. Eu tinha certeza de que ele queria ficar perto dela — mas também que uma grande parte do motivo era cautela em relação ao Housen. Dependendo de como as coisas se desenrolassem, Housen poderia muito bem levantar a mão contra uma garota sem hesitar. Então Sudou estaria lá como guarda-costas de Horikita.
Horikita, claro, se opôs, dizendo que não precisava dele. Mas Sudou insistiu. Desta vez, porém, ela não deu permissão, por mais que ele pedisse. As negociações seriam sérias demais, e ela acreditava que a presença dele poderia atrapalhar.
No entanto, eu a fiz mudar de ideia. O motivo que dei foi que Sudou poderia agir em meu lugar caso algo inesperado acontecesse e a situação saísse do controle. As habilidades dele seriam mais do que suficientes para manter tudo sob controle. No fim, Horikita permitiu que ele a acompanhasse, com a condição de que ele não perdesse a cabeça durante a conversa nem ameaçasse ninguém.
Quando desci ao saguão do dormitório para encontrá-lo, Sudou já estava lá, sentado no sofá, esperando. Ele sorriu animado ao me ver.
— Yo!
Na verdade, preciso corrigir algo que disse antes. Não era só que ele queria estar perto da Horikita… Ele realmente queria estar com ela.
— E os estudos? Tá indo bem pra prova? — perguntei.
— Claro, cara. Ainda não vai ser nada incrível, mas acho que consigo pelo menos uns duzentos e cinquenta pontos dessa vez — respondeu Sudou.
Se Sudou, que atualmente tinha classificação E em habilidade acadêmica, conseguisse duzentos e cinquenta pontos ou mais, seria um resultado excelente. Provavelmente sua avaliação no aplicativo OAA subiria para algo próximo de C no mês seguinte.
E ele não estava só falando — estava se esforçando de verdade. Chegava atrasado com muito menos frequência, demonstrava uma boa atitude em sala e levava os estudos a sério.
— Você mudou bastante… até parece que começou a gostar de estudar — comentei.
— Ah, não é que eu goste ou algo assim… mas até que é divertido resolver os exercícios. E, além disso, quando a Suzune me elogia, eu fico tão animado que dá vontade de estudar sem parar.
A atitude agressiva e impulsiva que ele tinha quando chegou à escola parecia ter diminuído. Ainda assim, seu temperamento explosivo não seria fácil de corrigir — mas, se a presença da Horikita era suficiente para mantê-lo equilibrado, já era um grande avanço.
Sudou se levantou e ficou olhando para a tela que mostrava as imagens da câmera do elevador, como se não conseguisse conter a empolgação. Depois sentou novamente, mexendo no celular e arrumando o cabelo. Logo em seguida, levantou outra vez.
Parecia um garoto prestes a sair para o primeiro encontro.
— Ei, Ayanokoji… — murmurou Sudou, ainda olhando para a tela. Talvez tivesse percebido que eu o observava. — Se eu disser pra Suzune o que sinto hoje… você acha que ela… sei lá… aceitaria?
A expressão dele era visível mesmo de perfil. Era séria. Diante disso, não havia como eu não ser honesto.
— Provavelmente não — respondi.
Aquilo poderia desanimá-lo, mas era minha opinião sincera. Achei que ele não ficaria satisfeito com a resposta, mas…
— É… você tem razão.
Sudou concordou sem hesitar, como se já soubesse a resposta.
— Eu sei que a Suzune não é do tipo que fica falando de amor e romance… mas não é só isso. Não tem como ela se interessar por mim agora. Quantas vezes meu jeito arrogante deu problema pra ela? Quantas vezes? Não, não só pra ela… quantas vezes eu causei problema pra todo mundo da turma?
Ele parecia convencido de que, considerando tudo isso, Horikita jamais sairia com ele.
— E, tipo… agora eu tô me esforçando e tal, claro. Mas isso não apaga tudo que eu já fiz de errado. Então, nesses próximos dois anos, eu vou melhorar meus pontos fortes… e corrigir meus defeitos, aos poucos. Se eu fizer isso, tenho certeza de que, quando a gente se formar, vou ter sido útil pra turma — disse Sudou.
— Entendo. É… você pode estar certo quanto a isso.
Sudou poderia, sem dúvida, se tornar um recurso valioso para a nossa turma, graças às suas excelentes habilidades físicas. Eu tinha certeza de que ele poderia se tornar uma peça essencial do grupo, assim como Yousuke e Kushida. Além disso, ele havia desenvolvido a capacidade de se observar com calma e objetividade — e foi justamente por isso que uma pergunta me veio à mente.
— Ei, e se você se esforçar muito e se tornar a pessoa mais exemplar da turma… mas, mesmo assim, a Horikita não olhar pra você? O que faria então? Passaria a odiar coisas como estudar? — perguntei.
Havia a possibilidade de alguém desmoronar ao perceber que todo o esforço foi em vão. No caso do Sudou, isso era ainda mais provável, já que ele estava fazendo tudo aquilo por causa da Horikita.
— Ah, com certeza eu ia querer largar tudo, sabe? Tipo… talvez até pensasse que queria morrer. Talvez até desse vontade de sair por aí socando alguém. Mas, se eu realmente fizesse isso, tenho certeza de que a Suzune ia ficar muito decepcionada comigo. Tipo, desistir dos estudos, sair quebrando tudo… isso seria patético. Eu definitivamente não quero fazer nada disso, nem pensar — respondeu Sudou.
Uma resposta excelente. E parecia sincera. Claro, a verdadeira prova viria quando ele realmente enfrentasse essa situação. Por mais que alguém diga que está preparado para lidar com um resultado negativo, é bem provável que pense diferente quando a dor realmente chegar. Ainda assim, se ele conseguia dizer aquilo agora, provavelmente não havia com o que me preocupar por enquanto.
— Ah, parece que ela chegou! — disse Sudou.
A câmera mostrava Horikita entrando no elevador. Sudou parecia inquieto, então se afastou, virou de costas para a porta do elevador e começou a respirar fundo, esticando os braços como se estivesse fazendo um aquecimento. Pouco depois, o elevador chegou ao térreo. Sudou ainda respirava fundo.
— Desculpem pela demora. O que o Sudou-kun está fazendo? — perguntou Horikita.
— Parece que está respirando fundo — respondi.
Horikita ficou com uma expressão confusa por um instante, mas logo voltou ao seu semblante habitual, sério.
Hoje, nos encontraríamos em uma das salas de karaokê do Keyaki Mall. Tanto durante a semana quanto nos fins de semana, esses lugares eram bastante populares, já que podíamos usá-los até às dez da noite. O karaokê era, claro, uma das instalações recreativas da escola — muito usado para aliviar o estresse ou conversar com amigos.
Mas, naquela escola, tinha outra utilidade importante. As salas eram privadas, o que as tornava perfeitas para discussões detalhadas, sem o risco de serem vistas ou ouvidas. Eram os lugares ideais para reuniões secretas dentro do campus. Claro, em termos de confidencialidade, nada superava o próprio quarto no dormitório — mas isso limitava bastante quem você podia encontrar.
Com a prova se aproximando na semana seguinte, não parecia haver muita gente por ali naquele horário. Era, portanto, o momento perfeito para encontrar Housen em segredo.
— Ei, você tem certeza mesmo de que a gente consegue fazer aquele novato arrogante ajudar a gente? — perguntou Sudou.
— Eu não teria investido tanto tempo nisso se não acreditasse que podemos estabelecer uma cooperação — respondeu Horikita.
Exatamente. Estávamos ali justamente porque já tínhamos concluído que isso era possível.
— Neste momento, muitos dos alunos talentosos do primeiro ano já foram garantidos por Sakayanagi-san e Ryuen-kun. E a Ichinose-san se ofereceu para salvar os mais fracos. As únicas armas que nos restam são pontos ou confiança — disse Horikita.
— É… faz sentido… A gente não vai ganhar da Sakayanagi ou do Ryuen em pontos, e também não dá pra competir com a Ichinose em confiança — comentou Sudou.
— Exatamente. É por isso que Housen-kun representa, ao mesmo tempo, uma oportunidade e um problema para nós.
Housen não seria influenciado pela reputação da Classe A, nem por uma quantia insignificante de pontos privados. E tampouco daria atenção à "salvação" oferecida por Ichinose. E era justamente por isso que nós, da Classe D, ainda tínhamos uma chance.
— Então a ideia é ver o quanto dá pra pressionar eles a fecharem acordo com a gente, sem a gente ter que ceder demais — disse Sudou.
— Isso mesmo. Quanto mais o tempo passa, mais nós, alunos do segundo ano, começamos a ficar pressionados. Com tantos alunos já tendo formado duplas, ficaremos em desvantagem inevitavelmente.
Se recusássemos os termos de Housen, ele não teria piedade. Simplesmente mudaria de plano e nos deixaria à mercê do acaso, formando pares aleatórios. Ele não se importava nem um pouco com o fato de seus próprios colegas serem penalizados. Eu estava interessado em ver como Horikita pretendia enfrentá-lo.
*
— Ei, ah… pensando bem, a reunião não é às nove? A gente não chegou cedo demais? — perguntou Sudou.
Ainda faltava bastante para as nove. Tínhamos cerca de trinta minutos até o horário combinado.
— Não tem problema. Só quis chegar com antecedência — respondeu Horikita.
