Volume 5

Capítulo 2: A Estrela de Naniwa

 

 

   O dia após a festa — o dia anterior ao início do Festival de Batalha das Sete Estrelas. Ikki, Shizuku e Alice dirigiam-se ao saguão do hotel onde estavam hospedados, pois haviam decidido sair para jantar na última noite antes do evento. A decisão deles fora motivada por algo ocorrido na festa do dia anterior, uma hora antes de Ikki finalmente trocar suas roupas danificadas.

   Logo quando a festa estava prestes a terminar, Moroboshi havia se aproximado dele e de Shizuku.

“E aí, Kurogane. Sabe onde vai comer amanhã à noite?”

“Na verdade não. Estava pensando em comer no restaurante do hotel mesmo.”

   Ao ouvir que Ikki não tinha pensado muito sobre isso, Moroboshi franziu a testa.

“Não seja assim. Você está em Osaka, meu chapa. Tem que experimentar a comida pela qual este lugar é famoso!”

“Justo. Mas que comida é famosa aqui?”

“Coisas feitas de farinha, eu diria. Takoyaki é bom, mas é mais um lanche. Se quer uma refeição de verdade, vá de okonomiyaki.”

“Mas Onii-sama, nós não comemos okonomiyaki no Langetsu lá em Tóquio?”

“Idiota! Isso é o mesmo que dizer que sabe tudo sobre o champon de Nagasaki depois de uma viagem ao Linger Hut. Existem sabores que você não pode experimentar a menos que vá à localidade específica conhecida por eles. Certo, é isso; amanhã, vamos comer okonomiyaki no jantar! Vou levar vocês ao melhor lugar para isso também.”

“Ah, hum...”

“Vamos nos encontrar fora do saguão às cinco horas!”

   Parecia menos que eles tinham concordado com o plano de Moroboshi e mais que ele o tinha imposto a eles antes que conseguissem dizer qualquer coisa.

“Ele parece terrivelmente insistente”, comentou Alice. “É assim que as pessoas de Osaka são?”

“Espero que não.”

“Eu agradeço a oferta, no entanto. Nunca comi okonomiyaki, e agora que já viemos até Osaka, esperava experimentar pelo menos uma vez.”

“Sério? Você deveria ter dito antes.”

“Ora, como eu poderia arrastar vocês dois por aí quando têm lutas amanhã?”

   Ela tinha razão. Em vez de ter um formato de liga, o Sete Estrelas era um torneio eliminatório e, como tal, cada luta precisava ser encarada com o nível mais alto possível de concentração. Quase todos os competidores estavam focados em garantir que estivessem em plena forma para o primeiro dia, então era mais ou menos esperado que recusassem quaisquer convites para sair.

“Quem diria que um competidor seria aquele a nos convidar, no entanto?” Alice ponderou. “Ele tem muita audácia, não acha? Ou será que ele está simplesmente ansioso com o dia de amanhã?”

   Um convite vindo de alguém de quem se esperava levar para casa uma segunda vitória consecutiva — alguém provavelmente sob mais pressão do que qualquer outro presente — feito para a pessoa contra quem lutaria no dia seguinte. Certamente não era algo que nenhum deles havia planejado.

“Se fosse ansiedade, ele não teria nos convidado, certo?” Ikki perguntou em resposta.

“Eu não sou do tipo que fica nervosa perto de pessoas que não conheço, então isso não me incomoda. Mas e você, Onii-sama? Você é gentil, então se tiver dificuldade em recusar qualquer outro convite, estarei lá para fazer isso por você.”

   A preocupação na voz de Shizuku devia-se ao que ela o vira fazer no passado. No primeiro dia das batalhas de seleção, o nervosismo de Ikki o fizera começar sua batalha contra o Hunter com o pé esquerdo. Ela teria preferido que seu irmão passasse o dia anterior à batalha sem ser perturbado ou abalado por ninguém nem nada, e foi por isso que ela falou de Moroboshi de maneira tão ríspida.

“Está tudo bem. Eu sinto que ele foi bem insistente, mas se eu não quisesse ir, teria dito a ele.” Ikki não fora empurrado pela correnteza; ele concordara por vontade própria. Aquela era a verdade. “Como o Moroboshi disse, viemos de Tóquio até aqui. É melhor comermos algo bom. E além disso...”

“Além do quê?”

“Dividir uma mesa com o Rei das Sete Estrelas soa muito mais emocionante do que ficar sozinho no meu quarto me concentrando.”

   Ikki estava simplesmente interessado em comer junto com Yuudai Moroboshi. Havia muitas maneiras de estudar seu poder e habilidades, mas as chances de aprender sobre o próprio Rei eram raras. Ikki queria saber quais pensamentos e desejos o impulsionavam. O Worst One priorizou o encontro deles em vez de passar o tempo focado em si mesmo.

“Seus nervos podem ser mais fortes que os dele.”

   O espanto de Alice era justificado. Claramente, Ikki era tão inocente que estava imune à sensação de constrangimento que acompanharia sair para comer com a pessoa contra a qual lutaria no dia seguinte.

“Ei, aqui!”

   Quando os três saíram do saguão do hotel, Moroboshi gritou para eles da frente da fonte. Eles imediatamente correram até ele.

“Desculpe. Esperou muito?”

“Não, vocês chegaram bem na hora. Eu que fiquei impaciente, então não esquenta com isso.” Ele então se virou para olhar para Alice, como se acabasse de perceber algo. “Hm? Quem é esse bonitão aí com vocês?”

   Embora tivesse desistido, Alice havia inicialmente conquistado uma vaga como uma das representantes de Hagun nas Sete Estrelas. Se Moroboshi não a reconheceu, deve ter sido porque não se lembrava dela das fotos que circularam na época em que as listas foram anunciadas. Eles também não haviam se encontrado na festa, então ele estava confuso com o rosto novo. Shizuku deu um passo à frente e a apresentou.

“Esta é Nagi Alisuin. Ela é minha amiga e uma de nossas colegas de classe na Hagun.”

“Não me falaram nada sobre um limite de amigos, então decidi me juntar. Não deveria?”

“Nah, sem problemas. A comida fica mais gostosa quando tem mais amigos por perto”, respondeu ele com um sorriso radiante. “Bem, você pode me conhecer, mas devo me apresentar. Moroboshi, da Academia Bukyoku.”

   Ele ofereceu seu nome a Alice e estendeu a mão direita para um aperto de mão.

“Que gentileza a sua. Meu nome é Alisuin, mas pode me chamar de Alice.” Ela não tinha motivos para recusar uma saudação tão amável, então disse seu nome e aceitou o aperto de mão. Em seguida, ela abriu um leve sorriso, com um brilho travesso nos olhos. “Heehee. Um tom rude, mas um cavalheiro no fundo. Eu amo homens como você.”

“Hã?!” Sob o peso do olhar dela, os ombros de Moroboshi tremeram. Considerando que era a primeira vez que se viam, o choque dele não era surpresa. Ele parecia completamente desnorteado. “Desculpe, hã... Isso é uma piada ou algo assim?”

“Não, estou falando sério. Sou uma donzela nascida no corpo de um homem.”

“Ah... Entendi. Deve ser difícil.”

Haha, você realmente é o Rei das Sete Estrelas. Suas mãos são tão musculosas e viris.”

Bwahhh!”

   Enquanto os dedos delgados de Alice massageavam as costas da mão de Moroboshi, ele empalideceu e saltou para longe.

Ahaha, que reação inocente. Você é tão fofo.”

“Alice, pare de provocá-lo.”

Heehee, desculpe. Está tudo bem, Moroboshi; eu estava apenas brincando.”

Ah... A-Ahaha. Entendi, só brincadeira. Eu nunca conheci alguém como você, então foi um choque e tanto.”

“Eu não me aproximo de rapazes héteros.”

“Acho que você não está brincando...”

     É exatamente como no dia em que conheci a Alice. — Vendo Moroboshi agir daquela forma, Ikki sentiu-se nostálgico por um momento, lembrando-se de como seu próprio encontro com ela meses atrás fora um verdadeiro "choque de realidade".

   Dito isso, Moroboshi mostrou uma capacidade maior de se adaptar à situação. Ele limpou a garganta.

“B-Bem, tudo bem. Não importa quem você seja, você ainda aprecia uma boa refeição, certo?” Após se recompor, ele se voltou para Ikki com uma pergunta. “A propósito, não vi a Princesa Carmesim. Ela ainda vem?”

“Sim. Ela provavelmente aparecerá no último minuto.”

“Sério? Que pena”, suspirou Moroboshi, genuinamente decepcionado.

   Ikki entendia como ele se sentia. Ambos tinham ido à festa para ver os rostos daqueles que enfrentariam nos próximos dias. A cavaleira Rank A, a Princesa Carmesim, certamente era alguém que o Rei das Sete Estrelas gostaria de—

“Ela parece do tipo que comeria o suficiente para quebrar a banca. Eu estava meio animado para ver isso.”

“Hã? Você disse algo, Moroboshi?”

A-Aha, ahaha, nada! Só falando sozinho.”

“Ok...”

   Ikki olhou confuso para Moroboshi, que agia de forma suspeita. Parecia que ele havia sussurrado algo.

“Bem, está na hora de irmos. Não é tão agitado quanto Tóquio, mas tem muita gente nos distritos comerciais a esta hora do dia. Mantenham o passo para não me perderem.”

   Para evitar que Ikki pensasse demais no que ele havia dito, Moroboshi deu o sinal para partirem e começou a guiá-los em direção ao restaurante.

 

 

   Da estação mais próxima do hotel, o grupo de quatro pessoas pegou o trem por pouco mais de dez minutos. Ao descerem, dirigiram-se ao distrito comercial sob a liderança de Moroboshi. Ao longo do caminho, começaram a notar um padrão.

“Ei, é o Moroboshi!”

“Aquele bobo, ele está mesmo aqui! Ei, o que você está fazendo?! Não tem uma luta amanhã?!”

“Vocês é que são os bobos, crianças bobas! Como disseram, minha luta é amanhã, não hoje!”

“Boshi, é bom você ganhar de novo este ano!”

“Não consegui um assento, mas vamos colocar uma TV aqui no distrito comercial e torcer por você!”

Hahaha! Deixa comigo, pessoal.”

“Ei, Yuu. Estou indo jogar mahjong com o Taku. Quer vir?”

“Não posso, desculpe. Estou mostrando o lugar para uns amigos de Tóquio. Talvez na próxima!”

“Boshi! Temos atum gordo para comemorar sua grande vitória!”

“Sério?! Você sabe que eu vou aceitar essa, meu chapa!”

“Mas se você perder, vai levar um tubo inteiro de wasabi pelo nariz!”

   Homens e mulheres, jovens e velhos — tantos tipos diferentes de pessoas o chamavam. Alguns o apoiavam e encorajavam, outros até o provocavam. Todos tinham formas diferentes de se comunicar, mas todos demonstravam uma profunda gentileza.

“O Moroboshi é muito popular”, disse Shizuku, espantada com a cena. “Nem a Stella causaria tanto clamor apenas caminhando pela cidade.”

“Bem, a Stella é popular, mas ela ainda é apenas uma estudante transferida. Duvido que alguém seja mais popular que o Rei das Sete Estrelas, especialmente na cidade de onde ele vem.” Enquanto eventos como o Festival de Batalha das Sete Estrelas fossem televisionados, os cavaleiros estudantis certamente atrairiam fãs, inclusive de outras escolas. Naturalmente, isso significava que o conquistador do Festival, o Rei das Sete Estrelas, teria uma quantidade incrível. “Sem mencionar que uma sequência de dois anos como Rei é algo sem precedentes. Heróis da casa sempre geram muito burburinho, e se ele conseguir essa segunda vitória, isso apenas somará às suas já grandes conquistas.”

Heehee. Ele é realmente alguém importante, não é? Tanta coisa pesando sobre seus ombros, mas nenhum sinal de desconforto.”

“Sim, ele é incrível”, concordou Ikki de todo o coração. “Depois de tudo o que aconteceu com ele, e com todas as esperanças que as pessoas depositam nele, ele ainda leva tudo com naturalidade.”

Onii-sama, o que você quer dizer com ‘tudo o que aconteceu com ele’?”

“Hã? Ah, certo. Você não saberia.”

   A expressão de Ikki endureceu em resposta à pergunta de Shizuku. O que Ikki deixara escapar estava relacionado a algo profundamente enraizado no passado de Moroboshi. Ainda assim, era um evento muito conhecido, então ele não viu necessidade de escondê-lo.

