Volume 2

Capítulo 85: Dia Cheio

Após o encontro de Alaric com Zhi Fēng, uma semana transcorreu sem incidentes, trazendo uma tranquilidade bem-vinda à vida do jovem. Os ataques cessaram, permitindo-lhe concentrar-se nos afazeres domésticos, cuidando da casa e dos animais, enquanto ocasionalmente escapulia para a taverna em busca de descontração.

Durante esse período, ele ponderou cuidadosamente sobre todas as suas opções e sobre a proposta de Zhi Fēng, que, convenhamos, se alinhava bem com seus próprios planos de buscar poder. No entanto, ele não era ingênuo o suficiente para aceitar tal oferta de olhos fechados. A experiência lhe ensinara a desconfiar de contos de fadas e promessas tentadoras.

Falando em contos de fadas, Alaric estava deitado em sua ampla cama de casal, os primeiros raios de sol adentrando o quarto, embora isso não o incomodasse, pois já estava acordado, contemplando o anel em seu dedo.

Durante a semana, ele fez algumas descobertas intrigantes sobre aquela fada. Descobriu que ela não precisava se alimentar, embora o fizesse ocasionalmente, talvez por hábito. Quanto ao sono, era uma história diferente; ela dormia bastante. Além disso, ele percebeu que ela tinha a habilidade de mudar de forma à vontade, contanto que não ultrapassasse seu tamanho original, que era pequeno. Foi assim que ela se transformou em um anel, um fato que ainda o fascinava.

Absorto na beleza daquele adorno, que, convenhamos, era magnífico, ponderou sobre a origem de tal habilidade, chegando a um raciocínio talvez equivocado; mas, por pura especulação, imaginou que as fadas tenham desenvolvido tais habilidades para escapar daqueles que tentavam capturá-las, já que podiam se metamorfosear em folhas ou outros pequenos objetos da natureza.

Entretanto, no caso específico desta fada, sua transformação se deu por medo dos humanos desconhecidos e pelo cansaço. Tanto que durante toda a conversa com Zhi Fēng, ela permaneceu em silêncio, só recuperando a consciência depois que Alaric retornou para casa.

— O que será que você faz a mais? — indagou ele, enquanto ainda analisava o anel em seu dedo anelar. — Talvez eu deva perguntar a Xu Ying...

Ela era a única pessoa que Alaric sabia que poderia ter conhecimento sobre essas criaturas. Falando nela, ao longo da semana passada, ele a viu trabalhando na taverna algumas vezes, notando que ela parecia estar melhorando. No entanto, toda vez que seus olhares se encontravam, ela ficava inteiramente vermelha e desajeitada. Algo que Alaric se divertiu durante a semana, mesmo que meio sádico. Era engraçado ver suas reações.

"E quanto àquela garota...?" A garota em questão era Wei, aquela que Alaric conheceu na taverna e teve um belo encontro, levando-a para casa e... bom, melhor não especificar. Mas, continuando, ela saiu no outro dia sem dizer uma palavra; na verdade, Alaric nem a viu levantar da cama.

— Ficar remoendo isso não vai ajudar em nada... — Decidindo distrair a mente, Alaric levantou-se da cama e saiu do quarto. — Anthon! Vem cá, garoto!

O cachorro, que estava sentado no corredor, ouviu o chamado do dono e não hesitou em avançar vorazmente na direção de Alaric, derrubando-o no chão com um salto.

— Você não é mais um filhote, sabia? — Alaric tentou repreendê-lo, mas o animal atacou com língua sem piedade. — Pare com isso! Hahaha! Anthon!

Com algum esforço, Alaric conseguiu afastar o cachorro e se levantou, sentando-se no chão.

— O que seria da minha vida sem você... — Com um certo tom de melancolia, Alaric acariciou a cabeça do cachorro. — Lembra como te encontrei? Acho que não...

"Oh..." O anel no dedo de Alaric começou a brilhar, ele já sabia o que isso significava. E assim, aquele pedaço de metal transformou-se em um líquido viscoso, voando até a frente do rosto dele e tomando a forma de uma pequena fada.

— Olha quem finalmente acordou... — A fada ainda estava sonolenta, com os olhos inchados, coçando a cabeça desajeitadamente. — Já te disseram que você dorme demais?

