Volume 1

Capítulo 27: Guerra Pré-Inicio

Ao lado externo da cabana, em meio às montanhas congeladas do norte, um agrupamento de centenas de soldados pertencentes a Estudenfel aproximava-se, seus passos ressoavam por toda área, em uma sinfonia militar. Todos eram liderados por um único homem a cavalo, provavelmente um nobre de grande importância.

O homem, guiando seu cavalo, incitou:

— Estamos próximos da cabana do nosso alvo, fiquem atentos!

Um jovem de cabelos pretos curtos, ao seu lado aproximou-se a pé, já que o nobre era o único com uma montaria.

— Senhor. — Olhou para o homem a cavalo. — Era realmente necessário todo um regimento para enfrentarmos um único homem?

— Dorni, meu aprendiz… Aquele homem não é qualquer um....

— Senhor Erne, como assim?

Erne cerrou os olhos, uma expressão séria tomou seu rosto.

— Aldebaram é um guerreiro muito poderoso, dizem ser capaz de destruir um exército inteiro sozinho. — Contemplando o céu limpo e azul, suspirou. — Ahh, talvez estes homens não sejam suficientes...

Tais afirmações assustaram o jovem rapaz. Um homem capaz de destruir um exército de centenas de homens parecia ser apenas um exagero mal contado, mas para seu senhor e mentor, demonstrar tanta preocupação, talvez indicasse que as histórias fossem verdadeiras.

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Enquanto isso, na cabana, Aldebaram ainda mantinha-se à frente da porta, impedindo a entrada e saída de qualquer um. Ao avistar o destacamento se aproximando, reconheceu rapidamente a bandeira azul de Estudenfel com um gigante em preto desenhado.

— Como assim exército, Aldebaram!?

Dolbrian, que havia pedido ao guerreiro para buscar água um pouco antes, assustou-se com as notícias desesperadoras.

— Você entendeu, velho. O exército de Estudenfel vem em nossa direção. — respondeu Aldebaram, menos piadista que o comum.

Dolbrian não ficou contente ao ser chamado de velho, mas ao notar o comportamento menos descontraído de Aldebaram, decidiu não pontuar o descontentamento.

— P-pai, o que va-vamos fazer!? — Astrid, cada vez mais desesperada, questionava seu pai, esperando uma alternativa segura.

— Eu… — Aldebaram, sempre com soluções, ao ver sua filha nessa situação desesperadora, apenas olhou para baixo, com uma expressão desolada. — Eu… não sei.

Todos ficaram atônitos, tentando pensar em uma forma de se safar, mas nada vinha à mente.

— Vamos… Lutar? — questionou Gideon, já aflito.

— Temos outra alternativa? — perguntou Aldebaram, já sabendo a resposta e, então continuou: — Mesmo assim, vamos nos manter aqui dentro, até o último caso.

— Aldebaram, você mesmo sabe que as paredes daqui estão caindo. — Dolbrian começou a coçar a cabeça. — Acho que apenas ficar na frente da porta não vai adiantar.

Antes de qualquer outra resposta, uma voz ao lado de fora anunciou:

— Aldebaram Sternberg, por ordem da capital real de Estudenfel — falava o homem a cavalo, enquanto lia um papel em suas mãos — Viemos em sua captura, pois você representa um perigo iminente ao nosso reino em rápida ascensão.

— Senhor Erne, acha que ele irá se render… Tão facilmente?

Hahah! você é engraçado, pupilo. — Limpando as lágrimas de seus olhos, abriu um enorme sorriso e orgulhoso proferiu: — Ele é um dos únicos, nesse mar de modernistas, que ainda respeita seu sangue gigante.

— E o que isso signific-

Antes de terminar a frase, um estrondo enorme veio da direção da cabana. Entre poeira e lascas de madeira, um machado de lâmina dupla alçou voo em direção ao líder do exército.

O machado cortou o ar à sua frente, aproximando-se rapidamente do homem a cavalo, até que…

— Significa isso… — Com um sorriso no rosto e orgulhoso, segurava o machado de Aldebaram como se não fosse nada. O machado logo se desfez, pois Erne não era seu portador. 

“Se desfez, então as informações estavam corretas, é uma arma marcada em sua alma… Interessante”, pensava Erne.

