Volume 1

Capítulo 19: Terceira Página do Diário

Terceira Página do Diário

Foi o melhor momento da minha vida, mesmo que eu não lembrasse de nada de antes de chegar, tinha certeza que nunca fui tão feliz quanto na noite em que beijei Zita, ela parecia estar feliz também. Como eu queria que aquele momento durasse para sempre.

Voltamos para onde Léo e as outras garotas estavam, mais alguns dos heróis já tinham chegado, Zita me apresentou todos os que ali estavam.

— Essas duas que chegaram comigo são Anne e Mirian, aquele do cabelo liso em forma de tigela é o Kawã, o desleixado é o Eduardo, e o gordinho é o Jonas.

— Eu não sou gordo! — Reclamou Jonas.

Por mais que ele insistisse que não era gordo, também não se podia dizer que era magro, e ele era o único que estava todo de branco, tornando-o a pessoa mais chamativa. Após alguns minutos chegou mais alguém que eu conhecia, era Lucas, ele vinha com outro garotinho da mesma altura mas de cabelos espetados. Zita disse que esse era Hugo, um dos mais fracos dos 32.

Estávamos todos conversando, eles me contavam com entusiasmo o que tinham aprendido, alguns até me mostravam os seus poderes. Lucas podia criar vento, Anne podia mover as coisas com o poder da mente, Mirian podia criar e controlar água, Jonas criava escudos invisíveis, Kawã pode copiar as habilidades dos animais, Eduardo podia controlar plantas, Hugo podia aumentar ou diminuir o peso dos objetos, e os poderes de Zita e Léo eu já conhecia.

Nossa conversa foi atrapalhada por um cavaleiro com uma linda armadura brilhante e capa azul celeste, o mesmo que foi com Zita à Toca dos Ratos, ele avisou a Zita que ela estava sendo chamada à conhecer alguém importante, ela me puxou pela mão e eu a segui.

Fomos em direção ao trono prateado, onde um homem velho e barbudo, usando uma coroa grande estava sentado, os convidados que entravam pelo portão principal vinham em direção a ele e fazia um saudação formal. Fiquei olhando aquilo, os homens punham a mão direita sobre o coração e baixavam a cabeça, enquanto as mulheres seguravam ambos os lados do vestidos e com um pé adiante do outro baixavam a cabeça.

O cavaleiro disse a Zita que ela deveria ir sozinha, nós dois ficaríamos a esperando, ela deu um belíssimo sorriso e saiu. Eu olhei para o cavaleiro, que tinha o rosto escondido por baixo do elmo, e me apresentei fazendo o mesmo cumprimento que os homens faziam para o rei.

— Eu sou André Lima, muito obrigado por me receber…

O cavaleiro respondeu o meu cumprimento com uma igual reverência.

— E eu sou o Cavaleiro de Prata, chefe da segurança do castelo e mestre da Senhorita Elizabeth.

O Cavaleiro de Prata parecia ser uma pessoa muito gentil, sua voz parecia ser suave mesmo que abafada pelo elmo, e mesmo que não pudesse ver, eu tinha certeza que ele sorria enquanto conversávamos.

— Ela vai demorar? — Perguntei

— Talvez um pouco — Ele respondeu — Quer conhecer o castelo enquanto ela está ocupada com seus deveres?

Eu estava muito curioso com tudo o que me cercava, então assenti com a cabeça, e saímos em direção à escada que dava para o andar superior, lá de cima o salão parecia ainda mais bonito, fiquei maravilhado, e segui o Cavaleiro de Prata por todos os lugares, entramos em um novo salão onde estavam vários outros cavaleiros enfileirados em ambos os lados do tapete vermelho que atravessava o local, eu segui marchando por entre as fileiras de soldados com armaduras até o meio do salão, era maravilhoso.

Virei para trás e vi o Cavaleiro de Prata subindo uma escadaria maior do que a do primeiro salão, fui segui-lo, mas senti alguém me puxar pela gola da camisa, me jogando no chão.

No primeiro momento fiquei confuso, mas senti o pé de alguém apoiar-se fortemente sobre a minha cabeça, eu tentei me levantar mas a pessoa era muito pesada, como meu rosto estava colado no chão, os meus gritos de súplica ficaram meio abafados.

Forcei minha cabeça para a frente e vi um par de pernas vestidas em uma calça branca se aproximarem, achei aquilo devia ser uma brincadeira de mal gosto, pedi mais uma vez que me soltassem, mas a única resposta foi uma risada de deboche.

