Volume 1

Capítulo 8: Reunião de Velhos Amigos

Reunião de Velhos Amigos

André acordou mas não levantou-se da cama, ele ainda ficava um pouco atordoado com o excesso de cor branca no quarto, ainda deitado ele tentou colocar os pensamentos em ordem. Mesmo que as alucinações que sofreu no Outro Mundo não existissem mais, os pesadelos com a guerra ainda eram recorrentes. E nesse dia foram piores, pois ele iria reencontrar seus velhos conhecidos.

Trocou de roupa, mas ao invés da roupa branca que usou desde que acordou nesse mundo, vestiu uma roupa preta que tinha encomendado previamente a Felipe, uma camiseta, uma jaqueta, calça jeans e botas de motoqueiro. Afinal primeira impressão depois de tanto tempo era importante. Então foi para o local que Felipe tinha lhe indicado.

André encontrou Felipe em uma sala bastante ampla no andar térreo do prédio onde estava localizada a base da Divisão de Inteligência e Segurança Mundial, cabia a eles esperar os ditos “heróis” que chegariam, era como um dia de folga para Felipe, Lídia estava tomando de conta da parte burocrática e Valmir estava por conta do sistema de segurança. Era um ambiente em que André ainda não havia estado, tinham muitas pessoas, que entravam e saíam o tempo todo, algumas estavam apenas paradas como se esperassem alguém.

— Com licença — Disse Felipe — Você se importaria em esperar enquanto eu vou encontrar a minha família?

— Claro que não. — Respondeu André.

Vendo aquela quantidade de gente em constante movimento, André se sentia incomodado, resolveu andar em busca de um lugar com menos pessoas. Atravessando o salão chegou em uma área mais reservada onde apenas algumas pessoas estavam sentadas em poltronas dispostas em duas linhas de costa uma para outra, André deu a volta e sentou no lado que estava virado para a parede, tinha apenas uma pessoa sentada ali, e isso lhe incomodava menos.

Quando achou que estava em um ambiente mais relaxado, André sentiu como se alguém o encarasse, e ao olhar para o lado, viu que era a pessoa sentada ao seu lado, uma mulher, aparentava algo entre 40 e 50 anos, tinha um rosto familiar e sorria docemente como se o conhecesse há muito tempo, mas André não a reconheceu.

— Você é o André, certo? — Disse ela.

— Eu sei… — Disse ele.

Ela não pode deixar de rir um pouco, e continuou o encarando fixamente.

— Como a senhora me conhece? — André já estava muito incomodado com ela.

— Minha filha fala muito de você… — Disse ela — Inclusive mostrou uma foto sua.

— Aaaah…

André não estava muito interessado em bater papo.

— Ela me disse que vinha hoje, e eu desmarquei tudo que tinha para fazer, são meses sem abraçar ela… — A mulher não parava de falar.

André não falava muito, apenas concordava.

Alguns minutos tinham se passado desde que André sentou a ouvir o monólogo da senhora, e um burburinho tomou conta do lado oposto do salão, próximo à entrada.

— Olha! — Gritou a senhora se levantando — É um dos seus amigos

André sabia que não era um amigo, ele não tinha muitos amigos, mesmo Felipe não podia ser considerado um amigo. Mesmo assim a curiosidade de saber quem chegara foi mais forte. Ao levantar-se e fitar em direção ao burburinho, ele viu uma figura facilmente reconhecível: 1,90 m, moreno, cabelos longos negros e lisos amarrados em forma de rabo de cavalo, vestia uma calça cheia de bolsos e uma camisa aberta mostrando seu abdômen definido e o peitoral malhado.

Era Kawã, um galã no outro mundo, e parece que aqui continuava sendo igual, André viu quando pessoas de aparência semelhante, com exceção dos músculos, correram em direção a ele, lhe abraçando, era a sua família.

— Que coisa linda! — Exclamou a senhora ao lado de André — Mal posso esperar para encontrar a minha filhinha…

— Quem é a sua filha? — André que estava calado a bastante tempo finalmente se manifestou.