   Julgando pelo silêncio de Alice após a pergunta de Shizuku, ela devia saber a respeito — era algo famoso a esse ponto. No entanto, como Shizuku normalmente demonstrava pouco ou nenhum interesse pelos outros, não era improvável que ela não estivesse ciente. Mesmo que tivesse ouvido falar, ela não era do tipo que se daria ao trabalho de lembrar.

     Será que não tem problema eu contar para ela?

   Ikki achou que seria rude falar sobre o assunto na frente de Moroboshi; poderia ser uma lembrança amarga para ele. Felizmente, ele estava ocupado respondendo aos gritos de seus fãs, então Ikki sussurrou o mais baixo que pôde, contando a Shizuku a história de Yuudai Moroboshi.

“Veja bem, Moroboshi foi forçado a se aposentar ainda no ensino fundamental.”

   Tudo aconteceu quando ele estava na sexta série. Com sua força extraordinária já aparente naquela época, ele fora apelidado de “Estrela de Naniwa”, em homenagem ao distrito de Osaka onde vivia. Infelizmente, porém, ele se envolveu em um trágico acidente de trem e sofreu ferimentos graves pouco antes da partida final do torneio da Little League.

   Blazers podiam se proteger facilmente usando magia, então, normalmente, eram resistentes a acidentes desse tipo. No entanto, essa resistência tinha limites. Acidentes de grande escala, como descarrilamentos de trem, rompiam facilmente qualquer proteção mágica que possuíssem.

“Seus ferimentos foram tão graves que não cicatrizaram completamente nem mesmo depois de ele ter sido colocado em uma Cápsula iPS. Os médicos disseram que ele nunca mais andaria. É claro que ele não poderia lutar naquele estado, então a Estrela de Naniwa foi forçada a se retirar tanto de sua batalha final na Little League quanto do mundo das lutas como um todo.”

“Eu nunca imaginaria. Mas agora ele está andando normalmente e lutando também, certo?”

“Sim.”

   Enquanto Moroboshi caminhava à frente deles, parecia perfeitamente firme sobre os próprios pés. Mas por que não estaria? Ele era uma lenda, o vencedor da Sete Estrelas do ano passado.

“Em resumo, embora tenham lhe dito que nunca se recuperaria, ele superou seus ferimentos e fez um grande retorno como atleta.”

   Yuudai Moroboshi não era um homem que havia nascido em berço de ouro. Longe disso, na verdade — ele já havia caído no fundo do poço. Após quatro longos anos, ele foi capaz de florescer mais uma vez no campo de batalha, finalmente alcançando o topo no ano passado. Sua estrada estivera longe de ser plana.

“É simplesmente incrível. Ele fez algo que nenhuma pessoa normal conseguiria fazer.”

“Recuperar-se de ferimentos assim é certamente impressionante.”

“Bem, não é só isso, Shizuku.”

“O que você quer dizer?”

   Recuperar-se dos ferimentos era, de fato, incrível, mas não era só aquilo.

“A coisa mais fantástica de todas é o que você está vendo agora”, disse Ikki, enquanto passava os olhos rapidamente pelos moradores sorridentes à frente deles. “Ninguém aqui tem medo de que Moroboshi perca. Ninguém pergunta sobre sua condição física ou se preocupa com ele de forma alguma; todos têm fé absoluta nele.”

   Eles não tinham a menor dúvida quanto à Estrela de Naniwa e sua recuperação total. Mesmo depois de ouvir que não tinha esperanças de cura, ele construíra confiança suficiente para que todos parassem de se preocupar.

“Se você me perguntar, isso é mais difícil, mais incrível do que apenas alcançar o topo.”

   Ikki sempre quisera perguntar a Moroboshi o que o levara a fazer tudo aquilo, qual era a força motriz em seu coração que o impulsionara à ação. A resposta devia estar intimamente ligada à força de Moroboshi. Em meio ao entusiasmo de Ikki, Shizuku suspirou profundamente.

“Haa... E você vai enfrentá-lo logo na sua primeira partida. Você tem uma sorte realmente terrível, Onii-sama. Deve ter cometido muitos crimes em uma vida passada.”

“Ele gastou toda a sorte dele com a irmã adorável e a namorada linda, obviamente.”

“Se foi para aí que toda a minha sorte foi, é totalmente compreensível. Eu não me importo nem um pouco.”

   Justo então, apenas Ikki parou abruptamente de caminhar.

Hm?”

   Ele sentiu que os olhos de alguém estavam fixos na nuca dele, vindo de algum lugar entre o fluxo de pedestres que passava por eles. Foi um olhar intenso que o atingiu, o suficiente para fazê-lo parar e se virar para procurar a origem. Àquela altura, porém, os olhos já haviam se voltado para outro lugar, e os sinais de sua presença foram lavados pelo fluxo de pessoas.

     Não pode ter sido apenas minha imaginação.

Onii-sama? O que houve?”

“Não é nada”, respondeu ele, antes de acelerar o passo para se juntar aos outros.

   Não podia ter sido apenas sua imaginação, mas ele também não conseguia perseguir a fonte daquele olhar, e isso o incomodava imensamente. Enquanto ele ponderava, o grupo saiu do distrito de compras e chegou ao destino.

“Aqui estamos, senhoras e senhores! Este é o melhor de Osaka — talvez até o melhor do Japão — restaurante de okonomiyaki: First Star!”

 

 

   O restaurante para o qual Moroboshi os guiara ficava na extremidade mais distante do distrito comercial. Era uma construção tradicional japonesa de dois andares; sua entrada era adornada com cortinas vermelhas que exibiam as palavras “First Star”, e suas paredes de madeira, escurecidas pelo tempo, pareciam exalar uma espécie de dignidade. O restaurante provavelmente estava de pé desde muito antes de Ikki ou até mesmo seus pais nascerem.

“Certamente tem muita personalidade.”

Hah! Tudo bem, você pode dizer que é acabado. Esta coisa está de pé há quase cem anos, sabe. Ouvi dizer que era um restaurante de sukiyaki naquela época, no entanto.”

“Eu amo prédios japoneses antigos assim. A nostalgia disso é simplesmente adorável.”

“Você não é estrangeira, Alice?”

“E-Eu provavelmente tenho algum sangue japonês em mim em algum lugar! Provavelmente! Ei, o que é aquilo?”

   Alice fixou os olhos em uma parte da construção.

“O que foi, Alice?”

   Interessado no que havia atraído o olhar dela daquela forma, Ikki seguiu sua linha de visão. Ali, ao lado da entrada, havia uma caixa de correio enferrujada e uma placa com o nome “Moroboshi” escrito nela.

“‘Moroboshi’? Esta é a sua casa?”

   A pergunta de Ikki fez Moroboshi fazer uma careta exagerada de “você me pegou”.

“Ah, o segredo foi revelado. Eu queria surpreender vocês quando entrássemos. Mas sim, exatamente como você investigou, este é o meu lugar.”

“Então você estava apenas fazendo propaganda para nós, hein? Ora, que astuto da sua parte.”

Hahaha. É, eu acho que sim. Pode me chamar de o ‘Empresário de Naniwa.’”

   Moroboshi riu distraidamente para Alice, cujos olhos estavam arregalados de surpresa. Ele era a própria imagem de um vendedor entusiasmado.

“Vocês não precisam se preocupar, no entanto, porque o okonomiyaki da minha família é realmente o melhor. As pessoas vêm aqui de todos os lugares, e não deixamos ninguém comer porcaria. Vocês amam comer comida boa, e nós amamos dinheiro. Bam! Ambos ficamos felizes. Não é lindo?”

“Tudo isso soou muito suspeito e excessivamente conveniente para ele. Você tem certeza de que ele é confiável? Talvez devêssemos procurar outro lugar para comer em vez disso?”

   Shizuku perguntou a Ikki, parecendo — compreensivelmente — não convencida.

“Não temos outro lugar para ir. Vamos tentar.”

“Se você está de acordo com isso, então eu não me importo.”

“Então vamos logo e entremos lá”, disse Alice, juntando-se à conversa. “O cheiro aqui fora está tão bom que meu estômago está roncando.”

“Parece que estamos todos de acordo!”

   Moroboshi comemorou. Com todos em sintonia, ele os conduziu através das cortinas. Após lutarem um pouco para abrir a porta de correr, entraram no restaurante.

Ooh.”

“Uau...”

   O aroma delicioso de molho cutucou seus narizes. A fragrância era várias vezes mais forte do que o cheiro do lado de fora, estimulando uma fome ainda maior. Até mesmo Shizuku, que normalmente não se fixava muito em comida, não pôde deixar de demonstrar seu desejo.

“O cheiro está delicioso.”

“Com certeza. Os negócios parecem estar prosperando também.”

   Como Alice indicara, o interior da loja estava agitado, apesar de ainda ser um pouco cedo para o jantar. Quase todas as mesas estavam ocupadas, e as vozes dos clientes fazendo pedidos podiam ser ouvidas em meio a todo o barulho. Sendo ou não o melhor de Osaka, um lugar tão movimentado não poderia, de forma alguma, servir comida ruim.

“Ei, Mãe!”

   Enquanto Ikki e o grupo tinham seus corações roubados pelos aromas frescos do restaurante, a voz de Moroboshi perfurou o redemoinho de barulho com facilidade. Em resposta, uma mulher de meia-idade desviou o olhar de seu trabalho de virar okonomiyakis. Seus olhos afiados, semelhantes aos de Moroboshi, arregalaram-se ao vê-lo.

“Oh? O que você está fazendo aqui, querido? Você não deveria ficar naquele hotel até o torneio terminar?”

“Vim ver seu rosto lindo, Mãe.”

“Pare com isso, seu esquisitinho! Você está me dando arrepios.”

“Rude! Pelo visto, não adianta nada ser um bom filho para você.”

“Eu trabalhei a minha vida inteira! Não preciso que o moleque que saiu de entre as minhas pernas tente me ajudar!”

“Tem gente comendo, Mãe! Não enoje eles com essa sua boca suja!”

“Não tem outro jeito de falar com pirralhos como você. Certo, pessoal?”

   Os clientes ao redor do restaurante riram. A atmosfera era despretensiosa, bem característica do centro de Osaka.

“Mas falando sério. Por que você veio para casa?”

“Trouxe algumas pessoas de Tóquio que conheci no hotel. Já que eles estão aqui em Osaka, eu queria que experimentassem o melhor okonomiyaki da cidade.”

   Moroboshi apontou o polegar na direção de Ikki e dos outros atrás dele.

“Ah, entendo.”

   Aquela troca de palavras deu à mãe de Moroboshi toda a informação de que precisava. Ela interrompeu o trabalho e estampou um sorriso cordial em seu rosto suado.

“Bem-vindos. Eu sou a mãe do Yuudai. Descansem as pernas aqui.”

“Tudo bem. Obrigado.”

“Não sei se somos os melhores de Osaka, mas podem ter certeza de que colocarei tudo de mim na comida de vocês.”

“Isso parece ótimo. Estou ansioso por isso.”

“Parece realmente cheio, no entanto. Há algum lugar vago?”

“Temos uma mesa livre agora, na verdade. Vou acomodá-los lá. Koume, leve nossos clientes até a mesa, por favor.”

   Em resposta à ordem da mãe de Moroboshi, uma menina de quimono e avental foi em direção ao grupo de Ikki. Com idade de ensino fundamental e um corte de cabelo estilo bob, ela era jovem demais para ser uma funcionária comum.

“Ora, você não é uma fofura? Ela é sua irmã?”

“Sim, essa é a Koume. Ela não é uma Blazer, no entanto.”

   Moroboshi confirmou a hipótese de Alice. Diferente da mãe, ela parecia muito distinta dele. Devia ter puxado ao pai, em vez disso.

“Koume, leve-os até a mesa no fundo.”

   Pronta para seguir a ordem da mãe, a irmã de Moroboshi assentiu e deu um passo à frente do grupo de Ikki.

“...!”

   No momento em que ela e Ikki cruzaram os olhares, no entanto, os olhos dela se arregalaram, e ela silenciosamente fez uma expressão de choque e perplexidade.

     Hã?

   Ikki inclinou a cabeça, perguntando-se o que havia de tão estranho consigo mesmo. Felizmente, Moroboshi estava lá para lhe dar a resposta.

“Ela só está surpresa que o oponente de amanhã esteja aqui.”

“Ah, entendo.”

