A Classe de Elite Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Ano 1 - Volume 10

Capítulo 3: A Dificuldade de Salvar

QUANDO acordei na manhã seguinte, decidi checar meu celular. Como esperado, o Grupo Ayanokoji havia passado um bom tempo conversando enquanto eu dormia. O exame especial suplementar tinha acabado de ser anunciado ontem, então não era surpresa que a conversa girasse em torno disso.

— Eles estão mesmo deixando a ansiedade consumir todos, hein? — murmurei para mim mesmo.

Dava para perceber pelo chat que, em especial, Airi estava preocupada. Seria extremamente problemático se alguém do nosso grupo acabasse se tornando o alvo do restante da classe. Embora eu não soubesse até que ponto isso me envolveria, lidar com a situação seria difícil.

Apesar de eu estar planejando preparar o terreno com foco no Hirata e na Kei, não havia garantias. Mesmo que você praticamente ameaçasse alguém ou fizesse um acordo, as pessoas ainda poderiam mudar seus votos de crítica no último instante. Não existia um método infalível para evitar a expulsão se os votos se concentrassem em você. Todos estavam, em algum nível, em risco.

Enquanto eu rolava as mensagens do chat, notei que Keisei havia feito uma sugestão bastante interessante. Comecei a ler desde o início da mensagem dele.

Keisei: Que tal uma pessoa do grupo vir mais cedo para a escola nos próximos três dias, a partir de amanhã, para coletar informações?

Akito: Como o nosso grupo é pequeno, provavelmente é uma boa ideia. Eu apoio a sugestão do Keisei.

Haruka: É, parece um bom plano. Estou bem curiosa sobre o que o pessoal anda comentando.

Airi:  Concordo.

Haruka: Bom, eu já vou sair cedo amanhã mesmo, então deixem comigo.

Todos haviam chegado a uma decisão unânime. Eles mencionaram meu nome no chat, mas decidiram seguir em frente e obter minha aprovação depois, já que eu tinha demorado demais para ler as mensagens.

— Entendi — murmurei para mim mesmo.

Embora eu não imaginasse que as informações cairiam no nosso colo com tanta facilidade, ainda assim era melhor do que não fazer nada. Era uma estratégia simples de executar, e talvez rendesse algum resultado. Considerando que aquelas mensagens eram de ontem, Haruka provavelmente já estava na sala de aula a essa altura. Pelo que foi dito na conversa, presumi que os outros membros do grupo também iriam chegar mais cedo em dias diferentes, então provavelmente ficaria tudo bem mesmo que eu não fizesse nada.

A votação aconteceria em três dias. Isso significava que, no máximo até hoje, deveríamos ter uma ideia sólida de quem seria o foco dos nossos votos de crítica. Enquanto isso, seria um golpe de sorte para o Grupo Ayanokoji se conseguíssemos reunir algumas informações pela manhã.

Enquanto aguardava Kei me informar sobre os movimentos das garotas, decidi tentar obter algumas informações sobre os rapazes com Hirata ou com Horikita, que estava trabalhando junto com Sudou. Era importante saber o máximo possível neste estágio inicial.

*

 

DITO ISSO — com o tempo, a gente realmente se acostuma com as coisas. Antes que eu percebesse, já tinha passado um ano inteiro neste dormitório.

— Não parece que o tempo está passando como antes — comentei comigo mesmo.

A forma como você percebe a passagem do tempo depende de estar ou não se divertindo. Quando me deparei com esse conceito, muito tempo atrás, honestamente não o entendi nem um pouco. Antes de começar o ensino médio, a passagem do tempo parecia rígida. Nem um único segundo estava fora do lugar.

Mas agora, as coisas pareciam diferentes. Obviamente, os dias ainda passavam na mesma velocidade de anos atrás. Ainda assim, o fato de que eu me formaria em apenas dois anos fazia parecer que o tempo tinha voado. Era estranho.

— Bom dia, Ayanokoji-kun!

Ouvi Ichinose me chamar por trás. Talvez ela costumasse sair do dormitório no mesmo horário que eu pela manhã.

Virei-me e respondi:

— Ah, oi. Bom dia, Ichinose.

Mas, por algum motivo, Ichinose pareceu se enrijecer naquele instante.

— Hm?

Ela não se aproximou. Apenas ficou parada ali, completamente imóvel, com a mão ainda erguida depois de acenar para mim.

— O que foi? — perguntei.

Quando disse isso, Ichinose finalmente começou a se aproximar, como se tivesse acabado de ser libertada de um feitiço — embora seus movimentos ainda estivessem um pouco rígidos.

— Ah, bem… Está bem frio hoje, né? — comentou ela.

— É — respondi.

Sempre que conversávamos, dava para ver nossa respiração formando pequenas nuvens brancas no ar.

— Você vai caminhar para a escola com alguém? — perguntou Ichinose.

— Não. Normalmente venho sozinho de manhã.

— Ah, nesse caso… Você se importaria se eu fosse com você?

Provavelmente não existia uma única pessoa, homem ou mulher, que recusaria Ichinose se ela fizesse esse pedido. Assenti, aceitando sua companhia.

………

………

Quando estávamos só nós dois, geralmente era Ichinose quem puxava assunto. Mas agora, estávamos completamente em silêncio. Ela caminhava um pouco atrás de mim, e os únicos sons que se ouviam eram os nossos passos.

Decidi tentar falar sobre o exame.

— Esse próximo exame deve ser bem difícil para a sua turma, né, Ichinose?

Comparada às outras classes, a Classe B era extremamente unida, com um trabalho em equipe sólido e um forte senso de camaradagem. Deve ser angustiante para eles terem que escolher alguém do próprio grupo para eliminar.

— Ah… Bem, é. Você tem razão. Acho que este provavelmente é o exame mais difícil que tivemos até agora — disse Ichinose.

— É — concordei.

A expressão abatida dela deixava isso bem claro. Apenas ela — a pessoa em torno de quem toda a classe se reunia — estava absolutamente segura. A situação dela não era como a de Hirata ou Kushida. Provavelmente, ela era a única aluna com a aprovação garantida nesse exame.

E era justamente por isso que era tão difícil para ela decidir quem deveria ser cortado da turma. Talvez fosse melhor que ela se mantivesse à margem desta vez, sem se envolver nas discussões sobre votos de elogio ou de crítica. Era possível que essa fosse sua estratégia, mas…

— Mesmo sendo um exame complicado assim, eu preciso fazer alguma coisa, não é? — disse ela.

— Provavelmente.

— É. Acho que preciso fazer alguma coisa — afirmou Ichinose, agora caminhando ao meu lado.

Vi um leve sorriso em seu perfil.

— Espera… você não está pensando em se sacrificar, está, Ichinose? — perguntei.

— Hã? Ah, claro que não. Eu nunca diria algo assim, sabia?

Embora tenha negado, consegui perceber pelos olhos dela que estava um pouco abalada. Parecia pronta para fazer essa escolha, se fosse necessário.

— Só para constar, tenho certeza de que seus colegas não usariam os votos de crítica em você tão facilmente — disse a ela.

— Eu não disse que iria desistir, mas se é isso que você acha, Ayanokoji-kun… talvez tenha razão.

— Está escrito no seu rosto. Você é fácil de ler.

— S-Sério? — respondeu Ichinose, sem graça, tentando confirmar se o que eu disse era verdade.

Aquilo foi uma reação natural? Ou intencional? Parecia mais a primeira opção.

— Suspiro… Bem, por favor, guarde isso só entre nós, está bem? — pediu ela.

— Você está disposta a se sacrificar para salvar outra pessoa?

— Bem, não exatamente. Acho que é mais como… eu preciso lutar e enfrentar os riscos por conta própria.

Lutar e enfrentar os riscos sozinha, é isso? Em outras palavras, ela não pretendia escolher o caminho mais fácil e ficar à margem.

— Não entendo. É como se você estivesse oferecendo algum tipo de tributo ao aluno que vai ser expulso? — perguntei.

Mesmo que uma homenagem de despedida vinda de Ichinose fosse melhor do que a de qualquer outra pessoa, ainda assim dificilmente seria o resultado ideal para alguém. Não conseguia imaginar alguém deixando a escola com um sorriso no rosto.

— Não posso falar mais sobre isso agora. É algo que não quero que outras pessoas ouçam e, além disso, você é um aluno da Classe C, Ayanokoji-kun. Não importa que tipo de exame seja, há momentos em que simplesmente não podemos colaborar, sabe? — disse Ichinose.

— Sim, isso é verdade.

