Volume 1

Capítulo 5: Perguntas

Perguntas

André estava deitado, mas não dormia, estava acostumado a dormir uma média de 5 horas por dia, além de que havia muito a ser feito e ele estava contra o tempo, apesar de nem sequer saber onde estava, tivera sorte de ser encontrado por Felipe, talvez se fosse outro, não teria dado tempo de conversar ou poderia nem estar vivo.

Esse tipo de pensamento assolava a mente do rapaz, quando um homem alto e forte abriu a porta, pediu licença e entrou. Era um dos guardas que ajudaram Felipe a soltá-lo horas atrás, André apenas olhou para o homem como se esperasse que esse explicasse o motivo de ter vindo até ele.

— Meu nome é Valmir — começou o guarda — Trabalho para o senhor Felipe a 4 anos, ele me pediu pessoalmente que lhe ajudasse a se habituar com esse mundo, há muita coisa que talvez você desconheça, então pode me perguntar o que quiser…

— Senhor Felipe? — Interrompeu André — Ele que pediu para chamá-lo assim?

— Não, todos nós o chamamos assim porque ele é o chefe daqui. — Respondeu firmemente Valmir.

— E o que exatamente é “aqui”? — Perguntou André enquanto olhava fixamente para o teto.

— É a sede da Divisão de Inteligência e Segurança Mundial, um dos lugares mais seguros desse mundo. — Respondeu Valmir, mantendo o mesmo tom da resposta anterior.

— E onde estão as minhas coisas? — André se virou e encarou o guarda nos olhos como se tentasse ver sua alma. — Lembro de chegar aqui com 3 cristais, 5 livros, uma caixa de madeira e um pedaço de metal amassado.

— Não posso lhe informar — Respondeu Valmir, sempre no mesmo tom.

— Então parece que terei que descobrir sozinho. — Comentou André voltando o olhar ao teto novamente.

— Por quê está tão preocupado com aquelas coisas? — Valmir tentou aproveitar a deixar para obter algumas informações também. — O senhor Felipe disse que eram apenas tralhas sem tanta importância.

— Alguém está mentindo — Respondeu André — Você ou ele?

— O quê? — Valmir estava espantado.

— Felipe é capaz de saber o valor daquelas coisas só de olhar — Explicou André — Então ou ele disse que elas eram sem importância e mentiu, ou ele não disse e você mentiu.

— Desculpe, eu que menti. — Valmir mudou o tom e baixou a cabeça. — Não fomos nós que o encontramos, e sim a equipe da Divisão de Pesquisa e Desenvolvimento, eles nos enviaram você mas ficaram com tudo que estava sob sua guarda.

— E onde eu acho essas pessoas para pegar as minhas coisas de volta? — André indagou sentando-se na cama de frente para Valmir.

— O Laboratório principal, para onde devem ter levado suas coisas fica a uns 1.500 km daqui… — Explicou Valmir.

— Então além de estar muito longe, aposto que tem uma segurança impecável, nem mesmo um dos outros seria capaz de violar o local, estou certo? Sempre existe um lugar assim…

— Exato! — Respondeu Valmir — Nem mesmo um dos heróis do outro mundo seria capaz de adentrar o local sozinho.

— Heróis do outro mundo? — André falou com tom de deboche arqueando uma sobrancelha — Vocês os chamam assim?

— Não só eles, você também… — Respondeu o guarda, novamente sério.

André manteve a expressão fria enquanto encarava Valmir, ele não gostava de ser chamado de herói. Mas achava que não valia a pena discutir.

— E esse local em que estamos? — André continuou interrogando o guarda — Você disse que é um dos lugares mais seguros desse mundo, que garantias temos?

— Ele foi projetado e construído com base no conhecimento do senhor Felipe, a partir dos melhores sistemas de segurança dos dois mundos, e só ele conhece toda a arquitetura e funcionamento do local, são diversos níveis de trabalho, e cada um trabalha exclusivamente no seu nível, não tendo acesso aos níveis superiores e inferiores, apenas os líderes de cada nível podem interagir entre si, mas tudo sob supervisão de uma equipe de segurança interna que responde diretamente ao senhor Felipe, da qual eu me orgulho de ser o líder.

— Então você é o segundo em comando? — Perguntou André caminhando lentamente em direção a Valmir.

— Não… — Respondeu com a voz baixa o guarda — Há mais alguém entre o senhor Felipe e eu em termos de hierarquia, a secretária pessoal dele, Lídia. Ela é meio estranha e desajeitada, mas é muito inteligente.