   A surpresa dela durou apenas um instante antes que ela se recompusesse e exibisse um sorriso ensaiado. Era óbvio que ela era filha de um comerciante. Após uma reverência perfeitamente polida, ela retirou um caderno de desenho de dentro das mangas largas de seu quimono.



 

 

 

 

“Bem-vindos♪”

   Com um sorriso caloroso, ela folheou o caderno e mostrou ao grupo de Ikki as letras estilizadas de forma fofa que compunham a charmosa saudação escrita ali.

“Uh...?”

   Ikki e seus dois amigos atrás dele ergueram as sobrancelhas em confusão. Afinal, que tipo de funcionária cumprimentava os clientes por meio da escrita em vez de apenas falar? Como se esperasse que eles reagissem daquela forma, Moroboshi interveio rapidamente para explicar.

“Não se preocupem com isso. Ela é apenas um pouco muda.”

“Ah. E é por isso que ela está usando o caderno?”

“Sim. Mas ela não está doente nem nada; é apenas uma questão psicológica.”

   O tom alegre de Moroboshi afastou as preocupações de Ikki. Então, a própria Koume passou para outra página de seu caderno, revelando algumas palavras brincalhonas.

“Mas eu ainda sou muito prendada.”

“O que você disser, sua malandrinha.”

   Moroboshi pressionou o dedo contra a testa dela, provocando um grande sorriso. No início, Ikki não teve certeza de como reagir ao saber que ela era muda, mas depois de ver a pequena e divertida interação entre ela e o irmão, ele não conseguiu evitar o sorriso.

“Vocês dois se dão bem.”

“Ela é minha única irmãzinha. Sem mencionar que ela é uma fofura.”

   Justo então, Ikki sentiu algo cutucando suas costas. Virando-se para descobrir o que era, ouviu Shizuku dizer algo estranho.

“Sou eu, sua única irmãzinha.”

     O que exatamente você quer que eu faça?

   Sem entender o propósito, Ikki seguiu o exemplo de Moroboshi e deu um peteleco na testa de Shizuku.

Hnnngh!”

   Shizuku parecia ao mesmo tempo inquieta e animada enquanto abria um largo sorriso.

     Ela estava tentando competir com os irmãos Moroboshi? — Era sempre difícil descobrir o que ela estava pensando.

“Cara... Eu achei que estivéssemos adiantados, mas o lugar já está lotado”, murmurou Moroboshi, olhando ao redor do restaurante. Em resposta, a caneta de Koume moveu-se em um frenesi.

“Estão todos aqui para assistir ao Sete Estrelas. Vi muitos rostos novos hoje!”

   Ao ver o breve resumo dos eventos do dia feito por ela, Moroboshi tomou uma decisão.

“É mesmo? Hmm... Talvez eu deva dar uma mãozinha. Desculpe por apenas arrastar todos vocês até aqui, mas está movimentado, então vou ajudar minha mãe.”

“Você não vai comer conosco?”

“Eu queria, mas olhe para todas essas pessoas.”

   Apesar do tamanho relativamente grande do restaurante, quase não havia assentos vazios. Chapas por toda parte estavam sendo utilizadas ao máximo, soltando fumaça branca. Qualquer um diria que era um dia atarefado.

“Tudo bem. Não se preocupe conosco enquanto sua mãe está lá atrás trabalhando tanto.”

   Ikki sentiu-se mal por não poder conversar com Moroboshi, mas, dadas as circunstâncias, sentiria-se ainda pior se o impedisse de ajudar. Moroboshi inclinou a cabeça levemente em sinal de desculpas.

“Desculpe, especialmente depois de ter convidado vocês. Digam à Koume o que querem. É tudo por minha conta, então peçam o que desejarem.”

“Mas você não estava fazendo propaganda?” Shizuku perguntou com os olhos arregalados, mas Moroboshi respondeu com um sorriso travesso, como o de um garoto que acabara de pregar uma peça com sucesso.

“Isso era piada, dã! Não confie em um cara de Kansai se ele estiver sorrindo!”

   Aparentemente, tudo fora uma brincadeira, pois a intenção de Moroboshi sempre fora oferecer o jantar. No entanto, seria constrangedor demais para Ikki permitir que alguém que acabara de conhecer no dia anterior fizesse isso. Eram essencialmente estranhos.

“Não posso deixar você fazer isso. Aqui, eu pagarei.”

“Está tudo bem! As coisas nem são caras.”

“Mas—”

“Eu disse que está tudo bem, cara. Sou mais velho que você, então tem que me ouvir.”

   Embora Ikki tivesse tentado recusar a oferta, ele foi vencido. Parecia que Moroboshi era um homem insistente em diversas situações.

“Então, Koume, deixo eles com você.”

   Entregando o grupo de Ikki à sua irmãzinha, que assentiu, Moroboshi apertou sua bandana e dirigiu-se à área da cozinha. Após vê-lo partir, Koume voltou-se para seus clientes e folheou seu caderno, no qual claramente já havia deixado escritas muitas de suas frases usadas com frequência.

“Vou levá-los aos seus lugares!”

   Depois de mostrar essa mensagem, ela guiou o trio até a mesa.

“Aqui está a mesa de vocês♪”

“Obrigado.”

   Após agradecerem, o grupo de Ikki ocupou seus assentos e fez os pedidos. Koume anotou tudo em seu caderno e confirmou a precisão antes de retornar à cozinha. Esperar pelos pedidos deu aos três tempo para relaxar, mas foi então que ouviram por acaso a conversa entre as duas pessoas sentadas na mesa atrás deles.

“É sério? Você e o Moroboshi não têm nada?”

“É o que eu vivo dizendo. Ele nem de longe faz o meu tipo, de qualquer forma.”

   Ambas as vozes eram femininas, e Ikki sentiu que já tinha ouvido uma delas recentemente. Todos na mesa se viraram para a origem do som. Da mesma forma, as duas mulheres notaram a presença do grupo e se viraram para olhar.

“Hm?”

“Ah—”

“Ora, ora.”

“Yakushi!”

   Cinco olhares se cruzaram. Como Ikki suspeitava, a mulher cuja voz ele reconhecera era Kiriko Yakushi, a Medico Knight. Com ela estava Yagokoro, a integrante do clube de jornalismo da Academia Bukyoku que estivera presente no acampamento de treinamento conjunto entre Hagun e Kyomon.

 

 

   Um encontro inesperado em um lugar inesperado. Encontrar conhecidos em hotéis ou restaurantes perto da arena do Festival seria mais ou menos previsto, mas no coração de Osaka, onde restaurantes de massas eram encontrados em cada esquina, era uma coincidência incrível encontrar outro representante da Sete Estrelas. Pelo menos, Ikki pensara que fosse uma coincidência.

“O quê?! Foi você quem tratou os ferimentos do Moroboshi?!”

“Sim. O destino é estranho, não é?”

   Assim que ele começou a falar com ela, ficou claro que Kiriko viera para ver Moroboshi, não para comer okonomiyaki.

“Suponho que sim, mas vocês dois não estão no mesmo ano escolar? Não houve problema em tratar os ferimentos dele sem uma licença médica?”

“Ele está melhor agora. Isso importa?”

     Acho que a lei diria que importa, pensou Ikki, mas sentiu que investigar mais a fundo seria cutucar a onça com vara curta desnecessariamente.

“Então, Yakushi, você veio ver seu paciente de muito tempo atrás?”

   Optando por não insistir no assunto anterior, Ikki perguntou o motivo da presença de Kiriko ali. Em resposta, ela fez um gesto ambíguo com a mão, um meio-termo entre sim e não.

“Não é exatamente apenas vir vê-lo; é mais como uma visita domiciliar.”

“Hã?”

   Aquelas palavras enviaram vibrações desconfortáveis ao coração de Ikki.

“O Moroboshi não está totalmente curado?”

   Seu coração batia mais rápido com o receio de que Moroboshi ainda estivesse ferido. No entanto, Kiriko rapidamente negou seu temor.

“Não, ele está cem por cento curado. Mas o tratamento foi muuuito extremo, então você pode chamar isso de ‘pós-atendimento individual’. Afinal, eu não quero que o pior aconteça com meu paciente.”

“Oh, então é apenas o seu jeito de ser gentil.”

“Com certeza.”

“Isso é... bom.”

   Ikki deu um profundo suspiro de alívio. Ele ficaria imensamente decepcionado se sua chance de lutar contra o Rei das Sete Estrelas fosse manchada por feridas do passado.

“Então eu decidi fazer esse acompanhamento preventivo, mas ele não estava no quarto do hotel. Perguntei ao Jougasaki sobre isso e ele disse que o Moroboshi tinha ido para casa, então aqui estou eu. Peguei um táxi porque estava com pressa, mas infelizmente, agir tão rápido foi um erro. A garota paparazzi aqui começou a suspeitar erroneamente que eu sou ‘alguma coisa’ dele.”

   Kiriko lançou um olhar ressentido para Yagokoro. Julgando pelo contexto, parecia que ela fora acusada e questionada sobre um relacionamento impróprio com Moroboshi.

“Haha... Bem, isso soa terrível.”

“É, foi mesmo.”

“Ah, me dê um tempo! Por que uma médica estaria correndo para a casa de um paciente curado há tanto tempo daquele jeito? É o retrato perfeito de um romance entre médico e paciente. Cheira a intriga como se fosse surströmming! Quem não ficaria suspeito?”

“Eu não estou brincando. Aquele garoto tem o olhar de um animal selvagem; ele definitivamente não faz o meu tipo. Eu prefiro garotos mais novos como o pequeno Kurogane aqui, com esse rosto bonito.”

“Como é?!”

   A comparação repentina e bizarra fez Ikki soltar um ganido de surpresa. Mas sua reação inocente apenas a encorajou ainda mais.

“Teehee♡ Olá. O que você acha de eu lhe dar um rápido exame físico antes da batalha mais tarde? Eu posso até incluir um pequeno bônus.”

   Kiriko lançou a Ikki um olhar lascivo enquanto se curvava de tal forma que seu decote ficava claramente exposto por baixo do jaleco branco. Era um ataque intenso. Em termos de tamanho, ela não era páreo para Stella, mas o charme voluptuoso encontrado apenas em mulheres mais velhas estava agora sendo lançado sobre Ikki.

     Que tipo de “bônus” vem acompanhado de um exame físico?!

   Ele tinha a sensação de que seria diagnosticado com pressão alta. Mas, em meio à confusão de Ikki, Shizuku deixou o lado de Alice.

“Com licença.” Movendo-se entre os dois para proteger Ikki, ela encarou Kiriko, que ainda lhe lançava um olhar sedutor. “Creio que Stella já é obscenidade mais do que suficiente para ele.”

“Você poderia ter formulado isso de um jeito um pouco mais gentil.”

   Ikki soltou um suspiro de alívio sincero por Stella não estar com eles. Ao seu lado, Yagokoro abruptamente fez uma pergunta a Alice.

“Deixe-me adivinhar: Moroboshi trouxe todos vocês aqui?”

“Ora, você tem uma boa intuição.”

“Imaginei.”

   Sem nenhum bom motivo para esconder a verdade, Alice confirmou a suspeita de imediato. Mas o que havia com o tom de voz de Yagokoro?

“Isso acontece com frequência, por acaso?”

“Sim. Bem, talvez não com frequência, mas ele faz isso sempre que há coisas como partidas de exibição que trazem garotos fortes de outras escolas. Imagino que deva ser a pequena forma de boas-vindas do próprio Moroboshi aos oponentes fortes que vêm a Osaka. Estou aqui porque esperava que ele fizesse isso, na verdade. Nunca se sabe quando se pode ouvir alguma notícia suculenta. Dito isso, não pensei que ele traria o próprio oponente da partida de amanhã. Ele é um cara bem atrevido.”

“Certamente não é algo normal de se fazer.”

“Você não é muito diferente, considerando que aceitou o convite dele.”

Haha. Estou bem ciente do meu próprio atrevimento.”

   Se não fosse um pouco atrevido, o cavaleiro Rank F não estaria buscando o título de Rei das Sete Estrelas.

     Então, Moroboshi dá as boas-vindas aos seus oponentes.

   Isso soava exatamente como algo que ele, um rapaz que era praticamente um herói de corpo e alma, faria. Enquanto Ikki estava ocupado pensando nessas coisas, Kiriko, ainda separada dele por Shizuku, sussurrou para ele:

“Teehee. Mas Moroboshi não é tão puramente atrevido quanto todos vocês podem pensar.”

“O que isso quer dizer?”