No máximo, tudo o que poderíamos fazer seria discutir os votos de elogio entre nós. Um voto de elogio de Ichinose daria uma pequena vantagem no teste. Dito isso, ela não era o tipo de aluna que realmente precisava de votos de elogio em primeiro lugar. Duvidava também que vendesse seu voto por pontos ou algo do tipo.

Por isso, não fiz nenhuma sugestão. Mesmo que eu comprasse o voto dela, não passaria de um simples amuleto de boa sorte.

— Ainda assim, tenho que dizer: essa escola é realmente terrível, não é? Forçar alguém a ser expulso? Mesmo que você consiga votos de elogio de alunos de outras classes, alguém vai acabar sendo expulso no final — disse Ichinose.

Nenhum de nós estava exatamente recebendo esse exame de braços abertos. Alguém seria forçado a sair justamente quando nosso primeiro ano estivesse chegando ao fim.

— Você vai ficar bem, Ayanokoji-kun? — perguntou Ichinose.

— Bem, não tenho tanta certeza… Afinal, não sou exatamente um aluno essencial para a minha turma — respondi.

— Se você não se importar com a minha ajuda, talvez eu possa fazer alguma coisa — disse Ichinose.

— Como assim?

— Bem, como tenho um voto de elogio para usar em alguém de outra classe, posso usá-lo em você, Ayanokoji-kun.

Ela mesma trouxe à tona o assunto dos votos de elogio — que eu havia decidido não mencionar antes.

— É só um voto, então talvez não valha muito, mas…

— Sou muito grato pela oferta, mas preciso recusar. Acho que seu voto seria desperdiçado comigo — respondi.

— Não é verdade. Se for pensar bem, talvez seja o uso mais apropriado de um voto neste exame. Você deve usar um voto para elogiar alguém de outra classe. Então, sim, acho que você definitivamente merece, Ayanokoji-kun, já que foi você quem me salvou — disse Ichinose.

O que ela acabou de dizer era difícil de responder.

— Certo. Bem, se chegar a hora, talvez eu peça sua ajuda — respondi.

— Certo. Vou me lembrar disso — respondeu ela, com um sorriso.

— Bom dia, Honami — alguém a chamou por trás de nós.

— Bom dia, Asahina-senpai — disse Ichinose.

— Você está radiante como sempre hoje. Espera… vocês dois não são de turmas diferentes? Devem se dar bem, hein? — comentou Asahina.

— Ah, bem… sim. Ele é um bom amigo… — disse Ichinose, um pouco envergonhada, sorrindo.

— Oh? Um amigo, é?

Ichinose poderia ter respondido de uma maneira mais natural… provavelmente teria sido menos enganoso.

— Enfim, gostaria de pegar o Ayanokoji-kun emprestado por um instante. Tudo bem? — perguntou Asahina, aproximando-se de nós como se esperasse que Ichinose continuasse andando para que pudesse falar comigo a sós.

— Tudo bem. Então, Ayanokoji-kun, eu vou indo — disse Ichinose.

Sem demonstrar qualquer sinal de desagrado, ela se curvou e fez exatamente como Asahina havia pedido.

— Desculpe, Honami. Até mais.

— Ah, não, sem problema. Até mais!

Não senti nada de estranho naquela breve conversa entre as duas. Se alguma coisa, parecia que tinham uma relação sólida de veterana e caloura.

— Ela é uma boa garota, não é? Fofa. Alegre. Até os alunos do segundo ano não têm nada de ruim a dizer sobre a Honami — comentou Asahina.

— É. Acho que a Ichinose também é bem popular entre os garotos e garotas do primeiro ano.

— Mas talvez você seja quem conquistou o coração dela — disse Asahina.

Pelo visto, o comportamento um tanto estranho de Ichinose momentos atrás não havia passado despercebido.

— Não, não tem como.

Deixando de lado a questão da Ichinose, que era da minha série, eu queria encerrar minha conversa com Asahina o mais rápido possível. Se me vissem com alguém sob a influência de Nagumo, provavelmente teriam a impressão errada. Se ela tinha algo para tratar comigo, preferia que fosse direto ao ponto.

— Se você tem algum assunto comigo, gostaria de ouvi-lo — falei.

— Nossa, você é bem direto, hein? Tanto faz. Você e a Honami estavam conversando tão animadamente que eu só queria falar uma coisinha com você — disse Asahina.

Ela estava sorrindo alegremente até então. Mas, agora, o sorriso desapareceu de seu rosto.

— Ouvi falar do teste que vocês, calouros, vão fazer. Alguém vai ser forçado a sair da escola, não é? — perguntou.

— É, parece que sim.

Ao que tudo indicava, o exame já havia se tornado assunto entre os alunos do segundo ano.

— Você sabe como a Honami é o tipo de pessoa que coloca os amigos em primeiro lugar, certo? Ou como a personalidade dela não permitiria que simplesmente aceitasse que alguém da Classe B fosse expulso? — perguntou Asahina.

— Sim, você tem razão. Ninguém está falando abertamente sobre isso, mas acho que estão preocupados com o que vai acontecer com a Classe B.

Escolhi palavras neutras e vagas, mas que ainda transmitissem claramente o que eu pensava.

— Então, como você acha que a Honami vai lidar com esse exame? — perguntou Asahina, me observando com um olhar investigativo.

Parecia que ela estava me testando, tentando arrancar algo de mim, em vez de apenas perguntar por curiosidade. Dar uma resposta vaga e indireta seria contraproducente?

— Partindo do princípio de que o objetivo dela é impedir que alguém seja expulso… bem, a Classe B acumulou uma quantidade considerável de pontos privados. Então, ela só precisa reunir o restante necessário para salvar a pessoa que está prestes a ser expulsa. Algo assim, certo? — respondi.

— Acertou em cheio. Bem, acho que essa é realmente a única resposta possível, né?

Se você partisse da premissa de que ela não deixaria ninguém ser expulso, qualquer um chegaria a essa conclusão. Mas não era algo que qualquer pessoa conseguiria colocar em prática. Conseguir vinte milhões de pontos era extremamente difícil.

— E parece que ela foi falar com Miyabi para pedir ajuda. Quando fez isso, sabe como ele respondeu? — perguntou Asahina.

— Imagino que ele tenha concordado em ajudar quase imediatamente.

— Correto.

Pelo que tinha acontecido até agora, não parecia que poderia ter sido diferente.

— Só para esclarecer, não tem como ele simplesmente emprestar pontos privados assim tão facilmente, tem? — perguntei.

Por mais pontos privados que a Classe B tivesse, a quantia que faltava devia ser significativa. Eles deviam estar milhões de pontos abaixo do necessário.

— Nem pensar. Quer dizer, se fossem algumas dezenas de milhares de pontos, seria outra história. Nesse caso, ainda daria para considerar. Mas ninguém pode simplesmente sair dando milhões de pontos — disse Asahina, sem hesitar. — Os alunos do terceiro ano e nós do segundo ainda precisamos nos preparar para os próximos exames especiais. E, como nunca sabemos até o último minuto se os pontos privados vão entrar em jogo, não dá para simplesmente entregá-los aos calouros.

Era verdade. Foi exatamente por isso que Chabashira falou da forma que falou. Talvez você conseguisse alguns poucos pontos dos veteranos, mas era praticamente impossível fazê-los entregar dezenas ou centenas de milhares. Claro, você poderia prometer devolver com juros, mas isso dificilmente atrairia um aluno do terceiro ano prestes a se formar. Mesmo que um aluno do segundo ano aceitasse emprestar alguns pontos, ainda parecia impossível garantir uma quantia tão grande.

— Acho que, se existe alguém capaz de lidar com algo assim, provavelmente seria o presidente do conselho estudantil, Nagumo — concluí.

— Ele acumulou uma boa quantidade.

— E então, o que aconteceu?

Com base no que havia ouvido até agora, já podia imaginar o que ela diria em seguida. Ainda assim, o fato de Ichinose ter parecido ansiosa indicava que a ajuda de Nagumo vinha com condições.

— Calma, não precisa ter tanta pressa. Eu só estou na mesma turma que ele, então tenho minhas dúvidas de que ele simplesmente entregaria uma quantia tão grande para uma aluna mais nova sem pensar duas vezes. Quer dizer, a Honami é super fofa, não é? Não há a menor chance de ela ser expulsa neste exame. Você também acha isso, certo? — disse Asahina.

— Sim, com certeza. Provavelmente essa é uma estratégia que ela elaborou para impedir que alguém além dela seja expulso.

— Pois é, por isso eu realmente não quero que ela pegue pontos emprestados com o Miyabi. Claro, isso é em parte porque estou pensando na minha própria turma, mas também… bem, mais do que qualquer coisa, é porque fico com pena da Honami — disse Asahina.

— Existe alguma condição pesada nesse acordo? Tipo… os juros são muito altos ou algo assim? — perguntei.

