Volume 5

Capítulo 1: Potências Nacionais

 

   Longe do centro de Osaka, na costa de aterros marítimos da cidade, existia um grupo de prédios vacantes. Resultado de um desenvolvimento urbano de décadas atrás, os edifícios foram construídos com sucesso, mas falharam em atrair os empreendimentos de que necessitavam. Permanecendo sem inquilinos e quase completamente intocados, eram um lembrete contínuo de um imenso fracasso.

   Esse fracasso, entretanto, fora milagrosamente desfeito, e a cidade fantasma acinzentada transbordava vida. Barracas alinhavam-se nas ruas, acompanhadas pelo clamor de residentes de cada ilha que compunha o Japão. O que poderia ter atraído tantas pessoas a uma área tão desolada? Havia apenas uma resposta: em meros dois dias, o Domo Costeiro sediaria o festival anual de Batalha das Sete Estrelas, um torneio de Cavaleiros-Estudantes.

   O Festival era um evento massivo, atraindo mais atenção do público em geral do que até mesmo a King of Knights League. Por volta da época do evento todos os anos, garantir um quarto em um hotel próximo — sem falar nos ingressos para o próprio evento — era quase impossível. Além disso, devido em grande parte ao fato de estar envolvido na controvérsia da Academia Akatsuki após o ataque à Hagun, o Festival que se preparava para ocorrer atraíra mais atenção do que qualquer outro que o precedera. O resultado foi, inevitavelmente, um nível de dificuldade muito maior para encontrar acomodações.

   Mesmo dois dias antes do início do Festival, cidadãos japoneses e estrangeiros inundavam a área, preenchendo-a com um vigor maior do que jamais visto. Mas os espectadores não eram as únicas pessoas chegando às pressas. Muitos dos competidores do Festival haviam chegado muito antes da cerimônia de abertura, usando os alojamentos dos competidores para descansar. Uma dessas pessoas era o líder da equipe da Academia Hagun, Ikki Kurogane, trazendo consigo a bandeira de sua academia.

Hmm. Simplesmente não parece certo.”

   Em um hotel refinado, repleto de mobília adequada, Ikki balançou a cabeça enquanto observava a si mesmo em um espelho de corpo inteiro. Ele não estava usando seu uniforme de estudante habitual: vestira um traje de casaca azul-escuro com gravata borboleta combinando e sapatos de couro tão polidos que brilhavam, deixando-o com um aspecto elegante da cabeça aos pés.

   É claro que ele não o estava vestindo por prazer. Ele enfrentava certas circunstâncias que praticamente exigiam que usasse tal traje. Naquela noite, a antevéspera do Festival, o comitê de gestão das Sete Estrelas realizaria um bufê de gala para os estudantes que haviam chegado cedo ao Domo Costeiro. Ikki selecionara sua vestimenta formal para comparecer justamente a essa função, mas completar o visual era um processo difícil e contínuo.

“Considerando para o que isso serve, não posso simplesmente entrar lá vestindo minhas roupas normais.”

   Ikki não estava acostumado a trajes tão formais, então, não importava qual das roupas fornecidas pelo comitê ele escolhesse, simplesmente não se sentia bem. Ele achava aquilo tão diferente de si que temia que as pessoas rissem. “Talvez meu cabelo espetado seja parte do problema.”

   Com isso em mente, Ikki tentou repartir para o lado, com um pente, seu cabelo habitualmente eriçado.

“Oh. Bem, melhor do que antes, pelo menos.”

   A satisfação momentânea que sentiu ao se olhar novamente durou apenas um instante. Seu cabelo cuidadosamente penteado saltou rapidamente de volta à posição original, como se o desafiasse. “Eu sigo meu próprio caminho”, zombava ele. “Você não me fará exigências.”

“Teimoso, não é?”, resmungou ele. Ele não desejaria seu penteado nem ao seu pior inimigo. Frustrado por sua incapacidade de encontrar um visual que o agradasse, ele removeu a casaca.

Não, não é aquela.

   Embora Ikki imaginasse que não haveria grande problema se apenas vestisse o traje de maior classe que encontrasse, roupas tão extravagantes eram tão inadequadas para quem ele era que não apenas parecia falta de educação usá-las em público, como ele também não suportava ver a si mesmo vestido daquela forma. Após muito tempo perdido em pensamentos, ele pegou um terno de três peças entre as roupas que lhe foram emprestadas.

“Talvez este seja o melhor.”

   Era claramente a opção sem graça e segura, mas Ikki não possuía senso de moda nem a habilidade necessária para acentuar sua individualidade. Para piorar a situação, o tempo estava se esgotando, pois não faltava muito para a festa começar. Sua melhor opção era voltar para o terno de três peças, o que ele fez rapidamente. Pouco depois, ouviu uma batida na porta.

Onii-sama, posso entrar?”

   Do lado de fora estava sua irmã mais nova e colega de competição nas Sete Estrelas, Shizuku Kurogane. Considerando o tempo que ele estava levando para se arrumar, ela provavelmente viera verificar como ele estava.

   Enquanto zombava de si mesmo por demorar mais para se preparar do que uma adolescente, Ikki lançou um olhar ao espelho de corpo inteiro para garantir que estava apresentável antes de responder à pergunta dela. Ao fazê-lo, notou que sua parte inferior estava totalmente coberta, mas que os botões de sua camisa ainda não estavam abotoados, deixando seu abdômen exposto. Ele teria hesitado se estivesse abrindo a porta para um amigo, mas como a pessoa do outro lado era sua irmã, achou que não haveria problema.

“Ei, desculpe”, respondeu ele através da porta. “Estou quase pronto, então pode entrar.”

“Entrando.” A porta se abriu quase imediatamente, dando passagem à garota de cabelos prateados. “Eu terminei de me arru... mar...?”

   Shizuku congelou no batente da porta, quase se esquecendo de terminar a frase. Seus olhos de jade estavam arregalados, como se estivesse surpresa com algo. Confuso com a reação dela, Ikki ergueu uma sobrancelha, mas sua atenção foi rapidamente desviada para outra coisa: o traje de Shizuku.

     Nossa. Ela está incrível.

   Shizuku compareceria à festa como colega competidora, então ela também usava um traje entregue pelo comitê. Seu vestido era feito de um tecido de alta qualidade em um preto quase perfeito, com babados de renda elaborados adornando o corpete como pétalas de flores. O decote era aberto para revelar a totalidade de seus ombros, criando um contraste marcante entre o vestido e sua pele branca como a neve.

   Era o tipo de vestimenta que normalmente seria madura demais para alguém com a aparência jovem de Shizuku. No entanto, sua maquiagem aplicada com bom gosto a fazia parecer muito mais velha, apagando qualquer traço de incongruência. Seu colega de quarto e amigo, Nagi Arisuin, provavelmente havia coordenado o visual. Na verdade, aquilo era praticamente uma conclusão óbvia. Ikki honestamente aplaudiu o belo traje usado por sua irmã, cuja maturidade de uma dama estava em plena exibição.

“Eu sei que é clichê, mas você está deslumbrante, Shizuku.”

Gyah!”

   No momento em que ele disse aquilo, o rosto de Shizuku ficou vermelho-vivo. Uma gota de sangue fresco escorreu de seu pequeno nariz e ela caiu para trás.

“Sh-Shizuku?!”

Eek! Emergência!”

   Alice saltou para amparar o corpo de Shizuku com a mão direita, usando a esquerda para pegar um lenço, pressionando-o contra o nariz da garota de modo que nenhum sangue manchasse o vestido.

“O que houve, Shizuku?! Você está bem?!”

   Chocado com a queda repentina da irmã, Ikki correu para verificar como ela estava.

A-Ah... Ahhh!”

   Foi a pior decisão que ele poderia ter tomado. Cada passo que ele dava a fazia tremer mais, e o lenço tornava-se mais vermelho. Sua reação, entretanto, não deveria ser uma surpresa, já que Shizuku Kurogane amava o irmão como alguém do sexo oposto. Ela não tinha como lidar com a sensação de seu tão amado irmão, com o abdômen exposto pelas roupas desgrenhadas, chamando-a de deslumbrante. Ele, sem perceber a neutralidade de gênero do erotismo, apenas continuou a correr em direção a ela.

“Ikki, não chegue mais perto! E cubra esse abdômen primeiro!”

   Alice, por outro lado, entendeu imediatamente o que estava acontecendo com Shizuku e interrompeu o avanço de Ikki.

“Hã? O quê?!”

“Depressa! Antes que o vestido dela fique manchado de sangue!”

“Uh, tudo bem! Entendi!”

   Ikki ainda não sabia o que havia de errado consigo mesmo, mas após ser repelido pela urgência incrível na voz de Alice, ele correu para arrumar suas roupas. Uma vez feito isso, Shizuku finalmente conseguiu se acalmar.

Haah, haah... Sinto muito que você tenha tido que ver aquilo. Mas, Onii-sama, aquilo foi um pouco sexy demais para mim.”

“Eu não entendo bem como, mas desculpe. Não encontrei nenhum traje de que gostasse, então ainda não tinha terminado de me arrumar.”

“Você não gosta desse terno? Acho que você está muito elegante nele.”

“V-Você acha? Sinto-me muito desconfortável usando isso. É como se eu fosse uma criança fingindo ser um adulto.”

“Ah, não seja assim”, Alice juntou-se à conversa por trás da amiga. “Você tem ombros tão largos que um terno fica perfeito em você.”

   O terno que Alice usava parecia perfeitamente sob medida para sua figura alta. Ela estava tão bem vestida que parecia um membro de um host club — pelo menos, o que Ikki imaginava ser a aparência de um, considerando que nunca conhecera um. De qualquer forma, não significava muito para Ikki ser elogiado por ela quando ela parecia muito melhor do que ele.

   Como Alice podia ser tanto mais alta que ele, sendo que ele era um ano mais velho? Considerando que ela mentira sobre seu passado, no entanto, talvez ela fosse, na verdade, um ano mais velha que ele? Com esses pensamentos girando em seu cérebro, Ikki apontou para o terno de Alice e lhe fez uma pergunta.

“Isso significa que você também vai à festa?”

“Quem, eu?” Ela balançou a cabeça em negação. “Eu não sou mais uma representante. Mas vou me encontrar com a Kagamin para a festa particular dos repórteres.”

“Você é tipo a assistente da Kusakabe agora, hein?”

“Eu tenho que pagar minha dívida, e este é apenas o começo. Não posso dizer não para ela”, Alice deu de ombros em resposta à pergunta de Shizuku.

   A dívida que Alice buscava pagar estava relacionada ao ataque da Academia Akatsuki à Hagun. Como ela fora membro daquela organização, já fora uma inimiga. Ela chegara ao ponto de atacar Kagami diretamente, embora com sua arma em Forma Fantasma. Para se redimir do que fizera, ela estava permitindo que Kagami a usasse como seu braço direito. Ikki, no entanto, imaginava que aquilo era apenas o jeito de Kagami ser gentil.