“Significa o que eu disse. Sim, o convite dele foi parcialmente planejado como boas-vindas, mas ele tem outros motivos também.”

“Tipo o quê?”

   Seu tom inquietante fez com que sua colega de Bukyoku, Yagokoro, franzisse a testa.

“Não me diga que Moroboshi o está convidando para uma comida boa esperando que ele aprecie tanto a ponto de não querer lutar... Não, duvido que ele seja tão astuto.”

Haha. Você tem razão, ele não é. Na verdade, é o oposto.”

“O oposto”?

   O que seria se fosse o oposto? Ikki começou a ponderar sobre o verdadeiro significado da afirmação de Kiriko, mas seus pensamentos foram rapidamente interrompidos.

“Uau, que surpresa! Parece que algo grande está acontecendo aqui”, disse Moroboshi, chocado, enquanto trazia as refeições que eles haviam pedido.

 

 

   Moroboshi maravilhou-se com o grupo, agora maior do que quando ele o deixara, equilibrando a comida de cinco pessoas em duas bandejas.

“Koume me disse que a Doutora estava vindo, mas eu não sabia que você estava aqui, Yagokoro.”

“Que rude. Você não olha para o rosto de uma donzela e grita ‘uau’.”

“Vocês, paparazzi, precisam aprender a se comportar. Estão incomodando a Doutora e os amigos do Kurogane.”

“Eu não estou incomodando ninguém.”

“Não?” A mentira deslavada de Yagokoro deixou Kiriko boquiaberta. Para quem chamara Moroboshi de atrevido, ela havia passado longe disso — estava mergulhada no reino da sem-vergonhice.

“Olha só quem fala. Que tipo de cara arrasta o oponente para casa no dia anterior à luta?”

“Ele concordou em vir, então está tudo certo.”

“Digo, você tem cara de vilão. Ele provavelmente não recusou porque ficou com medo.”

“Não seja boba”, Moroboshi riu do insulto. “Qualquer um que tivesse medo da minha cara nem viria para o Sete Estrelas. Não é verdade?”

“Bem, eu posso ao menos confirmar que você não nos obrigou a vir.”

   Moroboshi sorriu triunfante, como se dissesse “viu?”, mas seu rosto logo se obscureceu.

“Cara, temos uma gangue e tanto aqui. Eu queria sentar com vocês, mas estou preso ao trabalho. Uma pena”, murmurou Moroboshi com pesar, colocando a comida nas duas mesas com precisão de especialista. Ele depositou o okonomiyaki de porco de Ikki à sua frente. Era uma refeição substancial, do tamanho de uma pizza pequena. “Enfim, aqui está. Três de porco, dois de frutos do mar deluxe.”

“Uau, o cheiro está ótimo. E é verdade mesmo que o vapor faz os flocos de bonito dançarem!”

   Alice, que nascera em um país estrangeiro, estava muito empolgada por ver um okonomiyaki de verdade pela primeira vez. Os outros, instigados pela delícia fumegante que fazia os flocos de bonito bailarem, prepararam seus hashis. Ikki ainda estava um tanto curioso sobre as intenções que Kiriko mencionara, mas não era mais o momento nem o lugar para continuar aquela conversa.

     Com certeza não vou simplesmente perguntar do nada por que ele está fazendo isso.

   Por enquanto, sua melhor opção era comer. Mudando o foco mentalmente, Ikki pegou seus próprios hashis e voltou a atenção para a comida. Foi então que percebeu que algo estava fora do comum. Havia algo que tornava o okonomiyaki da família de Moroboshi diferente do okonomiyaki de Tóquio.

     Ah, então é isso.

“As mesas aqui não têm chapas.”

“Não mesmo. Elas custam uma fortuna em gás, e as coisas sempre acabam queimando de um lado. Pode ter mais atmosfera tê-las, mas não somos assim. Tentamos cozinhar nossa comida com perfeição absoluta, porque é assim que queremos que ela chegue à sua boca.”

   O restaurante, orgulhando-se de ser o melhor de Osaka, havia pensado em cada detalhe. Para evitar que o esforço da equipe fosse em vão, Ikki decidiu garantir que comeria enquanto tudo ainda estivesse bem quente.

“Hora de comer, então.”

   Ele cortou um pedaço de seu okonomiyaki de porco com os hashis e agradeceu antes de levá-lo à boca. No momento em que a comida tocou sua língua, seus olhos se arregalaram em choque e alegria.

     Ooh!

   Era muito diferente de qualquer coisa que ele já tivesse comido em Tóquio. Era delicioso — além de delicioso, na verdade. O sabor principal, incrivelmente, não vinha do porco ou do molho, mas da massa. O repolho dentro da massa, também, estava incrivelmente fresco e doce. O conjunto todo possuía uma riqueza que perdurava na boca.

“Cara, isso é tão bom! Não acha, Shizuku?”

“Sim. É diferente de tudo em Tóquio. O okonomiyaki de lá só tinha gosto de molho, o que o tornava salgado, mas este é doce. É como se o salgado do molho estivesse acentuando a doçura da massa. Mas acho que há comida demais aqui para eu conseguir terminar.”

   Tanto ela quanto Alice haviam se apaixonado pela comida, e Shizuku estava muito mais falante do que o habitual como resultado. Embora comesse pouco, ela era uma gourmet. Era raro vê-la elogiar uma refeição daquela maneira.

   As outras duas mulheres também estavam estufando as bochechas com deleite. Moroboshi sorriu com alegria ao ver a cena.

Hahaha! O que acham? É ótimo, não é? Parece que nosso ingrediente secreto está funcionando como um encanto. Já descobriu o que é, Kurogane?”

“Um ingrediente secreto?”

   Ikki concentrou seus sentidos na língua e pensou sobre isso enquanto mastigava. Os sabores mais enfatizados eram a doçura forte e fresca do repolho e a doçura suave da massa. Essa combinação, unida e acentuada pelo salgado do molho, era o que tornava o prato verdadeiramente único. Mas havia algo mais ali também; uma doçura que permanecia na língua mesmo após engolir. Não poderia ter vindo do repolho, cuja doçura era do tipo refrescante que desaparecia a cada deglutição, e era diferente demais do sabor da massa para ter vindo de lá.

     O retrogosto deve estar vindo desse ingrediente secreto.

   Ikki examinou cuidadosamente todo o espectro de sabores que vinham do prato. Após refletir por um momento, chegou à conclusão de que o retrogosto era semelhante ao de um cheesecake.

“Hmm... Poderia ser queijo?”, ele arriscou, fazendo Moroboshi suspirar de admiração.

“Uau, você tem paladar, hein. Acertou em cheio, nosso okonomiyaki leva queijo.”

   Era apenas uma quantidade minúscula. Havia tão pouco, na verdade, que não era suficiente para permitir que o gosto do queijo se destacasse por si só. Mesmo assim, Moroboshi afirmava que era mais do que o bastante para ampliar o sabor do prato.

“É realmente como um ingrediente secreto.”

“Eu estava um pouco preocupada depois de toda aquela conversa de atrair clientes, mas isso é tão satisfatório. Estou feliz por ter vindo.”

   Alice estava absolutamente certa; o okonomiyaki que Moroboshi lhes servira era incomparável à versão de Tóquio. Nem uma palavra sobre o quão bom era fora exagerada. Isso deixou Ikki feliz por ter vindo — embora essa própria emoção tenha gerado uma dúvida.

“Com licença, Moroboshi, você tem certeza de que não há problema em nos oferecer algo tão bom assim?”

“Está tudo bem, cara. Minha mãe me mataria se eu arrastasse vocês até aqui só para arrancar dinheiro. Falando sério, não se preocupe com isso. Pense como minha maneira de cumprimentar um rival que veio de tão longe até Osaka.”

“Mas sinto que é errado aceitar tanto.”

   Eles não tinham muito parâmetro para afirmar que o okonomiyaki do First Star era o melhor de Osaka, mas dificilmente poderiam reclamar do sabor. Ikki já estava grato o suficiente a Moroboshi por dedicar seu tempo na véspera do Festival, logo hoje. Com o acréscimo de ele ter pago a refeição, Ikki estava começando a se sentir mal.

“Retribua o favor durante a partida de amanhã, então”, respondeu Moroboshi, exibindo seu habitual sorriso amigável.

“‘Durante a partida de amanhã’?”

   Ikki repetiu as palavras de Moroboshi, que assentiu.

“Foi o que eu disse. Veja bem, comida boa é um bom motivador. Quero que você use essa motivação para recuperar suas energias e se colocar em condições perfeitas para a luta de amanhã. Isso será mais do que suficiente para me pagar por este jantar, porque vencer um oponente que está no seu auge é a única maneira de eu provar minha própria força.”

   Foi então que Ikki percebeu algo que jazia nas profundezas dos olhos de Moroboshi, por trás do sorriso amigável. Neles, o espírito de luta borbulhava e fervia, potente o suficiente para ser quase equivalente a uma intenção assassina. E, ao notar essa vontade velada de lutar, Ikki também compreendeu algo.

     Isso deve ser o que Yakushi quis dizer com “o oposto”.

   O outro motivo de Moroboshi que ela mencionara não era ser gentil na esperança de tornar seu oponente menos disposto a lutar, mas exatamente o contrário. Ao dar ao seu adversário as melhores boas-vindas que podia oferecer, ele o encheria de vigor na tentativa de garantir que estivesse em sua melhor forma e lutasse com o máximo de si no dia seguinte.

   Conquistar uma vitória fácil devido ao descuido ou à má condição do oponente estava fora de questão para Moroboshi; o que ele queria era um duelo honroso que envolvesse o esforço máximo de ambas as partes. Só então, e somente assim, a vitória seria significativa e valiosa. Essa era a marca própria de cavalheirismo do Rei das Sete Estrelas, Yuudai Moroboshi.

“Teremos uma partida séria no maior palco em que já estivemos. Não quero que nenhum de nós tenha arrependimentos, então, amanhã, vamos ambos com tudo e lutar no nosso melhor. O que me diz, Another One?”

“Nosso”. Aquela única palavra significava que o Rei das Sete Estrelas, aquele que estava acima de todos os outros cavaleiros aprendizes, o reconhecia como alguém que valia a pena enfrentar com todas as forças. Não seria incomum para alguém tão forte quanto Moroboshi desprezar um mero novato Rank F como Ikki, mas, em vez disso, o jovem que estava no topo absoluto estava ansioso para lutar contra ele a sério. Ele estava grato por isso, pois ele também entendia o valor de uma vitória conquistada através de uma luta desesperada.

     Estou feliz por ter vindo aqui hoje, pensou Ikki, com seus sentimentos aprofundados pelo conhecimento do verdadeiro motivo de Moroboshi. Para um cavaleiro — um guerreiro — não havia honra maior do que ser reconhecido por um inimigo poderoso como sendo, ele próprio, um inimigo poderoso, e ser desafiado para uma batalha com força total. Portanto, ele não tinha um único motivo para recusar.

“Se é assim, aceitarei a refeição com prazer. Em troca, amanhã, serei o melhor oponente que você poderia desejar.”

“Era exatamente isso que eu esperava que você dissesse.”

 

 

 

 

 

 

 

   Ikki e os outros passaram mais uma hora no First Star antes que os cinco finalmente se despedissem. Moroboshi havia pedido que esperassem até que ele estivesse livre, mas, mesmo depois de terminarem suas refeições, o lugar parecia ficar mais movimentado em vez de esvaziar. Não parecia que ele ficaria livre tão cedo, e eles não queriam atrapalhar o funcionamento do local por mais tempo.

“Ufa. Faz tanto tempo que não como até meu estômago clamar por misericórdia.”

“Digo o mesmo. Na verdade, estou até com dor de estômago.”

“Céus. Alice, Onii-sama, vocês dois comeram demais. Não sejam como a Stella.”

“Ah, querida. A Stella não teria parado na segunda porção.”

   Se Stella estivesse ali para ouvir aquilo, provavelmente já estariam rolando pelo chão em uma briga agora. Ikki sentia falta daquela algazarra. Embora fizesse pouco tempo que ela partira para treinar com a Demon Princess, o fato de estarem sempre grudados na escola tornava o tempo longe dela incrivelmente solitário para ele. Na verdade, se ela estivesse presente, toda a ida ao restaurante de Moroboshi teria sido muito mais animada.

     Eu deveria levá-la lá quando o Sete Estrelas terminar.

   Ela certamente ficaria radiante com isso, então Ikki, tocado pelo vento de melancolia que visitou seu coração, decidiu que faria exatamente isso. Então, ele se virou para olhar para Kiriko, que caminhava ao seu lado.