Sudou não entendeu muito bem o motivo, mas não questionou e seguiu com a gente. Fiquei pensando se Horikita queria esse tempo para se acalmar, ou se estava receosa de algum tipo de armadilha. Enquanto Sudou parecia enxergar o oponente apenas como "um novato", Horikita não dava sinais de baixar a guarda. Pode até parecer cautela excessiva, mas, considerando que estávamos lidando com Housen, não havia motivo para criticá-la.
Recebemos um papel com o número da sala e as informações da reserva na recepção, e então entramos.
— Pode avisar a Nanase-san que já chegamos? — pediu Horikita.
— Pode deixar — respondi.
Enviei uma mensagem para Nanase informando que já estávamos lá. Como esperado, ela respondeu dizendo que chegariam no horário combinado.
— Vamos pedir nossas bebidas então — disse Horikita.
— Não era melhor esperar eles? — perguntou Sudou.
— Não tem problema.
Depois de escolhermos as bebidas, olhamos o cardápio de comida.
— Pode pedir alguma coisa se quiser. O que você quer? — perguntou Horikita.
— Hum… batata frita, eu acho. Pode ser? — disse Sudou.
— Claro.
Horikita usou o telefone da sala para fazer o pedido. Depois disso, Sudou pareceu um pouco mais relaxado. Ele pegou o microfone.
— Então… ainda falta um tempo pra reunião… que tal cantar alguma coisa?
— Eu não vou cantar — respondeu Horikita.
— Hã? Sério que não?
Tínhamos chegado cedo, pedido comida e bebida… então era natural que Sudou pensasse que o próximo passo seria cantar. Ele ficou visivelmente desapontado — provavelmente queria ouvir a voz da Horikita.
— Sudou-kun, vou te avisar mais uma vez: não diga nada desnecessário — disse Horikita.
— T-Tá bom… mas, ei, você devia dizer isso pro Ayanokoji também, não?
— Ele não fala mais do que o necessário. Na verdade, ele é do tipo que não fala nem quando deveria — respondeu Horikita.
Aquilo estava longe de ser um elogio. Era só mais uma reclamação dela sobre mim. Sudou fez um bico, claramente insatisfeito com a resposta.
Quando chegou o horário da reunião, a primeira a entrar foi Nanase.
— Desculpem pela demora — disse ela.
— Sai da frente, Nanase — resmungou Housen Kazuomi atrás dela, empurrando-a para dentro.
— Ah, chegaram bem na hora. Eu já estava achando que viriam bem atrasados — disse Horikita, como se não fosse surpresa caso ele tivesse feito isso de propósito.
— Ei, eu sempre chego na hora quando decido ir a algum lugar. E não gosto de gente reclamando só porque me atrasei um pouco. Enfim… vocês chegaram cedo pra caramba… o quê? Tavam com tanto medo de esperar por mim assim? Relaxa — provocou Housen.
— Pode parar de imaginar coisas? Não entenda errado. Só estávamos aproveitando, já que viemos até o karaokê — respondeu Horikita.
Sobre a mesa, havia bebidas parcialmente consumidas e comida pela metade. Ela havia preparado tudo para parecer que estávamos nos divertindo até o último momento.
— Parece mesmo — disse Housen.
Ou seja, a negociação já tinha começado.
— Bom, tanto faz. Logo eu descubro se vocês estão blefando, quando a gente começar a conversar — disse Housen.
Ele se jogou no sofá como se fosse o dono do lugar, ocupando espaço suficiente para três pessoas. Era difícil acreditar que ele era um novato.
— Então? A Nanase já me explicou tudo. Disse que vocês querem que a minha turma ajude vocês.
"Minha turma", ele disse. Pelo jeito, a turma 1-D já estava completamente sob controle dele.
— Não exatamente. O que estou propondo é cooperação entre as duas turmas. Ninguém acima ou abaixo. Em igualdade — respondeu Horikita.
— É mesmo? Então você não vai usar o fato de ser de um ano acima, hein. Nada mal… não ser arrogante é uma escolha inteligente.
Nanase apenas observava em silêncio, sem interferir. Como mediadora — e a única que ele trouxe — era evidente que Housen confiava nela. Não sabia se era por coragem ou por outro motivo, mas havia valor ali.
— Sei que ainda há alunos no seu ano que não se importam muito com os colegas. Mas depois de nos observar, você deve entender melhor. Vai chegar um momento em que você vai precisar da ajuda da sua turma — disse Horikita.
— Então… você tá dizendo que a gente precisa trabalhar junto pra ninguém ser expulso, é isso? — perguntou Housen.
— Se você realmente tem tanta autoridade sobre sua turma a ponto de vê-la como propriedade sua, isso na verdade facilita bastante esse acordo. Com uma única ordem, vários dos seus colegas vão obedecer, certo? — disse Horikita.
Housen levantou o dedo mindinho esquerdo, enfiou no ouvido e começou a mexer. Depois tirou o dedo, apontou para Horikita e soprou a sujeira na direção dela. O rosto de Sudou se contraiu, mas ele lembrou do aviso de Horikita e se conteve. Seus punhos cerrados tremiam sobre o colo. Horikita apenas suportou o comportamento vulgar de Housen, sem desviar o olhar.
— Pode parar com isso?
— Bom, pra começar… — disse Housen. Parecia que ele ignorou completamente o que ela disse, falando como se estivesse sozinho. — Dá pra dizer que você é a líder da Classe 2-D, né? — continuou, voltando ao início para testar a base da conversa.
— Você pode interpretar dessa forma — respondeu Horikita.
— Não acho estranho a Horikita-senpai ser a líder, considerando as habilidades dela — disse Nanase, dirigindo-se a Housen. Foi a primeira vez que ela falou desde o início.
— Certo então. Vou dar um aviso pra líder aqui. Nem ferrando que eu vou cooperar com você nessa baboseira de "igualdade" — disse Housen.
Como esperado, ele não facilitaria as coisas. Não havia como ignorar a diferença entre nós. Queríamos proteger nossos colegas a qualquer custo, enquanto Housen não se importava em sacrificá-los. Além disso, as penalidades eram completamente diferentes: nós arriscávamos expulsão, enquanto eles perderiam apenas pontos.
— Era de se esperar. Você é esse tipo de pessoa mesmo — disse Horikita.
— Já que você sabe disso, então fala logo. Para de ser mão de vaca. Se tiver uma boa proposta, eu escuto — disse Housen.
— Escutar? O que exatamente você espera? Acha mesmo que vamos pagar pra você nos ajudar?
Mesmo em desvantagem, Horikita não cedeu nem um centímetro.
— É claro que vão pagar. Não tem como não pagar, né? Nanase, água — ordenou Housen, folheando o cardápio.
Nanase assentiu, pegou o telefone e pediu água na recepção.
— Já disse antes e vou repetir: nossa proposta é de cooperação em igualdade. E, de forma alguma, vamos oferecer dinheiro, bens ou qualquer tipo de compensação — afirmou Horikita.
— Nesse caso, acho que vou embora sem nem beber minha água, né? — disse Housen.
Sem hesitar, bateu nas próprias coxas e fez menção de se levantar.
— Espere, Housen-kun. Acho que deveríamos ouvir o que a Horikita-senpai tem a dizer — disse Nanase, interrompendo-o.
— Ouvir? Não precisa — respondeu Housen.
— Precisa, sim. Do jeito que está, nossa turma nunca vai se unir — disse Nanase.
Horikita observou os dois em silêncio enquanto trocavam palavras.
— E daí? Quem não consegue seguir ordens pode muito bem ser jogado fora. Não vou derramar uma lágrima pelos fracos — disse Housen.
— Isso não está certo — respondeu Nanase.
— Nanase… você é idiota ou o quê? — disse Housen, soltando um suspiro pesado. Parecia mais irritado do que furioso. — Não tem vantagem nenhuma pra gente aceitar os termos deles assim.
— Eu entendo o que você quer dizer, Housen-kun. É verdade que a Horikita-senpai e os outros estão desesperados para proteger seus colegas, e devem ter seus motivos. Se não ajudarmos, alguns alunos podem ser expulsos. Mesmo que estejam firmes agora, eventualmente terão que ceder. É isso que você está esperando, não é? — disse Nanase.
Não parecia que ela havia interrompido sem entender o plano dele. Muito pelo contrário — ela entendia perfeitamente.
Então continuou:
— Não acho que sua estratégia seja ruim, Housen-kun. Enquanto as outras turmas buscavam parceiros, você escolheu não agir, abrindo mão das negociações iniciais. Tudo para ganhar vantagem depois, aumentando seu poder de barganha.
À medida que o prazo se aproximava, os alunos do segundo ano ficariam cada vez mais pressionados. Até mesmo aqueles que normalmente não teriam valor passariam a ser disputados.
— Se você entende o que eu tô fazendo aqui, então que tal me explicar qual é a vantagem de ajudar a Horikita? O que eu ganho com isso? — disse Housen.
— Um relacionamento baseado na confiança — respondeu Nanase.
Ela olhou para Horikita, que assentiu em concordância.
— Ah, fala sério. Relacionamento baseado em confiança? Isso é um monte de besteira inútil. Só palavras bonitas.