— Se-senhor! — Com seus olhos arregalados, e expressão de espanto, continuou: — Tudo bem!?

Hahah! Vai precisar de mais que isso para tirar uma lasca de minha pele! — Voltando sua atenção para a cabana, gritou: — Ei! Aldebaram! Vamos logo, se quer lutar…. Lute!!

Já impaciente e sem alternativas, Aldebaram decidiu que iria esmagar aqueles que perturbavam a paz presente nessas montanhas.

Mas assim que começou a abrir a porta, sentiu uma mão tocando seu ombro, era Dolbrian com uma expressão.. Animada? Em seu rosto.

— Vejo que está animado, velho. Vai lutar também? 

— Não me chame de velho — começou, franzindo o olhar. — Vou te mostrar que mesmo com minha idade, mil homens são nada mais que baratas prontas para serem esmagadas.

Aldebaram que portava uma expressão séria e apática em seu rosto, ao escutar essas palavras um tanto quanto ousadas desse idoso. Adquiriu um semblante confiante, já á alguns minutos perdido.

Hahaha! Gostei, velho. Vamos nos divertir então.

— Vocês dois… — falou Gideon, que baixou o olhar. — Vocês dois… — Cerrando os punhos, e fixando um olhar determinado nos dois, exclamou: — Vocês dois, me levem junto! Eu quero lutar!

Aldebaram e Dolbrian não possuíam o luxo de recusar tal pedido, dada a imensa determinação expressa. Contudo, Astrid permanecia como a derradeira incógnita. Ao ouvir o pedido inusitado de Gideon, ela cerrou os punhos e começou a tremer. Entretanto, inspirada pela pulsante determinação do jovem, decidiu adotar uma expressão convicta raramente vista no belo rosto dessa dragonoide.

— Eu também irei! — Sem gaguejar, sem tremer, sem desviar o olhar para baixo. A jovem tímida demonstrou sua bravura, talvez motivada por aquele a quem desejava manter seguro, ir enfrentar o perigo.

Novamente, os dois não podiam negar tal decisão, pois a determinação presente nos olhares, palavras e expressões indicava que estavam prontos para a batalha.

Assim, os quatro decidiram unir forças e lutar até que suas energias fossem esgotadas.

Na visão do nobre, a porta da cabana se abria lentamente. Uma tensão pairava no ar, e a cada segundo e milímetro que a porta se abria, parecia que o tempo se arrastava, até que finalmente, a abertura foi completa, e os quatro emergiram.

"Quatro pessoas? Os informantes nos disseram que ele morava sozinho, e às vezes a filha vinha visitá-lo... Bom, pouco importa", pensando, o nobre olhou para o lado, onde uma figura de capuz estava. "Temos aquilo... Tomara que seja o suficiente.”

— Aldebaram Sternberg, irá resistir?

— Corta essa, General Erne. Seu olhar... — Invocando novamente Misriam, posicionou-se em posição de batalha. — Você está louco pela batalha.

Erne apenas deu um sorriso irônico; Aldebaram havia acertado. Erguendo as mãos, fez o sinal de dois com os dedos.

Rapidamente, todo o bloco do regimento começou a se mover, e entre as árvores, arqueiros surgiram aos montes, prontos para proporcionar uma chuva violenta de flechas. Desfazendo o sinal de dois, manteve a mão erguida e virou-a de lado.

— Sabe, você está correto, guerreiro. — Jogou firmemente a mão para baixo, dando início à chuva de aço. — Como irá lidar com isso?

As flechas voaram aos céus em grande quantidade, encobrindo a luz solar e deixando o céu negro. Assim que atingiram certa altitude, a gravidade fez seu serviço, fazendo-as descer em direção aos quatro.

— Sabe, talvez sozinho... Eu não ia conseguir desviar de todas essas flechas. — Deu um sorriso orgulhoso, olhando de canto para Astrid. — Mas... eu não tô sozinho, não é mesmo?

Rapidamente, Astrid entrou em sua forma Híbrida e estendeu suas asas sobre todos ali. A envergadura e amplitude de suas asas não cobriam todos perfeitamente, mas era mais do que suficiente para protegê-los das flechas.

A tempestade de aço caiu sobre eles, não uma, nem duas, mas sim mil flechas. O regimento era composto principalmente por arqueiros, então não era de se estranhar essa quantia exorbitante de projéteis.