   O ataque à Hagun pela Academia Akatsuki fora realizado com todas as armas dos perpetradores em Forma Fantasma, mas como o Primeiro-Ministro Bakuga Tsukikage era quem movia os fios, a razão para isso era claramente que ele não queria ferir seus eleitores. Apesar da ausência de cicatrizes físicas, o terror absoluto que as vítimas sentiram deixou cicatrizes mentais difíceis de apagar — isso levara duas das representantes das Sete Estrelas da Hagun, as irmãs Hagure, a desistirem do torneio por medo do que enfrentariam. Além disso, Touka Toudou e Utakata Misogi haviam sido deixados em coma por um único golpe do Gale Sword Emperor. Eram comas temporários induzidos por uma fadiga incrível, então todos sabiam que não havia perigo real para suas vidas, mas eram comas, ainda assim.

   Como ex-membro do grupo responsável, Alice sentia um imenso senso de responsabilidade que era instigado ainda mais por sua humildade. Para evitar que ela ruminasse demais sobre o assunto, Kagami lhe dera uma punição nominal. Mas Alice era perspicaz quanto ao funcionamento interno da mente alheia e estava bem ciente da consideração de Kagami por ela. Ainda assim, agia como se não soubesse e continuava a pagar seu débito.

     Talvez seja porque a Alice vê a Kagami como alguém em quem ela pode realmente se apoiar.

   Ikki acreditava que seria incrível se o relacionamento delas pudesse voltar a ser como era antes, mas seus pensamentos foram interrompidos. O relógio pendurado em seu quarto badalou um tom opaco, informando-o de que eram 18h. Era hora da festa.

“Nossa, o tempo voa. Vamos indo, Shizuku.”

“Sim, Onii-sama.”

“Esperem um segundo, vocês dois.” Alice parou a dupla antes que pudessem partir. No momento em que Ikki ia perguntar o motivo, ela usou a câmera em seu manual eletrônico de estudante para tirar uma foto deles. “Já que vocês dois se vestiram tão bem, eu quis uma lembrança.”

   Ela operou habilidosamente seu manual para enviar a foto aos dois. Ao vê-la, Shizuku corou de alegria.

“Uau! Obrigada, Alice! Vou guardá-la como um tesouro para sempre!”

     Para sempre? Caramba...

   Ikki estava muito menos entusiasmado. Ele simplesmente não se sentia confortável em roupas formais, e parecia ainda mais hilário ao lado de Shizuku, que vestia seu traje perfeitamente. Talvez ele apreciasse mais a foto quando ficasse mais velho.

“Não espero que a Akatsuki esteja na festa, mas tomem cuidado de qualquer maneira.”

“Agradecemos a preocupação.”

   Apesar dos sentimentos contraditórios de Ikki, os dois seguiram em frente até o local do evento depois de agradecer a Alice pela mensagem que ela havia enviado junto com a imagem.

 

 

   A festa dos representantes estava sendo realizada em um salão de recepção no último andar do hotel que servia de alojamento para os estudantes. Era um andar tão elevado que subir pelas escadas era inviável, por isso, Ikki e Shizuku usaram o elevador. Durante todo o trajeto de subida, Shizuku contemplava a foto que Alice havia tirado com uma expressão satisfeita.

Heehee.”

“Você gostou mesmo tanto assim?”

“Gostei. Já até a coloquei como minha tela de bloqueio.”

“Ah, é?”

      Se eu tiver que ir a outra festa como esta, com certeza usarei meu uniforme, Ikki jurou para si mesmo com um riso contido. Ele jamais desejaria vestir outro traje tão inadequado para si quanto aquele que estava usando.

“Não consigo parar de rir só de pensar em como vou me gabar disso para a Stella.”

   Apesar da promessa que fizera a si mesmo, no entanto, Ikki sabia que seria obrigado a vestir algo assim novamente em algum momento no futuro.

“Não a deixe muito irritada.”

“Sem promessas. Além disso, a culpa é dela por não estar aqui.”

   Shizuku estava certa; Stella ainda não havia chegado a Osaka. Originalmente, o plano era que todos os representantes de Hagun estivessem presentes na festa, mas, de acordo com a Diretora Kurono Shinguuji, Stella permaneceria para trás para continuar seu treinamento com a Demon Princess pelo maior tempo que pudesse.

   Durante a luta contra a Academia Akatsuki, Stella fora derrotada em batalha pelo Gale Sword Emperor, Ouma Kurogane. Para piorar a situação, ela fora vencida em uma disputa de força bruta, a área em que mais se orgulhava. Foi um golpe duro em sua autoconfiança — um do qual ela estava lutando arduamente para se recuperar.

   Seu treinamento com a Demon Princess era, provavelmente, uma tentativa de agarrar qualquer fio de confiança ao lutar contra a Cavaleira-Maga mais forte de toda Hagun.

“Você acha que esse treinamento deixará a Stella mais forte?” Shizuku lançou a pergunta a Ikki, sua voz traindo sinais de incerteza. “O Festival das Sete Estrelas começa em apenas dois dias. Este tempo deveria ser para os alunos descansarem da fadiga. Não consigo imaginar sentido em desperdiçar esse tempo com um treinamento superficial. Consigo entender um pouco a impaciência dela, mas acho que ela tomou essa decisão de forma muito leviana.”

   Não, a emoção que tingia sua voz não era incerteza. Shizuku estava profundamente preocupada com Stella, esperando que aquele treinamento de última hora apenas piorasse as coisas. Ela temia que Stella não conseguisse começar o Festival com o pé direito.

“Você é doce, Shizuku.”

“O quê —?!” Um fogo pareceu arder nas bochechas de Shizuku enquanto ela desviava o olhar. “E-Eu não estou nem um pouco preocupada com ela. Só toquei no assunto porque você estava animado para lutar contra ela. A única pessoa com quem estou preocupada é você.”

[Almeranto: Shizuku é na verdade é a melhor amiga da Stella, certeza kkkkkk. Ela só não quer admitir.]

   Os protestos irritados de Shizuku eram apenas mais uma prova de sua própria falsidade. Mesmo que as garotas estivessem constantemente atacando uma à outra, Ikki conseguia ver a amizade que havia se forjado entre elas. Isso não significava, porém, que era algo que ela queria que ele apontasse.

“Então, ela consegue ficar mais forte com tão pouco tempo restando para o Festival?” Shizuku perguntou novamente.

“Eu acho que será difícil; simplesmente não há tempo. Isso pode apenas deixá-la ainda mais fadigada, ao ponto de não estar em sua melhor forma para as batalhas.”

   Ikki compartilhou seus sentimentos honestos com Shizuku, admitindo que ele também estava apreensivo quanto à decisão de Stella. Treinamentos focados de curto prazo às vezes traziam resultados, então era possível que ela se beneficiasse, mas isso era verdade quase exclusivamente para amadores.

   Era a crença de Ikki que dominar algo era como escalar uma montanha. A subida da base até o primeiro posto de controle era suave o suficiente para que se pudesse correr por ela; por isso, amadores conseguiam ganhos dramáticos de força em pouco tempo. Uma vez que o escalador atingisse setenta ou oitenta por cento do caminho para o topo, no entanto, as coisas mudavam. Assim como uma montanha se tornava mais íngreme conforme se aproximava do cume, o ápice da força tornava-se mais difícil de alcançar à medida que se ascendia em direção a ele. Cada passo, cada metro, exigia um esforço exponencialmente maior apesar de ser igual ao anterior, mas empenhar esse esforço era uma necessidade se alguém pretendesse chegar ao topo.

“Qualquer um sabe que a Stella não é uma amadora”, continuou Ikki. Seguindo sua crença, para alguém do nível de poder dela se tornar mais forte, seriam necessários tempo e esforço apropriados. Sua semana de treinamento rigoroso não seria suficiente para ajudar.

“É... Sinceramente, o que ela estava pensando?” Shizuku murmurou, metade em simpatia e metade irritação, com as sobrancelhas levemente caídas. Até Ikki achava que era imprudência, confirmando os temores dela, então a reação era natural.

“Isso só se aplicaria a ela se ela fosse uma pessoa normal, no entanto.”

“Hã?!”

   Ikki ainda não havia terminado seus pensamentos. Tanto ele quanto Shizuku concordavam que o que Stella estava fazendo era imprudente, e nenhum deles teria tomado a mesma decisão, mas havia mais do que isso.

“Pense bem. Ela é a Princesa Carmesim — estamos falando de Stella Vermillion. Com um potencial como o dela, ela provavelmente nem chegou ao primeiro posto de controle ainda.”

“Ah...!”

   Ikki sabia melhor do que ninguém que o talento não era dividido igualmente entre todas as pessoas. O pico da força de cada indivíduo atingia uma altura diferente, e o de Stella era o mais alto de todos. A magnitude e a majestade de sua montanha eram muito maiores do que as de Ikki ou de Shizuku — alta o suficiente para perfurar as nuvens, insuportavelmente íngreme e além da medida de qualquer escala que eles possuíssem.

“Ela ainda pode ter ganhos explosivos esta semana.” Ikki amava Stella profundamente — ele era mais próximo dela do que qualquer outra pessoa no mundo. Por isso, tinha certeza de que ela estaria mais poderosa do que nunca quando voltasse. “Acho que ela provará isso por si mesma daqui a dois dias.”

“Espero que esteja certo, porque... eu também gostaria de lutar com ela. Seria muito decepcionante se o fogo dela se apagasse por ter se esforçado demais.”

   Assim que Shizuku respondeu com um tom um pouco mais alegre, o elevador finalmente alcançou o último andar do hotel.

 

 

   Quando as portas metálicas do elevador se abriram, um recepcionista saudou os irmãos com um sorriso natural e amigável.

“Ikki e Shizuku Kurogane, da Academia Hagun, correto? A festa é logo adiante. Por favor, queiram entrar.”

“Obrigado, senhor.”

   Ikki e Shizuku caminharam pelo tapete carmesim em direção à porta à frente deles. Mesmo antes de se aproximarem, o clamor de inúmeras conversas já podia ser ouvido do outro lado. A festa já estava em pleno vigor.

     Será que todos os representantes das escolas estão naquela sala?

   Ikki engoliu em seco audivelmente. O simples pensamento fez seu coração disparar em frenesi.

“Você parece animado, Onii-sama.”

“Passei a vida inteira apenas sonhando em vir para cá.”

   Não era segredo que Stella era seu objetivo final, mas não era apenas contra ela que ele estava ansioso para lutar. Além daquela porta, estavam alguns dos guerreiros mais poderosos de todo o país, todos eles um nível acima dele, um cavaleiro Rank F. Cada um era um oponente contra o qual ele poderia verdadeiramente testar sua fibra. O pensamento de finalmente poder enfrentá-los fazia seu sangue ferver; ele estava impaciente de excitação.