— A condição dele para emprestar o dinheiro à Honami é… que ela entre em um relacionamento com ele — disse Asahina.

— Entendo.

Era bem típico do Nagumo. Pedir que ela namorasse com ele em troca dos pontos, hein? Normalmente, isso seria motivo suficiente para recusar o acordo na hora. Qualquer pessoa rejeitaria uma condição dessas imediatamente. Mas Nagumo devia saber que existia a possibilidade de Ichinose aceitar, se fosse para proteger a própria turma.

— Tem certeza de que está tudo bem você me contar isso? — perguntei.

— Eu já disse, não foi? É pelo bem da minha própria turma. Se o Miyabi emprestar todos aqueles pontos para um aluno do primeiro ano, o resto de nós pode acabar sofrendo por isso. E a Honami também vai sofrer muito em troca de proteger os amigos. Isso não me parece nada bom — respondeu Asahina.

— Talvez você tenha razão. Mas por que vir falar comigo? Eu sou da Classe C. Estamos competindo com a Ichinose.

— Não sei. Só achei que você poderia fazer alguma coisa a respeito.

— Você está me superestimando. Não tem como eu cobrir a falta de pontos da Classe B.

Seria outra história se eu pudesse levantar pontos suficientes para ajudá-la pessoalmente, sem que ela precisasse depender do Nagumo. Mas isso estava fora de questão.

— É… acho que sim. Afinal, vocês são rivais — disse ela.

Ajudar uma classe rival seria incrivelmente imprudente, ainda mais quando deveríamos estar agradecidos por qualquer impacto que eles sofressem, mesmo que fosse apenas a perda de um aluno. Além disso, um plano que envolvesse reunir milhões de pontos exigiria que toda a Classe C se unisse. Era absolutamente impossível.

— Não posso fazer nada — respondi.

— Não se preocupe. Não vou guardar rancor nem nada do tipo, mesmo que você não possa. Acho que foi só ilusão da minha parte. Mas, apesar disso, acho que você ainda vai arriscar alguma coisa — disse Asahina, dando um leve tapa nas minhas costas. — Enfim, era só isso que eu queria dizer. O resto depende de você.

Dito isso, ela seguiu em direção à escola, sem dar qualquer sinal de que fosse parar ou olhar para trás. Pelas palavras e pelo comportamento dela, não tive a impressão de que estivesse mentindo.

— Fazer um acordo com o Nagumo, hein?

Não parecia algo que a Ichinose faria… mas era exatamente o tipo de estratégia que ela elaboraria. Se realmente fizesse isso, talvez conseguisse evitar qualquer baixa em sua turma. Uma classe unida e com uma grande reserva de pontos era justamente o tipo de classe para a qual essa estratégia seria viável.

Mas, pelo que Asahina disse, entrar em um relacionamento com Nagumo seria algo difícil de aceitar para Ichinose. Se a questão do relacionamento não a incomodasse, o mais sensato seria simplesmente pegar os pontos privados com Nagumo antes que ele mudasse de ideia. Imagino que não seja fácil tomar uma decisão dessas quando envolve se relacionar com alguém do sexo oposto.

Se eu estivesse em posição de ajudar, o faria de bom grado. Mas o problema era dinheiro. A Classe B provavelmente estava em falta de quatro ou cinco milhões de pontos. Isso estava muito além do que eu poderia ajudar. Seria mais econômico simplesmente deixar um de seus colegas partir. Mas como Ichinose pesaria suas opções ao colocar a condição de namorar Nagumo na balança…?

— Considerando a personalidade dela… — murmurei para mim mesmo.

Não era difícil imaginar o que aconteceria.

*

 

Era difícil discutir esse exame em sala de aula. Havia uma sensação ruim pairando no ambiente, como se todos estivessem tensos o tempo todo.

— Bom dia, Kiyopon.

— Bom dia.

Haruka e eu trocamos cumprimentos quando me sentei. Os alunos que já estavam na sala pareciam apáticos. Claramente, ter que decidir em quem usar os votos de crítica estava atrapalhando a manutenção de relações normais — e provavelmente continuaria assim até o fim do exame especial.

Na verdade, talvez continuasse assim mesmo depois que o exame terminasse.

"Parece que tem uma nuvem negra sobre as nossas cabeças, né?" Haruka me mandou em mensagem privada.

"Nada de estranho aconteceu?" respondi.

"Ainda não. Mas todo mundo está bem na defensiva, não acha?"

Nunca se sabia quem poderia estar ouvindo dentro da sala de aula. Duvidava que alguém fosse descuidado o suficiente para dizer em voz alta o nome de quem pretendia votar.

"Tomara que consigamos algum resultado amanhã."

"É."

Depois dessa breve troca de mensagens com Haruka, guardei o celular. Permaneceríamos discretos e apenas esperaríamos a tempestade passar. Isso, claro, se nossos colegas nos permitissem ser tão ingênuos.

*

 

Quando o horário de almoço chegou, decidi ir até a biblioteca. Não me importava de passar tempo com o Grupo Ayanokoji, mas também era importante ter um momento sozinho. Além disso, havia outros alunos na biblioteca que gostavam tanto de livros quanto eu.

E, como esperado, uma dessas alunas — Shiina Hiyori — estava lá novamente hoje.

Peguei um livro aleatório da estante, sentei-me e comecei a folheá-lo para ver se valia a pena levá-lo para o dormitório depois. Pouco tempo depois, alguém me chamou.

— Olá, Ayanokoji-kun.

Como o horário de almoço havia acabado de começar e havia poucas pessoas na biblioteca, parecia que ela tinha me notado quase imediatamente. Ela segurava um livro de um gênero parecido com o que eu estava vendo.

— Vejo que você continua sendo uma grande leitora — respondi.

— Este lugar é realmente maravilhoso.

Depois de pedir minha permissão, Hiyori sentou-se ao meu lado. Nós dois lemos nossos livros em silêncio. Naturalmente, alunos que gostam da biblioteca não precisam de conversas em excesso. O próprio ato de ler um livro já pode ser considerado uma forma de conversa.

Cerca de trinta minutos se passaram. Continuamos lendo sem dizer uma palavra até o fim do intervalo.

— Acho que já está na hora de voltarmos — comentei em voz alta.

— Sim, acho que sim — respondeu Hiyori.

No entanto, quando olhamos o horário, decidimos adiar um pouco nossa saída da biblioteca.

— Ah, Hiyori, tem uma coisa que eu queria te perguntar.

— O que foi?

Ela ergueu o olhar, com uma expressão confusa, sem saber o que eu iria dizer.

— Quero saber o que está acontecendo com o Ryuen.

— O que está acontecendo com o Ryuen-kun…? Para ser sincera, as coisas não estão boas.

— Então ele é o principal candidato à expulsão?

— Sim. Quase toda a classe concordou em usar os votos de crítica no Ryuen-kun.

— E o próprio Ryuen aceitou essa decisão?

— Acho que sim. Para falar a verdade, ele tem vindo bastante à biblioteca depois das aulas ultimamente. Acabei conversando um pouco com ele por causa disso, então acho que tenho uma boa noção do que está acontecendo.

Então, o livro que ele estava lendo no café era da biblioteca. Fazia sentido que tivesse entrado em contato com a Hiyori. Vir até aqui tinha sido a decisão certa.

— E você, o que acha de tudo isso, Hiyori?

— É triste, mas não podemos mudar o fato de que alguém será expulso neste exame. Estou disposta a aceitar a realidade de que alguém — inclusive eu — pode acabar deixando a nossa turma. Mas acho que, se a Classe D pretende chegar ao topo, talvez precisemos do Ryuen-kun…

Eu tinha certeza de que ela tinha sentimentos conflitantes em relação a Ryuen, mas isso significava que reconhecia as habilidades dele. Pensando bem, também não parecia que ele havia tratado Hiyori tão mal assim.

— Desculpa por te perguntar sobre isso. Quero dizer, sobre como estão as coisas na Classe D…

Parei de falar de repente.

— Na verdade, acho que eu também não quero que o Ryuen seja expulso.

Não havia necessidade de eu ter vindo até aqui hoje. Mas eu queria saber o que estava acontecendo com Ryuen, e por isso fiz questão de vir.

— Acho que quanto mais amigos você tiver por perto, melhor — disse Hiyori.

— Acho que você tem razão.

Era um pouco estranho. Ryuen e eu deveríamos ser apenas inimigos.

— Hum…

— O que foi?

— Eu… bem, talvez não seja o meu lugar dizer isso, mas…

Hiyori hesitou, mas ainda assim continuou:

— Por favor, não abandone a escola, está bem, Ayanokoji-kun…? Eu realmente não quero perder mais nenhum amigo querido.