“A propósito, Yakushi.”

Mm? Siiim?”

“Por que você foi embora conosco? O Moroboshi não precisava de um exame físico?”

   Era uma pergunta que estava na mente de Ikki há algum tempo. Kiriko havia comido e partido com eles, sem realizar o check-up pelo qual tinha ido originalmente até lá. Ikki imaginou que talvez ela tivesse esquecido, mas Kiriko não parecia perturbada com a revelação.

“Mas eu já o fiz”, respondeu ela, como se afirmasse o óbvio.

“Fez? Quando?”

“Teehee♡ Uma maga de água como eu pode reconhecer o fluxo de sangue e linfa no corpo de uma pessoa, mesmo através das roupas. Se eu quisesse, poderia até usar isso para ler a mente delas, ou até interferir e controlá-las.”

“Não pode ser! Foi assim que você impediu a Tatara de se mover ontem?”

“Correto. Eu costumo usar isso para ajudar na reabilitação, mas é perfeito para disciplinar bobinhas como ela também. Além disso...”

Hm?”

“É tão bom dobrar os outros à minha vontade”, disse ela, com um sorriso maravilhosamente largo acompanhando a coisa maravilhosamente terrível que acabara de revelar. Ikki rezou para nunca precisar ficar sob os cuidados dela.

“Então, como ele parecia estar?”, perguntou ele. Visto que Moroboshi seria seu oponente no dia seguinte, era natural que estivesse interessado.

“Ele está quase irritantemente saudável, o que é um alívio. Mas, por outro lado, o que mais você esperaria de um dos meus pacientes?”, respondeu ela, de forma bastante orgulhosa.

“Você diria que ele está em condições perfeitas, então?”

“Sim. Você terá muito trabalho pela frente na primeira rodada.”

   Kiriko falou como se sentisse pena dele, mas Ikki não se sentia assim de forma alguma. O único motivo para ele se sentir daquele jeito seria se Moroboshi não estivesse em sua forma perfeita, pois não haveria valor em retribuir o favor sobre o qual haviam conversado no restaurante.

   Durante a conversa, o grupo de cinco pessoas saiu do distrito de compras e chegou à estação.

“Bem, eu me despeço aqui. Afinal, não estou hospedada no hotel de vocês.”

“Quer que a acompanhemos?” Alice ofereceu gentilmente a Yagokoro, que voltaria sozinha para casa, mas ela recusou com graciosidade.

“Estou bem; não é longe. E, sabe, eu também sou uma Cavaleira-Estudante.” Ela se afastou alguns passos do grupo, mas virou-se de volta como se tivesse se lembrado de algo. “Ah, Worst One. Tem uma coisa que eu queria te perguntar.”

“O que seria?”

   Yagokoro fez uma expressão complexa — não era exatamente de irritação, mas também não chegava a ser um sorriso sarcástico.

“Eu normalmente não ligo para rumores bobos, mas este é bizarro demais para não ser investigado.”

   Para alguém como Yagokoro chamar um boato de “bizarro”, ele deveria ser realmente perturbador. Sentindo um suor estranho na testa, Ikki a instou a falar, temeroso.

“Qual é o rumor?”

“Bem, err... Dizem que você lutou contra a Asas Gêmeas e venceu. É verdade?”

“Ah—” Ikki arquejou de surpresa com a pergunta de Yagokoro.

   Asas Gêmeas. A cavaleira mais forte do mundo, Edelweiss. A luta de Ikki contra ela ocorrera em um pátio escolar vazio. Ninguém deveria ter visto, então a mídia não deveria ter tomado conhecimento. Ele nunca esperou que alguém lhe perguntasse sobre aquele combate. Observando-o, Yagokoro rapidamente perdeu a paciência.

Ooh! Por que você está reagindo assim?! É verdade mesmo?! Você seriamente venceu?!”

“Não, não, não! Calma aí um segundo! Eu cruzei espadas com a Edelweiss, sim, mas—”

“S-Sério?!”

“Qual é, eu disse para se acalmar!” Enquanto Yagokoro se aproximava, pronta para cravar os dentes na história, Ikki colocou as mãos nos ombros dela e tentou acalmá-la antes de corrigir o boato. “Sim, é verdade que lutamos, mas essa é a única parte verdadeira. Eu não estive nem perto de vencer. Durante a luta, eu apaguei... e quando acordei, estava em uma cama de hospital. Ela teve piedade de mim e me deixou viver. É só isso.”

   Ele não podia deixar as pessoas acreditarem que ele a havia derrotado. Parecendo ter assumido que o rumor era falso desde o início, Yagokoro foi rapidamente convencida pela declaração dele.

“Ah, entendi. É, eu achei que aquilo soava estranho. Mas o fato de você ter lutado com ela e vivido para contar a história já é uma grande notícia por si só! E-ei, desculpe fazer isso quando você está a caminho do hotel, mas poderia me dar os detalhes da batalha em si?”

   O rosto de Yagokoro iluminou-se rapidamente com o grande furo que acabara de encontrar. Ikki, no entanto, só pôde se desculpar.

“Sinto muito, mas não posso.”

“P-Por que não?! Eu não vou usar a matéria para zombar de você por ter perdido!”

“Não é por nada desse tipo. É que eu simplesmente não me lembro muito bem da luta.”

“Não se lembra?”

“Não. Lembro-me de ter sido transformado em polpa, mas estava tão preocupado em me defender que a metade final é um borrão.”

   Aquilo não era mentira. Ikki recordava-se de sua Dokuga no Tachi (Venomscale Cut) de corpo inteiro sendo repelida com facilidade e da Intetsu sendo estraçalhada, mas suas memórias depois disso — de como ele manobrara em torno da Asas Gêmeas e do momento em que desferira seu golpe final contra a duelista mais forte do mundo — estavam perdidas. Ele ouvira um pouco sobre o assunto de Kurono, sua salvadora, mas sua incapacidade de lembrar fazia com que parecesse que ela estava falando de alguém completamente alheio a ele.

“De qualquer forma”, disse ele, “a única coisa que posso dizer com certeza é que perdi.”

“E-entendo.” Yagokoro sabia o suficiente pelo pouco tempo que passaram juntos que Ikki não era o tipo de pessoa que mentia, então ela apenas se deixou abater de decepção em sua cadeira, sem insistir mais no assunto. “Isso não é o bastante para render um artigo empolgante. Talvez eu pudesse dar uma incrementada usando minha imaginação?”

“Não.”

“Eu posso fazer você dizer algo legal no momento da derrota!”

“Não.”

“Ugh. Covarde.” Yagokoro lançou-lhe um olhar feio, mas Ikki não cedeu. Ele não tinha ideia do que aconteceria se ela, logo ela, decidisse dramatizá-lo conforme o desejo de seu coração. Infelizmente para ela, ele foi tão obstinado que até ela teve que se render. “Tanto faz. Vou desistir de escrever um artigo sobre isso.”

“Eu realmente agradeceria por isso.”

“Sabe, Worst One, estamos ficando cada vez mais animados com você. Mal posso esperar para ver sua luta contra Moroboshi amanhã! Até lá!”, ela gritou para Ikki enquanto seguia sozinha para o ponto de ônibus. Assim que ela partiu, Shizuku falou:

“Vamos voltar juntos, então? Estamos hospedados no mesmo hotel.”

“Não. Vou a pé em vez de pegar o trem.”

“Por quê? É um tanto longe, sabe.”

“Duas porções foi demais. Preciso fazer algum exercício e digerir tudo isso”, explicou ele, mas também havia uma outra razão que pesava ainda mais que aquela. “Moroboshi acendeu um fogo em mim também. Simplesmente não consigo me acalmar. É melhor manter meu corpo em movimento por um tempo.”

“Eu compreendo. Só não se force tanto a ponto de afetar sua batalha de amanhã”, respondeu Shizuku. Ela sabia que dez minutos de trem não era algo tão distante para ele, mas ainda assim fez questão de deixar um conselho.

“Claro. Vou poupar energia suficiente.”

“Quer que eu vá com você, Ikki?”

“Obrigado, Alice, mas não. Vá com a Shizuku por mim.”

“Tudo bem. Eu farei isso.”

“Vejo vocês amanhã, então”, disse Ikki, indo por um caminho diferente do que Yagokoro tomara. “No torneio!”

“Ele parece tão feliz”, sussurrou Shizuku com um tom deleitado. Alice assentiu em concordância.

“Sim. Parece que ele foi inundado pelo espírito de luta do Rei das Sete Estrelas. Não que eu possa culpá-lo, já que o ‘motivo’ do garoto era apenas o desejo de que ambos lutassem em sua melhor forma.”

“Ainda assim, estou muito surpresa com o quão provocativo o Onii-sama foi.”

Hehe. Ele simplesmente não conseguiu conter sua energia transbordante. Apesar de ser ridicularizado por seu Rank e ignorado por todos os outros, Ikki continua acreditando em seu próprio potencial. Graças a isso, ele tem a chance de se testar contra o Rei das Sete Estrelas. Isso por si só já seria motivação suficiente para um maníaco por batalhas como ele, mas seu oponente também está ansiando por este combate. Ele deve estar tão feliz e orgulhoso de si mesmo que simplesmente não consegue ficar parado. Que fofo.”

   Ikki partiria para a luta do dia seguinte com o corpo e a mente em condições impecáveis. Shizuku e Alice foram capazes de deduzir isso apenas por sua expressão alegre.

“Pena que ele não será capaz de vencer assim”, interveio Kiriko, de forma ríspida.

“Hã?” Shizuku engoliu em seco. “Você realmente não acha que ele será capaz de vencer?”

“Nem um pouco.”

“O-o que a deixa tão certa disso?!”

   Irritada por a Medico Knight ter assumido com tanta confiança que seu irmão perderia, Shizuku a questionou obstinadamente.

“Chame isso de um problema de fortitude mental”, respondeu Kiriko, estreitando os olhos. “Tenho certeza de que Kurogane é um cavaleiro incrível — ele abriu caminho até as Sete Estrelas apesar de ser um Rank F, então tenho certeza de que ele tem habilidade e garra de sobra. E ele nunca recuou diante de Moroboshi, chegando a desafiá-lo de frente. ‘Incrível’ não é nem de longe o suficiente para descrever seu ímpeto de autoaperfeiçoamento. Mas a fortitude mental dele simplesmente não é o bastante.”

“Como é? ‘Não é o bastante’?”

   Shizuku estava claramente tão furiosa que parecia pronta para matar, presumivelmente por ter interpretado aquelas palavras como um insulto ao seu irmão. Alice, no entanto, tentou acalmá-la e argumentou com Kiriko em seu lugar.

“Você diz que ele não tem fortitude suficiente, mas como pode ser isso se ele e Moroboshi sentiram a mesma coisa?”

   Alice acreditava que, se não fosse o bastante, Ikki não teria concordado quando Moroboshi falou sobre lutarem em condições ideais. No entanto, Kiriko apenas balançou a cabeça em negação.

“É porque vocês estão equivocadas na própria visão que têm de Yuudai Moroboshi como pessoa. Aquilo que reside em seus motivos, sua verdadeira natureza, não é o mesmo que o espírito de luta de Kurogane e seu desejo de se aprimorar. Emoções tão mornas jamais permitiriam que ele superasse sua lesão; algo inteiramente diferente o sustenta. Seu desejo de encontrar inimigos mais fortes e conquistar vitórias honestas vem de uma razão completamente distinta — um senso de dever quase lamentável. Kurogane possui o desejo de vencer com orgulho contra inimigos poderosos e o ímpeto de sempre mirar mais alto... mas ideais tão simples não são nem de longe suficientes para permitir que ele alcance a vitória.”

 

 

   Após separar-se de Shizuku e dos outros, Ikki não seguiu diretamente para o hotel no caminho de volta. Em vez disso, fez um desvio para um pequeno parque afastado das ruas movimentadas. Ali, em um lugar distante da agitação da noite, onde apenas o som dos insetos podia ser ouvido, ele parou e gritou:

“Ninguém virá aqui mesmo que façamos um pouco de barulho, então desista e apareça logo.”

   A pessoa com quem ele falava era a mesma que lhe havia lançado aquele olhar assassino enquanto ele caminhava para o First Star. Além disso, aquela mesma sensação o vinha seguindo há algum tempo. Toda a razão pela qual ele escolhera voltar para casa sozinho fora para poder falar com quem o observava tão fixamente.