— Tem certeza disso? — rebateu Nanase diretamente. — Pode até ser que, neste exame, a gente não precise fazer muitas concessões. Mas não dá pra garantir que isso vai continuar assim no futuro. Se você fizer de todos os alunos do segundo ano seus inimigos, Housen-kun, pode acabar numa situação em que ninguém vai querer ser seu parceiro — não importa quantos pontos você tenha. E, mesmo que a penalidade fosse só pontos, o que você acha que aconteceria se o seu parceiro tirasse uma nota baixa de propósito? A expulsão seria inevitável.
— Hah. Você realmente acha que existe alguém que iria tão longe assim só pra me derrubar? — disse Housen.
— Ouvi dizer que essa escola tem algo chamado Pontos de Proteção — continuou Nanase.
Ela desviou o olhar de Horikita e, pela primeira vez naquela noite, encarou diretamente Housen. Era exatamente o assunto que eu havia mencionado a ela na biblioteca. Horikita pareceu surpresa por um instante, mas logo entendeu e concordou.
— Isso mesmo. São pontos especiais que podem anular uma expulsão… uma única vez — explicou.
Pela expressão de Housen, era evidente que ele nunca tinha ouvido falar disso.
— Não é de se estranhar que você não saiba, já que acabou de entrar. Por isso, é melhor lembrar bem disso. Se um exame parecido surgir no futuro, e seu parceiro tiver um Ponto de Proteção… dependendo da situação, você pode acabar sendo expulso sem chance de evitar — disse Horikita.
Quanto mais inimigos ele fizesse, maior seria a chance disso acontecer.
— É por isso que precisamos começar a construir uma relação de confiança desde agora — completou Nanase.
— Entendi. Então vocês vieram preparados pra tentar me manipular com esse papo furado, né? — disse Housen.
— Eu sou aluna do primeiro ano. Minha prioridade é a Classe 1-D. E justamente por reconhecer que você é uma peça essencial da nossa turma, Housen-kun, não quero que você cometa o erro de pensar só no curto prazo — respondeu Nanase.
Horikita havia analisado bem Housen antes de direcionar sua estratégia para Nanase. E, ao conseguir a cooperação dela, aplicaram um golpe certeiro. Estávamos em desvantagem… mas a situação começava a virar. Agora, restava ver como Housen reagiria.
— Heh… vocês realmente pensaram bem nisso, hein. Mas… sinto muito dizer… ainda não tenho a menor intenção de aceitar essa tal "parceria igual" — disse Housen.
Mesmo após toda a argumentação, ele recusou sem sequer fingir considerar.
— Ei, Housen! Você tá falando sério? Vai mesmo comprar briga com todo mundo assim — começou Sudou.
Mas Horikita estendeu o braço e o interrompeu.
— Ele ainda não saiu da mesa de negociação.
— É isso aí. Não tira conclusões precipitadas — disse Housen, respondendo a Sudou. Ele continuava sentado, confiante como sempre.
— Então o que você pretende fazer? Nós não vamos mudar nossa posição. Queremos uma parceria igualitária — afirmou Horikita.
— Já entendi isso. Dou crédito pra você… tem coragem, garota — disse Housen, batendo palmas cinco vezes, como se estivesse impressionado. — Mas, mesmo assim… essa história de igualdade… não parece tão igual assim pra mim.
— Então, se mostrarmos provas de que é, você aceita cooperar? — perguntou Horikita.
— Algo assim, talvez — respondeu Housen.
— Isso não faz sentido. Estaríamos operando sob as mesmas condições. Por que acha que não seria igual? — disse Horikita.
— Vocês ficam falando de confiança… mas confiança é via de mão dupla, não é? Isso não quer dizer que eu tenho que aceitar tudo que vocês oferecem de bom grado. Essa história de que nossa turma pode acabar na mesma situação no ano que vem… que a gente pode se dar mal… nossa, como eu deveria ser grato por isso, né? Tô até emocionado aqui. Mas isso não passa de uma previsão conveniente pra vocês. Não é garantia nenhuma de que vai acontecer — disse Housen.
Housen realmente tinha um ponto. A proposta de Horikita se baseava na premissa fundamental de apoio mútuo. No entanto, naquele momento, era a nossa turma que precisava de ajuda. A ideia era que, em troca do auxílio deles, quando chegasse a vez de precisarem de algo, nós retribuiríamos. Nesse sentido, era como uma espécie de seguro — e havia uma boa chance de que eles nunca precisassem usá-lo.
— Entendo. Nesse caso, já que quer seguir por esse caminho, por que não me diz o que você gostaria? Só para referência — disse Horikita.
— Me entregue um milhão de pontos privados como garantia. Aí, se algum dia a gente estiver em apuros e vier pedir ajuda, eu devolvo tudo — disse Housen.
Era, de fato, uma quantia relativamente razoável, considerando o quanto gastaríamos lidando com outras turmas. Porém, se a turma dele nunca precisasse acionar esse "seguro", estaríamos basicamente entregando um milhão de pontos de graça. Em outras palavras, tudo acabaria no bolso do Housen.
— Quero dizer, se esse papo de relação baseada em confiança vai ser tão importante no futuro assim, como você diz, então não é um preço tão alto, né? — acrescentou ele.
Mas, se a turma dele realmente viesse pedir nossa ajuda algum dia, recuperaríamos o milhão de pontos.
— Se quiser, a gente pode colocar isso por escrito. E aí? — disse Housen.
Se formalizássemos o acordo, a escola reconheceria sua validade e poderia aplicá-lo. Mas tudo dependia da suposição de que Housen realmente recorreria a nós no futuro. Era possível que ele acionasse o acordo caso estivesse prestes a ser expulso, mas eu duvidava que abrisse mão desses pontos para ajudar seus colegas. Isso tornava a proposta ainda mais arriscada do que acordos individuais.
Housen havia feito uma boa jogada. Ao que tudo indicava, não era apenas forte fisicamente — ele também era um negociador habilidoso, tão astuto quanto Ryuen.
— É verdade que o que você disse não é totalmente irracional. No entanto, não posso aceitar seus termos — respondeu Horikita.
— Entendi, entendi. Que pena. Eu ofereci um jeito simples de resolver tudo isso, e você continua fazendo jogo duro — disse Housen.
— Ao que parece.
Ficava claro que Horikita não tinha intenção de ceder a um acordo que favorecesse apenas Housen. Mas isso significava correr o risco de termos parceiros definidos aleatoriamente — e, nesse caso, teríamos que minimizar danos usando pontos para garantir parceiros melhores para os alunos com pior desempenho.
Housen soltou uma risada curta.
— Ha!
Ele se inclinou para frente no sofá pela primeira vez desde que havia se sentado. Em seguida, estendeu o braço e agarrou a gola da camisa de Horikita.
O primeiro a reagir foi Sudou, que estava ao lado dela. Ele segurou o braço de Housen com força e lançou um olhar ameaçador.
— Ei… nem pense em encostar numa garota — rosnou Sudou.
— Oh? Agora é a vez do idiota, é? — provocou Housen.
— Calma, Sudou-kun — disse Horikita.
— Mas…!
— Está tudo bem. As negociações ainda não terminaram.
Podia parecer que tudo havia desmoronado, mas Housen ainda não tinha dito explicitamente que encerraria a conversa.
— Hmph… esse olhar confiante. Você acha mesmo que eu não encostaria numa garota? Ou acha que pode me vencer só por ser mulher? — disse Housen.
— É surpreendente ouvir algo assim nos dias de hoje. Que tal controlar um pouco esse seu machismo? — retrucou Horikita.
— Então vou te dar uma opção melhor. Se vocês conseguirem me derrotar numa luta e me fazer pedir arrego, eu aceito sua proposta de parceria igualitária, sem condições. Que tal? — disse Housen, lançando uma proposta absurda.
— Beleza, então eu luto com você. Não tem problema, né? — disse Sudou.
— Claro, pode vir. Você, aquele esquisitão do Ayanokoji ali, ou até você mesma, Horikita. Aceito qualquer um — respondeu Housen. — Aliás, se quiserem, posso enfrentar os três de uma vez.
— Pra mim está ótimo, Horikita. Se eu vencer, a gente fecha o acordo… além disso, já estou de saco cheio desse cara — disse Sudou, claramente no limite, enquanto Housen ainda segurava a gola de Horikita.
— Decidir uma parceria com base em uma luta? Isso é completamente absurdo. Mesmo que fosse nossa única carta, não deveríamos aceitar — afirmou Horikita.
— Ué, mas por quê? Se o Housen tá de boa com isso, qual o problema? — rebateu Sudou.
Horikita o ignorou e expôs calmamente seus pensamentos:
— Achei que você fosse um pouco mais inteligente que isso, Housen-kun. Quando apareceu no nosso andar pela primeira vez, entendi suas intenções pelas suas palavras. Você disse que estava disposto a unir forças com nossa turma, e eu concordei. Pensei que seria ótimo cooperarmos como classes.
— É… acho que eu disse algo assim — respondeu ele.
— Mas… isso foi um mal-entendido da minha parte. Você nunca teve essa intenção — disse Horikita. Ela fechou os olhos por um instante, respirou fundo e continuou: — Essas negociações acabam aqui.
Quem declarou o fim da conversa não foi Housen, mas a própria Horikita. Até então, ele parecia se divertir bastante, mas no momento em que ela encerrou tudo, um lampejo de irritação passou por seu rosto. Ele soltou a gola dela.