A primeira flecha atingiu o ombro esquerdo da jovem, mas nada ocorreu; a ponta de aço da flecha simplesmente entortou. Logo, mais e mais caíram, atingindo seus braços, pernas, torso, cabeça, asas... mas sem causar qualquer efeito. Quando necessário, Aldebaram, Dolbrian e, às vezes, Gideon, rebatiam algumas flechas.

Graças à quantidade exagerada de flechas e à enorme velocidade dos eventos, os soldados e, muito menos o General Erne, viram a transformação de Astrid e sua perfeita defesa. Já cantando vitória, Erne ergueu o braço e fechou o punho, começando a anunciar:

— Aquele que podia vencer exércitos sozinho acabou de cair, a vitó- — Mesmo com seu discurso parecendo convincente e convicto, seus soldados não expressaram felicidade ou orgulho em seus rostos. Na verdade, suas expressões eram de confusão e até mesmo pavor.

— Senhor... — Dorni deu tapinhas na perna de Erne e, ao chamar sua atenção, apontou para o local onde teoricamente estariam os corpos perfurados dos quatro.

Assim que o general virou-se, não podia acreditar no que suas pupilas captavam. Aqueles quatro ainda estavam vivos, bem e sorrindo. Pior ainda, aquela garota tinha asas e a forma do seres mais majestosos desse continente, uma dragonoide.

“Como!? Uma dragonoide!? Um ser dessa magnitude aqui.... O que está acontecendo!?” pensava desesperado Erne.

— Não sei qual é o seu truque, Aldebaram, mas você irá cair.

— Corta essa, iremos te segurar aqui — disse Aldebaram, pronto para enfrentar aquele general. — Até os soldados de Windefel chegarem.

Erne, que até aquele momento estava um pouco incerto e assustado, ao escutar tais palavras, abriu um sorriso indescritível. Estendeu os braços e proclamou:

— Windefel caiu, agora nos pertence.

Tais afirmações abateram Aldebaram; a cidade onde ele nasceu havia caído. Ele podia até ter certo rancor pela forma como foi tratado, sendo usado como moeda de troca, mas ainda nutria certo carinho por lá.

— Como!? — perguntou Aldebaram, incrédulo.

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Sete dias atrás, na corte real de Estudenfel, todos os nobres e pessoas de cargos importantes estavam reunidos, a mando de seu soberano. As notícias e informações indicavam que um pronunciamento importante iria ocorrer, marcando o início de uma nova era para aqueles que lutavam por sua cultura. 

Uma sala da corte rústica, com pilastras de pedra cinza já lascadas, chãos, paredes e teto feitos do mesmo material e em condições similares. Todas as superfícies exibiam resíduos verdes encrustados.

Um enorme trono, esculpido de uma pedra mais escura do que a utilizada nas paredes, sugerindo que ali outrora se assentara uma antiga criatura de imponência notável.

Esse conjunto inteiro transmitia a impressão de que, em vez de uma corte, ali jazia uma antiga ruína há muito tempo selada.

De repente, as enormes portas de madeira escura foram abertas, e com passos imponentes, um homem emergiu, caminhando majestosamente em direção ao seu trono merecido.

Vestindo roupas igualmente rústicas de couro, seus cabelos azuis escuros eram adornados por uma coroa de Mithril. Com uma enorme barba que acentuava sua semelhança com um viking, seus músculos imponentes reforçavam essa impressão. Rapidamente, o homem cruzou toda a extensão da corte e sentou-se no trono.

— Como é bom estar acima de todos, em meu trono — suas palavras eram repletas de uma aspiração notável.

Ao lado esquerdo e direito desse homem, duas figuras estavam assentadas, também vestidas com roupas de couro. O homem à esquerda, chamado de Thorn, o mais musculoso, aparentava ser o guarda pessoal do rei. Utilizando uma máscara feita do crânio de um alce, seu corpo inteiro ostentava marcas rúnicas em azul forte, que se destacavam em sua pele levemente azulada.

— Sim, meu lorde, Liebe.

Ao lado direito do rei Liebe, outro homem emergia, menos musculoso que Thorn. Tinha uma cicatriz sobre o olho esquerdo, que o fazia mantê-lo fechado, e seu cabelo ruivo era adornado por tranças.