   O olhar o atravessara continuamente sem alertar mais ninguém, incluindo o Rei das Sete Estrelas. Isso por si só era suficiente para fazê-lo presumir que quem quer que o estivesse seguindo era excepcionalmente habilidoso, e sua suposição foi rapidamente provada correta. Ikki arquejou ao ver a verdadeira identidade de seu perseguidor conforme ele emergia da escuridão.

“Eu nunca imaginaria que fosse você...” As mangas de seu quimono esvoaçavam ao vento. Seus olhos semicerrados eram como as pontas de lâminas, e suas feições faciais, embora interrompidas por uma cicatriz em forma de cruz, assemelhavam-se muito às de Ikki. “...Ouma.”

 

 

 

 

 

 

   A pessoa que o estivera seguindo não era ninguém menos que o único Cavaleiro-Estudante Rank A do Japão: o irmão mais velho de Ikki, Ouma Kurogane, o Gale Sword Emperor.

“...”

   Após se revelar, Ouma nada disse; em vez disso, apenas encarou o irmão. Certamente não era um olhar calmo; algum tipo de malícia ou ódio parecia habitar ali. Fosse o que fosse, apenas aquele olhar já exercia uma pressão imensa sobre Ikki.

   Ver seu irmão cara a cara fez Ikki perceber o quão esmagadora era sua presença. Embora tivessem aproximadamente a mesma altura, Ouma parecia um ou dois tamanhos maior que ele. Ainda assim, Ikki firmou sua resolução, não cedendo sob a pressão enquanto enfrentava o olhar de Ouma e lhe dirigia uma pergunta.

“Então, o que você quer? Considerando o que aconteceu na Hagun, não há a menor chance de você estar aqui porque quer que nos unamos como irmãos.”

   Essa era a primeira coisa que Ikki precisava saber. Não importa o que fosse, não haveria progresso até que ele soubesse o que Ouma queria com ele — alguém como ele não teria vindo sem algum tipo de exigência. Foi então que Ouma finalmente abriu a boca para responder.

“É claro que não. Só existe um motivo para eu estar aqui: porque tenho algo a lhe dizer.”

“Algo a dizer?”

   Ouma assentiu diante da resposta perplexa de Ikki. Então, com sua voz peculiar que estrondava dentro do corpo em vez de reverberar nos ouvidos, ele falou mais uma vez.

“Desista da sua vaga no Festival, Ikki”, declarou ele, com um tom poderoso que não aceitaria um não como resposta.

“O quê?!” A exigência repentina e bizarra chocou Ikki. Por que ele teria que renunciar à sua vaga? “Você acha que poderia me dar um motivo para fazer isso?”

“Precisa que eu lhe diga para entender? Como você é simplório.” Ouma franziu a testa em óbvia frustração. Com aquela expressão amarga ainda no rosto, ele deu sua explicação. “É porque sua própria existência está puxando a Princesa Carmesim para baixo.”

“O que você disse?” O motivo dado por Ouma fez o rosto de Ikki endurecer. “Quando foi que eu a puxei para baixo? Não precisamos trocar insultos sem fundamento.”

“É a verdade. Quantos meses a Princesa Carmesim desperdiçou competindo com um verme Rank F como você apenas por causa de um único erro? Tudo isso é por causa da sua enganação.”

“‘Enganação’?”

“Suas habilidades, suas estratégias — tudo o que você faz tem o propósito de pegar seu inimigo de surpresa. A maneira como você luta fede a trapaça, e usar truques em vez de poder para garantir vitórias é uma tática obscena. Isso não é força, e ninguém jamais poderá se tornar mais forte seguindo os passos de um homem que segue esse ideal. Sinceramente, perdi as esperanças durante o nosso ataque. Ela e eu compartilhamos a designação Rank A, mas a força dela não está nem perto do nível em que deveria estar.”

   A fraqueza dela era o resultado de ter sido ludibriada por Ikki, alguém que apenas fingia ser forte. Ouma estava certo disso e continuou a falar enquanto começava a se aproximar de Ikki.

“É hora de você desaparecer, tolo. A Princesa Carmesim supera você de longe.”

“Entendo. Então é assim”, suspirou Ikki, aceitando a afirmação de Ouma. Após uma explicação tão longa, ele finalmente compreendeu o que em si Ouma achava que estava prejudicando Stella.

   No âmago da questão, Ouma estava usando seu próprio sistema de valores como base para atacar Ikki. Para ele, a força não consistia nas habilidades para vencer, mas no poder bruto contido na própria existência de alguém. Ele acreditava que aqueles com maior poder continuariam a crescer, enquanto aqueles que desafiavam essa crença não passavam de fraudes.

     Você bem que poderia ser um pouco menos rude com isso, sabia?

   Era realmente rude. A própria afirmação de Ouma só poderia ser interpretada como uma refutação ao Worst One, que ainda visava o topo apesar de ser um Rank F. Ikki achou muito típico de Ouma ter uma visão tão pura da força. Naturalmente, porém, ele não aceitaria tal afirmação.

“Entendo por que você acha que estou puxando a Stella para baixo, mas não tenho motivos para viver de acordo com o seu sistema de valores. Além disso, mesmo que você esteja certo e eu não passe de um impostor, a Stella ainda me ama. Ela ainda quer lutar comigo de novo. E isso é tudo o que importa para mim. Comparados à nossa promessa, seus insultos não passam de poeira ao vento, Ouma. Você não vai me abalar tão facilmente.”

   Ikki refutou as exigências de Ouma, não deixando margem para discussão. Ainda assim, Ouma não esperava que ele cedesse prontamente, então não pareceu especialmente desanimado com a resposta.

“Você é um garoto de raciocínio lento. Se acha que eu estava fazendo um pedido, está enganado — eu estava lhe dando uma ordem. Mas, já que palavras não serão suficientes para fazê-lo obedecer ao meu comando, usarei simplesmente minha força para forçá-lo à obediência.”

   Claramente irritado, Ouma materializou lentamente seu Device. Ao empunhar Ryuuzume, uma nodachi maior que a katana japonesa comum, a atmosfera ao redor deles tensionou-se, fazendo os pássaros nas árvores do parque voarem para longe em pânico. Era quase como se soubessem que, quando Ouma segurava a Ryuuzume, todo o parque estava ao alcance da destruição iminente. Ikki também não ignorava esse fato, mas permaneceu imperturbável.

“Ótimo. Fico mais do que feliz em ir direto ao ponto.”

   Com um sorriso desafiador e um olhar destemido, Ikki materializou seu próprio Device, Intetsu. Ele já estava bem preparado para lutar. No momento em que Ouma apareceu diante dele, Ikki teve a certeza de que aquele encontro não terminaria pacificamente.

   Mais do que isso, porém, Ouma alegara que o tempo que ele passara com Stella fora um desperdício. Ele não podia simplesmente ignorar essa afirmação com uma risada, pois, para ele, os dias desde que se conheceram eram um tesouro. Por si mesmo e por Stella, a quem amava tão profundamente, ele precisava mostrar a Ouma exatamente como se sentia.

“Você age como se eu fosse algum tipo de pedregulho para a Stella tropeçar, mas deixe-me mostrar o quanto você está errado.”

“Não mostre suas presas tão prontamente, seu fracassado!”

   O aviso de Ouma marcou o início da batalha não oficial entre os dois irmãos Kurogane.

 

 

   Worst One contra Gale Sword Emperor. A batalha entre eles começou abruptamente em um parque da cidade. O primeiro a tomar a iniciativa foi Ouma Kurogane, que baixou sua Ryuuzume, com a lâmina emitindo um brilho tênue como o de um vaga-lume.

Rah!”

Ele brandiu sua espada contra Ikki, que avançava em sua direção, traçando um arco horizontal. A distância entre eles ainda era de cerca de dez metros, o que era longe demais até mesmo para uma nodachi, uma arma com um alcance incrível. Pelo menos, deveria ser.

Ngh!”

Ikki, já agachado para disparar, apressou-se em baixar o corpo ainda mais, até quase rastejar pelo chão. Um vento gelado soprou logo acima dele enquanto fileiras de árvores atrás de si eram derrubadas. Embora a espada de aço não o alcançasse, uma espada de vento era uma história diferente.

   Ela rasgou o ar, criando uma lâmina estreita formada por um vácuo. O ataque, apropriadamente conhecido como Vacuum Blade, era a Noble Art mais popular entre magos de vento. Ouma, é claro, havia dominado seu uso.

“Haah!”

   De longe, Ouma brandiu a Ryuuzume novamente, disparando outro Vacuum Blade. O corte que rasgava o ar conforme se aproximava era impotente se comparado ao Dragon Fang da Princesa Carmesin e outras habilidades de chama de longo alcance, mas compensava o que lhe faltava com sua velocidade incrível e invisibilidade. Como era um ataque difícil de evitar, tinha uma alta propensão a desferir golpes críticos — mas isso não significava que uma habilidade tão comum seria suficiente para domar o Worst One.

“Hup!”

   Evitando cada espada de vento por um triz, Ikki continuou seu avanço. Ele encurtou o espaço entre si e Ouma, sem hesitar nem por uma fração de segundo enquanto tecia seu caminho por entre as lâminas incolores. Suas ações provavam que ele conseguia perceber claramente os Vacuum Blades invisíveis, mas como ele era capaz de fazer isso?

   O mecanismo residia na linha de visão de Ikki. Seus olhos não estavam travados nas lâminas voando pelo ar, mas naquela nas mãos de Ouma. Embora o Vacuum Blade ostentasse velocidade supersônica, ele voava para frente em linha reta, seguindo o arco traçado pela Ryuuzume. Da mesma forma que se poderia esquivar de uma bala observando o momento do gatilho e a direção do cano, desde que a visão cinética de Ikki pudesse acompanhar a direção em que Ouma balançava sua espada, seus reflexos tornariam fácil para ele evitar os ataques invisíveis.

“Hmph.”

   Ikki estava avançando diretamente contra Ouma, deslizando pelas brechas de seus ataques. Ouma deve ter decidido que o Vacuum Blade não seria suficiente para vencer a luta, pois ele também começou a avançar, planejando colidir com Ikki. Abandonando o vento para atacar, em vez disso, com o aço, ele mirou na cabeça de Ikki.

“Haaaah!”

“Gh...!”

     Ele é tão rápido!

   Apesar de empunhar uma nodachi, uma arma com peso comparável ao de uma lança, a velocidade e a força por trás do golpe de Ouma eram muito maiores do que as de Ikki. Não era o resultado de uma diferença de habilidade — ambos os lados eram equivalentes em termos de esgrima pura — mas sim da habilidade mágica de Ouma.

   Ouma controlava o ar, eliminando a resistência do vento, e uma lâmina que se movia sem interrupções balançava mais rápido do que uma dificultada pelo atrito. Contra uma velocidade como aquela, Ikki seria inteiramente incapaz de contra-atacar sem usar o Ittou Shura. Concluindo isso em um instante, ele assumiu uma postura defensiva.

“Kh?!”

No momento seguinte, o sangue de Ikki pareceu congelar conforme um calafrio o dominava — sua resposta natural ao som silencioso que bateu em seus tímpanos.

“Ooooouuugh!”

   Ele abandonou a defesa e concentrou toda a sua força em saltar para trás, esquivando-se do corte de Ouma. Como resultado, a lâmina descendente de Ouma atingiu com força o solo arenoso do parque. Não parou por ali, cravando-se imediatamente na terra, deixando uma incisão cujo fundo era profundo demais para se ver.

“Uau!”

   A fenda que partiu o solo ocre enviou um suor frio pelas costas de Ikki. Os golpes de Stella sacudiam a terra, o que era impressionante por si só, mas Ouma ia um passo além. Os tremores que Stella criava eram a prova de que ela e sua concentração eram imperfeitas, pois eram o resultado da dispersão de sua força. Um balanço perfeitamente concentrado como o de Ouma não sacudiria nada; em vez disso, rasgaria profunda e silenciosamente tudo em seu caminho, como se cortasse gelatina.

   Quanta massa ele precisara acumular ao redor de sua espada para que aquilo acontecesse? Centenas de quilos? Milhares? Ikki não fazia ideia, mas sabia de uma coisa: assim como os golpes de Stella, os de Ouma eram perigosos demais para serem recebidos de frente.

     Consigo entender essa força incrível, considerando o físico dele.

“Você mudou muito nestes últimos anos, Ouma. Talvez um pouco demais. Qual é o segredo por trás do seu corpo?”