Ela ergueu uma sobrancelha e mostrou a língua. Se ele fosse mais impulsivo, a fada teria sido esmagada como um mosquito na parede. Mas tudo o que ele fez foi suspirar desgostoso e levantar-se.

A fada olhou para trás e viu o cachorro sentado. Com um enorme sorriso, voou até ele para acariciá-lo. No primeiro dia em que Anthon a viu, tentou pegá-la e estraçalhá-la, mas acabou se acostumando e até gostando dela.

"Me diz, agora eu tenho uma fada de estimação?" Alaric observou-a brincando com o cachorro enquanto coçava os cabelos vermelhos, soltando mais alguns suspiros. Acabou que a fada nunca partiu, e praticamente tornou-se uma companheira do jovem. Não era algo que ele desejasse, mas acabou sendo praticamente forçado a aceitar.

Ela parecia ter lido a mente dele, pois voou até a frente de seu rosto, cruzando os braços. Em seguida, voltou o olhar para Anthon e começou a fazer alguns gestos estranhos.

— Se eu entendi direito, você quer que eu conte como o conheci? — Alaric ainda coçando os cabelos, quase fechou os olhos, não querendo contar, mas não teve jeito; a fadinha era insistente. — Tá, tá. Eu conto.

 

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Há dois anos atrás, eu já tinha sido aceito nesta vila. Na verdade, já vivia normalmente aqui há um ano, desde que fui encontrado por Peng. Era apenas mais uma noite em que eu tentava afogar meus problemas na bebida, buscando um breve esquecimento da vida.

Voltava para casa, como sempre, solitário. Lembro-me de ser uma noite fria e úmida, com a rua cheia de poças pelas quais meus pés afundavam, mesmo que eu tentasse evitá-las. Graças a isso, a única rua com alguma movimentação era a da taverna. Mas eu já estava longe daquela rua, bem longe. 

Os únicos sons que quebravam o silêncio eram os esplashes das poças sob meus passos e o canto dos grilos. No entanto, de repente, um novo som se uniu à sinfonia da penumbra: um grunhido estranho, parecido com um choro fino e trêmulo.

Intrigado, decidi seguir o som, aproveitando o silêncio quase sepulcral ao meu redor. Logo me vi diante de um beco que conhecia bem, onde me abrigara após tudo o que havia acontecido, encolhendo-me esperando a morte. Mas a vida, ou melhor, Peng, me encontrou. De qualquer forma, ali estava eu novamente, e foi ali que avistei dois pequenos olhos brilhantes.

“Será um animal?” pensei. Humanos comuns não têm olhos brilhantes na escuridão, apenas alguns animais. Isso me deu confiança para avançar.

Passo a passo, mantendo uma velocidade constante e baixa para não assustar o pobre animal, aproximei-me. Logo estava a uma distância que me permitia discernir o que quer que estivesse ali.

E então vi algo que fez meus olhos brilharem, acho. Era um pequeno cachorrinho, não devia ter mais de três meses de vida.

— Olha só, um pequeno garotinho... — Disse em uma vozinha suave, confortando o filhote que tremia. O tom funcionou, pois logo vi sua cauda abanar. — Está tudo bem, amiguinho, está tudo bem…

Abaixei-me cada vez mais, estendendo a mão até tocar o filhote. Senti a textura de seus pelos, arrepiados e molhados. O pobre cachorrinho estremeceu por inteiro ao ser tocado, mas não mostrou sinais de ameaça; estava provavelmente com muito medo para isso.

Aproveitando a oportunidade, levei a outra mão até ele e o agarrei com cuidado, para não deixá-lo estressado. Ele não resistiu e logo estava em meus braços. Querendo avaliar seu estado, sentei-me no chão, encostado na parede gelada, e o ergui, virando-o de um lado para o outro.

O que vi me enfureceu; a capacidade humana de causar o mal sempre me impressionava. O pobre cachorrinho tinha escoriações por todo o corpo, algumas marcas eram "naturais", causadas por outros animais, mas havia algumas que, apenas de olhar, pude reconhecer como feitas por malditas mãos humanas.

— Está tudo bem agora... — sussurrei, trazendo-o de volta para perto de mim, pressionando-o contra o meu peito enquanto acariciava seus pelos tão maltratados. — Está tudo bem... ninguém nunca mais vai te machucar...