Ao ver isso, Sudou voltou a se sentar, contendo a própria raiva. E, no instante seguinte…
Splash! A água se espalhou pelo ambiente. Housen pegou um copo com sua mão enorme e jogou todo o conteúdo diretamente no rosto de Horikita. Ela jamais poderia ter previsto aquilo. Antes que conseguisse dizer qualquer coisa, Sudou avançou sobre Housen, praticamente saltando por cima da mesa.
— Seu desgraçado! — rosnou Sudou.
Ele já estava no limite, tentando desesperadamente se controlar. Mas ver Horikita ser humilhada daquele jeito fez qualquer racionalidade desaparecer. Housen parecia decidido a continuar provocando até o fim, como sempre fazia. Ninguém poderia culpar Sudou por perder a cabeça ao ver a garota de quem gostava sendo tratada assim.
— Pare!
Quem o deteve foi a própria Horikita, no exato instante em que ele explodiu. Se ela tivesse se atrasado um segundo sequer, o punho de Sudou já teria acertado o rosto de Housen.
— Sudou-kun… não caia tão facilmente no jogo dele — disse Horikita.
— Eu sei, mas…! — retrucou ele.
Horikita olhou para Housen, sem sequer se preocupar em secar o cabelo molhado.
— Se está irritado porque as negociações fracassaram, talvez devesse ter se comportado melhor.
Ela queria estabelecer uma parceria a qualquer custo, pelo bem da turma. Então… será que havia decidido que insistir mais não valia a pena? Housen manteve o olhar fixo nela, mas Horikita desviou, como se já tivesse visto o suficiente.
— Vamos — disse ela.
— T-Tem certeza? — perguntou Sudou, ainda frustrado.
— Você está mesmo bem com isso, Housen-kun? — questionou Nanase, quase ao mesmo tempo.
— Hã? — respondeu Housen.
— Acho que deveríamos ter aceitado trabalhar com a Horikita-senpai — disse Nanase.
— Ha! Foram eles que saíram da negociação. Não vou ceder pra eles — retrucou Housen.
Nem Housen nem Nanase impediram Horikita de encerrar tudo. Simplesmente aceitaram que cada lado seguiria seu caminho. Olhei de lado para Horikita, tentando avaliar seu estado. O fracasso das negociações era um grande revés, mas, pela expressão dela, não parecia decepcionada.
Na verdade… parecia que ainda não tinha terminado. Como se aquilo tudo ainda fizesse parte da negociação.
*
Nós três deixamos o karaokê depois que Horikita pagou a conta. Parecia que tudo tinha acabado, mas Housen e Nanase vieram atrás. Sudou se virava de vez em quando para encará-los com hostilidade, mas como estávamos indo pelo mesmo caminho até o dormitório, não havia muito o que fazer.
Talvez entendendo a situação, Housen chamou:
— Ei, espera aí.
— Não temos motivo para esperar. Já terminamos de conversar — respondeu Horikita friamente.
Ela o ignorou, mas Housen não demonstrou intenção de desistir. Pelo visto, a aposta arriscada de Horikita havia dado resultado.
— Tá, é como você disse, Horikita. Naquele dia, eu fui até a sua turma. Porque percebi logo de cara que, nessa escola, a Classe D é o fundo do poço. E, em vez de deixar as outras turmas zombarem da gente, o jeito mais rápido de lidar com isso seria a gente trabalhar junto. Classe D com Classe D — disse Housen.
Naquele momento, ele realmente tinha enviado esse sinal, como Horikita interpretou. Mas querer cooperação em igualdade… isso era outra história.
— E daí? — disse Horikita.
— "E daí"? Qual é? Você vai mesmo deixar tudo acabar assim? Você e eu somos parecidos, sabia? Somos líderes que pensaram na mesma coisa. Entende? — disse Housen.
— Enquanto continuar fazendo exigências absurdas, nada vai mudar — respondeu Horikita.
— Então você pretende encarar essa prova assim mesmo? Deixar tudo como está, cair em pares aleatórios e sofrer penalidade?
— Exatamente. Estamos preparados para isso, se necessário — afirmou ela.
Seria doloroso, mas não era um teste impossível. Graças a Kushida e outros, já estávamos garantindo segurança para os alunos com notas mais baixas.
— Entendi… então que tal isso?
Mesmo sem autorização para retomar a negociação, Housen continuou por conta própria.
— Eu mando todo mundo da minha turma fazer dupla com vocês. E vocês me dão seus pontos. Dois milhões — disse ele.
Aquilo não era um compromisso — era uma escalada. Ele reabriu as negociações exigindo ainda mais do que antes.
— Dois milhões? Vejo que finalmente mostrou suas verdadeiras intenções — disse Horikita.
— Fala o que quiser. Mas é o único jeito de vocês evitarem a expulsão com certeza. A maioria já arrumou parceiro. Não tem nada a ganhar sendo mão de vaca. Ou quer ser esmagada por mim? — provocou Housen.
A essa altura, havíamos chegado à bifurcação onde o caminho se dividia entre os dormitórios do primeiro e do segundo ano. Horikita parou e se virou para responder à provocação de Housen.
— Esmagar? E como exatamente pretende fazer isso? Você não pode tirar nota baixa de propósito por causa das regras, então não pode nos expulsar assim. Regras que você é obrigado a seguir, aliás. Ou será que não tem coragem de quebrá-las? Nesse caso, tudo o que precisamos fazer é garantir que as duplas consigam pelo menos quinhentos e um pontos, independentemente da combinação — disse Horikita.
— É, não vou fazer isso de forma indireta. Vou esmagar vocês com isso aqui — respondeu Housen, erguendo o punho com um sorriso ameaçador.
— Controle por meio da violência… Imagino que existam pessoas como você em todo lugar — disse Horikita.
— Não me importa se você não gosta. É assim que eu faço as coisas — retrucou Housen.
— Entendo. Nesse caso, parece que nunca chegaremos a um entendimento.
Horikita voltou a andar. Mesmo no último instante — na derradeira oportunidade — ela não cedia. Ou melhor, Housen era exatamente o tipo de adversário diante do qual ela não podia ceder. Porque, se cedesse, nunca conseguiria a parceria que desejava.
— Espera aí.
— O que foi agora? — perguntou Horikita.
— Já entendi. Vou levar em consideração o que você disse.
No último momento, Housen soltou algo inesperado.
— Do que você está falando? — questionou Horikita.
— Quero dizer, é natural tentar manter a vantagem numa negociação o máximo possível, não é?
Ele basicamente admitia que estava tentando forçá-la a ceder.
— Então você está dizendo que aceita uma parceria completamente igualitária? — disse Horikita.
— Pensa nisso como se a nossa conversa fosse entrar na prorrogação. Mas, enfim, alguém pode acabar vendo a gente aqui. Vamos mudar de lugar.
Já eram quase dez da noite de domingo. A maioria dos alunos já devia estar nos dormitórios, mas ainda assim havia o risco de alguém passar e ouvir tudo.
— Mesmo assim, não podemos levar isso para dentro dos dormitórios — respondeu Horikita.
Por causa do toque de recolher, não havia muitos lugares adequados para se reunir. Mas, com o tempo se esgotando para ambos os lados, não era algo que pudíamos adiar.
— Qualquer lugar serve. Nos dormitórios, em qualquer canto. Só precisamos de alguns minutos pra resolver isso — disse Housen.
Ele parecia completamente confiante de que Horikita não recusaria. Era exatamente o que ela queria: que ele viesse atrás, mesmo depois de tê-lo ignorado antes.
— Muito bem. Você tem dez minutos — disse Horikita.
— Vamos, por aqui.
Housen nos levou até o prédio que antes era usado pelos alunos do terceiro ano e agora servia para os do primeiro. Fomos até os fundos — um lugar escuro e silencioso, usado apenas para descarte de lixo. Era improvável que alguém nos visse ali.
— Certo, vamos continuar de onde paramos. As condições não mudaram. Entendido? — disse Horikita.
— É… deixa eu ver…
Housen pareceu pensar por um momento. Cruzou os braços, depois descruzou rapidamente e levantou três dedos da mão direita.
— Três milhões. Vocês me pagam, e eu salvo todos aqueles idiotas que vocês têm agora — disse ele.
Ao ouvir aquilo, todos nós — inclusive eu — ficamos em silêncio, atônitos.
— Do que você está falando? — disse Horikita.
Aquilo era o cúmulo do absurdo. Até ela soltou um suspiro. Estávamos tentando retomar a negociação… e ele aumentava ainda mais o valor exigido.
— Ué, não entendeu? Eu disse que trabalho com vocês por três milhões — repetiu Housen.
— Para de brincar com a gente! A gente já disse que não vai dar um único ponto! — gritou Sudou.
— Não estou brincando. Eu até dei outra chance pra vocês negociarem comigo, não foi? — respondeu Housen, como se tivesse total controle da situação.
— Ao que parece… cometi um erro de julgamento ao decidir ouvir você — disse Horikita.
A possibilidade de Housen tomar uma decisão sensata era um tênue raio de esperança para Horikita. Mas, no fim das contas, seu desejo não foi atendido.
— Espera aí. Cê acha mesmo que pode simplesmente ir embora? — rosnou Housen.
Ele bateu levemente o punho contra a parede, fazendo uma demonstração ameaçadora.