Este aparentava ser mais requintado, ocupando a posição de conselheiro do rei, e era conhecido por alguns como o segundo rei.

— Atenção todos! Temos um anúncio a fazer — indagou o ruivo, Viko.

Todos presentes na sala pararam imediatamente seus afazeres e voltaram sua atenção para o monarca. Os presentes vestiam trajes e túnicas, predominantemente feitos de couro, embora alguns usassem tecidos comuns, ainda que fossem raros.

A multidão apresentava uma mescla de peles brancas e peles ligeiramente azuladas. Cada indivíduo exibia algo em seu corpo com a cor azul; fossem tatuagens, a cor de seus cabelos ou unhas pintadas em tons azulados.

Possivelmente, era uma forma de homenagear seu antigo povo, os gigantes que tinham a pele azul.

O rei, colocou a expressão convicta em seu rosto, e começou a falar:

— Pessoas, cidadãos, meu povo, meus irmãos. Carregamos um fardo imposto a nós, o fardo de preservar a cultura daqueles que foram cruelmente assassinados, nossos antepassados, os gigantes. Como encarregados desse fardo, devemos manter nossa cultura e impedir que aqueles que desejam jogar nossa história no limbo avancem. Refiro-me aos outros reinos nórdicos que, infelizmente... — Abaixou seu olhar. — ...abandonaram sua cultura, adotando a dos nossos assassinos como sua.

As palavras proferidas ditavam a reação do povo, gerando emoções tanto de felicidade quanto de tristeza. Tais palavras inspiravam todos na sala, que, mesmo ainda confusos com o motivo de sua convocação, aceitavam o que era dito como verdade e deixavam que suas chamas internas fossem avivadas.

Gerando assim lágrimas, orgulho e pesar. O rei, percebendo a reação do povo, ficou mais enérgico e, continuou:

— Mas! Mesmo que tenham abandonado aqueles que um dia lhes deram a vida, ainda há salvação... Sim! Ainda há! — Fechando os punhos, continuou: — Lutamos para preservar aquilo que nos foi dado! Lutamos! Contra aquela cultura que apenas pensa em avançar sobre as outras, destruindo crenças, religiões, povos e a própria cultura… — Ergueu seu queixo. — Não lutamos contra a cultura dos outros, pouco nos importamos com a cultura do centro do continente, dos Lycaions, dos Elfos, Hanamis ou Dragões. Lutamos apenas contra aquilo que nos ameaça, lutamos contra aquela cultura que roubou e tentou apagar o lugar da nossa... Lutamos contra o modernismo giganoide!

Éeeeeeee!!! Vamos lutar contra aqueles que tentam nos apagar!! — O povo foi inspirado por aquelas palavras, deixando a chama em seus peitos acenderem.

O rei então não parou seu discurso, ergueu a mão, e todos instantaneamente pararam, voltando a ouvir.

— Que nos chamem de vilões! Nos chamem de covardes ou assassinos! Mas o povo que aqui vive saberá a verdade, pode não ser escrita em livros. Entretanto, o povo não esquecerá, do dia que salvamos nossa cultura ancestral… Giganoides de pele azul poderão andar livres, sem serem mortos para preservar a falsa paz do modernismo.... Pessoas poderão contar como eram os gigantes sem serem reprimidos. — Baixando seu olhar para todos, deu o ultimato: — Com tudo isso dito, tenho a honra como seu rei, de dizer que.... A invasão irá ocorrer! Daqui a 4 dias, iremos avançar contra Windefel!

O povo inicialmente ficou atônito e confuso com essas notícias e afirmações, mas logo entenderam o que isso queria dizer, compreenderam o que isso significava. O fim de um reinado de terror contra aqueles que amavam sua verdadeira cultura; a guerra traria o início daquilo que nunca deveria ter acabado.

Vivaaaaaaaaaaaa!!!! — O povo gritava, bradava e urrava. O povo estava pronto para o que desse e viesse

— Eu falei, meu rei — começou Viko, com as mãos juntas e um leve sorriso no rosto. — O povo iria aceitar. Ah, e parabéns pelo lindo e comovente discurso.

Ao ver a enorme alegria gerada por tais notícias, o rei se joga no trono, rindo. Finalmente, o dia estava chegando.

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Notas:

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