— Vou tomar cuidado.

Voltei para a sala de aula, grato pela preocupação de Hiyori.

*

 

A sensação ruim ainda pairava no ar depois que as aulas terminaram. Percebendo isso ou não, minha vizinha de carteira, Horikita, começou a arrumar suas coisas silenciosamente para voltar ao dormitório, como de costume.

Seria difícil passar por esse exame sozinho. O normal seria querer o máximo de aliados possível. Mas Horikita não dava sinais de fazer isso. Sendo otimista, o único voto de elogio que ela tinha garantido era o de Sudou.

Mas então…

Lembrei-me de quando ela confrontou Ryuen outro dia. Considerar o que ela queria e o que parecia lhe faltar me ajudou a enxergar que tipo de estratégia tinha em mente. Aparentemente, ela pretendia passar por esse exame usando um método diferente do restante.

Não seria um caminho fácil, mas, se funcionasse, os resultados seriam ideais.

A estratégia que eu estava imaginando talvez fosse a mesma que Horikita tinha em mente. Se fosse o caso, eu deixaria que ela assumisse a responsabilidade por isso. Olhei para meus colegas de classe, imaginando como Horikita os enxergava.

— É estranho você ainda não ter vindo me pedir conselhos. Já entendeu bem esse exame? — perguntei.

Embora tivesse passado apenas um dia, queria ver se havia alguma mudança nela.

— Mesmo que eu pedisse conselhos, você não me daria uma resposta direta — respondeu Horikita.

— Está certa quanto a isso.

Parecia que ela estava começando a entender esse meu lado.

— Além disso… este não é exatamente o tipo de exame em que você pode simplesmente pedir ajuda aos colegas — disse Horikita.

— Muitos dos outros alunos estão focados em formar grupos e reunir votos de elogio — comentei.

— Se quiserem fazer isso, fiquem à vontade.

Ela terminou de arrumar suas coisas e se levantou.

— Nesse caso, o que você pretende fazer? — perguntei.

— O que for possível.

Dizendo apenas isso, ela saiu da sala de aula. Não pude deixar de ficar um pouco curioso, então fui atrás dela.

— O quê? — retrucou Horikita, claramente irritada, franzindo a testa.

— Quero ver o que você pretende fazer.

— Você normalmente não se envolve comigo. Por que está tentando agora?

Por quê? Simplificando, porque eu tinha grandes expectativas quanto à estratégia que Horikita estava tentando executar. Se ela conseguisse fazê-la funcionar, eu queria apoiá-la o máximo possível. Mas não diria isso aqui e agora.

— Você ainda não entrou em nenhum grupo, certo? Se acabar em apuros, posso ajudar.

— É exatamente disso que estou falando. Então você está preocupado com a minha situação, é? Está dizendo que, se eu pedisse ajuda, você me deixaria entrar no seu grupo? — perguntou Horikita.

— Não seria um problema para nós aceitar mais pessoas.

— Agradeço a oferta, mas preciso recusar. Você não é a pessoa que estou procurando no momento.

Isso significava que ela já havia tomado sua decisão. Ainda assim, seus recursos pareciam escassos, o que a deixava em uma posição em que sua ansiedade a pressionava. Tenho certeza de que eu não era o "encaixe" certo para o que ela precisava.

— Você realmente é… — disse Horikita, me encarando com ainda mais severidade do que antes.

— O que foi? — perguntei.

— Enfim, só me deixe em paz — retrucou ela.

Assenti e parei onde estava. Mesmo que eu tentasse segui-la, provavelmente só a deixaria mais irritada. Depois de vê-la se afastar, fiquei olhando pela janela do corredor.

— Acho que vou voltar — murmurei para mim mesmo.

— Ei, você tem um minuto, Ayanokoji-kun?

Hirata se aproximou de mim, aparentemente apenas passando por ali. Perguntei-me se ele estava me seguindo. Pelo momento em que apareceu, talvez estivesse esperando que Horikita e eu nos separássemos.

— Se não for um problema, você poderia vir comigo por um tempo depois da aula hoje? Eu queria conversar — disse Hirata.

Era incomum que ele viesse falar comigo dessa maneira. Não tinha motivo para recusar, então aceitei com um aceno. Ao fazer isso, ele soltou um suspiro de alívio. Depois de passar o dia inteiro em um ambiente tão tenso, Hirata parecia ser a pessoa mais exausta da nossa turma. Claro, dava para perceber que isso tinha relação com o exame.

— Então, que tal nos encontrarmos às 16h30… sim, na entrada sul do Keyaki Mall? — perguntou.

— Tudo bem.

E foi só isso que dissemos. Parecia que ele não queria falar sobre o assunto no corredor, onde os alunos passavam o tempo todo a caminho dos dormitórios ou dos clubes.

Eu havia planejado encontrar Keisei e os outros depois da aula, então avisei que me atrasaria. Como Hirata parecia ocupado conversando com os amigos quando a aula terminou, decidi ir até o Keyaki Mall antes dele.

*

 

Depois de sair da sala, segui em direção à entrada da escola. No caminho, acabei encontrando Sakayanagi Arisu, da Classe A do primeiro ano. Ao lado dela estava Kamuro.

— Ayanokoji…

Kamuro ficou tensa, claramente em alerta. Sakayanagi, por outro lado, não reagiu nem um pouco. Seus movimentos eram relaxados e tranquilos. O contraste entre as duas era até divertido.

— Ora, ora, que coincidência, Ayanokoji-kun.

— Parece que sim. O que você quer com a Classe C? — perguntei.

Parecia que Sakayanagi e Kamuro estavam indo em direção à Classe C. Mas, em vez de responder diretamente, Sakayanagi apenas riu e desviou da pergunta.

— E você, para onde está indo? — perguntou.

— Vou encontrar um amigo no Keyaki Mall daqui a meia hora.

— Entendo. Nossa, você está aproveitando sua vida de estudante ao máximo, não está? Se não for incômodo, poderia me ceder alguns minutos do seu tempo? — perguntou Sakayanagi.

Ela tirou o celular e verificou as horas. Teria vindo até ali para me encontrar? Não, isso era improvável. Ainda eram apenas 16h10. Mesmo que levasse alguns minutos para chegar ao Keyaki Mall, eu ainda tinha cerca de dez minutos de sobra.

— Podemos conversar aqui mesmo? — perguntei.

— Sim. No entanto, acredito que chamaríamos atenção se falássemos aqui. Poderia se deslocar comigo para algum lugar próximo?

— Sem problemas.

Eu também queria evitar chamar atenção ao máximo. Se estivesse com um colega de classe, isso não seria um problema, mas Sakayanagi era o tipo de pessoa que chamava atenção querendo ou não. Ela mesma sabia disso, por isso fomos para um local menos movimentado. Acompanhei seu passo lento enquanto atravessávamos o prédio da escola.

— De qualquer forma… Ayanokoji-kun, Masumi-san, vocês não acham que este exame suplementar é absolutamente absurdo? Forçar alguém a sair da escola só porque ainda não houve desistências? Pensando racionalmente, é estranho que a administração tenha criado um exame desses — disse Sakayanagi.

— É. O Mashima-sensei normalmente é tão calmo e equilibrado, mas até ele pareceu bastante abalado — comentou Kamuro.

Então não era só Chabashira. Os outros professores também não estavam satisfeitos com esse exame suplementar.

— Há um motivo para isso — disse Sakayanagi.

— O quê, você sabe de alguma coisa? — perguntou Kamuro.

— Bem, é um assunto pessoal do qual tenho vergonha de falar, mas meu pai foi suspenso do cargo outro dia — respondeu Sakayanagi.

— Espera, suspenso…? Se não me engano, ele é o diretor, não é? Seu pai? — perguntou Kamuro, pressionando por mais informações. Ela devia saber quem era o pai de Sakayanagi.

— Não consegui apurar os detalhes, mas ouvi dizer que surgiram várias acusações desagradáveis envolvendo meu pai. O homem que conheço não é do tipo que se envolveria em tais coisas. Claro, não posso descartar a possibilidade de que eu, como filha, simplesmente não soubesse de tudo… mas, bem, é possível que alguém esteja tramando para derrubá-lo — disse Sakayanagi.

As palavras pareciam direcionadas a Kamuro. Mas, na verdade, provavelmente eram para mim. Se o pai de Sakayanagi realmente fosse inocente, não seria estranho que aquele homem estivesse envolvido. A impressão que tive dele talvez não estivesse errada, afinal.

— De qualquer forma, isso não tem absolutamente nada a ver com alunos como nós. Não passa de conversa fiada.

Parecia que Sakayanagi não via a suspensão do pai como algo que valesse a pena investigar mais a fundo.

