Volume 1

Capítulo 9: Novos Ares

— O que!? Como assim invadiram Reven!? — O Rei de Aldemere, Bartolomeu, estava incrédulo com as notícias.

Bartolomeu encontrava-se na imponente Sala do Trono do Reino de Aldemere Dominium. A grandiosidade começava na colossal porta esculpida em carvalho, seguida pelo extenso tapete vermelho que se estendia até o trono central. Pilastras meticulosamente adornadas ladeavam o caminho, e o chão de mármore branco, contrastava com o tapete, oferecendo uma atmosfera de requinte.

Estátuas dos deuses reverenciados em Aldemere estavam estrategicamente distribuídas pelo salão, cada uma contribuindo para a estética cuidadosamente planejada. No teto, desenhos e pinturas contavam a história orgulhosa do reino, revelando-se como uma tapeçaria celestial. Esta sala, verdadeiramente digna de um dos reinos mais opulentos do continente, era um testemunho visual da riqueza e do orgulho de Aldemere.

A frente do trono um homem aparentemente de meia idade, levantou sua cabeça, antes abaixada por respeito ao seu soberano, e falou:

— Meu rei, essas são as informações que chegam de lá.

— Como assim, Debth? Como conseguiram invadir umas das cidades mais bem protegidas do reino? Como!? — O Rei exaltou-se, gritava, enquanto batia o punho no trono, feito inteiramente de madeira de carvalho.

O local estava em um completo silêncio, ninguém presente ali tinha a mínima coragem de falar algo. O homem conhecido como Debth passava as mãos em seus ralos cabelos grisalhos, enquanto encarava o rei com seus olhos visivelmente cansados, graças a seu cargo no reino e toda a questão envolvendo a guerra recém-iniciada.

— Primeiro-ministro, Debth! 

— Sim, meu senhor? — Debth estava aflito com o que o Rei poderia dizer a seguir, apesar disso, mantinha a aparente calma perante seu rei. O primeiro-ministro era um astuto político, embora tremesse sutilmente em momentos de tensão, ele era um mestre em controlar suas próprias emoções.

— Você não era o responsável pela segurança daquela cidade!? — questionou o Rei nervoso, e continuou: — E não era você, que tinha dito que estava seguro!?

— Bem.. meu re-

— Responda Debth! Sem rodeios! —  O Rei deu mais um soco no trono enquanto falava. O monarca apesar de ser alguém mais importante que o primeiro-ministro, não sabia controlar suas emoções tão bem, as deixando escapar muitas vezes em forma de violência.

— Está bem, meu rei. O local era seguro sim, mas o que causou a invasão… Foram atitudes diretamente suas… Meu soberano.

— O que!? Você está culpando seu Rei!? — exclamou, furioso e indignado.

— Meu rei, foi ideia sua abrigar a rebelião Espinhard em Reven. — Debth mantinha a postura ereta, com as mãos entrelaçadas. Como um mestre da política, ele sabia as palavras que deveria dizer, sempre falando calmamente e com cuidado cada palavra. — Claro que sua intenção era clara, pois você é o senhor da sabedoria do nosso reino.

O rei após ouvir essas palavras soltou seu corpo, jogando suas costas no encosto do trono. Parecia pensativo, passava a mão por sua barba loira. Ao olhar novamente o primeiro-ministro com seus olhos castanhos, soltou uma risada.

— Então quer dizer que aqueles porcos de Re'Loyal, decidiram não se acovardar mais? — disse o rei um pouco mais calmo e ao que parecia confiante.

— Exato meu rei, invadiram Reven com o pretexto de abrigarmos os soldados da revolução.

— Cana-

Alguém abriu as portas de madeira de carvalho, interrompendo o rei.

— Meu pai! O que ouve!? — O Príncipe Darwin estava claramente nervoso, seus cabelos loiros voavam, enquanto ele caminhava firmemente até próximo ao rei. Seu manto branco real bordado com ouro, mexia-se sem parar.

— Meu príncipe, acalme-se. — Debth tentava tranquilizar o jovem príncipe.

— Silêncio, seu puxa saco — disse o príncipe com uma expressão séria. Seus olhos verdes se voltaram para seu pai. — Estou falando com ele.

— Sim, meu príncipe. — O primeiro-ministro abaixou a cabeça e deu alguns passos para trás, deixando o príncipe sozinho à frente de seu pai.

— Darwin! Não aja assim na corte! — O Rei estava irado novamente, graças a atitude petulante de Darwin.

— Não importa, só me diga o que ouve em Reven!? — Darwin estava angustiado e impaciente e, não conseguia se conter.

— O que tanto te interessa lá? — perguntou curioso.

O rei claramente ficou desconfiado. Contudo, relembrou-se de uma conversa com seu filho a alguns anos: "Pai! Deixe o escolhido em paz, ele é apenas uma bebê".

— Então é isso? — afirmou olhando para seu filho, e continuou: — O "Escolhido”.

— Exatamente, não que você iria se importar…

Hahaha! o que você tanto viu naquela criança? Se queria um filho, era só casar com a filha do rei de Lulunica. — debochava de seu filho.

Darwin já impaciente e estressado pela guerra e, maneira que seu pai estava agindo, perdeu toda sua compostura.

— Cale-se, seu velho desprezível!

Ao ouvir tais palavras, o rei ergueu-se do trono e avançou em direção ao seu filho, parando diante dele. Uma tensão pairava sobre todos ao redor, enquanto aguardavam o desdobramento incerto que se seguiria.

Um barulho seco ecoou pela sala do trono. Todos ficaram em choque com o que acabavam de ver: o Rei acabava de dar um tapa em seu filho. 

O príncipe caiu no chão após o golpe, seu manto antes branco, agora estava com manchas vermelhas de sangue.

O príncipe colocou a mão no rosto e com lágrimas nos olhos, apenas disse:

— Você irá pagar por isso, seu velho desprezível. — Em seu rosto a expressão do mais puro ódio e desprezo, em sua mente as formas mais horríveis de vingança.

O Rei olhou para seu filho no chão, proferindo palavras que para ele pouco importava. Olhou para um cavaleiro de cabelos negros e, armadura prateada que estava ajoelhado desde o início de tudo naquela sala, e ordenou:

— Leve-o daqui, antes que eu mate meu próprio filho. — O Rei falava sério, ele seria capaz de fazer tal ato, sem qualquer remorso.

— Como quiser, meu senhor. — O Cavaleiro se aproximou, olhando para o jovem príncipe em situação tão deplorável no chão.

Estendeu a mão a Darwin, que aceitou a ajuda e saiu com o cavaleiro da sala.

— Obrigado, Dion — disse o príncipe.

— Ao seu dispôr, meu senhor. — Dion começou a coçar seus grandes cabelos negros, angustiado.

Darwin começa a ir em direção para fora do castelo.

— Meu senhor — Dion decide chamar pelo príncipe, ele claramente tinha algo a dizer.

Darwin, ao escutar o cavalheiro falando algo, virou seus olhos verdes para trás e, deu a devida atenção.

— O senhor, realmente se importa com a criança? — perguntou o cavaleiro em dúvida sincera.

— Óbvio que sim, Dion. Você deveria ser o primeiro a saber disso, depois de todo ocorrido aquela vez — falou um pouco ressentido, com o questionamento de Dion.

Dion lembrou do ocorrido na favela, no nascimento de Gideon. Onde o mesmo tentava levar o bebê para a capital. 

— Meu senhor, se me permite. Eu gostaria de ajudar no que seja que o senhor tente fazer — falou o homem convicto.

O príncipe surpreendeu-se com as palavras do cavaleiro, ele era um renomado membro do reino e herdeiro de uma das famílias mais proeminentes. Contudo, ainda expressava seu desejo de auxiliar na empreitada.

— Tem certeza disso, Dion? — A expressão do príncipe ficou séria, colocou a mão sobre o ombro do cavaleiro. — Talvez faremos coisas que sejam consideradas traição ao reino.

O homem recuou um pouco e abaixou a cabeça, mas logo deu a resposta firmemente:

— Sim, meu senhor, eu já estou cansado de ver tanta injustiça nesse reino, e talvez poderemos mudar isso. Juntos daquele que se diz "Escolhido." — O cavaleiro estava determinado.

O príncipe ao ouvir aquelas palavras deu um leve sorriso, um homem que tinha tudo para ser arrogante e não se importar com os mais fracos. Era na realidade um ser com um coração enorme e grande senso de justiça.

Haha! meu amigo Dion, que surpresa. Iremos mudar o reino, eu te prometo em meu nome Darwin Stormgold. — O príncipe falou enquanto sorria e dava tapinhas no ombro do cavalheiro.

Os dois saíram do castelo formulando planos e idéias. 

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6 meses se passaram desde o ocorrido em Reven, mais ao norte do continente em um local frio, dois jovens voltavam para uma cabana. Levando o que aparentava ser lenha em suas mãos.

— Alaric! — Gideon olhou para seu irmão e levantou uma das sobrancelhas. — O que eu falei sobre a lenha?

Hummmmmm… Não pegar madeira aparentemente verde? — respondeu Alaric, em dúvida.

— E o que você tem em suas mãos, Alaric? 

— Eita! Madeira verde… 

Gideon ria, seu irmão era um matador a sangue frio, mas também era um idiota um pouco tapado.

— E pensar que estamos nesse reino gelado a 6 meses — divagou Gideon sorrindo, mas ao mesmo tempo aflito.

— É realmente, é difícil suportar a dama com ódio de frio ao meu lado. — Alaric riu e deu um tapa nas costas de Gideon.

— Ei! Você tá muito engraçadinho né? Mas quem não queria tomar banho e ficou uma semana sujo não foi eu… — ele falava isso dando risada e ironizando Alaric.

— Esquece isso aí Gi, mas bom, lembra de como chegamos até essa situação?

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6 meses atrás.

— Aonde estamos indo Astrid? — perguntou Gideon desconfiado.

— A mi-minha casa — respondeu envergonhada.

— Vá mais rápido então, o vovô não está nada bem, a sua magia de cura não funcionou tão bem — falou Alaric, preocupado com seu avô no colo.

Após o amargo gosto da derrota na Batalha de Riven, os quatro embarcaram em uma jornada em direção ao norte do continente. Astrid, em sua majestosa forma de dragão branco, levava o grupo com suas imponentes asas. Seus olhos, uma vez com apenas íris amarelas, agora exibiam um amarelo puro por inteiro, com a adição de uma pupila felina, destacando-se como uma fenda negra no centro dos olhos.

Astrid aplicou sua magia de cura em Dolbrian, mas, devido à necessidade de manter o foco no voo e sua magia de cura ser fraca, não conseguiu curá-lo por completo. Porém, o ferimento não foi profundo, então o ancião estava estável. A sensação de frio envolveu suas peles, enquanto observavam a neve caindo do céu.

Foi uma experiência inédita para Gideon e Alaric, uma vez que em Aldemere não era comum nevar. Ao avistarem uma cabana no meio da montanha, Astrid pousou, retornando à sua forma humana.

— Po-por aqui. — Astrid abriu a porta da cabana e os chamou para entrar.

Ao adentrarem a cabana, perceberam que era um local já abandonado, muito provavelmente. Poucos móveis preenchiam a cabana, apenas uma mesa de madeira com cinco cadeiras e uma lareira de canto,  acompanhada por alguns colchões feitos de palha seca. Não tinha qualquer tipo de iluminação e apenas uma janela.

— Você mora aqui sozinha? — perguntou Gideon, intrigado.

— Não Gideon, ela decidiu invadir uma casa aleatória — ironizou Alaric. — Agora para de falar e arruma aquele canto pra mim colocar o vô.

Alaric aponta para um dos colchões de palha. Gideon obedeceu e foi ajeitar o lugar. Após fazer isso, Alaric colocou Dolbrian ainda desacordado lá.

Em alguns instantes os dois jovens escutaram passos ao lado de fora da cabana.

— Perai. — Alaric franziu o olhar. — Você realmente invadiu uma casa aleatória!?