Hmph. Então você notou a anomalia dentro de mim antes mesmo de nossas lâminas se cruzarem. Embora tenha sido através de trapaças, está claro que você ferir Asas Gêmeas não foi sorte.” Ouma sorriu de tal maneira que um de seus dentes caninos ficou à mostra. “Mas, quer você saiba ou não, não há nada que possa fazer. Você é uma fraude, enquanto a minha anomalia é poder puro.”

   Sua afirmação não era vazia. Embora não fosse a primeira vez que Ikki enfrentava ataques que não podia receber de frente, os golpes de Ouma certamente seriam difíceis de lidar. No passado, ele fora capaz de usar táticas defensivas para anular a força monstruosa de Stella, mas isso só foi possível graças à inexperiência dela. Da mesma forma que uma folha caindo nunca seria cortada por uma espada brandida desordenadamente, desviar uma força sem foco era fácil.

   No caso de Ouma, entretanto, não havia tal fraqueza. Sua esgrima era perfeita, não demonstrando nem um pingo de desvio ou hesitação. Uma folha caindo seria limpamente cortada em duas por sua espada.

     Isso significa que o Ten’i Muhou (Celestial Counter) não é uma aposta segura.

   Se Ikki quisesse superar os cortes titânicos de seu oponente, ele teria que bolar um plano diferente. O Ittou Shura permitiria que ele simplesmente aparasse os golpes, mas era cedo demais na luta para iniciar o cronômetro de um minuto que vinha com ele. Antes disso, ele precisava verificar a gama de conhecimento do inimigo. A fim de decidir qual seria seu primeiro movimento, ele relembrou sua experiência de batalha anterior.

“Essa é a cara de um homem que está perdendo tempo pensando.”

   O trem de raciocínio de Ikki foi interrompido pela frase ridícula de Ouma.

“Eu te disse, não há nada que você possa fazer,” ele declarou em meio à noite, e começou a agir enquanto permanecia à distância. No entanto, em vez de brandir sua espada — o que significava que não era outro Vacuum Blade — ele apontou a ponta para o céu como se fosse perfurar a lua. “Não tenho intenção de perder tempo indevido com alguém como você. Perseguir você me entediará rapidamente, então proponho que estabeleçamos um limite de tempo. Corte-o, Mukuu Kekkai.”

   Enquanto ele pronunciava aquela incitação, a magia de Ouma tomou forma. O brilho verde que envolvia Ryuuzume intensificou-se subitamente, e ventos violentos começaram a fustigar o campo de batalha.

“Kh!”

   As ventanias, que levantaram tanta areia que Ikki não conseguia sequer abrir os olhos, espiralavam enquanto subiam pelo ar noturno. Ikki, tentando não ser puxado junto com elas, fincou todos os dez dedos na terra.

     Ngh, uma cortina de fumaça?!

   A tempestade de areia criada pela Noble Art de Ouma o havia roubado de sua visão e da capacidade de agir. Ele ficou impressionado com a eficácia da técnica, mas percebeu imediatamente que tal modo de pensar era terrivelmente ingênuo. Como alguém que buscava apenas o poder e nada mais, Ouma jamais usaria uma técnica apenas para dificultar o inimigo; o Mukuu Kekkai certamente teria algum tipo de efeito direto aterrorizante.

“O quê— Hrk?!

     Eu... eu não consigo respirar!

   Aquele efeito direto aterrorizante era que a técnica privava Ikki de oxigênio. Graças à corrente de ar ascendente que o ataque criava, todo o oxigênio no campo de batalha estava sendo levado para cima e para longe. Ouma fizera isso para remover o luxo do tempo que Ikki possuía anteriormente.

“Dez minutos é tudo o que lhe resta. Se você continuar a lutar, isso cai para apenas um. Você não tem tempo para lamentar sua falta de força — então me enfrente com todo o seu poder.”

   O Worst One foi forçado a firmar sua determinação pela ordem do Gale Sword Emperor. Como Ouma havia dito, ele não tinha tempo para se conter. Pior ainda, Ikki não fazia ideia do que havia acontecido nos muitos anos após o desaparecimento de Ouma, mas ele se tornara muitas vezes mais forte do que Ikki se lembrava.

     Ele não é alguém contra quem eu possa me conter, para começar.

   A própria força de Ikki já era ínfima. Se ele se contivesse contra um inimigo como Ouma, não seria capaz de vencer. Aceitando isso, ele encerrou sua tarefa de verificar a força de Ouma e incendiou toda a magia que corria por ele.

Ittou Shura.”

   Uma luz azul, semelhante a uma chama, irrompeu de Ikki, assim como seu espírito de luta. Aquele espírito, tão afiado quanto um vento cortante, fez com que as árvores do parque tremessem enquanto espalhavam folhas ainda jovens. Ele havia crescido tanto que possuía poder físico — um resultado da experiência que ele ganhou lutando contra tantos inimigos poderosos — no entanto, mesmo esse poder estava longe de ser capaz de abalar o espírito de Ouma minimamente.

“Ao concentrar todo o seu poder em um curto período de tempo, você visa derrotar oponentes de outra forma insuperáveis com uma força explosiva. Verdadeiramente o ápice das habilidades de um impostor. Só de olhar para você, sinto minha pele arrepiar.”

   Mesmo contra o espírito que emanava de Ikki durante o Ittou Shura, Ouma permaneceu imperturbável, indo ao ponto de mostrar desagrado pelo quão entediado estava com a exibição. “Venha, pedregulho. É hora de eu te chutar para fora do caminho.”

   Com movimentos pausados, ele preparou a Ryuuzume para encontrar o avanço de Ikki. Sua presença era absoluta, como a de um enorme rochedo assentado profundamente na terra, imóvel. O próprio Ikki quase foi abalado pela imensa pressão que ele emanava, mas já havia sacado seu trunfo. Um minuto era todo o tempo que lhe restava e, contra um oponente como Ouma, ele não podia desperdiçar sequer um único segundo.

“Haaaah!”

   O cavaleiro negro estava pronto para decidir a batalha com sua investida. Ele manteve o corpo inclinado, bem baixo enquanto corria, como se fosse uma sombra rastejando pelo chão.

“Graaaaah!”

   O Gale Sword Emperor moveu-se também. Sua espada envolta em vento desceu em direção ao pescoço da sombra com uma velocidade além do reconhecimento a olho nu. No entanto, com o poder do Ittou Shura, Ikki era ainda mais rápido.

     Eu consigo fazer isso!

   O objetivo de Ikki era encerrar a luta com um único contra-ataque. Fazendo uso de sua vantagem de velocidade, ele apararia a lâmina de Ouma para, em seguida, emendar um ataque ao torso. Para esse fim, ele encarou diretamente o vendaval que visava decepar sua cabeça.

     Não tenha medo!

   Pouco antes, a lâmina de Ouma havia esculpido um grande corte na terra. Se ele falhasse em bloqueá-la, sua cabeça poderia muito bem acabar sendo enviada para longe.

     Foco!

   Sobreviver à guilhotina do Ceifador exigia um foco extremo. Se ele pretendia esquivar da espada cadente, precisaria de precisão absoluta. Ainda assim, ele sabia que podia fazer isso; era para isso que ele havia treinado tanto.

     Agooraaa!

   Ele se encorajou destemidamente, usando seu foco extremo para entrar no alcance da lâmina que descia.

     ...Hã?

   Naquele exato momento, suas pernas pararam de se mover.

 

 

     O que está acontecendo?

   Os olhos de Ikki se arregalaram diante da irregularidade súbita que ocorreu dentro de si, justo quando estava prestes a colidir com o Gale Sword Emperor. Sua surpresa era esperada, pois aconteceu no exato momento em que ele planejava usar seu foco extremo para repelir o golpe de Ouma e saltar para o ataque. No entanto, aquele momento crucial foi abruptamente cortado, como se a ligação entre corpo e mente tivesse sido subitamente rompida. Apesar de ainda estar consciente, seu corpo simplesmente se recusava a mover.

     Mas que diabos?!

   Ele não tinha tempo para ficar boquiaberto de choque, entretanto, já que ele era o único que havia parado de se mover. O golpe de Ouma ainda vinha diretamente em sua direção.

     Isso é ruim!

   Ikki mal conseguiu se defender da lâmina que se aproximava. Mesmo assim, ele recebeu um golpe direto do poder que havia esculpido a terra.

“Ngaaah!”

   Como se fosse atingido por um grande caminhão, ele foi lançado a dezenas de metros, parado apenas pelo muro de pedra contra o qual colidiu.

“Gahaaaah!”

   O impacto em seus órgãos internos enviou uma névoa de sangue voando de sua boca; pelo menos um havia sido, sem dúvida, danificado. Além disso, os ossos de seus braços foram esmagados até o ombro, já que haviam recebido o peso do impacto. No entanto, essa era a única opção que estivera disponível para ele.

     O que foi aquilo?!

   A pergunta de Ikki era direcionada ao estranho enrijecimento de seus músculos durante o momento decisivo da batalha. Por que seu corpo congelou além de seu controle naquele instante? Nunca em sua vida como um Blazer algo tão bizarro havia acontecido, e isso o estava levando à loucura.

Hmph. Por que você está tão surpreso?” Ouma perguntou com irritação na voz. “Você lutou contra a espadachim mais forte do mundo e achou que nada em você mudaria por causa disso? Mesmo que permaneça fisicamente são, isso não significa que seu coração saiu ileso.”

“Hã?!”

“Estranho que você venha latir para mim quando ainda não superou o presente de despedida dela. Você claramente não conhece o seu lugar.”

   Sem se importar em esconder seu desagrado, Ouma lançou insultos a Ikki e, então, moveu-se lentamente para uma postura de ataque. Ele ergueu os braços de modo que sua espada ficasse na horizontal. No momento seguinte, Ryuuzume liberou seu brilho mais intenso até então e foi cercada pelo vento.

   O vento parecia sugar o próprio espaço ao seu redor, revolvendo-se e enfurecendo-se conforme devorava o ar. Foi então moldado em uma lâmina etérea, forjada por vendavais dobrados inúmeras vezes. Uma espada de tornado que poderia decepar toda a criação, Ouma estava usando a Noble Art que havia derrubado tanto a Princesa Carmesin quanto a Raikiri.

Kusanagi, a lâmina que decepa a lua cheia. Esta habilidade será desperdiçada em uma fraude como você, mas estou descontente com minha pontaria ruim de antes. Sendo assim, ofereço isso a você como um presente especial. Aceite-o e morra graciosamente.”

   Cuspindo essas últimas palavras como veneno, o Gale Sword Emperor finalmente exerceu seu poder total. Seu golpe mais poderoso, um ataque do qual ele se orgulhava, estava agora mirado no ferido Worst One.

     Não posso deixar que ele me atinja com isso!

   Ikki tinha que escapar a todo custo. Ele estava curioso sobre o chamado “presente de despedida” que Edelweiss supostamente havia deixado, mas expulsou o pensamento de sua mente. Ele deu uma ordem desesperada ao seu corpo falho, ainda abalado pelo impacto anterior, para usar cada gota de força restante para fugir da ameaça iminente. No entanto, ele mais uma vez enrijeceu. Seu cérebro continuava a implorar para que seus músculos se movessem, mas eles permaneciam congelados e sem resposta.

     Por quê?!

   A primeira possibilidade que lhe veio à mente foi que seus músculos estavam deixando de funcionar devido ao dano que sofrera, mas após confirmar a gravidade de suas feridas, ele descartou a ideia. Ele estava visivelmente ferido, mas não a ponto de não conseguir se mover. Por que, então? Ele não tinha a menor pista.

     Hrgh!

   Se nada mudasse, ele receberia o impacto total do golpe. Ele tinha que fazer alguma coisa, então forçou seu cérebro — seu único músculo funcional — mas não conseguiu encontrar uma solução. No fim, sua consciência foi engolida por inteiro pelos mil vendavais da lâmina de Ouma.

“Morda-o, Tiger Kiiing!”

 

 

   No exato momento em que a espiral de vento comprimido, destinada a triturar qualquer coisa que tocasse além do reconhecimento, engolia o Worst One, um garoto com uma lança amarela saltou entre eles. O jovem, de físico musculoso e olhos afiados como os de um carnívoro, era o Rei das Sete Estrelas, Yuudai Moroboshi.

“Morda-o, Tiger Kiiing!”