— Mas isso tem alguma relação com o exame? — perguntou Kamuro.

— Você não consegue ver que este exame… preparado às pressas… pode ter sido criado para expulsar alguém específico? — disse Sakayanagi.

— Alguém…?

Kamuro olhou rapidamente para mim antes de voltar sua atenção para Sakayanagi.

— Tentei não me preocupar com isso até agora, mas por que você está de olho no Ayanokoji? — perguntou enquanto caminhava ao lado dela.

— Oh? Então você não estava preocupada até agora?

— É. Não tem como eu estar pensando nisso.

Kamuro negou qualquer insinuação, mas a expressão de Sakayanagi sugeria que ela já sabia de tudo. Ainda assim, em vez de insistir, ela apenas respondeu à pergunta.

— É porque o conheço há muito tempo. Isso não é motivo suficiente? — disse Sakayanagi.

Embora Kamuro parecesse preocupada, o tom de Sakayanagi era casual e despreocupado. Considerando que ela nunca havia revelado muito a Kamuro antes, foi uma resposta bastante reveladora. Também podia ser uma forma de testar minha reação. Se eu começasse a entrar em pânico e interrompesse a conversa, seria o mesmo que demonstrar fraqueza.

Para ser honesto, no entanto, eu realmente não me importava.

— Então você está dizendo que simplesmente se reencontraram nesta escola? As chances disso acontecer parecem bem pequenas.

— Sim. As chances são realmente pequenas. Não acha, Ayanokoji-kun?

— É, provavelmente.

Embora nunca tenhamos realmente nos encontrado antes de entrar aqui, a forma como Sakayanagi colocou a questão era tecnicamente correta. Só que nossa relação era unilateral. Ela conhecia o antigo eu.

— Então você é mesmo tão forte assim? Desculpa, mas você não parece nem um pouco.

Kamuro foi direta ao ponto, assim como Sakayanagi havia feito antes. Nesse sentido, talvez as duas realmente fossem parecidas.

— Ora, você está bem direta hoje, não é? Acho que nunca me fez uma pergunta tão franca antes — disse Sakayanagi.

Parece que Kamuro havia começado a ter certas ideias depois das várias vezes em que tivemos contato direto. Talvez isso também tivesse despertado algo como uma curiosidade incontrolável em Sakayanagi.

— Qualquer um pensaria o mesmo. Você nunca ficou tão fixada em alguém assim antes — disse Kamuro.

— Eu achava que você fosse uma pessoa indiferente, que não se metia nos assuntos dos outros. Foi por isso que não hesitei em pedir que ficasse de olho no Ayanokoji-kun, mas… bem, acho que você realmente pode ser problemática, não é? — disse Sakayanagi.

Ela parecia exasperada, mas também satisfeita. Eu pensei que ela quisesse avaliar minha reação, mas era possível que estivesse dizendo essas coisas provocativas porque as reações de Kamuro a divertiam.

Enquanto conversávamos, chegamos ao nosso destino.

— Acredito que ninguém nos incomodará se conversarmos aqui.

Realmente estava silencioso. Estávamos no prédio especial depois das aulas, então fazia sentido.

— Agora, Masumi-san, peço desculpas, mas poderia voltar ao dormitório?

— Ah, tudo bem.

Aparentemente, ela havia trazido Kamuro apenas para ter companhia no caminho, decidindo mandá-la de volta sem revelar muito mais sobre mim. Kamuro deve ter entendido isso, pois desceu as escadas sem protestar.

— Está tudo bem fazer isso? — perguntei.

— Sim. Seria inconveniente para você se eu revelasse algo sobre você de forma descuidada, não seria?

— Não exatamente.

Demonstrar qualquer sinal de fraqueza só lhe daria uma abertura. Eu não tinha intenção de fornecer informações desnecessárias a Sakayanagi.

— Suponho que você me veja como uma inimiga, de certa forma. Decidi aceitar isso — disse Sakayanagi.

Quaisquer que fossem meus motivos, isso não fazia diferença para ela.

— Então, sobre o que você queria tanto falar comigo a ponto de mandar Kamuro embora? — perguntei, incentivando-a a ir direto ao assunto. Já havíamos perdido bastante tempo até chegar ali, e eu não tinha muito antes de encontrar Hirata.

— É sobre a promessa que fizemos, Ayanokoji-kun.

— Sim. Concordei em enfrentá-la no próximo exame especial, ou seja, neste que está por vir.

— Exatamente. No entanto… se não se importar, gostaria de deixar nosso confronto para outra ocasião. Este exame não é uma competição entre classes, mas sim algo criado para selecionar e eliminar um de nossos aliados. A única forma de influenciar as outras classes é por meio dos votos de elogio, o que nos impede de atacá-las. Então… você se importaria se adiássemos nosso confronto para a próxima vez?

Em outras palavras, ela estava dizendo que este exame não contava, já que não havia como competirmos diretamente.

— Está disposto a aceitar? — perguntou Sakayanagi.

— O que você decidir está bom para mim.

Aceitei seu pedido sem resistência, e Sakayanagi me agradeceu educadamente.

— Muito obrigada. Eu estava pensando no que faria se você dissesse algo como "um exame é um exame". Agora posso me concentrar nos assuntos internos da Classe A sem preocupações. No entanto…

— No entanto?

— Como firmamos essa trégua, decidi contar-lhe algo como prova de boa-fé. Não farei nada que o prejudique neste teste, Ayanokoji-kun. Naturalmente, isso significa que não lhe darei um voto de crítica — disse Sakayanagi, prometendo se conter. — Além disso, no improvável caso de eu acabar me envolvendo nos assuntos da Classe C de uma forma que prejudique seus resultados… bem, se isso acontecer, estou disposta a pagar um preço. Você pode até se recusar a competir comigo no próximo teste.

— Se as pessoas concentrarem os votos de crítica em mim neste exame, não haverá próxima vez — respondi. Eu simplesmente seria expulso. Fim da história.

— Você tem toda razão. De qualquer forma, fique tranquilo. Era só isso que eu queria dizer.

Ela estava sendo quase excessivamente educada, mas suponho que considerasse isso necessário para conquistar minha confiança.

— Você pode acabar sendo traída de forma descuidada por um de seus próprios subordinados antes mesmo de nossa batalha começar — comentei.

— Hehe… Ora, você deve estar brincando.

A maioria dos alunos da Classe A pertencia à facção de Sakayanagi. Então ela estava confiante de que ninguém tentaria se livrar de sua líder.

— Decidi quem seria expulso no momento em que este exame foi anunciado — disse Sakayanagi.

— Você decidiu imediatamente quem remover, hein? Parece a decisão correta.

Era um movimento que só podia ser feito por alguém que detinha verdadeiro controle sobre a própria classe.

— Então, quando pretende contar aos seus colegas quem será?

— Já os informei há algum tempo. Se tivesse esperado até o último minuto para avisar quem seria removido, isso só deixaria todos ainda mais ansiosos. Contar de imediato torna tudo mais fácil para eles. Não concorda?

Provavelmente era insuportável para o aluno que seria expulso. Ainda assim, não havia qualquer sinal de que a Classe A tivesse caído no caos.

— Por acaso você sabe quem eu escolhi? — perguntou Sakayanagi.

— Não sei. Não faço a menor ideia — respondi.

Na verdade, eu tinha uma ideia bem clara.

— Katsuragi Kouhei-kun.

— Essa foi uma escolha razoável?

— Ele é o antigo líder da Classe A, que já se opôs a mim no passado. Afinal, não há necessidade de duas pessoas no topo de uma organização — disse Sakayanagi.

Katsuragi era um sujeito calmo e ponderado. Provavelmente percebeu que seria sacrificado assim que os detalhes do exame foram anunciados. E, por isso, aceitou sem resistir.

Ainda havia alguns alunos que continuavam idolatrando Katsuragi, como Yahiko, mas eles eram minoria.

— Sei que ele se opôs a você desde cedo, mas achei que já tivesse se afastado — respondi.

Em termos de habilidade, Katsuragi estava entre os melhores até mesmo dentro da Classe A. Eu imaginava que ele fosse valioso demais para ser descartado, mas, ao que parecia, do ponto de vista de Sakayanagi, ele era desnecessário.

— Vários dos meus colegas não gostam dele. Não conseguem concordar com sua forma conservadora de pensar. Acho que a saída dele elevaria o moral — disse Sakayanagi.

Parecia que o objetivo dela era aumentar o moral da classe, mesmo que isso significasse perder um recurso poderoso.

— Tem certeza de que está tudo bem me contar isso? Sobre quem é o seu alvo?

