Volume 1

Capítulo 32: Catacumbas

— Recuar!! — ordenou Erne, pois a chuva de flechas teria início.

Sob a liderança de Erne a cavalo, os soldados de Estudenfel recuaram rapidamente, buscando abrigo. Ao atingirem a zona segura atrás do general, uma saraivada de flechas foi lançada, subindo 50 metros e curvando-se pela gravidade em direção aos soldados de Windefel, que fugiam desesperadamente. 

Os fugitivos ouviram o som inconfundível das flechas cortando o ar. Os poucos corajosos que olharam para trás, se depararam com o sorriso cruel de Erne e seus homens. Ao erguerem seus olhares, depararam-se com a nuvem negra formada por centenas de flechas, prontas para dilacerar seus corpos e encerrar suas vidas implacavelmente.

O homem, enquanto olhava para o céu obscurecido pelas flechas, murmurava mentalmente: "Que Tyr me proteja." Mas seu murmuro a nenhuma divindade chegou… Uma pontada aguda atingiu seu olho esquerdo, marcando-o como a primeira vítima. A flecha atravessou seu globo ocular, rompeu os ossos, craniano e, por fim, trespassou o cérebro, emergindo implacavelmente na nuca. O corpo tombou, tornando-se uma sombra na turbulência da batalha. 

O primeiro a sucumbir às cruéis e letais flechas foi acompanhado por outros companheiros, atingidos em peitos, costas, braços, pernas e cabeças. Seus corpos não escaparam da dilaceração, provocada pelos metais afiados nas pontas das flechas.

Corpos e mais corpos jaziam nas pequenas planícies que antecediam a cidade. Aqueles que ainda permaneciam vivos após a queda abrigavam a esperança de serem resgatados, enquanto o cenário testemunhava a desolação provocada pela batalha implacável.

Esperanças extinguiram-se sob as palavras de Erne. — Avancem! — ordenou ele, instigando seus homens a perfurarem impiedosamente todos os corpos caídos.

Uma medida cruel, porém comum em tempos de guerra, dado que muitos homens fingiam-se de mortos ao lado de seus companheiros. Isso permitia que, uma vez que o exército inimigo deixasse o local, pudessem ser resgatados e retomar a luta.

Erne, o general cruel, apelido merecido ou não, ganhou essa reputação por não permitir nem que os corpos inanimados no chão encontrassem paz. Um homem que não demonstrava respeito pelos cadáveres, pois fora ensinado a não respeitar.

Os poucos sobreviventes do inferno, adentraram apressadamente as muralhas da cidade, baixando o portão na esperança de encontrar segurança.

— O que foi isso!? — questionava o comandante tolo, que deu a ordem para avançarem. — Maldito, Erne.

— Pelo menos, estamos seguros aqui. — afirmou, o soldado ao seu lado, respirando descompassadamente.

Uma afirmação que logo se provou incorreta, pois Anelise já estava no lado oeste da muralha com os magos destrutivos. Graças à cruel distração proporcionada por Erne, este lado encontrava-se vazio, reinando o silêncio pleno.

A serenidade foi abruptamente interrompida pelo estridente som das bolas de fogo, atingindo o concreto, seguido por tremores que assemelhavam-se a terremotos.

— O que foi isso!? — exclamou o comandante de olhos arregalados, ao escutar os sons ressoados e sentir o chão abaixo de seus pés tremer.

— Estão atacando o lado oeste!! — alertou um soldado que vinha daquela direção.

— Como!? — O inferno estava longe de acabar, na realidade, havia acabado de começar.

O inconfundível cheiro de fumaça pairava no ar, revelando o fogo que devorava tudo. Além disso, o aroma de terra molhada indicava que, além do fogo, água e terra também eram utilizadas pelos magos.

— Rápido! Trocar formação! — Anelise comandava suas tropas com habilidade, organizando uma formação que permitia aos lançadores de magia descansarem e recuperarem mana, enquanto aqueles posicionados logo atrás assumiam a dianteira, iniciando o ataque.

Os magos especializados em terra lançavam projéteis maciços provenientes da terra compactada. Os magos de fogo arremessavam bolas de fogo por cima das muralhas para dispersar qualquer resistência, enquanto os magos de água, com uma pressão tão intensa e contínua, perfuravam o concreto e, aqueles com especificações mais específicas, faziam o necessário para ajudar.

— Senhora, a muralha logo cederá. — observou um soldado ao lado de Anelise.

— Ótimo. — Notando a falta de gritos e berros, afirmou: — Precisamos ir rápido, Erne já encerrou a distração.

Erne adentrava a floresta congelada com seus homens, aproveitando a cobertura que ela proporcionava para mover-se sem ser detectado pelos inimigos. Direcionavam-se para o lado oeste, reconhecendo que não havia mais nada a ser feito pela frente.

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— Rei! 

— Fale logo! — Sian ordenou, já menos calmo, após sentir os tremores que abalavam até o castelo.