   Sua voz estrondosa sacudiu o ar enquanto ele estocava sua lança contra a lâmina de tornado descendente. Em um instante, a luz dourada da magia percorreu a Tiger King, disparando de sua ponta. O feixe criado tomou então uma forma familiar: a cabeça de um grande tigre, com as mandíbulas escancaradas expondo suas presas.

   O tigre dourado mordeu a espada de tornado que se aproximava. Ao fazer isso, ele literalmente arrancou um pedaço da Kusanagi, a própria habilidade que havia derrubado cavaleiros de elite como a Princesa Carmesim e a Raikiri por conta própria. A espada, agora parcialmente devorada, dissipou-se até sumir completamente. Moroboshi, ainda parado à frente de Ikki para protegê-lo, olhou para o cavaleiro ferido.

“Você está bem, Kurogane?!”

“M-Moroboshi?! Por que você está—”

“Só vim devolver algo que você esqueceu,” disse ele, jogando para Ikki seu manual do aluno. “Liguei para a Doutora sobre isso e ela me disse que você estava voltando para casa sozinho. Achei que passaria no seu hotel, mas o que encontro no caminho senão uma briga de irmãos chamativa?”

   Moroboshi então voltou sua atenção para o Gale Sword Emperor.

“Faz um tempo. Acho que a última vez que nos vimos cara a cara foi no ensino fundamental?”

“A Estrela de Naniwa. Ou suponho que agora você seja o Rei das Sete Estrelas, não é, Moroboshi?”

Hah. Não quero que você me chame de ‘Rei’. Um título conquistado em um torneio sem você não vale nada. Mas ei, nada disso importa agora.” Os dois eram antigos rivais que haviam lutado na Little League. Enquanto conversavam, Moroboshi franziu o cenho e vistoriou o estado lamentável do parque. Fissuras e fendas que sujavam a área, árvores arrancadas pelos ventos ferozes e um muro de pedra rachado. “Isso foi longe demais para uma briga de irmãos, no entanto. Um de vocês estaria morto se eu não tivesse intervindo.”

Tiger’s Bite, uma habilidade de anulação de Noble Art que pode morder qualquer técnica. Você até destruiu o Mukuu Kekkai quando parou minha Kusanagi, pelo que vejo.”

“Sim. Isso significa que sua tempestade não tem efeito sobre mim. Agora que deixamos isso claro, quero te perguntar: você vai continuar com essa carnificina sem sentido? Se quiser continuar fazendo bagunça na minha casa, eu lutarei com você com prazer.”

   Moroboshi fez sua ameaça com um tom intimidador. Ele então apontou sua lança envolta em magia, a Tiger King, para Ouma, intimidando-o com sua capacidade de anular toda e qualquer Noble Art. Em resposta às ameaças, Ouma fechou os olhos e deixou o brilho de sua Ryuuzume desaparecer.

“Não, perdi o apetite pela batalha.”

   Até mesmo seu trunfo, a mais forte de todas as suas técnicas, foi facilmente derrotada pelo Tiger’s Bite de Moroboshi. Com a chegada de reforços, talvez ele tivesse percebido que suas chances de vitória eram baixas.

   Não. Ele não era um homem tão nobre. Em vez disso, ele simplesmente, honestamente, perdera qualquer motivo para continuar sua luta. Como se perdesse o resto de seu interesse já enfraquecido, ele lançou olhares gélidos para o caído Ikki, ainda no chão atrás de Moroboshi.

“Se você não aceitou a última parte do presente de despedida das Asas Gêmeas, então falhará amanhã, independentemente de eu acabar com você aqui mesmo. Não tenho necessidade de desferir o golpe final eu mesmo. Quando ela ver sua derrota patética, talvez a Princesa Carmesin finalmente abra os olhos.” Deixando-os com esse último fragmento de vitríolo, ele se virou e caminhou para a escuridão de onde viera. Enquanto o fazia, deixou um último comentário. “Salvo por um manual esquecido? Hmph. Que homem de sorte.”

“Ele parece muito diferente de quando estava no ensino fundamental, mas continua tão antipático quanto antes,” Moroboshi suspirou irritado enquanto observava Ouma partir. Assim que o rapaz desapareceu, Moroboshi voltou-se para Ikki, que estava encostado no muro de pedra. “Então, o que foi tudo aquilo? Ouvi ele dizer algo sobre a Stella; é bom que vocês não tenham algum tipo de triângulo amoroso acontecendo. Digo, dois irmãos apaixonados pela mesma garota? Isso é, tipo, tirado direto de Lurren Gagann.”

Ugh, pare com isso. Eu quase morri ali atrás,” Ikki riu do tom casual de Moroboshi e levantou-se lentamente. “De qualquer forma, obrigado. Você realmente me salvou. E o meu manual também.”

“Sem problemas, cara. Mas o mais importante...” Moroboshi subitamente estreitou os olhos. “O que foi aquilo, Kurogane? Mesmo assistindo de longe, você estava agindo de forma estranha. Aquilo não pode ter sido por causa dos seus ferimentos, certo?”

   A única coisa que o incomodava era a aparente inação de Ikki no momento em que estava prestes a ser morto pela Kusanagi. Mas mal sabia ele que Ikki era quem estava mais confuso com aquilo.

“Eu também não sei, honestamente. Não consigo entender nada disso.”

   Não houve nenhum prenúncio do evento. Até o momento em que aconteceu, Ikki acreditava estar em condições perfeitas para o torneio. Tudo o que ele pôde fazer foi balançar a cabeça.

“Sério? Para mim, você parecia um cervo hipnotizado pelos faróis.” Moroboshi explicou calmamente as coisas como as via. “Mas, por outro lado, você é mais forte do que isso.”

   Aquilo era óbvio. Um cavaleiro que subiria ao palco das Sete Estrelas não teria tanto medo da técnica de um inimigo a ponto de congelar, e isso era especialmente verdade para Ikki. O Worst One enfrentara a Katharterio Salamandra da Princesa Carmesin e tivera a coragem de sorrir para ela.

“...Ah!”

   Poderia não ser possível que ele estivesse com medo, mas a declaração impensada de Moroboshi levou a um lampejo de inspiração dentro de Ikki.

“Você lutou contra a espadachim mais forte do mundo e achou que nada em você mudaria por causa disso? Mesmo que permaneça fisicamente são, isso não significa que seu coração saiu ileso.”

   As palavras que Ouma lhe cuspira durante a batalha pareciam, na verdade, soaram verdadeiras. Ikki havia lutado contra a espadachim mais forte do mundo e perdido, mas parecia estar em perfeita condições. Aquilo poderia realmente ter terminado de forma tão anticlimática, tão conveniente? Poderia alguém verdadeiramente ter caminhado na linha entre a vida e a morte e retornado sem ser mudado de forma alguma? Essa ideia não era ingênua demais?

   Esses pensamentos trouxeram a Ikki um pressentimento ruim, acompanhado por um suor frio que escorria por suas costas. O que havia acontecido com ele era uma ocorrência comum nos diversos domínios das lutas. Se um boxeador sofresse uma derrota terrível, começaria a ter medo dos socos de seu oponente. Em uma luta comum, onde vários golpes são trocados no espaço de um segundo, o corpo endureceria e congelaria, quase como uma forma de transtorno de estresse pós-traumático. Enquanto alguém sofresse de tal distúrbio, seria incapaz de lutar — um problema que alguns lutadores consideravam como estar “quebrado”.

   Poderia Ikki, talvez, ter se tornado “quebrado” subconscientemente? Os exames físicos que realizou após sua luta com Edelweiss não mostraram anormalidades, e ele conseguia treinar normalmente, mas nenhuma daquelas situações envolvia perigo à sua vida. E se, então, ele apenas nunca tivesse notado isso até que o desejo bruto de Ouma de assassiná-lo expusesse esse medo mortal?

   Tal suposição, embora inimaginavelmente terrível, não era terrivelmente inimaginável. Na verdade, como Ouma havia afirmado, teria sido muito mais anormal jogar um jogo de vida ou morte com a espadachim mais forte do mundo e não ter saído com alguma cicatriz. Após uma batalha como a deles, seria esperado que seu corpo ou sua mente — se não ambos — tivessem sido irreparavelmente danificados.

“Por que essa cara assustadora? Algo lhe veio à mente, talvez?”, perguntou Moroboshi.

   Ele deve ter notado que Ikki ficava mais pálido quanto mais pensava.

“...Não, nada em especial.”

   Ikki não conseguia explicar o porquê. Ele não podia demonstrar fraqueza para seu futuro oponente. Ao menos, essa era uma das razões pelas quais ele se manteve calado.

“Quero que use essa motivação para recuperar suas energias e ficar em condições perfeitas para a partida de amanhã.”

   Ele engoliu o seco. Simplesmente não havia como dizer uma palavra sobre sua fraqueza para alguém que estava tão animado para lutar contra ele.

Humm. Bem, é melhor eu chamar um médico para você. Você deveria se sentar um pouco.”

   Moroboshi falou mais uma vez após observá-lo por um breve momento, mas não insistiu no assunto. Em vez disso, ele apenas solicitou uma ambulância usando seu manual do aluno.

“Obrigado. Desculpe.”

   Uma mistura de gratidão e desculpas preencheu suas palavras enquanto ele levava uma mão quebrada ao peito. O Ittou Shura finalmente havia perdido o efeito, preenchendo-o com a costumeira fadiga pesada. O cansaço entorpecia a dor por todo o corpo causada pelos ferimentos que sofrera, mas o medo em seu coração de que pudesse ser um cavaleiro quebrado não foi aliviado nem um pouco.

     O que está acontecendo comigo? E com o meu corpo?

   Mesmo após receber tratamento e retornar ao hotel, Ikki continuava a se fazer as mesmas perguntas. Ele mergulhou sua consciência cada vez mais fundo dentro de si, buscando uma visão desobstruída de seu corpo e mente. Não importava o quão fundo fosse, no entanto, ele não encontrava vestígios ou feridas; ele só conseguia ver a si mesmo como são de corpo e alma.

   Ele estava realmente quebrado? Se não, como poderia explicar o momento em que seu corpo paralisou? Ele não sabia e, sem saber, não poderia ter esperanças de superar o problema.

   As coisas pareciam sombrias. Havia uma bomba-relógio tiquetaqueando dentro dele, o que tornaria uma tolice desafiar o Rei das Sete Estrelas. Após congelar no clímax da batalha, como ele poderia esperar vencer tal adversário? Era algo que ele não tinha escolha a não ser superar, mas, como se risse da mente inquieta de Ikki, a luz do dia finalmente surgiu, anunciando a manhã em que tudo realmente começaria.

 

 

“Muitos dizem que a guerra é má, pois ela gera o ódio! Muitos dizem que a paz é magnífica, pois ela nutre a bondade! Muitos dizem que a violência é um pecado, pois ela fere os outros! Muitos dizem que a cooperação é uma virtude, pois ela promove o amor! Todos aqueles com senso comum sabem disso, é claro, mas nós, humanos, ainda ansiamos pela força!

“Ser o mais forte e o mais heróico de todos! Ter o poder absoluto e inigualável que permite tornar seus desejos realidade! Quem pode dizer que não deseja isso?! Quem pode dizer que nunca ansiou por tanto?! Todos desejam isso em algum momento, e todos desistem disso em algum momento, pois é inalcançável! Mas para aqueles que ainda perseguem esse sonho, chegamos ao Festival no qual esses jovens homens e mulheres colocam suas vidas em jogo em busca da vitória!

“Academia Rokuzon de Hokkaido! — Academia Kyomon de Tohoku! — Academia Donrou de Kanto do Norte! — Academia Hagun de Kanto do Sul! — Academia Bukyoku de Kinki e Chubu! — Academia Rentei de Chugoku e Shikoku! — Academia Bunkyoku de Kyushu e Okinawa! — E, finalmente, a recém-estabelecida Academia Nacional Akatsuki! Um total de trinta e dois estudantes foram escolhidos das oito escolas do Japão, cada um deles um cavaleiro inspirador, mas apenas um pode reivindicar o título de Rei das Sete Estrelas do Japão!

“Felizmente para eles, é um costume entre nós, cavaleiros, usar nossas armas para decidir quem ostentará tal título! E para os nossos trinta e dois virtuosos cavaleiros que vieram aqui para empunhar essas armas, a hora chegou! Somente aqui ninguém desaprovará enquanto vocês lutam até o conteúdo de seus corações e com toda a extensão de seu poder!

“E agora, sem mais delongas, orgulhosamente anuncio o início do sexagésimo segundo Festival de Batalha das Sete Estrelas!













 

 

 

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