   Por que ele havia vestido um terno, seu tipo de roupa menos favorita, e vindo a uma festa que nem sequer era obrigado a comparecer? Era porque o Worst One queria ver pessoalmente as pessoas que enfrentaria; ele queria vê-las o quanto antes.

     Por outro lado, não é como se algum deles fosse se importar com um Rank F como eu.

   O próximo Festival tinha dois cavaleiros Rank A como representantes: Stella e Ouma. Fazia sentido que o foco de todos estivesse neles. Isso, no entanto, na verdade trabalhava a favor de Ikki — ele decidiu que deveria considerar aquilo como sua oportunidade de ouro.

   Cada adversário que ele enfrentaria estava entre os melhores cavaleiros estudantis do Japão; não havia dúvida de que todos estavam níveis acima dele em termos de força real. As lutas do Worst One dependiam inteiramente de quão bem ele conseguiria alavancar seu talento de "fracassado" para derrotar alguém mais forte que ele. Ele não tinha escrúpulos com a ideia de um oponente subestimá-lo por causa disso e avançar tolamente.

   Com esses pensamentos em mente, Ikki empurrou a porta que o separava da agitação animada da festa. Ali, em questão de segundos, todas as suas expectativas se provaram erradas. No exato momento em que ele entrou, o alvoroço rapidamente se transformou em silêncio enquanto olhar após olhar o atingiam como uma onda de choque. A atenção e o silêncio foram breves, no entanto, com o barulho retornando tão rápido quanto havia desaparecido. Quando retornou, porém, estava diferente.

“Aquele é o Worst One! É o cara que derrotou a Raikiri!”

“Eu sabia que ele teria uma presença marcante. Imponente e afiado, como uma lâmina bem lapidada. Eu adorei.”

“Ele definitivamente está no nível nacional. Talvez até mais alto!”

“Dá para notar só de olhar que ele é durão — ele emana esse tipo de aura. O que o último diretor da Hagun tinha na cabeça, reprovando um cara como ele?”

   As vozes que Ikki conseguia distinguir deixavam bem claro que os olhares que pareciam perfurá-lo haviam feito precisamente isso.

“Nossa.” Ao lado de Ikki, Shizuku julgou rapidamente o clima na sala e abriu um sorriso. “Acho que, quando as pessoas ficam fortes a esse ponto, conseguem perceber sua verdadeira força com apenas um olhar.”

    Talvez tenha sido eu quem estivesse subestimando os outros, Ikki disse para si mesmo, rindo baixo o suficiente para que Shizuku não ouvisse. — Que ideia ingênua a de que os outros baixariam a guarda perto de mim.

   As pessoas diante dele eram mais do que apenas os melhores alunos do país: eram guerreiros que haviam chegado ao Festival das Sete Estrelas sem se intimidarem com a ameaça imposta pela Academia Akatsuki. Nenhum deles seria tolo o suficiente para baixar a guarda por algo tão arbitrário quanto um ranking.

   Todos na festa conseguiam avaliar a força de seu inimigo com facilidade. Havia um contraste tão nítido entre eles e seus oponentes durante as batalhas de seleção de Hagun que isso o forçou a reconhecer exatamente onde estava: um lugar onde ele poderia, finalmente, testar os verdadeiros limites de seu potencial. Ele estava onde os melhores cavaleiros estudantis do Japão disputariam o topo.

     Finalmente consegui.

“Ah! O-Onii-sama!” Enquanto ele tremia de excitação com essa percepção, Shizuku subitamente puxou a barra do paletó de seu terno.

Hmm? O que foi?”

“O-Olhe!”

   Shizuku apontou para uma mesa que servia comida para os convidados. Parada diante dela estava uma garota, cujos olhos percorriam a sala como se estivesse procurando por alguém. No momento em que a viu, Ikki entendeu por que Shizuku estava tão chocada.

     Aquela é...!

   O cabelo loiro da garota estava desgrenhado, com várias cores de tinta misturadas. Ela estava sem camisa, apesar de estar em um local público, com seus seios fartos escondidos apenas por um avental encardido. Sob nenhum aspecto sua aparência seria considerada "normal", tornando-a inteiramente inesquecível. Ela era, sem dúvida, um membro do grupo que havia atacado a escola deles.

“A Bloody da Vinci da Academia Akatsuki — Sara Bloodlily!”

“Ela tem muita coragem de vir a esta festa depois de tudo o que fizeram.”

   O corpo discente da Academia Akatsuki era composto por poderosos terroristas que trabalhavam sob a tutela da Rebellion. No entanto, como resultado da manipulação de informações de Tsukikage e seu governo, pouquíssimas pessoas sabiam dessa conexão. Independentemente disso, o que Shizuku disse estava correto: era incrivelmente audacioso da parte dela mostrar o rosto depois do que ela e seu grupo haviam feito à Academia Hagun.

   O ato deles enviou tremores não apenas por Hagun, mas por todas as escolas de Cavaleiros-Magos do Japão, levando vários alunos a desistirem do Festival. Todas as sete escolas guardavam algum tipo de rancor contra eles por causa disso, o que ficava evidente pelo fato de todos os participantes se recusarem a reconhecer a presença de Sara. A má vontade que todos nutriam por eles era tão grande que Ikki tivera certeza de que nenhum dos alunos da Akatsuki compareceria ao evento.

     Eles são ou ridiculamente fortes ou completamente destemidos.

   No momento em que Ikki terminou seu pensamento, os olhos de Sara fixaram-se nele.

“Hã?”

   Como se tivesse encontrado a pessoa que estivera procurando por todo canto, ela imediatamente seguiu em sua direção. Então, ela encarou Ikki diretamente, sem dizer uma palavra, parando perto o suficiente para que ele pudesse ouvir sua respiração.

“Hmm...”

     O-O que ela está fazendo?!

“Com licença, posso ajudá-la?”

   Ikki estava desconcertado pelo avanço abrupto de Sara. A distância entre eles era tão pequena que ele podia ver a si mesmo refletido nos olhos dela; certamente ela devia querer algo dele. Os dois mal se conheciam, porém, então ele não tinha a menor ideia do que poderia ser. No entanto, Sara continuou a encarar o rosto dele.

“...Bom”, ela sussurrou, tanto seu rosto quanto sua voz desprovidos de emoção. Ela então começou a tocar Ikki pelos os ombros e peito, como se estivesse fazendo uma revista corporal.

“O quê —?! E-Espere um segundo!”

“Com li-ce-nça! O que exatamente você pensa que está fazendo?!”

“Silêncio. Estou me concentrando.”

   Ignorando completamente os protestos de Ikki e Shizuku, Sara traçou um dedo sobre a roupa de Ikki, seguindo os contornos de seu corpo. Era perigoso para ele deixar uma mulher como ela — uma terrorista que já havia realizado um ataque — apalpá-lo daquela maneira. Ele sabia disso e, no entanto...

     Ela está falando sério sobre isso. Consigo sentir o quanto ela está concentrada.

   Ele não sentia malícia ou qualquer outra emoção negativa nas ações dela. Ela parecia tão focada, de fato, que ele hesitou em detê-la. Por causa dessa hesitação, em vez de se libertar à força da garota, Ikki esperou. Ele decidiu tentar descobrir o que ela estava procurando com tanta seriedade. Antes que pudesse, no entanto, Sara abriu sua camisa debaixo do paletó do terno.

“Uou, o quê?!”

O-Onii-sama?!”

   Aquilo foi mais do que suficiente para fazer Ikki finalmente saltar para longe dela. Ele cobriu seu peito nu e exigiu respostas.

“O que você está fazendo?!” ele gritou.

“Você é perfeitamente suficiente agora”, ela murmurou de forma incompreensível, com as bochechas vermelhas como se estivesse febril.

“'S-Suficiente' como?! Sério, o que está acontecendo?!”

“Na primeira vez que nos encontramos, foi amor à primeira vista. Suas feições evocam uma sensação de beleza e gentileza, mas há um poder tão distinto escondido sob elas. A retidão da sua coluna torna sua postura terrível. E melhor ainda, seus músculos são bem lapidados sem serem desnecessariamente grandes. É tudo tão magnífico. Você pode ser o meu homem ideal.”

“H-Hã?!”

   A repentina sequência de elogios deixou Ikki sem palavras. Ele não tinha a mínima pista do que estava havendo. Ela estava confessando seu amor por ele ou algo assim?

     O que diabos está acontecendo?!

   Sob o peso do olhar de Sara, Ikki ficou paralisado. As coisas haviam escalado rápido demais para que ele conseguisse acompanhar, e ele lutava para descobrir como reagir. Não. Ele já estava namorando a Stella, então sabia exatamente qual seria sua resposta — se ao menos fosse capaz de articulá-la.

   A expressão de Sara era de uma seriedade completa e mortal. Todos os membros da Rebellion eram assustadores, mas ela parecia ainda mais do que qualquer outro que ele já encontrara. Para alguém que conseguia deixar as dúvidas de lado e ser direto em todos os momentos, a incapacidade de Ikki de reagir era algo incrivelmente fora de seu normal.

“Você daria o melhor modelo de nu. Perfeitamente suficiente. Então, vou precisar que venha ao meu quarto e se despoje para mim.”

“O quê?! Não! Eu recuso! Eu nunca me candidatei a isso!”

“Resposta errada. Eu recuso a sua recusa.”

“Quão egoísta você consegue ser?!”

“Se você não tirar suas roupas voluntariamente, eu apenas as arrancarei de você.”

   Enquanto Sara falava, magia começou a emanar de todo o seu corpo, e seu Device — uma paleta e um pincel — tomou forma em suas mãos.

     Espere, ela está falando sério?!

   Ela pretendia honestamente arrancar as roupas de Ikki à força, ao ponto de ter empunhado armas. Mesmo assim, Ikki não podia começar uma briga com ela; eles ainda estavam, afinal, em uma festa. Em vez disso, sem saber como detê-la, ele começou a entrar em pânico.

“Afaste-se do meu Onii-sama, sua pervertida!”

Gah!”

   Shizuku não perdeu tempo em mandar Sara voando para o lado. Ela então se colocou à frente de seu irmão, protegendo a modéstia dele.

Onii-sama, você está bem?”

   O que ela fizera foi incrível. Onde poderia ter apenas chutado Sara, ela, em vez disso, executou um dropkick voador para lançar a molestadora longe. Ela era, certamente, uma aliada confiável.

“Sim, estou bem.” Ikki respondeu à preocupação de Shizuku com um aceno. “Acho que ela só arrancou um botão da minha camisa.”