— O quê? Você acha que, só porque estamos em um lugar isolado, pode resolver tudo com violência? Seu método de sempre? — disse Horikita.
— No mínimo, posso te espancar até quase te matar. Que tal isso? — disse Housen.
— Vá em frente, faça o que quiser — respondeu Horikita.
Ela balançou a cabeça e começou a se afastar, provavelmente porque não acreditava que Housen realmente partiria para a agressão física. Mas Nanase, que estava ao lado dele, desviou ligeiramente o rosto, como se antecipasse o que estava prestes a acontecer.
Housen se moveu.
— Suzune!! — gritou Sudou, desesperado, correndo até Horikita e puxando-a para fora do caminho.
O pé de Housen passou exatamente pelo ponto onde Horikita estava um instante antes. Em seguida, seu corpo gigantesco avançou sobre ela.
— E-Espera, o quê—?!
Horikita percebeu que Housen realmente estava tentando machucá-la, mas não conseguiu tirar o corpo do caminho a tempo. Sudou entrou na frente para protegê-la, recebendo os golpes consecutivos de Housen.
— Ngh!
— Haha! Vamos, mostra quanto você aguenta! — gritou Housen.
— Pra mim tá ótimo! Vem com tudo, seu idiota! Qualquer um que levante a mão contra a Suzune não vai receber misericórdia de mim! — gritou Sudou.
Rindo como se estivesse se divertindo ao máximo, Housen partiu para cima de Sudou. E Sudou, já muito além do limite da sua paciência, revidou na mesma medida.
— O-O que você acha que está fazendo…?! — gritou Horikita.
Não era surpresa que ela estivesse tão abalada com a briga que havia começado de repente. Por mais que aquele lugar fosse pouco monitorado, seria um grande problema se fossem descobertos. Suspensão seria o menor dos problemas — poderiam muito bem ser expulsos.
— Horikita-senpai, talvez as circunstâncias desta escola tenham mudado um pouco em relação ao que eram antes — disse Nanase, observando aquela situação incompreensível com um olhar frio. — Assim como você conhece bem como as coisas eram no ano passado, nós, alunos novos, entendemos melhor a situação atual do que você.
— O que você quer dizer…? — perguntou Horikita.
— Alguns representantes do primeiro ano foram convocados à sala do conselho estudantil pelo presidente Nagumo, que nos explicou pessoalmente o estado atual da escola. Ele disse que, a partir deste ano, a escola seria mais meritocrática. E, portanto, os alunos teriam um grau maior de liberdade — disse Nanase.
— Está dizendo que brigar é uma dessas liberdades? — questionou Horikita.
— Não é isso que estou dizendo. No entanto, pelo que Housen-kun conseguiu confirmar, um certo nível de conflito físico entre os alunos é considerado inevitável. E o presidente Nagumo prometeu que não será tão rigoroso em seus julgamentos como foi no ano passado — explicou Nanase.
Diferente do irmão mais velho de Horikita, Manabu, Nagumo tinha uma mentalidade muito mais permissiva quando se tratava de brigas. O conselho estudantil atuava para mediar disputas entre alunos, então, se fosse verdade que pretendiam permitir certo nível de confronto, aquele incidente teria bem menos chances de causar problemas.
Enquanto Horikita e Nanase conversavam, a luta entre Housen e Sudou rapidamente se intensificava, e o vencedor começava a ficar claro.
— Orah!
Mesmo com um físico impressionante, Sudou foi empurrado contra a parede por Housen com uma força superior à que conseguia resistir. Em seguida, Housen o agarrou pela gola com as duas mãos, erguendo-o no ar até que seus pés deixassem de tocar o chão.
— H-Hey!
Mesmo em desvantagem, Sudou tentou desesperadamente reagir. Mas, suspenso no ar, só conseguia se defender, não atacar. Housen aplicava tanta pressão que parecia querer esmagá-lo contra a parede à força.
— Ngh! S-Seu desgraçado! — gritou Sudou.
Ele agarrou os dois braços de Housen e, apesar de estar com os movimentos limitados, acertou-o com o joelho. Housen recuou levemente, e Sudou conseguiu se libertar. Mas, logo em seguida, Housen o atingiu com uma sequência de chutes. Embora Sudou não recuasse, o impacto dos golpes o lançou novamente contra a parede.
Antes da luta começar, eles pareciam estar em pé de igualdade. Mas agora que o confronto havia se intensificado de verdade, a diferença entre eles era considerável. Sudou arrumava inimigos com facilidade e provavelmente já tinha participado de várias brigas. Graças ao seu atletismo e ao físico desenvolvido pelo basquete, quase ninguém havia sido páreo para ele até então.
No entanto, Housen estava em outro nível. Ele provavelmente havia se envolvido em muito mais brigas do que Sudou — inúmeras, na verdade. E devia ter sobrevivido a situações extremamente violentas e perigosas. A diferença de experiência entre os dois era evidente.
Além disso, seus braços eram tão fortes e grossos que era difícil acreditar que ele e Sudou tinham apenas um ano de diferença. E, ainda assim, apesar do tamanho, seus movimentos eram rápidos e ágeis, demonstrando uma espécie de destreza natural.
Havia um motivo para que até mesmo Ryuen tivesse se contido e evitado lutar contra Housen. Simplesmente porque sabia que Housen não era o tipo de oponente que se derrota em um combate direto, mano a mano.
Mesmo assim, Sudou não cairia tão facilmente. Ele era um dos alunos mais fortes de toda a escola — muito acima da maioria. Mas isso apenas significava que ele acabaria suportando os golpes de Housen por muito mais tempo.
Housen continuou a espancá-lo, desferindo uma chuva de golpes de todos os lados. Por mais que Sudou quisesse romper a defesa e encontrar uma abertura, tudo o que conseguia fazer era aguentar os socos furiosos de Housen. Se tentasse contra-atacar, sua guarda seria quebrada em um instante, e Housen o derrubaria.
— Ninguém tem nada a ganhar com isso! — gritou Horikita.
Suas palavras não alcançaram Housen. A essa altura, era impossível detê-lo apenas com palavras.
No entanto, elas chegaram aos ouvidos de Sudou. Ainda que por um breve instante, ele lançou um olhar para Horikita. Ouvir a voz da garota que ele queria proteger acendeu uma chama intensa dentro dele.
— Oraaaah!
Sudou avançou contra Housen com a determinação de alguém disposto a arriscar a própria vida, empurrando-o para longe da parede e tentando derrubá-lo no chão.
— Oh ho, quer medir força bruta, é? — disse Housen.
Sorrindo, ele conteve o corpo robusto de Sudou, agarrou-o e o ergueu novamente no ar.
— Q-Quê?!
Housen girou Sudou e o colocou contra a parede. Depois o empurrou para longe e o provocou, chamando-o com a mão esquerda para que viesse até ele.
— Ah, coitadinho, foi difícil ficar todo espremido contra a parede? Olha, esse tipo de desvantagem é perfeito pra mim. Vem.
— Já chega de você! — berrou Sudou, agora no limite.
Ele estava prestes a lançar outro ataque total contra Housen, quando—
— Ei, Sudou, olha ali a Horikita. Cara, ela tá te encarando feio… tá furiosa, hein. Não acha? — disse Housen, relaxando os punhos e apontando para Horikita atrás de Sudou.
No meio da luta, Housen fez algo que o deixou completamente vulnerável. Sudou percebeu que havia perdido totalmente o controle e se envolvido em uma briga de verdade. Em pânico, desviou o olhar do oponente à sua frente e olhou para Horikita.
Claro, Horikita não estava feliz com Sudou brigando. Mas ela também não estava olhando para ele com raiva. Sua expressão era de preocupação, aflita por não saber o que fazer, incapaz de fazer algo além de gritar para que parassem.
No momento em que Sudou se virou para olhar Horikita, ele se distraiu. E deixou uma abertura. Quando percebeu o que havia acontecido, já era tarde demais. Com um sorriso cruel no rosto, Housen acertou um golpe violento no rosto de Sudou enquanto ele ainda estava distraído. Um impacto forte, completamente inesperado.
Mesmo sendo um lutador resistente, capaz de suportar muitos golpes, aquele provavelmente foi o golpe mais doloroso que Sudou já havia recebido. Se fosse um aluno comum, com um físico comum, poderia ter sido mais do que apenas doloroso — poderia ter causado um ferimento sério.
O corpo de Sudou foi arremessado para trás. Ele deslizou pelo chão, incapaz de se equilibrar.
— Nghh…?!
Ele soltou um gemido quase inaudível, praticamente perdendo a consciência de tanta dor. Housen, que até então havia controlado toda a luta sem recorrer a truques sujos, deliberadamente o atraiu para uma armadilha simples — não apenas para feri-lo fisicamente, mas também mentalmente.
Embora Sudou não parecesse ter desmaiado, ele se contorcia de dor no chão. Mais uma vez, me peguei pensando que tipo de pessoa Housen Kazuomi era. O que ele estava pensando? O que passava pela sua mente? O que o havia levado à mesa de negociações naquele dia?
Era verdade — como Horikita havia dito antes — que, quando nos encontramos pela primeira vez, parecia que ele queria algo da nossa classe. E, como o próprio Housen havia admitido anteriormente, ele achava que seria útil se aliar a outra Classe D. Até aquele momento, ele vinha apenas usando sua posição superior como moeda de barganha nas negociações, e não havia nada de particularmente errado nisso.
