Kumarajiva_Tradutor

Uma breve história da tradução por entre as eras: Na Idade Antiga (1)


Olá caros leitores e tradutores que aqui residem e gozam de seus dias lendo de uma boa novel Oriental. Exatamente, quem vos fala é o famoso porém desconhecido Élder Enxarcado.


[PARTE 2]


Antes de tudo, gostaria de falar que este artigo foi traduzido e adaptado por mim do site Marielebert, do qual vós podeis encontrar todo o material lá disponível gratuitamente— bem, eu recomendo ler por aqui mesmo né haha. Este artigo que aqui trago vos esclarecerá sobre como a tradução vem se desenvolvendo através dos tempos e de importantes personagens que em muito contribuíram para que hoje existisse a sociedade vigente que nós, sendo seres humanos, vivemos e nos relacionamos.

Venho destacar que, este artigo será disponibilizado em nove partes, sendo esta que explica como fora a tradução na Idade Antiga (Antiguidade), e os oito artigos sequenciais que descreverão, respectivamente, na Idade Média (2), nos séculos XV (3), XVI (4), XVII (5), XVIII (6), XIX (7), XX (8) e por último, XXI (9), do qual fazemos parte. Vejo, como tradutor que sou, de grande importância conhecer como nossos antepassados viveram e como eles fizeram evoluir as técnicas que hoje usamos; todavia, venho a imparcialmente recomendar que mesmo os leitores os leiam, pois será de grande utilidade quando, por exemplo, tentar interpretar algum trecho de uma novel ou até mesmo pensar em como melhorar tal trecho para facilitar o entendimento (sim, é mais que necessário fazer isso).

Bem, não gostaria de prolongar-me mais, por isso acabo aqui meu simples monólogo. Muito obrigado por fazer parte de nossa família e espero piamente que gostem do conteúdo que aqui será lançado… Muito obrigado! Me despeço aqui caros mancebos.

Atenciosamente,

Élder Enxarcado


Tradutores sempre estiveram atuando em um papel importante na sociedade. Tradutores medievais, por exemplo, provocaram um grande impacto na academia, e contribuíram para o desenvolvimento de línguas vernáculas e identidades nacionalistas em torno destas línguas. Tradutores continuam atuando nesse importante papel no avanço da sociedade por entre os séculos. Porém, a maioria dos tradutores tornaram-se “invisíveis” no século XXI, juntamente com uma vida precária e tendo seus nomes frequentemente esquecidos em comunicados de imprensa e em capas de livros. Há muito o que se fazer para reconhecer (novamente) o grande impacto dos tradutores no conhecimento, ciência, literatura e cultura. Este artigo foi inspirado pela página “Tradução” disponível na Wikipédia. E por favor, veja também “Um dicionário de tradutores famosos por entre as eras.”

A tradução da Bíblia Hebraica em Grego no século III A.C. é considerada como a primeira grande tradução no mundo Ocidental. A diáspora Judaica havia posto em esquecimento o Hebraico, sua língua ancestral, e assim precisaram da Bíblia ser traduzida em Grego para que fosse possível a leitura da mesma. Esta tradução é conhecida como “Septuaginta”, um nome do qual se refere aos setenta tradutores dos quais foram comissionados a traduzir a Bíblia Hebraica em Alexandria, Egito. Cada tradutor trabalhou em confinamento solitário em suas próprias salas, e de acordo com a lenda, todas as setenta versões se provaram idênticas umas às outras.  A “Septuaginta” tornou-se o texto de referência para traduções posteriores em Latim, Cóptico, Armênio, Georgiano e outras línguas. Textos bíblicos registrados em Hebraico igualmente foram traduzidos para Grego em Alexandria durante os dois séculos seguintes.

O papel do tradutor como a ponte de “transporte para o outro lado” de valores entre culturas tem sido discutido desde Terêncio, um dramaturgo Romano que adaptava comédias Gregas ao Romano no século II A.C. O debate relacionado à tradução de sentido por sentido (tradução comunicativa) vs. palavra por palavra (tradução semântica) começou igualmente por volta desse período. É dito ser o precursor do termo “sentido por sentido” Jerônimo (de Estridão), em sua “Carta a Pamáquio”. Enquanto traduzia a Bíblia em Latim (mais tarde sendo conhecida como “Vulgata”), Jerônimo declarou que o tradutor precisava traduzir “não palavra por palavra, mas sentido por sentido” (“non verbum pro verbo sed sensum de sensu”).

Cícero, um proeminente filósofo e escritor, também notoriamente advertiu contra a tradução “palavra por palavra” (“verbum pro verbo”) em “Sobre o Orador” (“De Oractore”, 55 A.C.): “Não creio que deveria eu contar cada palavra ao leitor semelhante a como se faz com moedas, porém, pagá-las por seu peso, como tal o é.” Cícero também foi um tradutor do Grego ao Latim, e comparava o trabalho do tradutor ao trabalho de um artista.

Kumārajīva, um monge Budista, acadêmico e tradutor, é conhecido pela sua prolífera tradução ao Chinês de textos Budistas escritos em Sânscrito, um trabalho monumental do qual se encarregou no final do século IV D.C. Seu trabalho mais famoso é a tradução do “Sutra do Diamante”, um influente sutra Mahayana no Leste Asiático, e objeto de devoção e estudo em Zen (Budismo do ramo Mahayana).  Uma cópia tardia (datada de 868 D.C.) da versão Chinesa do “Sutra do Diamante” é considerada “a relíquia mais antiga completa de um livro impresso”, de acordo com o site da Biblioteca Britânica (do qual tem em posse a obra). A tradução de Kumārajīva promoveu profunda influência no Budismo Chinês, com um texto claro e direto que focava mais na transmissão do significado que na representação literal precisa do texto. Suas traduções do sentido textual continuam ainda mais populares que suas traduções literais posteriores.

O espalhar do Budismo liderou esforços de tradução contínua em larga escala que se projetaram por mais de mil anos em toda a Ásia, e em alguns períodos curtos de tempo, igualmente. Os Tangut, por exemplo, levaram poucas décadas para traduzir volumes escriturísticos que, ao contrário dos chineses, levaram décadas para traduzir; tal se dá por duas razões simples: primeiro, exploraram a recém-criada impressão xilográfica; segundo, tiveram completo apoio governamental, com escritos contemporâneos descrevendo que o Imperador e sua própria mãe contribuíram com esforços para a tradução, juntamente com diversos sábios de várias nacionalidades.

Esforços de tradução em larga escala também foram realizados pelos Árabes após terem conquistado o Império Grego, assim distribuindo versões em Árabe dos maiores trabalhos filosóficos e científicos Gregos.


Traduzido e Adaptado por: Enxarcado   |   Revisor: Delongas


[PARTE 2]


Bibliografia

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[2012] Jean Delisle & Judith Woodsworth. “Translators through History”. John Benjamins, Amsterdam.

[2016] Claudio Galderisi & Jean-Jacques Vincensini. “La fabrique de la traduction” (The Translation Making). Brepols Publishers, Turnhout, Belgium.


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