Forcei mais um pouco a cabeça até conseguir ver o rosto de Jonas, que me olhava com superioridade e arrogância.

— Você não é bem vindo aqui… — Jonas proferiu lentamente, como se fosse o dono do castelo.

— A Zita me convidou! — Gritei.

— Mas eu estou te expulsando! — Rebateu Jonas.

— Você não pode fazer isso…

— Vocês sabem quais são as ordens… — Disse Jonas para os guardas que me seguravam, em seguida dando as costas e indo para a porta.

Um dos guardas me levantou, mas segurava minha cabeça, forçando-me a olhar para o chão, mas eu ainda conseguia ver a metade inferior do corpo de Jonas que saía lentamente, no momento em que ele ia saindo, Zita entrou desesperada pela mesma porta, derrubando-o com força.

— O que estão fazendo? — Gritou Zita — Ele tá comigo!

— Ele está sendo expulso do castelo! — Rebateu Jonas ainda no chão — Não se intrometa…

— Soltem ele! — Zita gritou para os guardas.

— Cale-se! — Retrucou Jonas — Eles estão sob minhas ordens e não suas…

Zita correu em minha direção, mas de repente uma parede translúcida apareceu em sua frente fazendo ela esbarrar, outras paredes apareceram no entorno formando um cubo translúcido, era o poder de Jonas, ele havia criado uma barreira de contenção para impedir que Zita pudesse me ajudar.

Eu estava com muito medo, olhava para Zita que esmurrava as paredes translúcidas com força, vi então quando o Cavaleiro de Prata desceu da escadaria se aproximou de onde Zita estava sendo mantida, ele falou algo baixinho de forma que apenas ela conseguisse ouvir, e em seguida a menina caiu sobre os joelhos e começou chorar.

Zita levantou os olhos para mim e gritou, apoiando as duas mão na parede da barreira de Jonas, ela lentamente invocou suas chamas, que começaram a encobrir a palma das mãos, os dedos, os braços, as mangas do vestido, as pernas e finalmente o corpo inteiro. Jonas ainda estava no chão apontando dois dedos para a barreira, ele era o único que eu conseguia ver totalmente, sua expressão era de desespero e cansaço.

— Solta ele… Solta ele… Solta ele… Solta ele… Solta ele… — Zita repetia constantemente.

Notei que os cabelos castanhos dela começaram a flutuar, eles foram ficando mais brilhantes, adquirindo um tom avermelhado, até se tornarem chamas, finalmente ela foi capaz de romper a barreira de Jonas.

Zita caminhou em minha direção, percebi que o guarda que me segurava começou a tremer, ele estava com medo dos poderes dela, o corpo da garota havia mudado de cor, estava acinzentado e recoberto de chamas, suas roupas viraram cinzas, seus cabelos viraram labaredas, seus olhos agora eram apenas duas bolinhas vermelhas brilhantes.

Jonas gritou para o Cavaleiro de Prata, que de alguma forma arremessou sua armadura em direção Zita, cada parte da armadura se acoplou ao corpo dela, prendendo-a dentro do amontoado de metal, era como se as partes da armadura tivessem vida própria e desejassem se alimentar da pobre garota, que inutilmente lutava para sair de dentro da prisão de lata brilhante.

Como a armadura era muito pesada, Zita caiu sobre os joelhos, enquanto isso eu já estava chorando de medo, não queria que nada de mal acontecesse com ela, e nem comigo. As chamas que Zita emitia aos poucos começaram a se dissipar, eu ainda podia ouvir o choro abafado dela dentro da armadura, notei inclusive que seu cabelo que pendia para fora do elmo não voltou ao castanho original, agora era vermelho.

Jonas se levantou e mandou que os guardas me retirassem dali, fui então arrastado para fora do castelo, mas não consegui ver o rosto do Cavaleiro de Prata. Eu estava desesperado, mas com muito ódio, então, antes que saíssemos do salão gritei para Jonas:

— Seu miserável! Eu vou te matar! Vou te fazer sofrer algo pior do que a morte! Você e esse maldito cavaleiro de Prata…

Fui amarrado e jogado dentro de uma carroça velha e fedorenta, os soldados que me acompanhavam não usavam elmo, eu pude ver seus rostos, e seus olhares de deboche.

Eu os odiava, queria tanto ter poder para mata-los… Queria poder salvar Zita…

Mas a vida tinha um plano,

E separou a gente…”



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