Um Alquimista Preguiçoso Brasileira

Autor(a): Guilherme F. C.


Volume 1

Capítulo 88: Um neto ingrato

Ao fim da batalha, Zhan Rong deixou escapar um suspiro, expelindo a tensão que sentia até um segundo atrás. Notava-se pela respiração pesada e o suor começando a brotar na testa que chegou muito perto da exaustão nessa partida, não apenas física, pois sua Energia Espiritual estava beirando o limite. Por sorte, teria tempo o suficiente para descansar antes de enfrentar o próximo concorrente.

Embora não fosse uma garota vaidosa, era inegável que se encheu de inspiração quando aplausos e felicitações se ergueram dos espectadores, gritando seu nome e soltando vivas de incentivo. Muito provável, toda a agitação foi provocada pelos outros membros de sua Família que assistiam a luta, mas, ainda assim, ficou orgulhosa ao ter seus méritos reconhecidos.

Enquanto deixava a arena de peito estufado e cabeça erguida, tentando parecer o mais resoluta possível, numa tentativa de não se deixar intimidar pelos aplausos opressivos que pareciam se intensificar a cada instante, Zhan Rong caminhou sem se afobar, mantendo o olhar fixo no palanque, mirando voltar para a companhia de seus companheiros. Seu adversário, Qin Jun, recebeu tratamentos imediatos e logo deu sinais de estar recobrando a consciência e estabilidade do próprio corpo.

Ele não tinha sofrido danos severos e isso era perceptível por sua armadura, a qual recebeu os principais impactos durante a luta e continuava intacta, sem um único arranhão ou amassado. Porém, era visível sua dificuldade em manter a mente desperta, tendo em vista a luta que travava contra às pálpebras.

Sendo mantido sentado no mesmo lugar que caiu pelos médicos de prontidão ― numa tentativa de dificultar a sonolência causada pela técnica ―, Qin Jun, cuja visão se mostrava parcialmente borrada, com o canto dos olhos percebeu que sua adversária estava deixando o palco. Empurrando os curandeiros que o cercavam, ele se colocou de pé e arrastou o corpo modorrento em direção a Zhan Rong.

Bufando, apresentando complicações para conservar a respiração constante, conforme gotas de suor escorriam de seu rosto, Qin Jun se colocou na frente da rival, bloqueando seu caminho. Estava tão cansado que sequer ousava tentar segurar sua Maça de Bronze, entretanto, a expressão em seu rosto permanecia firme e inabalável.

― Você... ― arfou ele, mal conseguindo manter o timbre da voz. ― Você... Mesmo não sendo uma guerreira, você... é muito forte. Foi... uma boa batalha... Parabéns pela vitória! ― E, a despeito do braço tremendo, esticou a mão em um gesto de reconhecimento, visando cumprimentar e parabenizar a oponente pela boa partida.

Suas palavras deixaram Zhan Rong profundamente impressionada. Por um instante, olhou para ele sem reação, incerta se deveria aceitar a felicitação do oponente. Quando o viu indo em sua direção, pensou que seu objetivo era prorrogar a luta ― uma revanche ou vingança, talvez. Decerto, não esperava por tal comportamento.

Deixando-se levar pelo ocorrido, ela estendeu a mão e retribuiu o cumprimento, mas logo ao perceber o que estava fazendo, recolheu o braço e indagou, franzindo a sobrancelha:

― Porque está me parabenizando? Por um acaso esqueceu que sou uma garota? ― A maneira usada por ele no começo da luta, logo a fez perceber que o brutamontes era um daqueles tipos de homens, julgando-se mais fortes que mulheres. Ela era jovem, não havia como negar, mas, mesmo assim, já tinha visto muitos dessa espécie e detestava todos eles.

Hm... ― Estranhando a reação da rival, Qin Jun virou a cabeça de lado, parecendo confuso. ― E o que isso tem a ver?

― Não era você que estava me chamando de garota e me mandando desistir? ― acusou ela, deixando os nervos se aflorarem. Ainda estava com o sangue fervendo devido ao recente combate. ― Você me subestimou só porque sou uma garota e agora que perdeu quer se redimir, certo?

― Minha mãe falou para não machucar garotas, por isso falei aquilo. ― defendeu-se ele, tentando manter o tom de voz normal, apesar de parar de tempos em tempos para respirar fundo e recuperar o fôlego. ― Minha irmã sempre fala que eu não sei conversar. Desculpa ter falado errado. ― abaixou a cabeça, em sinal de arrependimento.

Qin Jun era uma pessoa bastante simples, que se espelhava em guerreiros fortes e valorosos e não era muito bom quando obrigado a pensar em coisas profundas. Pior ainda, era sua abordagem ao dialogar com outras pessoas. Seu jeito simplista de se apresentar sempre resultava em algum tipo de mal-entendido ou coisas ditas pela metade.

E tal sinceridade ao admitir o erro e se desculpar, mais uma vez, pegou Zhan Rong de surpresa, que quando percebeu sua falha de julgamento, sentiu-se mal por ter pensado coisas horríveis durante a luta e o tratado de modo tão ríspido.

― Não, eu que entendi errado. Sinto muito! ― lamentou ela, retribuindo o gesto de arrependimento.

― Você é muito forte! É uma pena não ser guerreira. ― Qin Jun voltou a elogiar, em seu jeito simples de ser. ― Não estou triste por perder pra uma garota forte.

Desta vez, Zhan Rong aceitou o elogio de bom grado e antes de se afastar e voltar para o tablado, falou que o efeito de sonolência causado por sua Técnica de Combate logo passaria.