Grr!” Aquela resposta fez todos os cabelos de Shizuku ficarem em pé. “Ela não vai se safar dessa.”

“Sh-Shizuku?”

“Eu nunca consegui pular em cima de você e rasgar suas roupas! Nem uma única vez!”

   Talvez Shizuku não fosse uma aliada tão confiável quanto parecia. Ela lançou a Ikki — que não sabia se devia estar agradecido ou com medo — apenas um olhar de soslaio antes de deixar sua raiva levar a melhor. Ela materializou seu próprio Device e voltou sua atenção para Sara. “Você! Eu vou te matar!”

“O que —?! Shizuku, não! Não use seu Device aqui!”

   A situação era drástica, não deixando tempo para Ikki hesitar. Ele saltou para trás de Shizuku e a prendeu em um full nelson, parando-a imediatamente. Com seu baixo peso corporal e força física, ela não tinha como se libertar, tornando-a incapaz de causar uma tragédia. Isso, no entanto, criou outro problema.

     Ugh, consigo sentir todo mundo nos encarando...

   A quantidade de barulho que os três haviam feito foi mais do que suficiente para atrair a atenção de todo o salão. O melhor curso de ação para Ikki era pegar Shizuku e fugir dali, o que calhava bem, já que ele precisava trocar de roupa de qualquer maneira. Justo quando tomou essa decisão, o tom soprano da voz de alguém, exagerado como se para ameaçar quem o ouvisse, alcançou seus ouvidos vindo de perto.

Heheheh. É claro que você é a causa desta bagunça, Bloody da Vinci.”

   Ao se virar para olhar para a fonte da voz, Ikki encontrou uma garota com um tapa-olho e um vestido carmesim, com uma empregada parada logo atrás dela. Assim como acontecera com Sara, ele se lembrou dos rostos da dupla. Elas também eram membros do grupo que havia atacado Hagun.



 

 

 

 

 

 

“Eu me lembro de você. Kazamatsuri, originalmente da Academia Rentei, certo?”

   A garota de tapa-olho retribuiu com um aceno de cabeça.

Heheheh, suponho que você possa dizer que está correto. Esse nome e este traje são meramente temporários, no entanto — destinados apenas a enganar o Departamento de Administração Dimensional. Meu verdadeiro nome não pode ser proferido em nenhuma linguagem humana.”

“O que minha mestra quer dizer é o seguinte: ‘Sim, é um prazer conhecê-lo.’ Parece que eu também não me apresentei. Sou a empregada pessoal de minha mestra, Charlotte Corday. Um prazer conhecê-los.”

“Ah, bem, isso é muito gentil da sua parte.”

   Com um porte gracioso, Charlotte cumprimentou Ikki e Shizuku com uma reverência. A autoapresentação dela lembrou Ikki de que ela era a única cujo rosto ele não havia reconhecido durante o ataque. Os outros eram todos estudantes que haviam conquistado vagas de representantes em suas respectivas escolas — Ikki os vira em fotos que Kagami lhe mostrara —, mas, como Charlotte era uma acompanhante, ela estava longe de ser uma representante. Na verdade, ela sequer era uma Blazer.

“Peço desculpas pela minha compatriota, Worst One. Ela foi possuída por sua Musa, transformando-se em uma fonte infinita de inspiração. Perdoe-a, pois ela não tem intenção de causar mal. Lorelei, guarde sua lâmina. A batalha já terminou.”

“O que —?” Ikki e Shizuku olharam na direção para onde Sara havia sido lançada. Lá estava ela, com os membros estendidos sobre o tapete. “Ela desmaiou?”

“Charlotte”, disse Kazamatsuri, “carregue-a para o Caixão do Renascimento.”

“Pois não. Com licença, Lady Sara. Vou carregá-la para uma Cápsula iPS agora.”

Blrgh...”

   Enquanto Charlotte a levantava, Sara desfaleceu antes de finalmente perder o pouco que restava de sua consciência. Embora tivesse sido atingida por um dropkick voador, o golpe fora desferido por Shizuku, que era provavelmente uma das pessoas mais leves e fisicamente mais fracas entre todos os competidores do Festival. Ikki e Shizuku não se deram ao trabalho de esconder a surpresa com o quão fraca ela era para alguém que supostamente seria uma das pessoas mais fortes do submundo.

“A Bloody da Vinci é uma artista, não uma guerreira”, explicou Kazamatsuri. “Alguém como ela sempre será fraca. Nem mesmo sua chegada a este local foi por seu próprio poder; habitantes do inferno agarraram suas pernas pelo caminho e tentaram arrastá-la com eles. Foram anjos de branco que a trouxeram até aqui.”

“O que minha mestra quer dizer é o seguinte: ‘Quando Sara veio para Osaka, ela tropeçou na calçada e fraturou um osso. Ela foi trazida para cá em uma ambulância.’”

“Os ossos dela são feitos de vidro ou algo assim?”

“É por isso que o apelido dela é Bloody da Vinci.”

“Isso se referia ao próprio sangue dela?! De repente, ela parece muito patética!”

“A Rebellion estava com falta de combatentes, por acaso?” Shizuku sussurrou de forma inquisitiva para Ikki, que tinha tido o mesmo pensamento. Eles não conseguiam conceber como alguém como ela havia entrado no Festival de Batalha das Sete Estrelas.

Heheheh, vocês parecem não estar entendendo o ponto.” A Beast Tamer, Rinna Kazamatsuri, riu deles com escárnio. “De fato, a Bloody da Vinci é terrivelmente fraca. Mas isso não significa que ela seja nada além de fraca. O fato de ela ter sido escolhida para nossa grande estratégia é a prova de que ela pode se destacar.”

“Uh...”

“Embora a arte possa ser agrupada em categorias como ‘realista’ ou ‘abstrata’, ela não passa de uma réplica da realidade criada por esse incômodo conhecido como Deus. A arte da Bloody da Vinci, no entanto, é uma exceção. A arte dela cria a realidade. Comparado a ela, Deus é pouco mais que um amador. Seria melhor você não a atacar descuidadamente.”

   As palavras de Kazamatsuri lembraram Ikki e Shizuku do vislumbre que tiveram das habilidades de Sara durante o ataque. Seus bonecos, feitos à imagem dos membros da Akatsuki, eram nada menos que recriações impecáveis que pareciam, falavam e até agiam exatamente como os próprios invasores. Essa perfeição fora o motivo pelo qual Ikki percebeu a armadilha, mas isso não os tornava menos perfeitos.

     Ela não é o tipo de inimiga que eu deva menosprezar — especialmente porque estamos na mesma chave do torneio.

   Como a arte dela afetaria uma batalha ainda era uma incógnita, e isso a tornava ainda mais sinistra. Ele precisava garantir que permaneceria em guarda. Se tudo corresse bem para ambos, eles se enfrentariam na terceira rodada do Festival. Embora a cautela de Ikki tivesse diminuído devido à fraqueza surpreendente dela, ele mais uma vez se preparou.

“Contudo, devo admitir que a Bloody da Vinci tem bom gosto. Agora que o vejo de perto, você é esteticamente muito agradável, Worst One.”

   Com movimentos que lembravam um pequeno mamífero, Kazamatsuri olhou para Ikki de seu baixo ponto de observação.

“Hã?”

“Uma máscara que não é inutilmente peremptória, mas respaldada por uma força inimaginável. É exatamente disso que eu gosto. Por que você não se torna meu mordomo quando se graduar? Você será regiamente pago.”

Hrk! Você também está atrás do meu Onii-sama?! Eu não permitirei!”

“Eu não vou simplesmente me juntar aos terroristas, não importa o quanto você me pague.”

“Você não precisa se juntar à Rebellion. Eu ficarei satisfeita apenas com você cuidando dos meus pertences em minha mansão.”

“Não se deixe enganar, Onii-sama Isso é obviamente apenas um pretexto! Ela está planejando usar sua relação de mestre e servo para forçá-lo a fazer coisas obscenas! Eu certamente faria!”

     Uh-oh. Acho que minha irmã pode ser mais perigosa do que os terroristas.

   Deixando de lado os comentários estranhos dela, Ikki sabia sua resposta para o convite de Kazamatsuri e não perdeu tempo em dá-la.

“Desculpe, mas terei que recusar sua oferta gentil. Eu não suporto usar terno.”

Hmm... O trabalho formal provavelmente é insatisfatório para alguém cujas batalhas sempre terminam de forma tão favorável. Mas que seja! Renda-se a mim, e você terá para sempre todas as iguarias que desejar!”

“Mestra, não deve continuar a coagi-lo”, interveio Charlotte. “Mestre Ikki está claramente confuso.”

   O fato de Kazamatsuri ser membro de uma organização terrorista era um fator importante na escolha de Ikki em recusar, é claro, mas havia mais do que isso: Charlotte mantivera a mesma expressão imperturbável durante todo o encontro dos grupos, mas com a exigência de sua mestra para que ele se juntasse a ela, começou a olhá-lo com uma fúria ciumenta.

     Se eu tivesse dito sim, Charlotte com certeza teria me matado em algum momento.

   Não importava o quão bom fosse o pagamento, Ikki não tinha intenção de trabalhar em um lugar onde corresse o risco de ser assassinado.

Rgh, está bem”, Kazamatsuri fez beicinho relutantemente, aparentemente não muito disposta a desistir. “Mas se você mudar de ideia, sinta-se à vontade para me contatar. Sempre receberei bem alguém tão capaz quanto você, Worst One.”

   Ela entregou seu cartão a Ikki. Ele não tinha desejo algum de ser mordomo, mas recusar o cartão de alguém seria rude, então ele o aceitou e agradeceu.

   Com a conversa encerrada, Kazamatsuri e Charlotte ergueram o corpo sem vida de Sara e a carregaram para fora do local da festa. Ikki observou as três partirem, depois olhou para o cartão e soltou uma risada anasalada. Nele constava não apenas o nome dela, mas também seu número de telefone, endereço de e-mail e até mesmo o endereço residencial.

“Não posso dizer que planejei receber o cartão de uma terrorista hoje.”

“Elas são um grupo bem excêntrico. Apesar de serem criminosas, vieram a esta festa, começaram a te despir e até tentaram te recrutar. Você acha que todos na Rebellion são estranhos assim?”

“Bem, a Alice é bem fora do comum.”

   As pessoas escolhidas como representantes do submundo da sociedade certamente diferiam da imagem comum de assassinos sombrios. Embora Ikki soubesse que a verdadeira força de alguém não podia ser julgada apenas pela aparência, depois de ter passado por tantas dificuldades nas mãos deles, ele imaginara que seriam muito mais aterrorizantes. Na verdade, ele não conseguia afastar uma certa medida de decepção.

“Não me misture com esses idiotas. Você vai me deixar irritada.”