No entanto, ao perceber o quão firme Horikita estava sendo, ele entendeu que continuar pressionando seria difícil. Ele percebeu que, se continuasse sendo tão insistente nas negociações, Horikita simplesmente desistiria da ideia de cooperar. Mesmo assim, em vez de tentar chegar a um meio-termo, ele apenas se tornou ainda mais agressivo, violento e hostil. Jogou água no rosto de uma garota e, agora, estava atacando Sudou sem hesitar.
Como ele podia ser tão violento e agressivo mesmo correndo o risco de ser suspenso ou expulso? Era nisso que eu vinha pensando o tempo todo. Será que Housen realmente acreditava que poderia virar o jogo apenas pela força? Não, não parecia alguém tão tolo assim. Nesse caso… o que ele estava buscando? O que exatamente Housen queria ganhar com aquela luta?
— Bom, certo, certo. Seu fiel guarda-costas tá no chão. Quem é o próximo? — disse Housen.
Ele se aproximou, alternando o olhar entre Horikita e eu. Mesmo depois de lutar contra Sudou, ele nem parecia cansado.
— Você acha que nós… acha que vamos nos submeter à sua violência? — perguntou Horikita.
— Eu só vou continuar esmagando vocês. Talvez até faça você assinar um ou dois contratos enquanto estiver chorando. E se recusar, vou continuar atrás de você sem parar… até acabar com você — disse Housen.
Por mais tolerante que o conselho estudantil dissesse ser com brigas, haveria consequências se aquilo passasse dos limites. Além disso, se Housen obrigasse Horikita a assinar algo naquela situação, não haveria como aquilo ser considerado legítimo. Ela poderia fingir obedecer para acalmar as coisas, mas eu não achava que faria isso.
Porque ela simplesmente não podia ceder ao modo de agir de Housen.
— Muito bem. Eu vou te parar — disse Horikita.
Ela se preparou e assumiu uma postura de combate.
— Olha só, isso ficou interessante. Se você quer lutar, eu vou adorar — disse Housen.
Provavelmente, Housen não esperava que Horikita tivesse alguma experiência em artes marciais. Ainda assim, ele não era o tipo de oponente que cairia em truques baratos — algo que Horikita ainda não entendia.
De repente, sem aviso, Housen lançou seu grande braço para frente. Horikita desviou com agilidade e contra-atacou, mirando diretamente no queixo dele. Ela pretendia resolver tudo com um golpe decisivo logo de início.
— Oh ho?
No entanto, Housen segurou o delicado punho de Horikita com uma facilidade alarmante.
— Olha só, isso foi até um bom movimento, garota. Mas que pena.
Ele girou o braço e começou a golpeá-la repetidamente no rosto com tapas violentos. Horikita tentou se defender ou esquivar, mas diante da velocidade esmagadora de Housen, não havia nada que pudesse fazer além de suportar os golpes. Ela foi lançada para trás como se tivesse levado um soco fechado e rolou pelo chão antes de conseguir se segurar.
— S-Suzune! — gritou Sudou, cerrando os dentes e tentando se levantar. Mas suas pernas não respondiam.
— Ei, Horikita. Assina o contrato — ameaçou Housen, olhando para ela caída no chão, lutando contra a dor. — Cinco milhões. Cinco milhões e tudo fica bem. Certo?
O valor havia disparado — alto demais para ser pago.
— V-Você só pode estar brincando… Ayanokoji-kun, chama… chama os professores… — disse Horikita.
Naquele ponto, a intervenção de adultos provavelmente era a única forma de conter a situação. Alternativamente, se uma multidão se reunisse, até Housen seria forçado a parar.
— Pff, então depois de perceber que não é páreo pra mim, você vem com isso…? Tanto faz. Tem certeza que quer seguir por esse caminho? Mesmo que nem todos tenham me enfrentado, alguns de vocês revidaram, não foi? E isso? Tem certeza que quer ser suspensa junto comigo? — disse Housen.
Mesmo que apelássemos à escola e tentássemos justificar que estávamos nos defendendo, era inevitável que também sofrêssemos punições. Ainda assim, se quiséssemos evitar algo pior, o correto seria chamar uma terceira parte para intervir.
— Seu desgraçado! — gritou Sudou.
— Fica no chão!
Sudou conseguiu se levantar e partiu novamente contra Housen. Mas Housen o derrubou com um chute impiedoso e, então, finalmente voltou sua atenção para mim.
— Até quando você vai ficar aí parado só olhando, hein? — disse ele.
— C-Corre… Ayanokoji…-kun…
— Correr? É, melhor não. Se você fugir, os ferimentos da Horikita e do Sudou vão piorar… e muito — disse Housen.
Mesmo naquele momento, continuei pensando. O que exatamente Housen pretendia fazer ali? Ele realmente iria usar violência para impor uma exigência que nunca seria atendida? Não. Isso simplesmente não fazia sentido.
— Horikita. Vou te dar uma última chance.
— Última?
— Se submeta a mim aqui e agora e entregue seus pontos. Faça isso e… eu não mato o Ayanokoji.
Ao dizer isso, Housen colocou a mão no bolso e tirou algo. Por um instante, não consegui identificar o que era por causa da escuridão. Mas, quando ele revelou a ponta afiada, vi algo brilhando em prata.
— V-Você…!
— Ah, você tem olhos, né? Dá pra ver o que é isso. É uma faca. Uma faca de verdade — disse Housen.
Pelo brilho, era claramente diferente das facas retráteis de brinquedo usadas como adereço.
— Se você recusar minha oferta, eu vou esfaquear o Ayanokoji com isso — disse Housen.
— Pare com essa loucura! — gritou Horikita.
— Loucura? Não tem nada de loucura nisso. Se eu puder ganhar pontos com isso, vou até o fim. Entendeu?
Ele começou a se aproximar lentamente de mim, segurando a faca na mão direita.
— Mesmo depois de tudo isso, ainda não entendo. O que você tem de tão especial? — disse ele, olhando diretamente nos meus olhos. Sua voz soava ao mesmo tempo desdenhosa e irritada. — Sabe, talvez eu nem precisasse ter feito tudo isso… nem assumir um risco tão grande.
Pelas palavras dele, parecia que toda aquela sequência absurda de acontecimentos era resultado de uma precaução. Como se ele estivesse desconfiado de algo. Passo a passo, Housen se aproximava de mim.
Quem entrou na frente para detê-lo foi alguém da própria turma dele: Nanase.
— Por favor, pare. Não faça mais nada. Eu… eu simplesmente não posso aceitar a sua forma de agir — disse Nanase.
Ela se colocou entre nós, abrindo os braços e bloqueando o caminho de Housen.

— Sai da frente, Nanase. Você devia estar vigiando pra garantir que ninguém fuja. Então vai fazer isso — disse Housen.
— Eu pensei que, se fosse pelo bem da nossa classe, poderia te apoiar até o fim, Housen-kun. Não importava quão terríveis fossem suas estratégias… eu acreditava nisso. Mas parece que eu estava errada.
Mesmo estando diante de Housen e bloqueando seu caminho, Nanase direcionou o olhar diretamente para Horikita.
— Desde o começo, era impossível você chegar a um acordo com o Housen-kun, Horikita-senpai. Você teve a ideia de formar uma parceria depois que ele foi até o seu andar e disse algumas coisas sobre a sua classe. Mas… aquilo não passou de um truque desde o início. Mesmo que você tivesse pago uma quantia absurda de pontos, como os cinco milhões que ele está pedindo, ainda assim teria acabado do mesmo jeito — disse Nanase.
Depois de ouvir essa verdade chocante, Horikita não pôde deixar de ficar ainda mais abalada e frustrada. Não importava o quanto tentasse pressionar Housen nas negociações ou o quanto se esforçasse — ele nunca teve a intenção de ouvi-la. E aquilo não era culpa dela. Ninguém do nosso lado poderia ter previsto que as coisas chegariam a esse ponto.
Essa sequência inexplicável de acontecimentos provavelmente era resultado de uma desigualdade de informações. Havia coisas que Housen e Nanase sabiam, mas que nós não sabíamos. Nessas circunstâncias, nunca houve uma chance real de negociação.
— Droga, esse seu falatório já tá me irritando. Foi você mesma quem disse que ia me deixar cuidar de tudo, lembra? Se eu acabar com o Ayanokoji, nossa classe vai ganhar uma grana absurda. Dá pra ver o quanto isso vai nos dar vantagem — disse Housen.
— Sim, suponho que você esteja certo. Mas ainda não consigo entender por que apenas o Ayanokoji-senpai precisa ser alvo disso tudo — disse Nanase.
— Isso não é problema meu. Se vai ficar no meu caminho, então pode cair fora também! — gritou Housen.
Seu corpo enorme avançou contra Nanase, e ele a lançou para o lado com um golpe, assim como havia feito com Horikita antes. Enquanto eu permanecia ali, sozinho, observando tudo, cheguei a uma única conclusão. E, com isso, tudo passou a fazer sentido.
— Tô indo, Ayanokoji!
Na mão direita de Housen havia, sem dúvida, uma arma perigosa. Naturalmente, todos assumiram que ele pretendia usá-la contra mim. Sorrindo, Housen ergueu a faca. Inclinei meu corpo para frente, me preparando, enquanto sentia meus pensamentos se tornarem mais claros.