— Não é como se você fosse fazer algum acordo suspeito pelas minhas costas para protegê-lo, certo, Ayanokoji-kun? — disse Sakayanagi.

De qualquer forma, não era como se eu pudesse fazer algo que valesse todo esse esforço.

— O que você pretende fazer na Classe C? — perguntou Sakayanagi.

— Não sei. Não vou me envolver. Só pretendo deixar meus colegas decidirem.

— Então é apenas uma questão de remover o aluno mais antipático ou o menos habilidoso?

Ela parecia se divertir com essa ideia.

— Quanto à Classe D, a única pessoa que me vem à mente é o Ryuen-kun. Nem é preciso pensar muito.

Eu não podia discordar. A Classe A, em particular, não tinha nada a ganhar ajudando Ryuen. Tenho certeza de que queriam vê-lo expulso, mesmo que isso significasse quebrar o acordo que ele tinha com Katsuragi.

— Mas não consigo imaginar o que a Classe B fará. A questão de quem será expulso dessa turma tão unida é a parte mais interessante deste exame. Ou será que Ichinose-san vai bolar algum plano curioso?

— Desculpe, mas está na hora de eu ir — disse.

Ela podia se entregar às fantasias que quisesse, mas eu preferia que fizesse isso sozinha.

— Entendo. Suponho que encerremos nossa conversa por aqui. Afinal, o próximo exame especial começa na próxima semana.

Ela bateu a bengala no chão com um estalo e, por um breve instante, direcionou o olhar para as câmeras de segurança no corredor. O movimento foi tão sutil que eu não teria percebido se não estivesse prestando atenção. Não consegui dizer se foi um olhar casual ou intencional.

— Então, vamos ter nosso confronto no exame especial final do nosso primeiro ano, como combinado. É uma promessa.

Assenti levemente e fui embora.

*

 

Não havia muitos lugares para se encontrar depois da aula. Normalmente, as pessoas se reuniam no café do Keyaki Mall. Mas hoje foi diferente.

— Obrigado por vir hoje.

— Não foi nada. Eu também queria falar com você, Hirata.

— Fico feliz em ouvir isso. Que tal darmos uma pequena caminhada primeiro?

Nos encontramos na entrada sul, e Hirata começou a andar imediatamente, como se estivesse avaliando o ambiente ao redor.

— Desculpe, Ayanokoji-kun. Você se importaria se mudássemos um pouco os planos? — perguntou.

— Mudar como?

— Podemos conversar no meu quarto? Acho que me sentiria mais à vontade assim.

— Não me importo. Tudo bem.

— Obrigado!

Ao que parecia, o shopping não era o melhor lugar para nos encontrarmos naquele momento. Imagino que ele não quisesse que outras pessoas ouvissem o que tinha a dizer. Enquanto caminhávamos de volta ao dormitório, conversamos casualmente.

— Nosso primeiro ano já está quase acabando. O que você achou dele, Ayanokoji-kun? — perguntou Hirata.

Olhei para o céu e suspirei.

— Entre a ilha desabitada e o acampamento escolar, diria que foi bastante turbulento.

— É, foi difícil. Mas me diverti. Pensando em quando cheguei aqui… acho que consegui construir uma confiança real com meus colegas — disse Hirata.

— É, acho que sim.

Eu não negaria isso. Claro que ainda havia várias pessoas na turma que se detestavam, mas talvez houvesse alguma verdade no ditado "o inimigo do meu inimigo é meu amigo". Enquanto éramos forçados a cooperar, acabamos formando o que se poderia chamar de laços.

— Para ser honesto… estava tudo bem até este exame surgir — disse Hirata.

Havia uma sombra por trás de seu sorriso.

— Então é disso que você queria falar?

— Sim. Desculpe, Ayanokoji-kun. Eu sei que você não gosta muito de falar sobre isso.

Eu nunca havia assumido um papel ativo, independentemente do tipo de exame — embora Horikita, ignorando minha personalidade, sempre exigisse minha cooperação à força. Curiosamente, desta vez foi o contrário. Horikita não estava pedindo minha ajuda, mas Hirata estava.

Suponho que Horikita tenha amadurecido recentemente. Talvez tenha aceitado que eu não iria cooperar, já que a frequência de seus pedidos havia diminuído.

— Não consigo encontrar uma forma de lidar com este exame. Não importa o quanto eu pense, não importa quantas vezes tente montar um plano, nada funciona — disse Hirata.

— Não importa quantas vezes…?

Olhei mais de perto e notei olheiras sob seus olhos. Provavelmente passou tanto tempo pensando no exame na noite passada que acabou perdendo o sono.

— Deve estar sendo difícil — falei. — Neste exame, quanto mais você pensa na turma, mais acaba sofrendo por isso.

— Hã…? — disse Hirata.

— Ah, não é nada. Não se preocupe.

Se eu deixasse escapar algo descuidadamente, Hirata apenas afundaria ainda mais no desespero. O melhor plano, por enquanto, provavelmente era deixar as coisas como estavam.

— S-Se existe alguma forma de salvar a nossa turma, por favor, me diga — disse Hirata.

Ao que parecia, minha reação de antes fez com que ele tivesse a impressão equivocada de que eu tinha alguma ideia para compartilhar.

— Você acha que é realmente impossível juntar vinte milhões de pontos privados? — perguntei.

— Tentei fazer alguns cálculos, mas simplesmente não consigo encontrar uma maneira de chegar a esse número. Até conversei sobre isso com os veteranos do meu clube. Mas eles também têm seus próprios exames especiais chegando — respondeu Hirata.

— Então eles não podem ceder pontos para ajudar?

— É…

Os métodos possíveis para salvar nossa turma sem nenhuma baixa eram extremamente limitados.

— Desculpa, não consigo pensar em mais nada. Se eu tiver alguma ideia, aviso você com certeza, Hirata.

— Entendo… Certo, obrigado — disse ele, esforçando-se ao máximo para sorrir.

Era a melhor resposta que eu podia dar naquele momento. Este exame especial era ao mesmo tempo extremamente difícil e extremamente simples. Se você mudasse um pouco o ponto de vista, o caminho à frente ficava claro. Claro, Hirata não conseguia enxergar dessa forma.

Ou melhor, ele não conseguia ver que este era um teste criado apenas para descartar um aluno desnecessário. No momento em que ouvimos as regras do exame, Koenji e eu entendemos qual era o objetivo. É claro que não havia como saber quem seria expulso. Tudo o que você precisava fazer era garantir que não fosse você. No entanto, Hirata não era o tipo de pessoa que pensava assim. Ele jamais conseguiria decidir quem deveria sair. Era como se estivesse preso em um labirinto, incapaz de encontrar a saída.

— Ayanokoji-kun, você acha que está tudo bem se alguém for expulso? — perguntou Hirata.

— Seria ótimo se conseguíssemos passar por isso sem que ninguém fosse expulso, claro. Mas acho que isso vai ser difícil.

— Sim, você tem razão. Mas deve haver alguma maneira de—

— Hirata, você não tem dormido bem justamente porque sabe que isso é verdade, não é? — interrompi.

— Isso…

Ficamos em silêncio enquanto nos aproximávamos da entrada do dormitório, em parte porque havia vários alunos conversando no saguão. No entanto, o principal problema era outro. Nossos olhos se encontraram com os de alguém sentado em um dos sofás.

— Ora, ora, vejam só quem temos aqui. Se não são o Hirata-boy e o Ayanokoji-boy. Que coincidência curiosa — disse Koenji.

— Ei, Koenji-kun. Está esperando alguém? — perguntou Hirata.

Pelo fato de o olhar de Koenji ter se voltado para nós assim que entramos, parecia que ele havia deduzido isso.

— Se eu tivesse planos de me encontrar com alguém, isso o preocuparia? — respondeu Koenji com outra pergunta.

— Acho que eu acharia incomum.

— Não desgosto de pessoas honestas. Mas, infelizmente, não estou esperando ninguém.

Embora tenha respondido à pergunta de Hirata, ele não disse o que estava fazendo ali. Koenji não era do tipo que ficava vagando por lugares como aquele.

— Vamos — disse Hirata.

Ele caminhou até o elevador e estendeu a mão para apertar o botão. Justo quando ia fazê-lo, Koenji nos chamou por trás.

— É melhor fazerem tudo o que puderem para reunir suas forças e superar este exame — disse Koenji.

O dedo de Hirata parou a um fio de tocar o botão.

— Você nunca muda, não é, Koenji-kun? — disse ele, um pouco incomodado com a atitude de Koenji.

— Este não é um exame pelo qual valha a pena mudar.

— É mesmo?

Era raro ver Hirata se exaltar. Ele se virou para Koenji, mas manteve a calma em vez de encará-lo com hostilidade.