   Os pensamentos de Ikki foram interrompidos por uma objeção vinda de trás. Quando ele e Shizuku se voltaram para a voz que transbordava raiva, encontraram uma garota de longos cabelos negros, cujos olhos estavam escondidos por uma máscara vulgar.

 

 

“Olhem só para vocês, divertindo-se tanto. Nem percebem que vocês mesmos não são tão respeitáveis assim”, a garota, com o rosto parcialmente escondido por uma máscara, murmurou com raiva na direção da porta do salão por onde Kazamatsuri e as outras haviam saído.

“Suponho que você seja Yui Tatara, da Academia Akatsuki?”

“Ah, é mesmo. Você é a idiota que estava usando aquele casaco pesado em pleno verão.”

   Shizuku não tinha ideia de quem era a estranha até Ikki mencionar seu nome. O casaco havia impedido que ela visse o rosto da garota antes, mas assim que ele disse algo, ela percebeu que a altura batia perfeitamente.

“Eu não sou idiota”, Tatara respondeu em um tom descontente. “Os burros são os assassinos que deixam o mundo inteiro ver seus rostos.”

     Finalmente, uma delas disse algo que faz sentido!

   Shizuku ficou um tanto chocada. Comparada às outras duas, Tatara era uma assassina muito mais normal — dentro do que um assassino é capaz de ser "normal", pelo menos.

“Então podemos assumir que você é uma assassina? Mesmo que o público veja você apenas como uma estudante comum?”

   A franqueza daquela pergunta fez Tatara rir com desprezo.

Geheheh. Vocês já ouviram tudo do Black Assassin. A habilidade de Tsukikage em manipular as informações que circulam pelo Japão também é perfeita. Não importa o quanto vocês reclamem, o mundo verá isso como bobagem — sem ‘se’, ‘mas’ ou qualquer outra coisa.”

Rgh...”

   Aquela resposta fez as sobrancelhas de Shizuku se contraírem de raiva, pois a afirmação de Tatara era inegavelmente precisa. O fato de os alunos da Academia Akatsuki serem todos membros da Rebellion deveria ter sido comunicado por Kurono através dos canais apropriados; no entanto, isso não fora transmitido ao mundo em geral.

   O governo do Japão manipulava ativamente qualquer informação tornada pública, mas pior do que isso: a ideia de que o próprio primeiro-ministro estivesse ligado a terroristas era simplesmente absurda demais para que alguém acreditasse. Como resultado, as únicas pessoas que conheciam e acreditavam na verdade sobre a Akatsuki eram aquelas ligadas aos eventos que os colocaram sob os holofotes.

   Para pessoas como Shizuku — que sabiam a verdade —, a situação era mais do que irritante, pois haviam sido completamente pegas nas artimanhas do inimigo. Aquilo já era o suficiente para incomodá-la, mas ouvir isso de maneira tão provocativa a deixava ainda mais infeliz. Tatara percebeu a mudança na expressão de Shizuku, então colocou um pouco de comida em um prato e o ofereceu a ela.

Keheh. Não fique tão chateada, garota Kurogane. Foi mal por tirar sarro de você. Mas hoje estou de folga do trabalho, então vamos nos divertir nesta pequena reunião.”

   Seu comportamento por si só parecia amigável, mas ela não fazia qualquer esforço para esconder o desprezo que escorria de seus lábios enquanto falava. Onde suas palavras terminavam, terminava também seu pedido de desculpas. Aquilo só serviu para deixar Shizuku ainda mais furiosa, mas cair em uma armadilha tão óbvia a incomodaria ainda mais, então Shizuku disse a si mesma para simplesmente deixar para lá.

“Obrigada.” No momento em que ela tentou pegar o prato, ele voou pelo ar e se estilhaçou no chão de mármore. Ikki havia batido na mão de Tatara, derrubando o prato.

O-Onii-sama?”

   Os olhos de Shizuku se arregalaram diante da ação repentina dele. Ela não foi a única assustada; todos os estudantes ao redor os observavam com fascínio.

   Em resposta à atenção recebida, Ikki encarou Tatara sem dizer uma palavra, seus olhos preenchidos por uma luz gélida. Ele parecia uma pessoa inteiramente diferente de quem fora minutos atrás, mas o que causara uma mudança tão súbita? Shizuku olhou para a comida espalhada e imediatamente compreendeu o motivo do que ele fizera.

“I-Isso é...!”

   No prato que Tatara lhe oferecera, havia uma coxa de frango com osso. Dentro da carne, refletindo a luz fracamente, estava uma lâmina de barbear, provavelmente projetada para fora devido ao impacto da queda.

   Aquilo jamais poderia ter parado dentro do frango enquanto ele era cozido; alguém claramente a havia colocado ali com intenção maliciosa. Apenas uma pessoa teria feito isso: a terrorista parada diante deles. Tendo esperado exatamente algo desse tipo vindo dela, Ikki golpeara o prato para longe.

“Esse é um tempero e tanto, Tatara.”

Geheheh, que pena. Eu cobri aquela coisa com alcaloides suficientes para derrubar um elefante.” Sem medo das adagas no olhar de Ikki, Tatara riu tanto que seus ombros sacudiram. “E logo quando eu estava começando a achar que tinha feito um bom trabalho escondendo isso. Oh, bem, pelo menos você tem bons instintos, ao contrário da sua irmã aqui.”

“Não preciso do seu elogio. Há tanto despeito emanando de você que era óbvio que estava tramando algo.”

   As palavras de Ikki não eram um sinal de humildade. Shizuku não percebera, mas ele soubera desde o início que Yui Tatara era diferente das três com quem haviam falado antes. Aquelas garotas podiam ser estranhas, mas não houvera motivo para ele sentir malícia vindo delas. Era aí que Tatara diferia — a malícia era a única emoção que Ikki conseguia encontrar nela.

   Ainda mais suspeito, porém, era que, enquanto colocava a comida no prato, ela usara o próprio corpo para esconder o que estava fazendo de Ikki e Shizuku. Isso, por si só, tornara fácil para Ikki chegar à conclusão de que ela não tramava nada de bom, levando-o a remover a comida da equação. O resultado fora exatamente o que ele esperava.

“Achei que você tivesse dito que estava de folga hoje”, ele continuou em um tom ríspido.

Geheheh, sim, eu estou. Eu só queria matar uma garota ou duas para desopilar. Cara, eu estive tão perto também.” Longe de estar envergonhada por sua maldade ter sido revelada, Tatara estava descarada, chegando a amaldiçoar o fato de seus planos terem sido frustrados. “Eu nunca tive um trabalho que fosse um pé no saco desse jeito. ‘Ataquem a escola, mas não machuquem ninguém’? Sério? Eu não sou como eles; eu mato desde que aprendi a andar. Você não dá um trabalho desses para uma assassina como eu. Estou ficando louca de frustração! Não consigo esperar dois dias inteiros. Eu preciso matar alguém agora mesmo!”

   Tatara sorriu de forma desconcertante, revelando um de seus dentes caninos. Em sua mão direita, uma magia sinistra se acumulou até tomar forma, tornando-se uma motosserra com dentes de corte horripilantes, semelhantes aos de um tubarão.

“E-Ei, ela está falando sério?!”

“Ela vai mesmo tentar começar algo aqui?!”

   O local foi preenchido pelos gritos da multidão que testemunhava a selvageria de Tatara. Ikki não respondeu; em vez disso, posicionou-se à frente de Shizuku para protegê-la. Ele sabia que Tatara não era o tipo de pessoa que se deixaria convencer por palavras e, acima de tudo, ele não era o tipo de homem que deixaria passar impune alguém que atacasse sua irmã. Preparado para receber o golpe, ele empunhou a Intetsu.

“Pare com isso, Another One.”

Gh!”

   Ao ouvir alguém dirigir-se a ele por trás, Ikki deteve-se imediatamente — talvez porque a própria voz daquela pessoa o tivesse forçado a isso. Não foi um grito, nem parecia carregada de raiva. Pelo contrário, era gentil, mas possuía uma pressão irresistível. Havia nela um senso distinto de presença — do tipo que não aceita um não como resposta.

   Era uma voz que Ikki reconhecia. Ele nunca a ouvira pessoalmente, mas já a escutara na televisão inúmeras vezes.

“Você não lutou com unhas e dentes para chegar até aqui apenas para se meter em brigas sem sentido, não é? Vamos lá.”

“Moroboshi!”

   Exatamente como ele pensara, a fonte da voz não era outro senão o conquistador do Festival de Batalha das Sete Estrelas do ano anterior, e a pessoa que cruzaria lâminas pela primeira vez com o Worst One no torneio que se aproximava: Yuudai Moroboshi, o Rei das Sete Estrelas e estudante do terceiro ano da Academia Bukyoku.

 

 

   Um olhar astuto e coercitivo como o de um carnívoro. Quase um metro e oitenta de altura — uma estatura que rivalizava com a de Alice — acompanhado de um porte muscular perfeitamente proporcional. Um homem grande e intimidador, condizente com a bandana que usava. Aquele era Yuudai Moroboshi, o maior entre os cavaleiros estudantis do Japão, cuja voz, por si só, congelou cada gota de sede de sangue que permeava o ar. E ele não era o único a se aproximar de Ikki e dos demais; outros dois estudantes o seguiam, todos os três trajando não vestes formais, mas o uniforme escolar único de Bukyoku.

   Ikki os conhecia como se fossem celebridades. O rapaz, cujo uniforme, óculos e postura eram perfeitamente impecáveis até o último detalhe, era Byakuya Jougasaki. Ao lado dele estava Momiji Asagi, uma garota com um curativo em uma das bochechas e olhos tão travessos quanto os de um menino. Ambos eram estudantes do terceiro ano em Bukyoku e haviam conquistado, respectivamente, o segundo e o terceiro lugar no Festival do ano anterior. De fato, os três que se colocavam entre Ikki e Tatara eram aqueles que haviam subido ao pódio no ano passado.

 

 

 

 

 

 

 

 

     Não é à toa que me sinto tão tenso.

   Os três eram claramente tudo, menos comuns. Apenas o fato de estarem lado a lado era intimidante o suficiente para dar a ilusão de que o salão de recepção havia encolhido. Ninguém conseguia ignorar a imensa presença que emanava deles.

“Você é uma garota bem barulhenta, com toda essa conversa sobre matar. Sei que está animada para lutar no Festival, mas por que não se acalma um pouco?”

   Eles obviamente estavam observando a cena se desenrolar há algum tempo. Moroboshi não pareceu culpar Ikki em particular; em vez disso, olhou para baixo, para Tatara, enquanto a repreendia.

“Sinceramente. É impossível não duvidar do caráter de alguém quando sacam seu Device em um lugar como este. Por outro lado, com um Device como esse, suponho que seu caráter já esteja em questão.”