— É a Elizabeth! — Respondeu a senhora — Eu quis homenagear a rainha… Ha-ha-ha! Mas ela era tão pequenininha, tão zitinha, que o apelido pegou fácil, Zita.

André finalmente compreendeu, ela realmente tinha muitos traços semelhantes à filha, com exceção de algumas marcas da idade e a cor do cabelo, elas seriam idênticas. Além de que Zita era a única pessoa que tinha uma foto de André. Mas ele estava desinteressado demais para prestar atenção em algo desse tipo.

Mais alguns minutos tinham se passado, talvez umas dezenas de minutos, a mãe de Zita continuava falando, os ouvidos de André já doíam, foi quando ocorreu a segunda comoção em direção à entrada, porém, dessa vez era muito maior, pessoas gritavam de dentro, outras de fora queriam entrar, muitos aplaudiam e assobiavam, e dezenas de fotógrafos se aglomeravam em torno de um grupo de pessoas.

— Agora tem que ser ela!.. — Exclamou a senhora.

Não sendo ninguém que queira me matar, já está bom… — Pensou André

Aos poucos os seguranças afastaram as pessoas, dando liberdade aos três visitantes que já estavam acompanhados de Felipe, André tentava reconhecer quem eram.

O primeiro era um rapaz alto, loiro, alhos azuis, magro, e diferente de Kawã, não era musculoso, mas tinha traços faciais bem atraentes, vestia um uniforme semelhante ao de militares, porém todo azul, com uma bandeira listrada de vermelho e branco no braço.

Leonardo… — Pensou André — Esse já tentou me matar

O segundo era um rapaz também, branco, cabelos pretos, olhos verdes e sorriso brilhante, um pouco mais baixo do que Leonardo, usando um uniforme semelhante.

Lucas… — Novamente pensou André — Quase me matou por duas vezes

O terceiro era uma garota de cabelos vermelhos esvoaçantes, da mesma altura que Lucas, também usava o mesmo uniforme que os dois anteriores.

— ZITA! — Gritou a mãe da garota enquanto corria em sua direção.

André se sentiu aliviado, era bom encontrar alguém que nunca tentou mata-lo, pelo menos não intencionalmente.

Imediatamente cada um deles foi cercado por seus respectivos familiares que os abraçavam e faziam várias perguntas, haviam ainda alguns que davam presentes, era uma cena emocionante para qualquer um que visse… Exceto para André! Ele permanecia em pé, imóvel, sério, na verdade não demonstrava sentimento algum, estava totalmente indiferente ao que acontecia.

Lucas foi o primeiro a conseguir se livrar do cerco de parentes, olhou diretamente para André, e imediatamente a sua expressão se alterou, o sorriso de felicidade de reencontrar a família foi substituído por uma cara séria, como se não gostasse de algo, em seguida Léo, ele fez a mesma expressão.

Ambos soltaram suas bagagens, e lentamente caminharam lado a lado em direção à André. O silêncio pairava e tensão era tanta que toda a felicidade parecia ter se dissipado, e a qualquer momento fosse acontecer uma cena de violência.

Os dois pararam à alguns metros de André, ainda lado a lado.

— André… — Léo quebrou o silêncio agoniante — Então conseguiu mesmo uma forma de atravessar os mundos…

— Não sei como conseguiu — Disse Lucas — Mas aqui não é o seu lugar!

No mesmo instante os dois fizeram menção de avançar em direção à André, mas antes que eles dessem o primeiro passo, alguém foi mais rápido, passando entre os dois e se atirando em André, caindo no chão e o imobilizando.

Era Elizabeth, ou Zita, como ela preferia ser chamada.

— NÃO ACREDITO QUE VOCÊ CONSEGUIU MESMO! — Gritava a garota de cabelos vermelhos, enquanto as lágrimas desciam — Eu achei que você tinha ficado preso naquele lugar para sempre…

— Sim… — Respondeu André — Eu também achei…



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