— Sim, senhor. — Uma expressão desesperançada tomou seu rosto, o que aumentou a ansiedade do rei. — Eles estão prestes a derrubar o muro oeste. 

Palavras que o rei não desejava ouvir nem nos piores sonhos, pois significavam que seu reino aproximava-se da queda iminente.

Um reino que resistiu por séculos diante das adversidades agora encarava o abismo, este o encarando de volta. O rei não podia permitir-se abalar, apesar das estruturas tremendo com os abalos. Deveria permanecer firme como uma rocha maciça, mas como uma rocha, o rei ainda podia quebrar-se, bastava atingi-lo com vigor.

— Marido…. — Seraphina agarrou a mão de Sian, com firmeza, mas não era por receio, medo ou terror. Não, era para acalentar aquele velho homem que estava passando por muito. — Faça o que é melhor para o reino.

O rei a fitou, logo depois, seu olhar percorreu todos os presentes na corte. Então, baixou os olhos em direção ao chão e sorriu, um sorriso irônico, talvez triste, talvez feliz…

— Eu farei.

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O muro cedeu, sucumbindo à chuva incessante de ataques, e os soldados de Estudenfel invadiram em massa, prontos para aniquilar os soldados de Windefel restantes. No entanto, um jovem soldado aproximou-se de Erne. 

— Não chegue pe- — Dorni foi interrompido por Erne, que colocou a mão a sua frente.

— Vejo que tem algo em mãos, jovem. — pontuou Erne, ao notar uma carta nas mãos do jovem.

— Meu rei, mandou enviar. — O jovem falou com uma tranquilidade assustadora, como se não houvesse centenas de soldados inimigos à sua frente.

Erne esticou a mão e pegou a carta, permitindo ao jovem correr de volta para o centro da cidade. Ao abrir e examinar a carta, notou o selo real. Bem, era uma mensagem direta do rei, o selo atestava isso.

“Caro Erne, por meio desta carta, eu declaro minha rendição.” — No final, covardes sempre serão covardes. — falou Erne, ao ler a primeira parte da carta.

“Mas, por meio dela, também declaro minha promessa de retomada. Isso serve como aviso, advertência e ameaça. Por enquanto, gostaria de te dizer que…”

— O que!? — Todos intrigaram-se com essa reação exagerada de Erne, o velho general raramente demonstrava surpresa.

— O que foi, mestre?

— Sem tempo para explicar, Dorni. — Ele olhou para todos os soldados. — Como sabem, o rei quer a morte de todos os soldados. Então, capturem os que se renderem e mate aqueles que resistirem. — Fitou Anelise, que estava perplexa com aquela reação de Erne. — Vou deixar em tuas mãos, esta tarefa. — Voltou a olhar para os soldados. — Preciso apenas de 10 homens, para adentrarmos o castelo.

Com tudo já dito, Erne, Dorni e mais 10 homens seguiram para o castelo. Ao entrarem, depararam-se com apenas um espaço vazio, ainda com todos os móveis e pertences, como se tivesse sido abandonado às pressas. E, realmente foi.

— Mestre, o que viemos procurar aqui? — questionou Dorni, afinal, não tinha mais nada de realmente importante lá.

— Você entenderá. Homens! Vamos descer às catacumbas do castelo.

A profundidade do local era imensa, alcançado por uma escadaria monumental com degraus incontáveis. Levaram cerca de 3 minutos, com passos largos, para chegar até lá.

Ao atingirem o destino, um arrepio percorreu todos, enquanto um frio peculiar se instalava. A iluminação provinha das tochas nas paredes, e os pingos de água ecoavam, criando um autêntico cenário de terror.

— Porque tem uma catacumba, embaixo do castelo? — questionou o soldado atrás de Dorni, enquanto pisava com cuidado e delicadeza.

— Não percam o foco! Vamos! — exclamou Erne, que diferente de seus homens medrosos, seguia a passos firmes e decididos.

Nichos escavados nas paredes abrigavam ossos empilhados e restos mortais, testemunhando a função sepulcral das catacumbas. Inscrições antigas e desgastadas podiam ser vistas em algumas áreas, evocando um passado misterioso e esquecido.

À medida que avançavam, os exploradores podiam se deparar com câmaras funerárias mais espaçosas, algumas adornadas com restos de pinturas murais ou símbolos religiosos desbotados. Em certas áreas, o silêncio era quebrado por murmúrios distantes.

— Escutou isso!? — Um soldado atrás de Dorni, indagou ao ouvir o leve murmúrio. 

— E-eu ouvi — confirmou outro soldado que encolheu-se ainda mais.

— Parem de ser covardes! — exclamou Erne, observando seus homens parecem gatinhos assustados.

Ao aproximarem-se de uma porta de aço, sentiram um calafrio estridente, ao qual suas almas apenas ressoaram em sincronia expressando uma única vontade.