— Você diz que este não é um exame pelo qual valha a pena mudar, mas tenho a impressão de que é você quem mais precisa mudar. Estou preocupado, Koenji. Tenho pensado que… nossos colegas podem acabar fazendo de você um exemplo. E, se isso acontecer… bem, isso me preocupa.

Era a forma de Hirata demonstrar preocupação e, ao mesmo tempo, fazer uma leve ameaça. Suas palavras transmitiam um forte desejo de cooperação. Ele provavelmente esperava que Koenji correspondesse, ainda que um pouco.

— Essas preocupações são desnecessárias. Além disso, você é o líder da turma, não é? Não é seu dever lidar com esse tipo de coisa?

Koenji não tinha a menor intenção de mudar sua postura. Pretendia permanecer inativo até o fim.

— Há coisas que não posso fazer. Talvez eu não consiga corresponder às suas expectativas — disse Hirata.

— Oh, não, não acho que seja esse o caso.

Apesar da falta de confiança de Hirata, Koenji continuava depositando expectativas sobre ele. Não dava para saber se falava sério.

Koenji se levantou, caminhou até nós e deu um leve tapinha no ombro de Hirata.

— Mesmo que você passe seu tempo cuidando das feridas de seus amigos, confio que saberá descartar o lixo indesejado.

No instante em que disse isso, Hirata pressionou firmemente o botão do elevador.

— Vamos, Ayanokoji-kun.

— Certo.

O tom de Hirata, que até então havia sido amigável, agora carregava um leve traço de irritação. Ele claramente não gostou da implicação de Koenji de que alguns de nossos colegas eram lixo. Assim que as portas do elevador se fecharam, ele falou:

— Suspiro… Desculpe. Eu estava um pouco fora do normal agora há pouco.

— Não se preocupe. As provocações do Koenji são problemáticas.

Hirata forçou um sorriso e abaixou levemente a cabeça.

— Então… o que ele disse também te afetou, não foi? …Eu entendo que não é realista esperar que ninguém seja expulso. Já desisti dessa ideia há muito tempo, apesar de tudo o que venho dizendo em voz alta.

O elevador chegou ao andar de Hirata e nós descemos.

— Por favor, entre.

— Com licença.

Era a primeira vez que eu entrava no quarto de Hirata. Ele era decorado de forma semelhante ao meu, ou seja, simples. Havia um aroma agradável no ar, como de algum tipo de aromatizador. Era um pouco sóbrio, um pouco sem graça, mas limpo e organizado — assim como o próprio Hirata.

— Sente-se. Quer um café ou algo assim?

— Pode ser, se não for incômodo.

— Não é incômodo nenhum. Afinal, fui eu que o convidei — disse Hirata.

Geralmente, era eu quem recebia visitas, então aquilo era uma experiência nova para mim.

— Então, retomando de onde paramos… — disse Hirata por cima do ombro enquanto preparava o café. — Será que realmente não existe nenhuma maneira de salvar todo mundo da turma?

— Não sei. Talvez eu só não consiga pensar em nada.

Dei a mesma resposta de antes. Mesmo sabendo da verdade, Hirata ainda procurava algum caminho para a salvação. Eu esperava que minha resposta o fizesse se sentir melhor, mas parecia ter tido o efeito contrário.

— Se você não consegue pensar em nada, não consigo imaginar que outra pessoa consiga — disse Hirata.

— Você está me dando crédito demais.

Quando foi que Hirata passou a ter uma opinião tão elevada de mim?

— Desde o que aconteceu com a Karuizawa-san, considero você a pessoa mais confiável da nossa turma — disse Hirata, como se tivesse lido meus pensamentos.

— Sinto dizer, mas não sou.

O café terminou de passar e ele me entregou uma xícara.

— É a verdade. Embora você seja bastante humilde, imaginei que não admitiria isso — disse Hirata.

Seria perda de tempo discutir. Não importava o quanto eu negasse, Hirata não ouviria. Parecia mais sensato mudar de assunto. Ele percebeu o que eu estava pensando.

— Este teste exige que alguém seja expulso. Mas isso não é algo com que eu consiga lidar, por mais que tente entender. Não há ninguém na minha turma que eu aceitaria perder.

— Entendo sua preocupação, mas não temos escolha. Só precisamos esperar pela resposta na próxima semana.

— Uma resposta, é? Ayanokoji-kun… há alguém em particular que você acha que deveria ser expulso? — perguntou, olhando-me fixamente.

Embora eu pudesse ver gentileza em seus olhos, havia algo mais escondido ali também.

— Não, ninguém em especial.

Minhas palavras poderiam ser interpretadas como uma neutralidade covarde, mas eram sinceras. Havia alguns alunos que eu gostaria que ficassem, mas ninguém que eu apontaria especificamente como candidato à expulsão. Nossos colegas conversariam entre si e escolheriam alguém com base nessas discussões. Era assim que as coisas aconteceriam.

— Independentemente de quem acabe saindo, teremos que aceitar — acrescentei.

— Essa é uma abordagem bem pragmática. Você é muito mais qualificado para ser o líder da turma do que eu — disse Hirata.

Ele havia tomado a iniciativa de liderar a turma até então, mas suas palavras agora soavam tímidas e fracas. Ele estava preso, incapaz de seguir em frente.

— O que devo fazer agora? Qual é a melhor forma de lidar com este exame? — perguntou.

Não era meu lugar dar conselhos, mas Hirata sempre tentou ajudar os outros. Eu queria fazer algo por ele, mas…

— Bem, não quero que você apenas aceite o que eu digo, mas vou dizer o que penso.

— Sim, por favor.

— Certo, vamos deixar de lado, por um momento, o pensamento idealista de salvar todos. Hirata, você tem se angustiado com a pergunta "De quem devemos nos livrar?" há algum tempo. Mas não conseguiu chegar a uma resposta.

O que eu estava dizendo era difícil para ele aceitar. Mesmo assim, Hirata pareceu concordar no fim, assentindo.

— Nesse caso, por que não tentar a abordagem oposta? Em vez de perguntar "De quem devemos nos livrar?", pergunte a si mesmo: "Quem devemos manter?"

— Quem devemos manter…? Bem, todos, é claro—

— Classifique todos da turma por ordem de prioridade. Organize todos, inclusive você mesmo, do topo até a base. É claro que pode haver vários alunos no mesmo nível de prioridade. Ainda assim, tente montar um ranking. Você pode se basear em afinidade pessoal ou na contribuição de cada um para a turma.

Ao criar esse ranking, inevitavelmente alguém ficaria no topo e alguém na base.

— Isso… mas…

Sim, era uma solução simples. Mas Hirata não faria isso. Seu coração estava decidido a salvar todos. A ideia de classificar pessoas provavelmente era inaceitável para ele.

— Mesmo que eu faça isso, o resultado não será o mesmo que o de um outro colega — disse Hirata, ainda se justificando, ainda tentando fugir. Se continuasse assim, entraria no exame completamente indefeso.

— Tudo bem. Acho que você deve começar chegando às suas próprias conclusões — respondi.

Provavelmente, esse era o único conselho que eu poderia dar por enquanto. O que ele faria com isso dependia inteiramente dele. Agradecido pelo café que ele havia preparado, dei um gole. Era um pouco mais ácido do que o que eu costumava tomar. Talvez ele usasse uma marca diferente.

— Entendo. Certo. Talvez você tenha razão. Ultimamente, tenho sentido vontade de fugir de tudo — disse Hirata.

Ele me ouviu e fazia o possível para entender. Duvidava que conseguisse absorver aquilo imediatamente. Provavelmente não lhe caiu bem, causando um desconforto no estômago. Ainda assim, ele se conteve, tentando engolir o que eu havia dito.

— Suspiro… Certo. Obrigado por isso — disse, conseguindo expressar sua gratidão.

Parecia que nossa conversa havia chegado a um ponto de pausa.

— Ei, posso fazer uma pergunta pessoal? Pode ser um pouco indiscreta — falei, decidindo mudar de assunto.

— Hm? O que foi?

— Alguém já disse que gosta de você desde que você e a Karuizawa terminaram?

— Uau, essa foi inesperada. Nunca imaginei que você me perguntaria algo assim, Ayanokoji-kun.

Havia uma mistura de surpresa e confusão no rosto de Hirata. Meu interesse em saber se ele tinha algum relacionamento romântico vinha de uma conversa que tive com Mii-chan, uma colega de classe. Antes do exame de fim de ano, ela me procurou pedindo conselhos, pois gostava de Hirata — e eu queria saber se algo havia acontecido entre eles.

— Bem, não vou dizer quem foi, mas… sim, houve alguém — disse Hirata.