   Seguindo-o, Jougasaki também censurou Tatara por suas ações. Mesmo assim, ela não deu sinais de aceitar que era a culpada.

“Vocês, pirralhos exibidos, não percebem que caráter não é uma arma. Querem que eu mostre como é a sensação de uma arma de verdade?”

   Dando partida no motor de seu Device em forma de motosserra, Tatara apontou os dentes giratórios para o rapaz que estava à frente do grupo, Moroboshi. Mas ele apenas manteve seu olhar gélido.

“Não tenha tanta pressa em mostrar os dentes”, ele suspirou com desprezo. “Você é só latido e nenhuma mordida.”

Hrgh!” A resposta dele foi mais do que suficiente para deixar a já violenta Tatara fervendo de raiva, e ela soltou uma risada forçada. “Geheheh, pirralho maldito. Está bem, então. Veremos agora mesmo quem é o fraco aqui.”

   Ela se aproximou de Moroboshi enquanto falava. A malícia não mais escorria de suas palavras; ela havia se transformado em uma clara intenção assassina.

Kh?!”

De repente, como se tivesse levado um choque, ela parou a três metros dele. Ele soltou mais um suspiro de mofa enquanto a observava.

“Forçando a sorte apenas para se exibir, estou vendo. Mas isso é o mais perto que você conseguirá chegar. Dê um passo no meu campo de força e bang! As luzes se apagam.”

   Ikki olhou e percebeu que, em algum momento, uma lança amarela esguia havia aparecido na mão de Moroboshi. Aquela lança, com o cabo adornado com pele de tigre, era o Device do Rei das Sete Estrelas, Tiger King.

“Quando foi que você sacou isso?!” Tatara gritou surpresa, recuando um passo. Ela não foi a única pega de surpresa; Ikki também ficou.

     Incrível. Ela nem consegue chegar perto dele. — Mesmo seus olhos treinados falharam em notar Moroboshi materializando seu Device, mas o que mais o espantou foi que, apesar de ele não o segurar de forma ofensiva, ainda era impossível confrontá-lo. Não importava como alguém se aproximasse, era terozmente evidente que seria recebido com um contra-ataque. — O lendário Sentido do Predador do Rei das Sete Estrelas... e estou vendo isso ao vivo!

   Ele tinha controle absoluto sobre o espaço ao seu redor, bloqueando até mesmo a entrada da Raikiri. Não importava onde ou como alguém atacasse, era como se Moroboshi pudesse discernir e responder imediatamente. Sua total ausência de aberturas era algo pelo qual ele era exaltado.

   Até Tatara foi forçada a hesitar antes de avançar. Isso era natural, porém, pois o espaço ao redor de Moroboshi era o espaço ao redor do cavaleiro estudantil mais forte do Japão.

Gahahaha! Cara, os calouros deste ano são realmente audaciosos, hein? Coisa boa!”

   Os alunos de Bukyoku não foram os únicos que se aproximaram para verificar o alvoroço. Uma sombra cobriu Ikki e os demais, falando com uma voz alta o suficiente para dar a impressão de que seu dono usava um alto-falante. Ambos pertenciam a um homem com bem mais de um metro e oitenta de altura e quase um metro de largura, com um rosto barbado incomum para um estudante. O gigante que se juntara a eles era um estudante do terceiro ano da Academia Rokuzon, de Hokkaido, e semifinalista do Festival do ano anterior: Renji Kaga, o Panzer Grizzly.

“Mas não podemos desperdiçar comida”, advertiu Kaga. “Fazendeiros como eu trabalharam duro para criar esses frangos para que pudessem, um dia, ser comidos e apreciados. Não é gratificante se isso não acontece.”

   Quando estava no ensino fundamental, Kaga supostamente havia recuperado sozinho quase cem hectares de terra — o suficiente para abrigar vinte Tokyo Domes. Usando sua mão gigantesca, o lendário rapaz levantou a coxa de frango com a lâmina envenenada escondida dentro.

“Espere. Esse frango...!”

   Antes que Ikki pudesse impedi-lo, ele o jogou na boca, com osso e tudo. Suas mandíbulas massivas se fecharam sobre o alimento, rasgando o frango, o osso e a lâmina de barbear da mesma forma. Cada pedaço foi estraçalhado entre seus dentes antes de ser engolido com facilidade.

Gahaha! Vocês da Akatsuki podem matar um elefante, mas não podem me matar!”

“E-Esse cara é sequer humano?!”

   Ingerindo um veneno mortal e ainda assim não mostrando o menor sinal de mal-estar, Kaga fez com que Tatara empalidecesse. No entanto, o choque dela não terminaria ali.

Fwoo♡

Hngh?!”

   De repente, ela sentiu algo soprando na parte de trás de sua orelha. Massageada por aquele sopro, ela finalmente percebeu que estava sendo segurada por outra garota.

Aww, que boa menina. Fique parada agora; estou examinando você.”



 

 

 

 

 

 

Gaah?!”

   Tatara soltou-se rápida e forçosamente da garota que tentara apalpá-la. Ela escapara da ameaça, mas o horror ainda coloria seu rosto. Como uma assassina estabelecida dentro da Rebellion, ela estava plenamente consciente de que sua força era real; no entanto, baixara a guarda e fora capturada por uma agressora. Não era de se estranhar que estivesse em pânico.

“O-O que diabos você quer?!”

Teehee♡ Ora, ora, não é uma paciente animada? Devíamos ficar felizes por isso.” Enquanto a voz de Tatara tremia de ansiedade, os lábios fartos da mulher de jaleco se abriram em um sorriso. “Maaas, baseada na sua pressão arterial e temperatura corporal, você parece tensa. Sua estrutura pequena e pele áspera significam que você também tem uma dieta ruim. Dê-me suas mãos.”

   No momento em que ela disse isso, as mãos de Tatara desobedeceram à sua vontade, derrubando a motosserra.

“O-O que você e-e-está faze—?!”

   Exatamente como fora ordenado, ela formou uma concha com as mãos e as estendeu para a mulher de jaleco, que as observou.

“Tome seu cálcio, vitamina C e seu colágeno. Além disso, aqui está um incenso especial que preparei só para você. Acenda-o antes de dormir e ele acalmará seu orgulho num instante.”

   Com um sorriso, ela colocou várias pílulas, cápsulas e, finalmente, um pequeno embrulho decorado com uma fita fofa na concha das mãos de Tatara. É claro que Tatara não queria nem precisava de nada daquilo. Ela tentou jogar tudo no chão, mas...

     E-Eu não consigo me mexer!

“O que diabos você fez comigo?!”

“Hmm? Teehee♡ O que te deixou tão surpresa? É dever de uma médica fazer ao seu paciente o que for necessário, então é claro que tenho as ferramentas para isso.”

   Tatara suava profusamente enquanto gritava de raiva, mas a mulher permanecia agradável.

“Shizuku, você a conhece?” Ikki perguntou, incapaz de tirar os olhos daquela troca bizarra.

“Sim, é claro que conheço”, ela respondeu com um leve aceno de cabeça. Embora não fosse do tipo que pesquisava cavaleiros fortes — a festa em que estavam estava cheia de pessoas que ela não conhecia —, a mulher de jaleco era diferente. Ela era uma estudante, mas também a melhor médica de todo o Japão, além de uma cavaleira tão forte quanto qualquer outra na sala. Uma maga da água inigualável, a mulher praticamente forçara Shizuku a aceitar sua força. “Estudante do terceiro ano na Academia Rentei: a Medico Knight, Kiriko Yakushi. Ela não participou das Sete Estrelas em seu primeiro ou segundo ano, então presumi que não viria este ano também.”

“Mais importante, você percebeu quando ela agarrou a Tatara? A habilidade que ela usou poderia ser...?”

“Você adivinhou, Onii-sama. É muito parecida com a minha Aoiro Rinne, embora eu ainda não seja capaz de vaporizar minhas roupas como ela.”

   Shizuku deduzira isso, mas era incapaz de determinar o que Kiriko estava fazendo para roubar a liberdade de movimento de Tatara. Talvez estivesse usando algum tipo de técnica de manipulação sanguínea? Apesar de sua suposição, no entanto, era uma habilidade que ainda estava além de suas capacidades.

     É uma pena que eu esteja presa no bloco D com ela.

   Como Shizuku, Kiriko era uma maga da água, e uma muito habilidosa. A diferença de habilidade entre as duas seria refletida nos resultados de sua partida. Shizuku só podia esperar que ela fosse derrotada antes da terceira rodada, onde, caso contrário, seriam colocadas uma contra a outra.

   De repente, entre todos os cavaleiros de nível nacional atraídos pelo alvoroço, Ikki distinguiu um rosto familiar.

“Ei, vadia. Quem te deu permissão para tocar no Worst One? Desembucha!”

   Um rapaz de cabelos loiros surgiu da multidão, agarrando Tatara violentamente pelo colarinho. Era o trunfo da Academia Donrou, um jovem que havia cruzado lâminas com Ikki quando este ajudava Ayase Ayatsuji com seus problemas. Quando lutaram, ele usara seu Marginal Counter, uma habilidade que dependia de seus reflexos naturais em vez de seu poder mágico, para colocar Ikki em apuros. Ele não era outro senão Kuraudo Kurashiki, o Sword Eater.

“Kurashiki. Faz um tempo.”

“Heh, eu sabia que você chegaria até aqui. Vou te retribuir pelo que me fez naquela época.” Kuraudo voltou sua atenção para a garota pendurada em seu punho. “E não sou só eu. Todo mundo aqui está esperando para ver do que esse cara é capaz. Mexa com ele e você vai levar uma surra.”

   Sua voz transbordava intimidação. Confirmando suas palavras, os guerreiros mais proeminentes do país cravaram o olhar em Tatara. Mesmo ela, com sua natureza violenta, não conseguia suportar tamanha pressão. Vários dos presentes haviam chegado ou ultrapassado as quartas de final do Festival das Sete Estrelas do ano anterior; atacá-los na situação em que se encontrava seria desvantajoso demais.

Tch! Me solta!”

   Embora não tivesse controle sobre as mãos, Tatara chutou Kuraudo até se libertar. Então, com os lábios retorcidos de raiva, ela abandonou o local, pois aquela era a única opção que lhe restava.

 

 

   Após Tatara deixar o salão de recepção, Ikki expressou sua gratidão aos que haviam se reunido ao seu redor.

“Obrigado a todos. Eu estava prestes a cair na provocação dela.”

   Enquanto ele se curvava em humildade, a carranca ameaçadora de Moroboshi transformou-se em um sorriso afável.

“Não esquenta, cara. Qualquer um ficaria cego de raiva se alguém fosse atrás da sua irmã. Na verdade, você fez um bom trabalho em não arrebentá-la ali mesmo. Se fosse eu, teria esmagado o crânio dela antes mesmo que ela pudesse invocar aquele palito de dente”, ele riu, como se dissesse a Ikki que ele não tinha com o que se preocupar.