André ficou em silencio por uns minutos, Valmir ainda estava de pé ao lado da porta, mantendo a postura, devia ser difícil ser um guarda tão obediente, enquanto isso André apenas caminhava de um lado para o outro dentro do quarto.

O local não era tão grande, mas pelo menos é maior que uma cela de prisão, além de ser bem mais confortável. De repente um pensamento passou na mente de André:

— Por quê esse lugar não tem janelas?

— Por que estamos no subterrâneo — Respondeu Valmir.

— Então é um tipo de masmorra? Uma prisão subterrânea? Ou o quê?

A pergunta de André tirou uma gargalhada de Valmir, o guarda agora parecia um pouco mais relaxado do que alguns minutos atrás, quando entrou naquele quarto.

— E porque esse lugar seria uma masmorra? — Debochou o guarda — Por acaso você já esteve em uma?

— Já — Respondeu seriamente André — Por mais de uma vez…

O sorriso no rosto de Valmir se foi, só restou um olhar de angústia, ele podia ver nos olhos de André que tudo o que estava dizendo era verdade. Enquanto isso, o jovem continuava a falar:

— Você disse a pouco que somos herói de outro mundo, mas não é bem verdade, todos temos sangue nas mãos, inclusive tentamos nos matar algumas vezes, destruímos reinos, vidas, sonhos, infâncias, e nossas próprias vidas em nome de um bando de hipócritas, já fui chamado de muita coisa, menos de herói. Há 5 anos, pouco antes dos outros 32 retornarem me deixando para trás, Felipe me chamou de demônio, e aposto que ele não esqueceu disso, pois mesmo que tentasse, o seu poder o impede… Mas eu não sou o único demônio que esteve naquele mundo.

Os dois ficaram em silencio por mais alguns instantes, talvez 5 minutos, mas pareceram horas torturantes, André voltou à cama e se deitou ficando a contemplar o teto, até que Valmir não pode mais segurar a curiosidade, e perguntou:

— Você também tem poderes, não é?

— Tive… — Corrigiu André — Perdi ao voltar.

— E qual era a sensação? Como você se sentia ao usar um poder mágico? — Valmir parecia não temer o passado tenebroso de André, sua curiosidade estava acima.

— Felipe contou algo sobre o meu antigo poder? — Perguntou André virando o rosto em direção à porta.

Valmir fez um sinal negativo com a cabeça.

— Disseram que o seu poder era uma névoa escura que podia virar qualquer arma, ou envolver o seu corpo para protege-lo, mas o senhor Felipe sempre disse que era mais do que os outros conseguiam ver, mas nunca explicou o que isso significava.

André voltou a contemplar o teto por mais uns instantes, era como se buscasse as palavras certas.

— O nome do meu poder é “Rancor”. — Explicou André — Ou pelo menos era, eu podia moldar meus sentimentos negativos, dando uma forma física, que podia ser manipulada, dependendo do que eu sentia, mas eu tive que abrir mão desse poder e dos meus braços para poder atravessar.

Valmir olhou para os braços enfaixados de André, já tinha notado que em nenhum momento ele abria as mãos, para movimentar a articulação do cotovelo, o jovem fazia uma expressão de dor, e até mesmo os movimentos axilares eram limitados.

— Não sente falta do seu poder? — Perguntou Valmir.

— Aquilo não era um poder, era uma maldição! — Respondeu André com expressão de alivio — Estou feliz de me livrar daquela coisa torturante, que só atrai desgraça para mim e para quem está ao meu redor.

Valmir achou melhor deixar André descansar, ele estava de volta a pouco tempo, não faziam nem 24 horas que tinha acordado, com toda certeza Felipe reclamaria se ele forçasse demais o psicológico do 33º retornado.

O guarda então fez um movimento em direção à porta, ao tocar na maçaneta, disse:

— Uma última coisa, o senhor Felipe pediu para lhe avisar que sete pessoas aceitaram o seu convite…

— Quais? — André parecia curioso e ao mesmo tempo preocupado.

— Kawã, Leonardo, Elizabeth, Jonas, Eduardo, Anne e Lucas… — Respondeu o guarda abrindo a porta.

— Obrigado… — Foi a única resposta de André, mas pelo suspiro podia-se notar que ele temia o reencontro com os velhos companheiros de aventura.



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