Ele pareceu se sentir confortável, pois parou de tremer e relaxou, fechando os olhos que ficaram abertos por tanto tempo.

— Você precisa fazer uma carinha muito fofa... para aquele cara aceitar você em casa... — Continuei, sorrindo ao filhote. — Apesar de que ele é outro coração mole…

Naquela noite, tirei-o do beco e, de certa forma, como eu, ele renasceu. Embora eu não tenha deixado o passado para trás, não superei o que aconteceu. Depois que saímos dali, levei-o para a casa onde moro atualmente, e o outro o aceitou facilmente. Como eu disse, ele tinha um coração mole, e desde então Anthon tem um lar e comida garantida. 

 

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— Essa é a história de como o conheci... Espera, você está chorando?

A fadinha estava sentada na cabeça de Anthon, desabando em lágrimas. O relato da história a deixara abalada, porém mais fascinada pelo jovem.

Ela alçou voo e parou diante do rapaz, fazendo alguns gestos, ainda meio abatida e tremendo.

— Quer que eu conte sobre o antigo dono dessa casa? — Alaric balançou o dedo indicador em negação. — Não estou a fim.

Ela fez um bico com o lábio inferior, juntando as sobrancelhas, em total desagrado, com a careta emburrada. Ela queria ouvir mais, mas o jovem não estava disposto a contar, já havia falado demais.

— Vamos comer... — Alaric virou-se para ir para a cozinha, mas sentiu aqueles pequenos olhos queimando suas costas. — Ahh, se algum dia você conhecer Peng, peça para ele te contar, ele conhecia aquele cara melhor do que ninguém... Afinal, era o... deixa pra lá…

A fada continuou emburrada mas logo, o seguiu, Anthon não ficou para trás. Assim os três fizeram seu café da manhã. Após terminar, Alaric saiu de casa, deixando Anthon para trás.

 

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O jovem percorria a estrada de terra batida que ligava sua casa à vila, um trajeto não tão longo. Durante o dia, era confortável caminhar ali, entre as imponentes árvores orientais e os pequenos animais que buscavam comida. Porém, à noite, a densa floresta parecia opressiva sob a penumbra.

"Rancor... já faz uma semana..." O caminho para a vila passava pelo lado oposto ao chiqueiro, devido a um erro de construção que resultou na porta da cozinha e varanda voltadas para trás da casa, ocultando sua fachada. Mas, o mais importante era que esse trajeto, mesmo que diferente, evocava lembranças daquele dia.

O dia em que o Rancor apareceu, talvez apenas um delírio da mente perturbada de Alaric. Isso não importava; o que importava era que, após aquele incidente, ele não apareceu novamente. 

"Deve ser porque decidi seguir seus conselhos..." Talvez fosse isso, ou talvez não. Era difícil prever as próximas ações de uma alucinação.

"E essa espada..." Ele levou a mão até a bainha em sua lateral direita, ainda refletindo sobre o que aquela katana representava. Era uma lâmina mortal. Mas havia algo especial sobre ela? Era de se esperar que sim, afinal, todas as armas que Alaric havia visto marcadas na alma tinham alguma habilidade especial.

"Ainda há a questão do deus da morte... Apolo..." A senhora Ying havia mencionado naquele dia que os espíritos temiam o cheiro da morte, de um deus da morte. O que isso poderia significar? Era complicado dizer, mas, de qualquer forma, era apenas mais um problema para lidar. E havia também a questão do Apolo. O que teria acontecido com ele? Talvez o deus da morte e Apolo tivessem alguma ligação.

Balançando a cabeça, ele se concentrou na estrada à frente. Deixar-se levar por devaneios não era produtivo, nem indicativo; só serviam para dar dor de cabeça. Mas, enquanto caminhava, perdido em pensamentos, acabou chegando à entrada da vila sem perceber.

Ao olhar para o dedo anelar esquerdo, notou o anel prateado com a pequena joia verde. A fada já havia se metamorfoseado. Ele sorriu e esfregou o adorno com o dedo ao lado. Assim, seguiu em frente, passando pelo arco de boas-vindas da vila.

"Ywang... nem lembrava que esse era o nome..." Alaric não era muito de prestar atenção em nomes ou em qualquer coisa ao seu redor, exceto aquilo que representasse perigo, pois como um sexto sentido, ele notava.