“Isso não é motivo de orgulho, Yuu”, Jougasaki, parado ao lado dele, suspirou irritado. “O Rei das Sete Estrelas deve ser um bom modelo para todos os cavaleiros seguirem. Por que você não tenta ser mais ponderado?”

Ahaha! Você ama sua irmã um pouquinho demais, Boshi”, comentou Asagi.

“O que foi que disse?! O que se espera de um irmão mais velho?! E contando com o ataque à Hagun, esta é a segunda vez que aquela garota faz algo assim. Nem Deus dá uma terceira chance, então por que pessoas comuns como nós deveriam se dar ao trabalho de dar uma segunda? Você me entende, certo, Kurogane?”

Haha... Com certeza, eu entendo. A Akatsuki realmente tem nos causado muito mais problemas do que o normal.” Ikki acenou em concordância. “Ainda assim, não posso dizer que os odeio completamente.”

Hm? O que quer dizer com isso?”

“É verdade que estas não são exatamente circunstâncias favoráveis, e eu definitivamente não posso dizer que gosto deles. Mas, porque eles estão participando do Festival, seremos capazes de lutar contra pessoas de um mundo que normalmente nunca teríamos a chance de ver. Sou grato por essa parte, pelo menos.”

   Ao arrastar pessoas do submundo para a luz, o próximo Festival seria diferente de qualquer outro. E era exatamente isso que Ikki queria, pois dava à competição não apenas mais ferocidade, mas também mais pureza. Afinal, era uma competição para medir a força de todos os jovens cavaleiros. Sob essa perspectiva — e apenas sob essa perspectiva —, Ikki apreciava o envolvimento da Akatsuki.

“...Heheh. Hahahaha!” O riso estrondoso de Moroboshi preencheu o local. “Fale sobre uma coincidência! Você parece alguém que nunca machucaria uma mosca, mas estamos em completo acordo. Achei que eu fosse o único aqui com esse espírito de sangue quente.”

   O Festival, a apenas dois dias de distância, valeria realmente a pena, já que Moroboshi sempre quisera um duelo de morte com o Gale Sword Emperor. O simples ato de arrastar Ouma para o Festival era motivo suficiente para agradecer à Akatsuki. No entanto, um estudante da Hagun, alguém diretamente prejudicado pelas ações deles, normalmente não participaria de tal conversa.

     Isso deve significar que ele compreende a verdade, ele raciocinou.

“‘Pessoas de um mundo que normalmente nunca teríamos a chance de ver’, você diz? Então o boato é verdadeiro; os alunos da Academia Akatsuki são realmente mercenários fora da lei.”

“Aquela pirralha de antes também não era normal. Ela simplesmente fazia o que bem entendia.”

“Nada disso importa.” Embora Jougasaki e Asagi estivessem desconfortáveis com a informação que acabaram de confirmar, Moroboshi rejeitou secamente os temores deles. “Não importa quem eles sejam, isso não muda o que temos que fazer. Certo, Kurogane?”

“Certo”, Ikki respondeu com um aceno sutil e um sorriso gentil. “Nós, cavaleiros, não devemos esperar justiça ou equidade de nossos inimigos.”

   Essa era exatamente a resposta que Moroboshi esperava. Como ele previra, Ikki compreendia a verdadeira natureza de suas existências como Cavaleiros-Estudantes. Eles não eram meros atletas; um dia, carregariam o fardo de proteger seu país. Reclamar de injustiça seria, em grande parte, transferir a culpa. Até que um cavaleiro entendesse essa verdade, ele não passaria de um esportista, independentemente de quanto poder tivesse na ponta dos dedos — ele jamais derrotaria um verdadeiro cavaleiro.

“Rivalidades e batalhas são inerentemente desiguais”, continuou Ikki. “Isso não é diferente nem mesmo para nós, Cavaleiros-Estudantes. Não importa quem seja nosso inimigo ou como ele chegou aqui, a responsabilidade de comentar sobre o que é ou não justo cabe às pessoas que gerenciam este torneio. Nosso único trabalho é derrotar esse inimigo.”

   Essa crença era a razão pela qual, embora lamentasse as ações dela, ele nunca desprezara Ayase Ayatsuji como covarde ou tentara desqualificá-la da batalha de seleção entre eles. Ele desprezava a injustiça e a desigualdade tanto quanto qualquer outra pessoa, mas não as rejeitava. Cavaleiros eram guerreiros, não atletas; não podiam esperar justiça de seu inimigo.

   Aquela breve conversa foi o suficiente para Moroboshi constatar o quão perspicaz e de mente aberta Ikki era. Com esse novo conhecimento, Yuudai Moroboshi, o Rei das Sete Estrelas, aceitou que, como oponente, Ikki não deixaria a desejar.

Heheh... Quando ouvi que um reprovado venceu a Raikiri, fiquei bem decepcionado. Eu estava tão animado para finalmente romper, de forma perfeita, a Noble Art invicta dela. Mas ei, nem tudo é ruim; um novo e interessante adversário tomou o lugar dela, afinal. Mal posso esperar para encontrá-lo no ringue depois de amanhã.”

“Quando o fizermos, lutarei com tudo o que tenho.”

   Enquanto o espírito de luta de Moroboshi transbordava, Ikki retribuiu com seu próprio olhar desafiador. Assim como Moroboshi avaliava a grandeza de seu oponente durante o encontro, Ikki também estava medindo o Rei das Sete Estrelas. Ao fazerem isso, ambos chegaram à mesma conclusão: a primeira rodada do Festival os colocaria cara a cara com a morte. Um claro pressentimento era acompanhado de inquietação, mas também de uma antecipação que a superava em muito. Compartilhando esses sentimentos, os dois gigantes continuaram a se encarar, destemidos.

“Ah, então, ei.” De repente, o tom de Moroboshi mudou, perdendo todos os sinais de tensão enquanto ele apontava para Ikki. “Acho que você devia ir trocar de roupa agora. Consigo ver seus peitos.”

“Hã?!”

   Ikki finalmente se lembrou do estado em que seu terno fora deixado e de como estivera expondo o peito para o mundo inteiro ver.

“A menos que você seja um daqueles caras que anda por aí exibindo os peitorais?”

“D-De jeito nenhum!”

   Estimulado pela provocação, Ikki rebateu e cobriu o peito. Pessoas entre a multidão riram de sua reação exagerada. Àquela altura, o clima ameaçador criado por Tatara havia evaporado, permitindo que a diversão agitada da festa continuasse.

[Almeranto: O Moroboshi está entre os meus favoritos dessa obra, o cara é muito bacana.]

 

 

   Na sala de fumantes ao lado do salão de recepção, um homem em um terno vermelho-escuro observava pela janela o alvoroço causado por Tatara e suas compatriotas.

“Vejo que o senhor tem muitos alunos indisciplinados, Sr. Tsukikage.”

   O homem, de cabelos grisalhos e olhos estreitos atrás de óculos escuros, era o primeiro-ministro do Japão e o responsável pela criação da Academia Nacional Akatsuki: Bakuga Tsukikage. Ele se voltou para a voz que pronunciara seu nome, exclamando com alegria ao confirmar de quem se tratava.

“Oh, se não é a Takizawa! Quanto tempo.”

   Quando Kurono Shinguuji ouviu o nome “Takizawa”, ela estremeceu levemente. O tom de voz dele ao pronunciar seu nome de solteira era muito parecido com o do Tsukikage de seus dias de estudante — muito parecido com o de quando ela o admirava. Para acalmar os nervos, Kurono acendeu um cigarro e deu uma tragada. Depois disso, ela o corrigiu.

“Agora é Shinguuji, senhor.”

“Ah, sim. Quanto tempo faz desde o casamento? Tem passado bem todo esse tempo?”

“Sim, obrigada. Tive um parto seguro.”

“Bom, bom. Sim, é maravilhoso ouvir isso.”

[Almeranto: O marido da Kurono deve ser o homem mais feliz do mundo kkkkkk. Ele pescou um peixe grande.]

   Tsukikage parecia genuinamente feliz ao sorrir, as rugas que marcavam seu rosto estavam mais profundas do que Kurono lembrava. Ele estava honestamente radiante por ela transbordar de saúde. Kurono não tinha dúvidas disso, a julgar por sua expressão, mas isso apenas azedou ainda mais o semblante dela.

     Ele realmente não mudou. Nem seu rosto gentil, nem seu sorriso caloroso; tudo estava exatamente como era há muito tempo — exatamente como era quando ela o admirava. Isso a enchia de perplexidade e irritação. — Mas então, por que ele fez algo assim?

   Se ao menos ele tivesse mudado, mesmo que só um pouco. Se ao menos ele a tivesse olhado com ódio ou malícia clara. Então, pelo menos, talvez ela não tivesse que ser atormentada por aquela pergunta. Mas Kurono suprimiu suas emoções o melhor que pôde e direcionou seu próprio olhar de desprezo para seu antigo professor.

“Sinto uma profunda relutância em ter que encontrá-lo novamente nestas circunstâncias.”

   Ela não era mais sua aluna; ela era a diretora da Academia Hagun. Por ter ferido seus alunos, o diretor da Academia Akatsuki era um inimigo, um adversário que jamais poderia ser perdoado. Esse fato era imutável, então não havia necessidade de continuar com aquela conversa fiada farsesca. A única necessidade era pressioná-lo até que ele revelasse por que havia escolhido um curso de ação tão terrível.

   Kurono entendia bem o seu papel. Ela deixou esse papel perfeitamente claro, enquanto Tsukikage, cuja posição em tudo era inteiramente desconhecida, não o faria. Em resposta, Tsukikage falou aceitando o ódio dela.

“Haha. É natural que você esteja brava, já que usei sua academia como um degrau.”

   Em outras palavras, ele aceitava que o que fizera a havia prejudicado. Suas palavras também serviram como uma confissão de que ele realizara aquelas ações com pleno conhecimento desse fato. Tendo arrancado isso dele, ela pressionou ainda mais.

“Por que o senhor fez isso?”

 

 

 

 

 

 

 

 

“O mesmo que eu disse na conferência de imprensa: os Blazers são a linha de frente da defesa nacional, no entanto, o Japão confia a maior parte de sua educação a potências estrangeiras. Até mesmo a emissão de licenças de Cavaleiro-Mago está sob o controle total deles. Não podemos emitir essas licenças, muito menos revogá-las livremente. Alguém poderia chamar isso de uma situação saudável? Eu diria que não. Pelo bem daqueles que herdarão este país, estou trabalhando para corrigir esse erro.”

   Apesar do questionamento direto de Kurono, Tsukikage não ofereceu nenhuma informação nova. Ele meramente repetiu o que já havia dito durante sua coletiva de imprensa.