— Ayanokoji-kun…!
Enquanto todos achavam que eu deveria fugir de Housen naquela situação, eu fiz o oposto: corri em direção a ele. Provavelmente todos pensaram a mesma coisa naquele momento — que eu tinha enlouquecido. Afinal, enfrentar alguém armado com uma faca não era exatamente algo sensato. E Housen não era um oponente qualquer; ele já era formidável por si só.
Ao ver isso, o sorriso de Housen se alargou. Ele provavelmente achou que eu era um idiota por avançar contra ele. Mas eu não estava tentando impedir que ele me esfaqueasse daquela forma.
Percebendo que eu estava me aproximando, Housen acelerou o movimento descendente do braço. O alvo da lâmina — aquilo para o qual ele estava apontando — não era o meu corpo. Housen Kazuomi estava mirando em si mesmo. No meio do golpe, usei minha mão esquerda para impedir que a faca atingisse seu destino. Não segurei o braço dele.
Também não tentei desviar. Em vez disso, projetei minha palma para frente.

— O quê—?! — gritou Housen, surpreso.
O que eu havia feito era algo que ele claramente não esperava.
Bem, era praticamente impossível que ele previsse minha ação. Ninguém imaginaria que eu deliberadamente permitiria ser esfaqueado. O braço que Housen havia lançado para baixo parou completamente, e o sorriso em seu rosto desapareceu num instante.
— Você… Ayanokoji!! — rosnou ele.
Ele estava confuso, como qualquer um estaria diante da minha decisão de aceitar ser esfaqueado de propósito. Minhas ações deviam parecer desesperadas e imprudentes. Sangue fresco jorrou do ponto onde a faca havia atravessado a palma da minha mão.
— Essa faca… ou melhor, essa faquinha ridícula. Fui eu quem a comprou — eu disse a Housen.
— Do que você está falando…?
— Você ia se esfaquear na perna com essa faca. Uma faca que é minha. Depois, bastava fazer um escândalo dizendo que foi esfaqueado, e então me expulsar, usando seu ferimento como prova física. Esse era o seu plano, não era? — perguntei.
Pela forma como Housen segurava a faca ao desferir o golpe, estava claro que ele não pretendia atingir outra pessoa. Ele mantinha a lâmina numa altura que faria parecer que alguém o havia esfaqueado, e era evidente que a segurava ao contrário, para conseguir cravá-la na própria perna com mais força.
— Ha…! Então você percebeu tudo isso e ainda assim deixou ser esfaqueado? Você é maluco? — respondeu Housen, com uma risada seca, embora claramente abalado.
— Porque essa era a melhor maneira de te parar completamente. Além disso, você já tinha um plano parecido em mente. Você veio preparado para sofrer um ferimento grave.
Mesmo entendendo que era uma estratégia válida, a maioria das pessoas não conseguiria se forçar a cometer um ato tão perigoso contra si mesmas. E era exatamente por isso que ele conseguiria se esfaquear e dizer que fui eu o responsável.
— Parece que existe algum outro tipo de exame especial acontecendo. Um que foi dado a um grupo limitado de alunos do primeiro ano. E, pelo que você e a Nanase disseram, o objetivo desse exame é me expulsar. A ideia era me atrair até aqui e forçar uma briga. Você provocaria Horikita e Sudou, depois diria que eu perdi o controle, parti para cima de você com uma faca que, por acaso, eu estava carregando, e te esfaqueei. A partir daí, seria minha expulsão… Esse é todo o seu plano absurdo — expliquei.
Mesmo que a escola estivesse sendo mais tolerante com brigas, usar uma faca não resultaria apenas em suspensão. Provavelmente levaria à expulsão — e até a consequências legais.
— Eu ouvi dizer que você não era alguém com quem se deve mexer. Mas, pra falar a verdade, não tive essa impressão, então nem liguei muito. Quer dizer, nunca imaginei que você ia simplesmente deixar ser esfaqueado assim… Como você sabia que essa faca era sua? — disse Housen.
— Eu fiz minha própria investigação. Até ontem, eu era a única pessoa que tinha comprado uma faquinha aqui. E, ainda assim, você tem uma. Então a resposta é óbvia.
Teria sido fácil me esquivar do golpe de Housen e segurar seu braço. Mas isso não resolveria o problema de verdade. Bastaria ele se afastar e tentar se esfaquear de novo. A única forma de pará-lo com certeza era impedir completamente a execução do plano.
Housen tentou puxar a faca da minha mão, mas mantive seu punho preso com a força do meu aperto.
— Que diabos… você é…? — resmungou Housen.
Ao perceber o nível da minha força, ele perdeu completamente a compostura que tinha até então.
— Então… o que você vai fazer agora? — perguntei. — Mesmo sendo eu o dono da faca, foi você quem me esfaqueou. E, além disso, sei que tentou comprar uma antes. Se não conseguir se explicar, você vai ser expulso, Housen.
Minhas digitais estavam no cabo, mas as de Housen também. E o fato de a faca estar cravada na palma da minha mão não era algo fácil de explicar. A estratégia que ele havia criado acabou se voltando contra ele.
— Espera… você previu tudo isso…?!
Depois de me encarar por alguns segundos, Housen soltou a faca e se afastou. A lâmina permaneceu cravada na minha mão. E, naquele momento, a situação havia se invertido completamente. Enquanto isso, Horikita e Sudou começaram a se levantar lentamente, recuperando as forças.
— V-Você está bem… Ayanokoji-kun? — perguntou Horikita.
— Ayanokoji… — murmurou Sudou, impressionado.
— Não se preocupem.
Era compreensível que meus dois colegas estivessem confusos com tudo aquilo, mas isso teria que esperar. Era essencial encurralar Housen completamente naquele momento.
— Droga, até onde você sabe…? Espera, Nanase! Não me diga que você contou tudo pra ele. Contou? — disse Housen.
— Eu não disse nada — respondeu Nanase.
— Eu comecei a achar que havia algo estranho quando estava fazendo compras com a Amasawa no Keyaki Mall — expliquei.
— Amasawa-san? Está dizendo que ela está envolvida nisso…? — perguntou Horikita.
— Sim. Quando o Housen estava prestes a comprar uma faca, ela o impediu. O funcionário da loja viu isso acontecer. Você foi quem criou esse plano absurdo, Housen, mas foi a Amasawa quem o aperfeiçoou. Se você se esfaqueasse com uma faca comprada por você mesmo, a escola investigaria e você teria problemas. Mas, se conseguisse fazer parecer que fui eu quem comprou a faca, havia uma grande chance de virar completamente o jogo a seu favor.
O motivo de Amasawa ter escolhido deliberadamente aquela faquinha foi porque era a única que vinha com bainha, o que provavelmente a tornava a opção mais conveniente para ela e para Housen. Claro, havia outras formas de esconder uma lâmina exposta, mas, considerando que precisariam carregá-la consigo, comprar uma com bainha era a opção mais simples e segura.
Eu já havia sentido que havia algo estranho quando Amasawa escolheu aquela faca sem hesitar, em uma loja onde ela nunca deveria ter estado antes. Esse foi o primeiro sinal. Depois, ela foi até o meu quarto na sexta-feira. Disse que havia perdido o elástico de cabelo, mas o verdadeiro motivo era recuperar a faca. Era seguro assumir que ela havia colocado o elástico de propósito ou simplesmente mentido.
Além disso, se tentasse recuperar a faca cedo demais, havia o risco de eu perceber o desaparecimento. Por isso, ela esperou até o último momento possível, buscando a oportunidade certa. Retirou a faca do meu quarto sem deixar suas digitais e a entregou a Housen. Se não tivesse conseguido recuperá-la, provavelmente teriam adiado o plano.
— Tch. Acho que trabalhar com aquela estranha foi um erro, né? — disse Housen.
— Não exatamente. Foi graças à Amasawa que seu plano funcionou. Se você estivesse agindo sozinho, tudo teria dado errado — respondi.
— Tanto faz. De qualquer forma, parece que agora você tem a vantagem, Ayanokoji-senpai.
O sangue do meu ferimento também havia manchado as roupas de Housen. Não havia como ele sair dessa só com palavras. Mesmo que pegasse a faca de volta e tentasse se esfaquear na perna agora, não conseguiria reverter a situação. E, claro, se tentasse, eu simplesmente o impediria com toda a minha força.
Housen, parado diante de mim, provavelmente já havia percebido isso. O importante era o que viria a seguir.
— Horikita, Sudou e eu podemos manter isso entre nós — eu disse.
— O que você tá tramando? Vai mesmo desperdiçar essa chance perfeita de me expulsar? — disse Housen.
— Em troca, tenho duas condições.
— Duas?
Ele provavelmente já sabia a primeira, mesmo sem que eu precisasse dizer.
— Você vai concordar em iniciar uma parceria justa e cooperativa com a Horikita, entre nossas duas classes.
— Bom, não é como se eu tivesse escolha. Se eu disser não, sou expulso. E a outra condição? — perguntou Housen.
— Quero que você faça dupla comigo no próximo exame especial.
Desde o momento em que vi Housen pela primeira vez, pensei que, se pudesse escolher qualquer parceiro, ele seria a minha escolha. Havia várias razões para isso, mas a principal era que ele não parecia se importar nem um pouco em chamar atenção com seu comportamento problemático. Se eu estivesse no lugar de Tsukishiro, teria instruído quem fosse enviado atrás de mim a evitar qualquer coisa que chamasse atenção.
Se as negociações com Horikita não dessem certo, eu já tinha considerado procurar Housen em particular e tentar chegar a um acordo. Nesse sentido, toda aquela sequência de acontecimentos acabou sendo bastante conveniente para mim.
— Você tá falando sério? — perguntou Housen.
— Você acabou de entrar na escola. Ainda há inúmeras coisas que você não fez. Se for expulso agora, acabou. Nunca vai poder aproveitar nada disso. Não sei como era na época do ensino fundamental, mas todo esse papo de que você é páreo para o Ryuen vai acabar sendo só isso — papo. Vão dizer que você não era tudo isso. E, pelo que vi do Ryuen no último ano, você nem chega perto dele do jeito que está agora. Ele é forte — respondi, provocando-o.
— Você…!
Housen Kazuomi era extremamente orgulhoso. Ele se via como alguém forte. Mesmo que fosse fisicamente superior a Ryuen, ouvir que o outro era melhor do que ele certamente o enfureceria.
Mais importante ainda, não havia como ele aceitar ser superado intelectualmente por mim. Se Housen, que tinha nota B+ em habilidade acadêmica, tirasse zero de propósito no exame, seria inevitavelmente expulso.
Claro, era possível que ele tentasse me levar junto como vingança. Embora eu estivesse praticamente certo de que ele não era o aluno da Sala Branca, não podia ter certeza absoluta. Não importava o quanto investigasse, sempre restaria uma pequena dúvida.
No entanto, isso havia mudado agora. Mesmo que Housen tentasse manipular o exame, o fato de eu ter sido esfaqueado continuava sendo uma evidência concreta. Se ficasse claro que algo estranho havia ocorrido nos bastidores, nem mesmo Tsukishiro poderia me expulsar imediatamente. A escola certamente investigaria o caso para entender exatamente o que aconteceu — e por que Housen tiraria zero no exame.
Qualquer truque que Tsukishiro tentasse usar, eu resistiria até que a possibilidade de expulsão deixasse de existir.
— Ei, nada mal, Ayanokoji-senpai! Nunca enfrentei alguém que fizesse meu sangue ferver assim. Já vou avisando: não vou mais tentar te fazer se render só na força bruta. Vou te espancar de verdade até a morte, então é melhor ficar ansioso por isso — disse Housen.
Qualquer sinal de hesitação que ele tivesse demonstrado já havia desaparecido. Housen havia mudado completamente de postura e agora estava focado na próxima batalha.
— Eu vou ficar. Ainda há algumas coisas que devo explicar ao Ayanokoji-senpai — disse Nanase.
— Hã? O que você tá tramando, Nanase?
— Decidi que é do interesse da Classe 1-D contar algumas coisas a ele. Ayanokoji-senpai e Horikita-senpai estão extremamente cautelosos conosco neste momento. Sendo assim, não acha que seria melhor garantir que eles também fiquem cautelosos em relação às outras classes? — respondeu ela.
Embora eu não entendesse exatamente a intenção de Nanase, Housen pareceu aceitar a proposta.
— Tanto faz. Faz o que quiser — disse ele.
E, com isso, foi o primeiro a ir embora, seguindo em direção ao dormitório.
*
Agora restávamos apenas Horikita, Sudou, a aluna do primeiro ano Nanase e eu. Embora houvesse várias coisas para discutir, havia algo mais urgente a resolver primeiro: acalmar Horikita, que havia perdido a compostura ao ver a faca cravada na minha mão esquerda.
— O-O que a gente faz…? A-A faca… quer dizer, a gente… deve… deve tirar? — gaguejou ela. A normalmente calma e controlada Horikita provavelmente nunca havia passado por algo assim.
— Não. Eu sei que não é uma visão agradável, mas é melhor deixar como está por enquanto.
Se puxássemos a faca sem cuidado, eu poderia perder muito mais sangue.
— Mais importante… e vocês dois? Estão bem?
— Olhando para o seu ferimento, eu diria que estou praticamente ilesa… — disse Horikita.
— É… eu também tô bem — disse Sudou.
Ele se aproximou até ficar ao meu lado. Seu rosto se contorceu ao ver o estado da minha mão esquerda.
— Cara… como você consegue ficar tão calmo com a mão desse jeito?
— Hm… não sei. Boa pergunta.
Eu só fiz o que sempre faço. Nada de especial.
— Mas, cara… você luta muito bem… sério… — acrescentou Sudou.
— Eu só me forcei a parar a faca — respondi.
— Não foi isso que pareceu pra mim, não — disse Sudou, falando o que pensou ao me ver avançar contra Housen. Sudou já havia passado por várias situações violentas na vida. Eu não conseguiria enganá-lo facilmente — e provavelmente nem Horikita. Peguei meu celular com a mão direita e liguei para Chabashira.
— Vou precisar de ajuda. Estou atrás do dormitório do primeiro ano agora. Pode vir o mais rápido possível? Discretamente, claro. Ah, e traga também uma toalha de banho — eu disse.
Embora Chabashira tenha ficado confusa com a ligação repentina, percebeu a urgência e disse que viria imediatamente. Enquanto isso, era melhor não sairmos dali. Seria problemático se alguém visse minha mão naquele estado.
Ainda assim… Nanase não demonstrava qualquer sinal de abalo. Permanecia completamente calma, mesmo após ver a faca cravada na minha mão e o sangue jorrando. Aquela cena gráfica não parecia afetá-la nem um pouco.
— Então, Nanase, pode nos explicar o que está acontecendo? — perguntei.
— Se eu não explicar, parece que isso só colocará minha classe em desvantagem — respondeu ela.
— Você sabia que as coisas terminariam assim… estou certa? — disse Horikita.
— Sim. O plano era que Housen-kun se esfaqueasse na perna e fizesse com que Ayanokoji-senpai fosse expulso — disse Nanase.
Ela não demonstrava culpa nem vergonha. Explicava tudo com o mesmo tom educado de sempre.
— Então aquela simpatia que você mostrou… foi tudo uma encenação? — perguntou Horikita.
— Não, isso não é verdade. Eu realmente quero unir forças com você, Horikita-senpai, e que nossas classes se apoiem. É só que… expulsar Ayanokoji-senpai era nossa prioridade — disse Nanase.
Ou seja, o motivo pelo qual Housen e Nanase estavam tão focados na nossa classe era por minha causa.
— Por que fariam tudo isso? E, ao contrário do Ayanokoji-kun, eu não me lembro de ter perdoado vocês pelo que aconteceu hoje. Dependendo de como isso terminar, posso considerar reportar tudo à escola imediatamente — disse Horikita, pressionando Nanase.
— Admito que houve problemas na forma como agimos. No entanto, tentar expulsar Ayanokoji-senpai não vai contra os interesses da escola. Pouquíssimos alunos do primeiro ano sabem disso, mas é possível ganhar uma grande quantidade de pontos ao expulsá-lo — disse Nanase.
Naquele momento, finalmente ficou claro por que eu havia sido alvo de Housen.
— Recebemos um exame especial. Nesse exame, nos disseram que qualquer um que conseguisse expulsar Ayanokoji Kiyotaka da Classe 2-D receberia vinte milhões de pontos privados — explicou Nanase.
— Do que você está falando? Isso não faz o menor sentido. Quem foi o idiota que criou um exame especial tão absurdo assim? — perguntou Horikita.
Nanase não respondeu àquela pergunta.
— Por enquanto, eu disse o que precisava dizer. Tenho certeza de que isso fará vocês ficarem muito mais cautelosos com todas as turmas do meu ano, não apenas com a nossa. Não é mesmo, Ayanokoji-senpai? — disse ela, voltando-se para mim.
Nanase não havia dito muita coisa. Na verdade, contou apenas o mínimo necessário. Ela e Housen claramente sabiam de tudo, e, como era de se esperar, Amasawa também estava ciente do segundo exame especial. Pelo que eu havia ouvido, era razoável supor que alguns alunos das Classes 1-B e 1-C também sabiam disso.
— Como você acha que podemos ficar satisfeitos com uma resposta dessas? A verdade é que o Ayanokoji-kun foi gravemente ferido, e—
— Estou bem. Só entender a situação já é suficiente. Obrigado pela ajuda, Nanase — interrompi.
— Eu escolhi cooperar com Housen-kun pelo bem da minha turma, mesmo sabendo o quão injusto isso é. Afinal, se esses vinte milhões de pontos caíssem nas mãos de outra classe, criariam uma diferença enorme entre nós — disse Nanase.
Vinte milhões de pontos eram praticamente um passe direto para a Classe A. Mas, considerando exames especiais como o atual, quanto mais poder financeiro se tinha, maiores eram as vantagens.
— No entanto, essa não é a única razão pela qual ajudei Housen-kun — continuou Nanase.
Ela falava de forma suave e calma, mas havia algo em seu olhar — como se estivesse me perfurando com os olhos.
— É que eu realmente não… quer dizer, porque eu não acredito que o Ayanokoji-senpai seja alguém adequado para esta escola — disse Nanase.
Pela primeira vez, ela expressou abertamente sua forte aversão a mim. Mas eu não conseguia entender o motivo.
Não muito depois, Nanase se curvou levemente e foi embora.
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag
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