— Vamos embora!

— Já chegamos aqui! — gritou ao passo que abria a porta e os murmúrios passaram a virarem agudos e altos…. Até que: — Meus deuses!!

Ao contemplarem o que havia atrás da porta, surpreenderam-se. 

— Crianças? — Meio sem compreender, Dorni questionou.

"Por enquanto, gostaria de te dizer que compreendo o motivo de suas revoltas, eu faria o mesmo se fosse vocês, talvez não do jeito que fazem. Mas, mesmo assim... Posso dizer que tentei mudar o pensamento coletivo do meu reino, promovi festivais celebrando a cor de pele azul, que foram pouco aceitos, criei dias para estudos focados em nossa cultura antiga, a cultura gigante, mas os livros que um dia continham tais informações desapareceram, como se alguém muito poderoso os tivesse queimado às escondidas.”

“No final, o povo ainda tem um preconceito enraizado e cultural. Mas, posso dizer que algo eu fiz. Abaixo do meu castelo, ao fim das catacumbas, lá reside minha prova de que luto pela causa dos giganoides azuis, crianças que seriam desprezadas, odiadas e pouco aceitas. Ali vivem... O povo nunca entendeu o motivo dos alimentos pelos quais tanto lutamos para obter desaparecerem.” 

“Bom, é porque as crianças nas catacumbas são bem alimentadas. Eu sei, é cruel mantê-las aí sem ver a luz do sol, mas foi o que este rei tolo pôde fazer. Quando atingissem a maioridade, seriam levadas até a fronteira com Estudenfel, e assim poderiam viver onde seriam bem tratadas e aceitas.”

“Esta é minha carta de rendição, grande, né? Hahaha! Fiquei inspirado. Erne, você é um grande homem e símbolo de resistência. Te respeito tanto quanto respeito Aldebaram. Entretanto, agora somos inimigos... Até mais, Erne. Nos vemos em campo de batalha.”

— Eu o respeito, Sian, rei de Windefel. — Uma fala com apreço e admiração. Algo que Erne, demonstrava apenas aqueles que achava digno.

O rei Sian, tentou mudar o reino, tentou transformar as mentes das pessoas, mas falhou. É normal, as pessoas falham, mas o simples fato de tentar algo despertou o respeito de Erne. Era algo que ele nunca iria esquecer.

— Não fiquem olhando com cara de idiotas, ajudem as crianças, e quero que um vá e avise a general Anelise, sobre isso. — Erne pegou a carta, entregou na mão de um jovem. — Escute com atenção, leve isto até nossa majestade. — Pegou no ombro do rapaz. — E, lembre-se, em hipótese alguma a leia, ou permita a leitura de alguém. — Deu uns tapinhas em seu ombro. — Confio que você irá a proteger com sua vida.

— Sim, senhor! — Após as palavras de confiança, esse jovem daria a vida por este pedaço de papel, esse era o poder que Erne tinha sobre seus homens.

Rapidamente, mais soldados chegaram e começaram a levar as crianças para fora. Todos estavam bem fisicamente e bem alimentados. Muitas delas expressavam como o rei Sian as protegia e brincava com elas. 

“Mas os livros que um dia continham tais informações desapareceram como se alguém muito poderoso os tivesse queimado às escondidas.” palavras da carta de Sian, que vagavam pela mente de Erne. 

— Dorni. — Olhou para o jovem ao seu lado. — Lembra que te falei sobre privarem nosso povo da educação?

— Sim, senhor, lembro plenamente.

— Essas crianças não serão privadas, nem o povo desta cidade. — Apontou para uma mulher soldado que estava próxima. — Você. — A garota levou um leve susto ao ver o general apontando assim para ela. — Não precisa assustar-se, apenas tenho uma tarefa para você.

— Sim, general, o que deseja?

— Desejo, que vá até Estudenfel, junto ao outro jovem que mandei agora pouco. — Olhou para Dorni, voltou seu olhar para ela. — E, fale com Viki. Diga para ele, que pedi para fazer cópias dos nossos livros de história.

— Mestre, para que? — perguntou Dorni, não compreendendo o motivo, de as energias serem gastadas nisto.

Mas Erne tinha convicções e ideais firmes em mente, e um deles era que a educação deveria ser para todos. Todos deveriam ter o direito de aprender, independentemente de sua condição social. Por isso, ele estava determinado a…

— Eu vou ensinar ao povo deste país, a história que os antecederam. 

Palavras que deixaram todos pasmos, o homem considerado cruel estava disposto a ajudar o povo que havia conquistado. Aquele que diziam não ter piedade estava determinado a ensinar a todos aqui.

Erne sempre teve um objetivo claro: desfazer o desprezo pelos giganoides de pele azul, acreditando que a falta de conhecimento sobre sua própria história, era a raiz desse preconceito estrutural. Ensinando, ele buscava diminuir essa barreira.

— Eu vou mudar a mente deles.

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