“Eu realmente não acho que essa seja a história toda. O senhor está escondendo algo.”

“Quem, eu? Não. Shinguuji, assim como você abraçou o modo de fazer as coisas de Bukyoku e fez mudanças radicais em Hagun, presumi que você entenderia minhas mudanças radicais no Japão.”

“Lamento dizer isso, mas suas ações estão muito além da minha compreensão. Sim, a Academia Hagun teve ótimos resultados desde que a Diretora Makunouchi assumiu e mudou para regras e métodos que fogem dos da Federação. Também é verdade que a sede da Federação tem estado de olho neles por causa disso. No entanto, as ações deles estavam dentro do reino do senso comum; as suas estão longe disso. Especialmente quando se trata de contratar terroristas para atingir seu objetivo.”

“'Terroristas'? Como alguém em minha posição, devo dizer que receio não ter ideia do que você está falando.” A recusa afiada de Kurono foi recebida com um sorriso preocupado e ignorância fingida. O questionamento direto era claramente inútil. Justo quando Kurono começava a aceitar a derrota, Tsukikage falou com uma voz fria o suficiente para enviar calafrios pela espinha dela. “Mas o que há de errado com a anarquia, se isso significar a destruição de leis equivocadas?”

Kh!”

   Isso era tudo o que ela precisava ouvir. Ela não tinha ido vê-lo impensadamente; fizera inúmeras previsões e levara várias coisas em consideração. Inúmeras razões possíveis para as ações de Tsukikage haviam girado em seu cérebro antes do encontro.

“Senhor... eu pensei que esse pudesse ser o caso.”

   A meticulosa hipótese de Kurono permitiu que ela entendesse o que Tsukikage estava dizendo, junto com o verdadeiro objetivo implícito em sua decisão de usar métodos fora da lei. Esse objetivo, no entanto, era o pior cenário que ela poderia ter vislumbrado.

“E o que seria 'esse'?”

“Eu sempre achei estranho. Estabelecer uma academia nacional, escolher terroristas como seus alunos, ir para o Festival das Sete Estrelas, ser tão firme quanto ao posicionamento desta academia nacional. Tudo isso parece um tanto indireto demais para o mero objetivo de retomar nosso direito de educar os Blazers.”

   Em sua essência, retomar a educação dos Blazers seria uma tarefa simples, dada a posição confortável do Japão dentro da Federação. Ostentando a terceira maior economia do mundo e uma aceitação para religiões com diferentes sistemas de crenças, o país agia como uma cola que unia terras que adoravam divindades distintas. Se o país se empenhasse seriamente em negociações, conseguir o que desejava não seria difícil de realizar. A Federação enfrentaria uma perda muito maior com a saída do Japão do que com qualquer exigência que recusasse.

“Retomar nosso direito de educar os Blazers entra na categoria de coisas que podemos alcançar diplomaticamente. É sem precedentes para o chefe de uma nação associar-se a terroristas e declarar guerra aos seus próprios cidadãos por causa de uma rebelião contra algo tão básico. O senhor foi longe demais para isso. Sempre me incomodou, mas esta conversa tornou quase certo que a causalidade é, na verdade, o inverso. O senhor não escolheu métodos fora da lei com o propósito de retomar o direito de educar os Blazers; o senhor usou a retomada desse direito como uma desculpa para justificar o uso de métodos fora da lei.”

“O que a faz pensar isso? Certamente você deve ter um motivo.”

“Não posso pretender conhecer seus motivos pessoais, nem tenho as informações necessárias para teorizar sobre eles. Mas, agora que chegamos até aqui, só consigo pensar em uma razão para suas ações: o senhor não queria abrir negociações com a Federação. Se eles tivessem cedido e o senhor tivesse alcançado seu objetivo de retomar a educação dos Blazers, o Japão acabaria ainda preso como parte da organização deles. Se isso acontecesse, seu verdadeiro motivo de destruir irreparavelmente as relações entre o Japão e a Federação seria impossível de alcançar!”

   Kurono estava certa de que esse era o verdadeiro objetivo de Tsukikage. O fato de a Rebellion ser uma parte fundamental da Academia Akatsuki havia sido comunicado à sede da Federação pela própria Kurono. Como resultado, qualquer negociação ou compromisso entre os dois era improvável, pois isso significaria que a Federação estaria se submetendo a terroristas.

   Tsukikage sabia — ou talvez apenas esperasse — que seus métodos agressivos levariam exatamente a essa situação. Tudo o que ele fizera fora em prol de seu verdadeiro objetivo: um fim decisivo para as relações Japão-Federação.

Heheheh. Muito bem, Takizawa. Você sempre foi brilhante.”

   Chocantemente, Tsukikage não fez qualquer tentativa de negar a acusação confiante de Kurono. Ele falou com um sorriso malicioso, pouco característico de si mesmo. “Tentar esconder a verdade de você quando você acertou o alvo com tanta precisão serviria apenas para me envergonhar, então sim, posso dizer que você está correta em grande parte. Como você disse, meu objetivo final é romper permanentemente quaisquer laços remanescentes entre nós e a Federação.”

“Por que o senhor faria isso?! Será que logo o senhor se vendeu para alguma outra nação?!”

“Claro que não. Não me vendi a ninguém; faço tudo isso pelo bem do Japão. Veja bem, o Japão não deveria fazer parte de um ajuntamento de fracos como a Federação. Temos o poder para manter nossa soberania, e não fazer uso dele serviria apenas para nos fazer limpar a bagunça de outras nações, de forma alguma beneficiando a nossa.”

Tch!”

   Kurono ficou visivelmente mais irritada com as palavras de Tsukikage.

   Até certo ponto, ele estava correto. A Federação Internacional de Cavaleiros-Magos era essencialmente uma aliança entre nações. Aqueles sob sua bandeira enviariam pessoal e recursos para quaisquer membros atacados por um não-membro, criando um canal de suporte rápido e eficiente. Assim como na saúde pública, um membro não afligido pela enfermidade conhecida como guerra seria incapaz de receber qualquer benefício, trabalhando exclusivamente para o benefício alheio.

   Vietnã, Iraque, Israel — no último meio século, o Japão fora obrigado a enviar apoio a outras nações apesar de nunca ter entrado em guerra ele próprio, o que não era um fardo leve de carregar. Havia uma crença profundamente enraizada no público em geral de que o Japão estava levando a pior nesse aspecto. O partido Anti-Federação, liderado por Tsukikage e o atual partido governante, ganhara uma tração incrível ao longo desses cinquenta anos, presumivelmente graças em grande parte a esse contexto histórico. Como tal, a afirmação de Tsukikage não era um conceito novo para Kurono. Mas isso não significava que ela concordaria com isso.

“O senhor tem certeza de que pensou bem nisso?! Este é um país insular — ele é severamente carente tanto de terra quanto de recursos! O senhor realmente acha que podemos manter nossa independência imprensados entre gigantes como a China, a Rússia e os Estados Unidos?!”

   No mínimo, era verdade que permanecer na Federação continuaria a colocar o Japão sob um fardo pesado, e a análise de que estavam "levando a pior" parecia ter algum mérito. No entanto, também era verdade que o país estava sendo protegido sob o guarda-chuva da Federação, e Kurono não conseguia nem começar a imaginar o que aconteceria com um país deixado do lado de fora sob a chuva. Era por isso que ela temia profundamente o plano de Tsukikage — ele ameaçava transformar o Japão e o mundo em geral de formas impensáveis. Ao contrário dela e de suas preocupações, porém, a confiança de Tsukikage era inabalável.

"Nós absolutamente podemos. Eu juro retomar nossa glória e território de direito."

"E o senhor não vai parar por nada, presumo?"

"Exato. Cem por cento. Essa é a razão da existência da Academia Akatsuki. Eles dominarão este torneio, e as massas não desejarão mais o controle da Federação. Meu plano não pode mais ser detido."

"Rgh..."

"Heheh. Sua expressão me diz que você ainda não entende. Mas está tudo bem; eu não preciso da sua compreensão. A liberdade de pensamento é importante, afinal. Você é bem livre para criticar, e é livre para se desesperar também. No entanto, eu sou o líder deste país. Eu escolherei nosso caminho, e ninguém irá interferir."

   O tom de Tsukikage ao esmagar seu cigarro em um cinzeiro próximo exibia claramente sua força de vontade rochosa. Então, enquanto caminhava em direção à saída da sala de fumantes, ele falou com Kurono como se estivesse repreendendo uma criança mal comportada. "Isso está além do escopo de uma mera educadora como você. Conheça o seu lugar e aprenda a não ser tão intrometida."

   Foi então que Kurono entendeu que Tsukikage havia escolhido um caminho diferente. Ele não tinha intenção de parar jamais, o que ficou evidente por seus passos pesados conforme ele se afastava. Ela também não tinha poder para detê-lo.

"Talvez seja demais para alguém na minha posição combater, mas isso só se a Academia Akatsuki vencer o torneio. Eu estraçalharei sua ambição sem nem levantar um dedo — meus alunos garantirão isso."

   Sem se virar para ele enquanto ele se dirigia à saída, Kurono expressou sua própria convicção sincera. Ela não gritou, mas sua voz ressoou com um tom poderoso. Tsukikage congelou por um breve momento com a mão na maçaneta.

"Mal posso esperar... para ver seus alunos caírem. Isso servirá apenas para fazer a Akatsuki parecer ainda mais superior."

   Ele a deixou com essas palavras ao sair da sala.

   Finalmente, Kurono Shinguuji compreendia o verdadeiro objetivo de Tsukikage. Isso não significava que ela diria a Ikki e aos outros uma única palavra do que aprendera, no entanto. Ela esperaria até o fim do torneio e os forçaria a carregar, sem saber, o futuro de sua nação, pois o que ela estava fazendo não passava de uma aposta de bastidores nos resultados de suas partidas.

   Eles não devem saber sobre a especulação nojenta que está acontecendo aqui fora de campo.

   Os alunos tinham que lutar puramente por si mesmos. Se o fizessem, certamente venceriam. Ela tinha certeza disso porque uma vez competira com a Demon Princess pelo topo que eles esperavam alcançar. Não importava o quão fortes fossem os alunos da Akatsuki, faltava-lhes algo vital: paixão pelo palco conhecido como Festival de Batalha das Sete Estrelas. Sem isso, a vitória era quase impossível. Poderia ser viável em um cenário de batalha diferente, mas no Festival das Sete Estrelas, a vitória sem paixão era inimaginável.

 

 

 

 

 

Deixe seu feedback!

Como é uma obra que estou fazendo sozinho, posso cometer alguns erros. Caso tenha algo a relatar, por favor, avise nos comentários!

Claro, caso estejam gostando, eu adoraria saber a opinião de vocês!

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora