Volume 1

Capítulo 73: Deusa VS Dragão

Após a partida de Dorni, mesmo contra sua vontade e deixando seu mestre para trás, restaram apenas cinco deles entre as altas, porém espaçadas, árvores de uma floresta congelada.

Aldebaram estava afastado, recostado em uma árvore, enquanto Astrid segurava Gideon em seus braços à sua frente. Mais adiante, Alaric observava um corpo moribundo, despedindo-se da vida, o qual pertencia ao general Erne.

Estendido no chão, com um sangramento grave na barriga, Erne lutava para se manter consciente. Seus olhos buscaram Aldebaram.

— Você... é um verdadeiro giganoide... compreende os problemas do norte... — A voz de Erne era arrastada, entrecortada por suas respirações pesadas. — Então... confio esta informação a você... sobre o rei… 

O guerreiro agiu rapidamente, desencostando-se da árvore e avançando em direção ao general. Ao se aproximar, ergueu-o e o apoiou na árvore, agachando-se em sua frente.

— Fale, Erne. Estou ouvindo.

— Ele... ele planeja algo terrível... — Com a cabeça recostada na árvore e os olhos se fechando lentamente, Erne pronunciou suas últimas palavras: — Pretende cometer genocídio... Tolo... preconceito não se combate com violência… mas sim com educação...

— Erne? — Aldebaran tocou o ombro do general, tentando acordá-lo, mas não obteve resposta. — Erne! Maldição!

"Desculpe, Dorni, não poderei te educar. Que nossas crianças tenham acesso aos livros, para serem melhores do que eu, do que o meu rei e todos os que se consideram superiores..." Com essas últimas palavras em pensamento, o velho general se despediu da vida. Aquele que tanto lutou pelo povo morreu ao lado de supostos inimigos.

O guerreiro nunca teve uma relação próxima com o general; seus encontros sempre foram marcados por batalhas sangrentas. No entanto, ver o grande general Erne morrer em um lugar tão desolado o abalou.

— Acabou... — Sentiu a temperatura do corpo morto gradualmente diminuir, então virou-se para Alaric. — O que faremos? Genocídio... consigo imaginar as pretensões daquele rei.

Antes que o jovem pudesse responder, o corpo de Erne começou a emitir um brilho poderoso, caloroso. A luz emergiu de seu peito, elevando-se aos céus e assumindo a forma de Magnus, a lança que lhe pertencia. Alaric foi rápido em agarrá-la, impedindo-a de cair.

— A lança? — O jovem começou a experimentar uma sensação reconfortante; a mão que segurava a lança formigava levemente, e então a arma desapareceu de sua palma, como se tivesse sido absorvida por sua alma. — Acho que ela me escolheu…

Uma arma capaz de ser marcada na alma, a lança escolheu Alaric como seu novo portador, talvez por ser o primeiro a segurá-la após a morte do general.

— Talvez seja a esperança de Erne... — afirmou Aldebaram ao se levantar, enquanto observava o corpo inerte no chão. — Talvez ele esperava que ela te ajude a realizar...

— Você acha que ele queria que lutássemos contra o rei dele? 

O jovem estava confuso. Afinal, Erne lutara até o fim pelo seu rei, e agora estava sugerindo que lutassem contra ele? Era sem sentido, mas ao observar a expressão determinada do guerreiro, percebeu a vontade inabalável de alguém determinado a cumprir o pedido.

— Eu queria enfrentar Dalian direto, mas posso fazer isso primeiro…

Antes que Alaric pudesse se dirigir a Gideon para compartilhar os novos planos, uma pressão vinda do céu abalou a todos, fazendo com que virassem suas vistas em direção à fonte dessa força. Uma silhueta humanoide se destacava contra o céu, e todos puderam observar seu surgimento.

— Alaric! Ela é a...

Antes que Gideon pudesse terminar de falar, a silhueta aterrissou no chão sem cerimônia, levantando uma nuvem de poeira ao redor.

— Encontrei vocês! — Era Mani, seus olhos faiscavam com um desejo de vingança há muito alimentado. Ela viu a oportunidade em agir, pensando que os jovens estavam enfraquecidos, depois do que Bleu fez. — O primeiro alvo será seu irmão!

Ela avançou na direção de Gideon, suas duas espadas curvas já empunhadas naquelas mãos divinas. Seu primeiro golpe foi horizontal, e todos presentes arregalaram os olhos diante da cena. No entanto, para surpresa da deusa, o golpe não encontrou seu alvo. Em vez disso, foi interceptado por Astrid, cujo sangue de dragão pulsava em suas veias.

— Você não irá tocá-lo! — gritou com determinação, desferindo um chute na barriga de Mani, que foi arremessada para trás. Os olhos amarelados da dragonoide percorreram todos ali presentes. — Por favor, deixem-me cuidar dela!

Gideon sentiu-se desconcertado diante da situação, mas ao encontrar o olhar tão decidido de Astrid, não pôde negar seu pedido. 

Aldebaram e Alaric também não hesitaram em concordar. Com isso, Astrid abriu suas asas brancas como a neve, as unhas alongaram-se, transformando-se em garras afiadas, e suas pupilas se estreitaram em fendas verticais. Ela estava em sua forma híbrida. 

Sem esperar que a deusa se recuperasse, Astrid partiu em um rasante próximo ao solo. Quando Mani percebeu, a dragonoide já estava diante dela. Sem piedade, Astrid cravou suas garras nos ombros da divindade e, em uma mudança brusca de direção, a levou para o céu.

— Tire essas garras de mim! — Mesmo sentindo dor ao mover os braços com os ombros perfurados pelas unhas, ela desferiu um ataque com sua lâmina. No entanto, sua tentativa foi frustrada pelas asas de Astrid, que a protegeram. — Vou arrancar essas asas de você!

— Tente — debochou enquanto alcançava o céu mais alto. Sem piedade, usou as pontas de suas asas para perfurar as costas da deusa, envolvendo-a em uma espécie de casulo. — Você irá pagar por aquilo!

Ao sentir as pontas penetrando fundo em sua carne, a única reação de Mani foi debater-se, mas sem sucesso; os braços dela eram aprisionados pelas garras da garota, e seus movimentos restritos pelas asas. As opções de Mani estavam esgotadas.

Contudo seu dia parecia de sorte, ou melhor o fim dele, pois a lua já estava alçando o céu, substuindo o sol que tanto a enfraquecia.

Com um sorriso prepotente, Mani lançou as pernas contra o corpo da jovem e, em um impulso, se jogou para trás, escapando do casulo. Foi um movimento de grande custo; os ombros da deusa se rasgaram, e suas costas também teriam se rasgado, se Astrid não tivesse removido as asas no último instante.

— Agora vamos jogar esse jogo no meu território — disse Mani, girando as lâminas curvas nas mãos. Os ferimentos já começavam a regeneração.

A dragonoide rosnou e bufou, entrando em posição de batalha. As garras em suas mãos estavam manchadas de carmesim, com pedaços de pele ainda presos nas pontas.

Mani avançou velozmente, e a jovem teve apenas tempo para se defender de qualquer maneira com os antebraços, antes de ser lançada pelos céus.

— Droga… — Se firmando após o arremesso, ela tentava se preparar de novo, mas foi atacada mais uma vez sem ter tempo para se defender corretamente. — Argh…

— Tá fraquinha, garota… — Mani ainda se lembrava do último encontro entre elas, quando sentiu o frio do poder gélido de um dragão na forma de uma dragonoide. — Ainda assim as escamas de um dragão são difíceis de se ultrapassar…

Enquanto girava pelo céu, graças ao golpe que levara, Astrid começou a formar cinco pequenas estacas congeladas nas mãos e, em meio a um giro, as lançou em direção à deusa.

— Tá falando sério? — A divindade não teve dificuldade em quebrar cada uma das estacas com suas lâminas.

A garota parou de girar no ar e se firmou, o semblante em sua face era sombrio. E então, as mãos tão delicadas dela começaram a se avermelhar e a se azular, os poderes de dragão estavam sendo ativados.

Oh… vai usar os poderes que permeiam seu sangue? — A deusa se preparou; tudo indicava que viria uma rajada poderosa. 

Assim, Astrid desferiu um murro no ar com a mão avermelhada, e um vórtice de fogo seguiu em direção ao alvo. Ao mesmo tempo, pisou no ar, criando um caminho congelado que se estendia até Mani.

A deusa percebeu o vórtice de fogo, ciente de que ser atingida por ele causaria queimaduras graves. Com o tempo restante, saltou e virou de ponta cabeça para observar o fogo passar abaixo de si, lançando um olhar confiante à dragonoide.

— Não fique tão confiante... — falou Astrid num tom sarcástico, intrigando a deusa.

Entretanto, já era tarde. O caminho congelado passou sob os vórtices de fogo, sendo encoberto, até alcançar as costas de Mani, elevando-se em uma estaca que se esticou até ela.

— Merda! — Girando no limite, Mani cruzou às espadas, travando a estaca, que continuou a crescer e a empurrá-la na direção da dragonoide.

Astrid não esperou sua algoz se aproximar e avançou contra as costas da divindade. Seu punho azulado se congelou, criando uma ponta que sem pudor avançou em direção à inimiga.

Mais uma vez, Mani se via à beira da derrota, mas então desviou o olhar para a lua e percebeu como ela iluminava todo o local. A noite havia caído e, assim, seus poderes estavam no ápice.

Quando estava prestes a ser atingida por um golpe nas costas que a atravessaria, desapareceu. Astrid foi obrigada a desviar da própria estaca e ficou perdida, procurando por Mani. aqueles olhos amarelos dançavam pelo céu, buscando qualquer indício da divindade.

Então, sentiu a pressão do ar mudar atrás de si. Agindo sem nem ponderar, girou, e um tinir estridente ecoou.

Seus antebraços pararam o ataque da deusa, mas, ao contrário das outras vezes, dessa vez doeu. Astrid recuou assustada, mas logo contra-atacou. No entanto, quando estava prestes a acertar Mani, ela desapareceu novamente.

Mais uma vez, sentiu a pressão do ar mudar atrás de si e teve que girar para se defender de punhos cruzados. Ao tentar retalhar com um chute, a deusa desapareceu.

E assim foi, repetidamente. Atrás, ao lado, do outro lado, Mani fez o mesmo movimento dezenas de vezes, e aos poucos as escamas dos antebraços de Astrid começaram a rachar, a ser ultrapassadas. Sua respiração estava pesada, descontrolada.

— Já está cansada? — Mani apareceu à sua frente, com um tom de deboche. — Desista...

— Nunca! — Sem pensar, avançou com o punho armado na direção de Mani, com todo o ódio que guardava. No entanto, ao ter aquela cara arrogante a milímetros de seu punho, com um sorriso, ela desapareceu. — Tsc... que saco!

A dragonoide acertou o nada, já cansada e prestes a ser ferida de verdade. Com poucas opções restantes, começou a girar no ar, as mãos irradiando poder, soltavam fogo e gelo pelo ambiente. O ar ao redor dela tremulava.

Quando Mani reapareceu, pronta para atacar novamente, foi recebida por um turbilhão elemental poderoso. Sentiu o calor escaldante e o frio mortal ao mesmo tempo, sendo repelida pelo vórtice criado por Astrid. 

A jovem havia tecido uma barreira impenetrável ao seu redor. Mesmo Mani, com sua habilidade de teleportar-se, não podia arriscar entrar ali, pois enfrentaria queimaduras graves ou hipotermia instantânea. 

— Até que você é esperta... — Mani observou as folhas das árvores murchando e algumas até congelando ao seu redor, e elas estavam a quilômetros de altura. O poder de Astrid estava envolvendo todo o ambiente sem restrições. — E poderosa…

— Você irá sofrer! — A jovem estava no epicentro do furacão, envolta pela violenta dança dos elementos. Astrid concentrou sua energia, fazendo um tentáculo flamejante emergir da lateral do vórtice. Com precisão e fúria, como se fosse um chicote de fogo, desferiu um ataque, mirando acertar a deusa. No entanto, esta desapareceu em um piscar de olhos, esquivando-se. — Este poder…

—-----------------//—-----------------

Observando o embate no chão estavam os três: Alaric, Gideon e Aldebaram. Estavam impressionados com a demonstração de poder de Astrid.

— Que chamas magníficas... — Os olhos de Gideon brilhavam ao refletir as chamas do vórtice. — E o gelo é tão cristalino...

— Pare de babar, Gideon — repreendeu Alaric, notando as plantas ao redor murchando e a temperatura aumentando. — Vamos encontrar um lugar mais seguro para continuar assistindo.

Gideon concordou, e os dois começaram a sair, mas Alaric percebeu que Aldebaram não se movia. Ao olhar para o seu rosto, notou seus olhos vidrados, brilhando de orgulho.

— Vamos, Aldebaram — chamou Alaric, tocando o ombro do guerreiro.

Ao receber o toque, ele saiu do transe em que se encontrava e desviou sua atenção para o jovem, sorrindo sem jeito.

— Desculpe, é que nunca a vi soltar-se assim…

No fim, os três foram procurar um lugar mais seguro para assistir o embate. 

—-----------------//—-----------------

Ao perceber que a deusa estava se movendo, desaparecendo e reaparecendo ao redor dela, se concentrou. Mani de repente, viu um tentáculo, transformando-se em dezenas de apêndices que se estendiam de cada canto. 

Tsc... — Suas opções eram tentar desviar ou se teleportar para longe. No entanto, uma terceira alternativa surgiu, provocando um sorriso prepotente em seu rosto.