Isso significava que as garotas já haviam começado a confessar seus sentimentos a ele. Eu não ia perguntar se Mii-chan tinha sido uma delas, mas, uau, caras populares eram mesmo impressionantes. Nem precisavam fazer nada para que as garotas se apaixonassem.

Ou talvez fosse apenas a forma como Hirata sempre se comportava? Não era como se ele relaxasse em algum momento.

— Você está saindo com essa pessoa?

— Ah, de jeito nenhum. Não estou planejando sair com ninguém agora — respondeu Hirata, de forma bem direta.

— Tem alguém de quem você gosta?

Se ele estivesse esperando por seu verdadeiro amor, eu até entenderia.

— Acho que namorar é demais para mim no momento. Não estou qualificado — disse Hirata.

— Se você não está qualificado, Hirata, então namorar seria apenas um sonho distante para alguém como eu.

Além disso, não era preciso ter "qualificações" quando se tratava de romance.

— Eu simplesmente não sou bom o suficiente para isso — disse Hirata.

Quanto mais capaz alguém era, mais humilde tendia a ser. E quanto mais incompetente, mais arrogante. No fim, a conversa terminou sem que aprofundássemos em mais nada.

*

 

— Desculpe por te chamar a essa hora, Ichinose.

Eu a convidei para o meu quarto por volta das onze da noite. Seria perfeitamente compreensível se ela tivesse recusado por cautela, mas Ichinose não demonstrou qualquer resistência à ideia.

— Ah, não, está tudo bem. Mas devo dizer que é bem incomum você me chamar, Ayanokoji-kun.

— É porque há algo que eu realmente queria conversar com você, Ichinose. Ah, e pode se sentar na cama por enquanto, se quiser. O chão deve estar bem frio.

Ela agradeceu com um sorriso e se sentou.

— Sinto que meu coração vai sair pela boca… — murmurou baixinho.

— Hã?

— Ah, não é nada. Enfim, por que não falamos disso pelo telefone?

Enquanto colocava água para ferver na chaleira, peguei duas xícaras brancas.

— Há muita coisa que não conseguiria transmitir bem pelo telefone. Por exemplo, há algo que queria confirmar diretamente com você.

— Entendo.

— Não vou enrolar. O que você pretende fazer neste exame?

— Então é sobre a nossa conversa de hoje de manhã, né? Bem, eu tenho… pensado em uma forma de passar por esse exame sem que ninguém seja expulso — disse Ichinose.

— Conseguiu chegar a alguma ideia concreta? — perguntei, virando-me para ela.

Claro, aquela pergunta era apenas formalidade. Ambos sabíamos que a única opção era gastar os vinte milhões de pontos.

— Infelizmente, não… ainda não pensei em nada. O tempo está acabando, então estou começando a entrar em pânico — disse Ichinose.

Nem suas palavras nem seu comportamento davam a impressão de que estava escondendo algo. Era assim que ela realmente se sentia. Ainda assim, lembrei-me de como fiquei impressionado com sua surpreendente habilidade de blefar durante o exame no navio de cruzeiro.

— Pensei que você talvez tivesse ido pedir ajuda ao presidente Nagumo — comentei.

— Ajuda?

O que eu disse poderia ter feito alguém entrar em pânico se não estivesse preparado, mas Ichinose parecia a mesma de sempre. No entanto, o que eu diria a seguir provavelmente atravessaria sua fachada. Quando a água ferveu, preparei uma xícara de chocolate quente e entreguei a ela.

— Obrigada.

— Este exame suplementar é diferente dos anteriores. Não podemos passar por ele sem que alguém seja forçado a sair da escola. No entanto, há um único caminho para evitar isso: juntar vinte milhões de pontos. Não importa quantos pontos a Classe B tenha economizado, vocês não chegaram a esse total. O que torna a cooperação de terceiros absolutamente essencial.

O olhar de Ichinose se voltou para o chocolate quente. Ela soprou suavemente para esfriá-lo.

— Entendo. A Asahina-senpai também já sabia disso. Mas não pensei que ela tivesse falado com você sobre isso, Ayanokoji-kun.

Como ela percebeu imediatamente como eu havia descoberto, deve ter concluído que não poderia esconder nada.

— Nesse caso, imagino que você também tenha ouvido sobre a condição que ele impôs em troca de me emprestar os pontos que precisamos? — perguntou Ichinose.

Assenti suavemente. Ichinose tinha um sorriso dolorido no rosto.

— É realmente idiota, não é? De várias formas.

Emprestar pontos em troca de um relacionamento. E o fato de ela estar considerando seriamente essa condição. Era provavelmente a isso que ela se referia.

— Caso esteja se perguntando, o Nagumo-senpai me proibiu de contar a qualquer pessoa sobre o acordo. Disse que, se isso viesse a público, fingiria que nunca aconteceu. Mas, se foi a Asahina-senpai quem te contou, então acho que está tudo bem — disse Ichinose.

— Eu não me preocuparia com isso.

— Mas isso não tem nada a ver com você, tem, Ayanokoji-kun…?

— É verdade.

Este era um problema da Classe B. Era uma decisão da Ichinose.

— Quantos pontos ainda faltam?

— Um pouco mais de quatro milhões, mais ou menos — disse Ichinose.

Então, ao iniciar um relacionamento com Nagumo, ela compensaria esses quatro milhões e ninguém seria expulso.

— É um acordo e tanto.

— É. Seria impossível para alguém como eu sair com o Nagumo-senpai e ainda pegar pontos emprestados com ele sem dar algo em troca. Pensando bem, é natural que ele peça algo em retorno — disse Ichinose.

Enquanto a ouvia, comecei a entender o que se passava em sua mente. Não havia absolutamente nenhuma chance de ela permitir que alguém da Classe B fosse expulso. Para impedir isso, estava preparada para se sacrificar.

— Provavelmente é a única forma de salvar todo mundo da Classe B.

— Entendo…

Não importava o que eu dissesse naquele momento, não havia como ajudá-la. De forma realista, pontos privados eram a única solução. E quatro milhões não era uma quantia que eu pudesse reunir, mesmo que estivesse no lugar dela.

— Você está… preocupado comigo, por acaso? — perguntou.

— Pode ser um pouco presunçoso, mas sim.

— Ah, de jeito nenhum. Na verdade, isso me deixa muito feliz.

Apesar de dizer isso, ainda havia uma sombra sobre ela. Ichinose levou o chocolate à boca agora que havia esfriado um pouco.

— Mas acho mesmo que estou em apuros… Sinceramente, se eu não tivesse falado com você, Ayanokoji-kun, talvez tivesse conseguido tomar uma decisão mais rápido. O que você acha, Ayanokoji-kun?

— Sobre o acordo?

— Sim. Do seu ponto de vista, o que parece que estou tentando fazer?

Respondi diretamente:

— Acho que esta é uma tática que só você poderia usar para impedir que alguém da sua turma seja expulso, Ichinose. A opção de juntar pontos privados está disponível porque você tem uma ligação com o presidente Nagumo por fazer parte do conselho estudantil. Esta opção — chegar aos vinte milhões aceitando a condição dele — é uma escolha válida.

— E você não vai me desprezar por isso? — perguntou.

— Não, não há necessidade disso. Mas, para ser sincero, não consigo determinar se gastar vinte milhões de pontos para salvar um colega realmente vale a pena.

— Entendo.

Ichinose tomou outro gole lento do chocolate, ainda mantendo o olhar fixo em mim.

— Ei, Ayanokoji-kun.

— Hm?

— Ayanokoji-kun… talvez você seja uma pessoa realmente incrível?

Ouvi-la me chamar de incrível me deixou um pouco confuso. Tudo o que fiz foi contar o que tinha ouvido da Asahina.

— O que faz você achar que sou incrível? Desculpa, mas é algo que definitivamente não vejo em mim mesmo.

— Se isso for verdade, só torna você ainda mais incrível. Afinal, Ayanokoji-kun, você…

Ichinose interrompeu a própria frase no meio.

— O que foi? — perguntei.

— Ah, não é nada. Está tudo bem.

Era quase como se nem ela mesma entendesse o que queria dizer. Como se sua boca estivesse se movendo mais rápido que seus pensamentos.

— O que é isso, afinal…? — murmurou Ichinose baixinho, como se estivesse falando consigo mesma.

Mesmo tendo sido um pouco insistente ao marcar esse encontro, fiquei feliz por tê-la convidado. Mais uma vez, percebi que, acontecesse o que acontecesse, Ichinose agiria pensando no melhor para a Classe B.

Ela provavelmente ainda agonizaria por um bom tempo antes de tomar sua decisão. Uma decisão sobre iniciar — ou não — um relacionamento com Nagumo Miyabi.

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