Ao passar pelo arco de boas-vindas, Alaric notou a vivacidade da vila, com pessoas movimentando-se de um lado para o outro, algumas carregando carrinhos com materiais, alimentos e outros itens. Sorrisos estampavam os rostos de muitos, enquanto cumprimentavam o jovem com a habitual gentileza. Alaric, por sua vez, respondia com sua habitual frieza.

"Esses caras ainda estão por aqui?" O questionamento veio quando avistou alguns caçadores da instituição Van Helsing patrulhando. Não era surpresa que ainda estivessem na região. Durante a semana, Alaric ouvira diversas notícias sobre ataques vampíricos na região.

— Alaric! — O grito cortou o ar, chamando a atenção do jovem, que virou o rosto na direção do chamado e avistou Peng se aproximando. — Decidiu sair da toca durante o dia? Que milagre é esse?

— Só estava com vontade de dar uma volta... sem precisar me apoiar nas paredes... — respondeu ele. Era verdade; Alaric raramente deixava sua casa e, quando o fazia, geralmente era para beber até perder o equilíbrio e cambalear de volta para casa. — Mudando de assunto, essa vila está bem agitada hoje, não acha?

Peng, já próximo, não captou o comentário inicialmente, mas então olhou ao redor e compreendeu o motivo. Ele retornou o olhar mais cerrado para o jovem.

— Fiquei sabendo que os ataques estão cada vez mais frequentes... — Ele baixou a cabeça, cerrando os punhos em frustração. — E eu não posso fazer nada, tenho que ficar parado assistindo as pessoas morrerem…

Para alguém que se autodenominava "Retentor da Paz", não poder fazer nada além de assistir enquanto outros garantiam a paz e, ainda assim, as pessoas morriam, era algo muito pior do que meramente uma frustração. Era difícil expressar em palavras o que ele sentia. Isso até Alaric tocar seu ombro e encará-lo seriamente.

— Não se culpe. Não há nada que possamos fazer... Vamos deixar que os especialistas façam o trabalho deles.

— Você é péssimo em consolar alguém. — Soltando um riso contido, coçou a cabeça, ainda um pouco abatido, mas melhorando. — Mesmo assim, obrigado. Só é estranho te ver agir assim...

— O que quer dizer? — Alaric tirou a mão do ombro dele e a colocou no bolso, confuso com aquela afirmação.

— Não sei, mas tem algo diferente em você... Um ar diferente, talvez de alegria? Não, algo mais profundo, menos frieza, talvez... mas é algo a mais...

— Tsc... para de falar bobagem, Peng. — Alaric fez uma careta rabugenta e virou o rosto, um pouco envergonhado. 

"É isso? Ele está se tornando menos rancoroso?" Desde que conheceu o jovem naquele beco, sempre o viu com aquele olhar que, mesmo quando parecia feliz, continha faíscas de ódio, algo que remoía a cada segundo. Mas agora, olhando para o rosto pouco corado do rapaz, não conseguia enxergar aquelas faíscas, como se ele tivesse conseguido superar. Observar e notar isso aqueceu o coração daquele velho homem, que abriu um amplo sorriso, carregando muito mais do que satisfação, mas sim uma felicidade genuína.

— Por que está me olhando com essa cara de paisagem aí? — indagou Alaric, ao voltar o rosto para Peng e notar aquela expressão vidrada nele.

— Nada... nada... Err... bem, e sobre os ataques? Cessaram?

— Hm? Ah, sim. Já resolvi a questão, não há com o que se preocupar.

— Ainda bem... Alaric, soube que você atacou o armazém do Xiong... — Os olhos de Peng se estreitaram enquanto se mantinham fixos no jovem. — Você... Fez bem! Soube que foi para salvar a senhorita Ying.

Apesar de ter sido, no mínimo, imprudente, atacar o armazém de alguém tão poderoso como Xiong, Peng não conseguia ficar bravo. O que o jovem havia feito era algo que ele próprio deveria ter tentado fazer, e ele sabia disso. Como guarda daquela vila, sentia uma verdadeira vergonha, como se tivesse falhado no único dever que lhe fora confiado.

— Pensei que ia ficar bravo, vir me dar alguns sermões. — Alaric tirou uma das mãos do bolso e tocou o peito de Peng. — Normalmente é isso que você faz.