Quando um dos tentáculos avançou na direção dela, com energia suficiente para queimá-la por completo, Mani reagiu instantaneamente. Se impulsionou para cima no último momento, permitindo que o tentáculo roçasse suas pernas enquanto executava um mortal no ar, ficando de cabeça para baixo.

A expressão confiante dela foi tudo o que Astrid pôde ver antes de suas duas espadas curvadas se chocarem, emitindo um som metálico que ressoou até os ouvidos da jovem. Ela mal teve tempo de proteger os ouvidos antes de sentir uma explosão abrupta atrás de si. Com isso, foi lançada sem qualquer pudor para frente, sendo expulsa da proteção de seu vórtice.

O vórtice começou a desmoronar, os giros diminuindo enquanto a temperatura voltava ao normal. Até que, como se nunca tivesse existido, desapareceu da vista de todos, deixando apenas às marcas na floresta.

— Te peguei! — Observando a jovem voando sem rumo ou qualquer controle no ar, a deusa se teleportou à frente dela. — Acabou para você.

As asas da dragão bateram com vigor, tentando controlar a trajetória da garota. A deusa, sem piedade, elevou uma das lâminas e, sem qualquer hesitação, desceu-a como uma carrasca implacável. 

A lâmina se tornou apenas um borrão devido à força aplicada, pronta para partir as escamas de dragão fragilizadas.

“Não...” As pupilas de Astrid se dilataram enquanto ela se aproximava do inevitável fim. Ela jogou os braços à frente do corpo, sabendo instintivamente que não aguentariam outro golpe. Quando a lâmina tocou sua pele, seus olhos mudaram; as íris se expandiram e as pupilas, já estreitas, tornaram-se quase imperceptíveis.

— Merda! — Ao ver aquilo em sua frente, Mani desistiu do ataque e recuou.

A jovem dragonoide substituiu aquela silhueta pequena do corpo humano para uma forma majestosa. Às asas se abriram em todo o seu resplendor, o tamanho aumentou mais de cem vezes, e a pele humana deu lugar a escamas brancas como a neve. Astrid havia se transformado em um dragão.

— Vamos pôr um fim nisso — declarou com uma voz grave quase gutural e poderosa, capaz de fazer qualquer ser tremer ao ouvi-la, uma voz muito diferente da gentil e carinhosa Astrid em sua forma humana. — Mani!

Sem esperar pelas respostas da inimiga, avançou, suas asas batiam gerando verdadeiros vendavais ao seu redor. Seus olhos tinham apenas um alvo, que se aproximava cada vez mais rápido.

No entanto, como era de se esperar, o alvo, vulgo Mani, se teleportou rapidamente, reaparecendo por cima da garota. Em um mortal, que gerou potência, Mani usou seu calcanhar e, sem piedade, acertou em cheio o meio do corpo daquele dragão.

O enorme corpo se dobrou ao meio, algumas costelas quebraram, e assim não pôde se manter no ar, cedendo à gravidade enquanto seu corpo ia em direção ao solo, sem qualquer proteção ou preparação.

— Você perdeu… — afirmou Mani, num tom tão arrogante quanto ela poderia proporcionar, elevando seus olhos ao alto. — Ah, droga...

No entanto, enquanto se vangloriava, perdendo a atenção, Astrid viu uma oportunidade. Em meio à sua queda iminente, virou seu corpo para ficar de barriga para cima, encarando a deusa.

Inspirou todo o ar que pôde, enchendo seus pulmões. Jogou a cabeça para trás e, ao encher as bochechas, sentiu o calor percorrer pela garganta, chegando à boca e escapando em forma de fogo puro, tão quente que fazia ondulações no ar ao seu redor.

Quando a deusa finalmente decidiu averiguar a algoz, deparou-se com aquela rajada de fogo vindo em sua direção, tão rápida quanto ela podia se teleportar. E assim, sem qualquer defesa, tomou o ataque em cheio.

De início, o calor veio, e em seguida, a dor lancinante, como chamas vorazes devorando tudo em seu caminho, queimando, ardendo, ferindo a pele divina de Mani. O rugido do fogo ecoava pelos céus, acompanhado pelo grito de agonia da deusa, enquanto suas vestes celestiais se desfaziam em cinzas ao redor dela.

Ao fim do ataque, Astrid fechou a boca, cessando a torrente de fogo. A deusa despencou do céu, seu corpo agora coberto por uma coloração vermelha intensa, bolhas de calor se espalhavam por todo lado, a pele só existia porque a resistência divina permitia isso.

— Eu venci — Com toda a convicção que habitava em seu ser, a dragonoide Astrid afirmou, erguendo-se com orgulho e vangloriando-se de sua vitória.



Comentários