Após o choque inicial, como em uma memória muscular, disse:

— Espadas de luz, apareçam — as espadas logo já se formaram e começaram a rodar a sua volta.

Gideon não ficou para trás e pegou a espada conhecida como Escolion, ficando em guarda.

Os passos se aproximaram, ecoando junto à porta. Subitamente, o som se extinguiu e a maçaneta começou a girar. Em seguida, um homem adentrou pela porta recém-aberta.

Alaric e Gideon avançaram imediatamente em direção ao homem. Ao deparar-se com dois jovens desconhecidos, ele demonstrou surpresa, mas não hesitou, enfrentando as lâminas que se aproximavam de seu corpo.

— Não sei quem são vocês mas… Misriam, apareça! — após o mesmo dizer isso, um machado de lâmina dupla surgiu a partir do nada, o machado era simplesmente magnífico. Marcas rúnicas de poder serpenteadas eram gravadas ao longo de sua extensão, pulsando com uma suave luminescência quando ativado.

Alaric e Gideon não podiam mais parar, pois já estavam no ar em direção ao homem. Que de forma sutil, fez um movimento com o machado agora em sua mão, Esse leve movimento gerou uma massa de ar que voou em direção aos jovens, acertando-os e os arremessando de volta para trás.

Gideon colidiu com a parede, o fazendo perder a consciência por um tempo. Por outro lado, Alaric, antecipando a situação, adotou uma posição em "T", ordenando que duas de suas espadas ficassem por detrás de seus braços. Isso o faz frear em pleno ar e cair em posição de combate novamente. Graças à neve, sua queda havia sido amortecida.

"O que é esse cara? Ele nem se moveu e esse machado?" pensou Alaric se preparando para um novo movimento.

Alaric decidiu, por um instante, observar o homem, que não esboçava nenhuma reação. Então, Alaric arremessou uma de suas espadas nele, mas o homem a rebateu sem nenhuma dificuldade.

— Ei, garoto, já está desesperado? tacando suas espadas assim — falou o homem, caçoando de Alaric.

"Espera! Eram três espadas certo? Porque tem apenas uma ali?" se pergunta o homem intrigado ao observar Alaric.

— Desesperado? Não me faça rir — Alaric debochou do homem e, logo em seguida uma expressão de desafio surgiu em sua face. — Mas sabe, se eu fosse você… Eu prestaria atenção à volta.

Após escutar isso o homem rapidamente olhou a sua volta, mas já não dava tempo. Como um vulto, uma luz passava entre as árvores da área e vinha em sua direção, cortando tudo à sua frente e chegando a ele em milisegundos. O garoto tinha o enganado, o homem iria morrer ali.

Alaric comemorava a vitória quando sentiu uma leve brisa, algo passou ao seu lado muito rápido e entrou na frente da espada, à segurando. Era Astrid em uma forma híbrida Dragão/humana.

Na nova forma, Astrid permanecia na mesma estatura, porém seus cabelos prateados fluíam livremente, as íris amarelas dos olhos ampliavam-se, ocupando quase toda totalidade do globo ocular, imitando as características dos felinos. Sua pupila, por sua vez, transmutava-se, alterando sua forma de uma arredondada convencional para uma fenda. Um padrão escamado surgia próximo aos olhos e em partes de sua pele, enquanto duas asas brancas de dragão se projetavam majestosamente de suas costas. Suas unhas cresciam ligeiramente, representando um potencial considerável de causar danos. Nesse estado, Astrid experimentava um aumento significativo de força e resistência, quase alcançando os níveis de sua forma de dragão completa.

— Parem! — gritou ela séria, segurando a espada, mas nem suas escamas Dracônicas suportavam o calor emitido pela espada de luz.

Alaric ordenou que a espada recua-se, todas as espadas voltaram a girar a sua volta. Ele não entendeu o porquê da garota ter se posto em perigo.

— Ele são meus a-amigos, pai. — falou toda vermelha.

— Pai!? Esse brutamontes é seu pai? — Alaric estava surpreso com essa revelação, nunca imaginaria que aquele homem poderia ser pai de Astrid.

— Alaric… vencemos? — Gideon começava a recobrar a consciência e ficar em pé.

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