— Você já não é mais uma criança para que eu fique te dando sermões a cada segundo. Na verdade, nunca te dei sermões; eram apenas conselhos de um amigo. Além disso... — Ele abaixou a cabeça, entristecido com sua própria fraqueza. — Não posso ficar bravo quando você assume uma responsabilidade que deveria ser minha…

— De um jeito ou de outro, eu teria me envolvido e feito tudo. — Alaric levou a mão que tocava o peito de Peng até a bainha, acariciando-a. — Você sabe disso. Não fique se martirizando.

— É, eu sei... — No fundo, ele desejava ter o mínimo de coragem que Alaric continha. — Bom, deixando isso de lado, o que vai fazer? Vai ficar apenas zanzando por aí?

Alaric escutou a pergunta e ergueu a cabeça, observando os arredores. As pessoas continuavam a passar, seguindo suas vidas, com sorrisos nos rostos. Mas ele, em busca de algo para fazer, não encontrava nada.

— Sério que estava pensando em só vagar? — Peng arqueou uma sobrancelha, depois levou a mão ao rosto, exasperado. — Inacreditável...

— Vai continuar me julgando?

— Talvez... Quer saber, vou te dar algo para fazer... — Ele começou a andar passando por Alaric, e fez um gesto chamando-o com a mão. — Vamos, me siga!

Alaric suspirou fundo, já imaginando onde isso iria levá-lo, mas sem opções, seguiu Peng. E como previra, foi um dia pesado: carregou troncos de árvores, cortou lenha, ajudou em algumas plantações e até consertou casas. Se arrependimento matasse, Alaric já estaria morto em sua casa, de onde preferiria nunca ter saído.

Após um dia exaustivo como aquele, tudo que Alaric mais desejava era afogar o cansaço no líquido âmbar da velha e acolhedora taverna de Chen. Ele adentrou o estabelecimento e se dirigiu diretamente ao banco do balcão, sentindo o peso do dia nos ombros.

— Chen, por favor, me traga uma caneca... — Sua voz soava rouca, e cada músculo doído protestava com cada movimento.

Enquanto Alaric buscava alívio no álcool, Peng, já não se encontrava na companhia do jovem. Cansado também, mas diferente de Alaric, ele não era um frequentador de tavernas. Preferiu seguir para casa, onde poderia encontrar conforto no descanso merecido após um dia árduo. 

— Parece que o dia foi cheio mesmo — observou Chen, enquanto entregava uma caneca ao jovem.

— Peng vai me ouvir por isso... — Alaric murmurou enquanto pegava a caneca, sem hesitar, esvaziou seu conteúdo, batendo-a no balcão em seguida. — Exigir que eu carregue cinco troncos, cada um com mais de dez metros, sozinho, onde já se viu!

Um cliente com orelhas pontiagudas, provavelmente um elfo, deixou sua caneca vazia sobre o balcão. Chen agradeceu com um sorriso caloroso e a recolheu.

— Ter uma força como a sua tem seus contras... — Ele comentou, dirigindo-se à pia para lavar o recipiente. — Deve ser a maneira dele de te punir por agir sem pensar…

— Acho que não, ele parecia não se importar quando conversamos sobre isso mais cedo... — Alaric apoiou um braço sobre o balcão, visivelmente pensativo. — Mas nunca se sabe, aquele velho tem dessas às vezes...

— Como eu, ele se preocupa com o seu bem-estar.

Chen terminou de lavar a caneca e a colocou de volta no suporte. Antevendo que Alaric pediria mais uma dose, começou a encher outro recipiente.

— Vocês dois devem parar de achar que sou uma criança… 

— Bem, se eu realmente achasse que você é uma criança... — Ele colocou a caneca sobre o balcão e a empurrou na direção de Alaric, continuando num tom sarcástico: — Não deixaria você encher a cara aqui todos os dias…

Alaric grunhiu irritado com aquele tom e agarrou a caneca, levando-a aos lábios, entorpecendo o paladar com o gosto amargo. Absorto em seu próprio mundo, imerso no líquido âmbar, não percebeu a aproximação no banco ao lado.

Então, uma voz elegante, porém ameaçadora, que só poderia pertencer a um ser das trevas, ecoou:

— Alaric, quanto tempo, não é mesmo?



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