No palanque erguido próximo ao palco, Xiao Ning possuía uma expressão de êxtase no rosto, sorrindo e batendo palmas, sem dar importância se estava incomodando as pessoas ao redor, o que, julgando pela expressão de Xiao Shui, esse parecia ser o caso. Até o momento, essa tinha sido sua luta favorita, embora não achasse que a troca de golpes fosse das mais impactantes.

A despeito de ter escolhido o Elemento Relâmpago como o seu principal em batalhas, possuía uma grande admiração em relação ao Elemento Planta, o que não era de se estranhar, pois sua especialidade na Alquimia era justamente relacionado a esse ramo em específico. Sempre teve bastante apreço por praticantes que buscam se especializar em tal campo, mesmo os mais fracos e iniciantes. Portanto, durante toda a disputa, demonstrou o máximo apoio, gritando dicas e vaiando o adversário. E, ao fim da disputa, tomado pelo entusiasmo, ele gritou alto, colocando as mãos na frente da boca para ampliar a voz:

Ei, ô da planta, você quer trabalhar para mim? ― E embora não tenha recebido nenhuma resposta, isso não o impediu de continuar aplaudindo e parabenizando.

Essa atitude levou Xiao Shui a fazer uma cara feia e pedir diversas vezes para se controlar, afinal, eles eram inimigos e talvez teriam de se enfrentar cedo ou tarde. Não existia problema em torcer para outra pessoa, mas era bom saber se conter.

De volta ao palco, tão logo Qin Jun deixou a arena após receber um breve tratamento, os detritos da disputa foram varridos, livrando o piso dos entulhos acumulados no decorrer do embate. Não demorou muito e os próximos participantes surgiram, ocupando seus lugares no campo de batalha.

A juíza da vezes seria uma cultivadora da Família Zhan, que, assumindo sua posição de árbitra, deu um passo à frente, destacando-se dos demais, e anunciou:

― Qin Ping contra Qin Delun!

Semelhante ao seu companheiro Jun, já tendo alcançado os dezoito anos e sendo confrontado pela última chance de participar do Festival da Geração do Caos, Qin Delun demonstrava sua determinação através de seu semblante firme e resoluto, longe da arrogância esperada de um jovem a um passo da vida adulta que acredita na própria superioridade apenas por ser um pouco mais velho. Ele trazia em suas costas, amarrada por duas cintas fixadas no vestuário de batalha, uma espada longa, em cuja lâmina havia sido moldada numa chapa maciça de metal de um metro de comprimento. A empunhadura, espaçosa o suficiente para abrigar duas mãos ao mesmo tempo, não possuía adornos chamativos, apenas uma argola cravada na extremidade, de modo a impedir a arma pesada de sair voando, após um manejo descuidado.

Quanto a sua aparência, não há meios mais apropriados de descrever do que falar que ele é um típico “Qin”. Uma armadura robusta fazia parte de seu visual casual, e feições dura e inflexível, de maneira em cujo olhar exalava uma sensação de força e coragem, disposto a encarar qualquer desafio.

Do outro lado, aquele que seria seu adversário e também um membro da mesma Família, já em sua postura mostrava que nem tudo pertencente a origens próximas eram iguais.

Com os ombros caídos e o olhar meio morto, Qin Ping parecia não partilhar da determinação de seu companheiro. Diferente da ferocidade esperada de um “Qin”, sua expressão era tranquila, um tanto relaxada e nada intimidadora.

Trajando vestimentas largas, que davam a impressão de serem ligeiramente maiores que seu corpo ― nada muito evidente ―, e sem a proteção de algum tipo de armadura, ele subiu no palco arrastando os pés calçados por um par de sandálias rasteiras; um item, decerto, inapropriado para combate. E, a despeito do cabelo curto, espetado para os lados devido à falta de cuidados, seu aspecto geral não era de alguém desleixado, apenas tranquilo, livre de problemas complexos para confabular.

Em sua cintura, preso de qualquer maneira no cinto responsável por manter as calças no lugar, notava-se a presença de algum tipo de arma, que por estar na bainha se fazia difícil julgar sua real aparência. Muito embora, por pertencerem à mesma Família, Qin Delun conhecia bem o tipo de item escondido.

Tratava-se de um par de espadas que compartilhavam o mesmo estojo e por esse motivo, sem um conhecimento prévio do artifício, tornava-se fácil confundi-las com apenas uma. Aqueles eram as especialidades de Ping, conhecidos como Sabre Borboleta. Uma arma tradicional, comum entre os membros dos Qins e amplamente difundida por todo Império Dourado.

Os sabres tinham sido forjados tendo por referência as medidas do usuário. Eram armas personalizadas para o uso de um praticante, como era comum para aquele tipo de item. As lâminas detinham as extensões relativas a distância do punho de Ping até o quase fim da parte interna do antebraço, de modo que pudessem ser manejadas com liberdade, diminuindo o risco de se cortar durante a execução de movimentos rápidos e complexos. E o pomo de ambas ― idênticos ― eram caracterizados pela simplicidade na qual foram moldados, possuindo um modesto guarda-mão na forma de travessão, que fazia divisa ao gume e às costas. E para finalizar, a parte não cortante era protegida por uma guarnição acentuada para frente de meros três centímetros.

As lâminas finas e o tamanho simétrico, permitia ao Sabre Borboleta, de corte único, ser guardado em conjunto em uma bainha somente e até mesmo passar despercebida como uma arma dupla pelos olhos desatentos de pessoas desavisadas. Entretanto, apesar de não possuírem um tamanho significativo, provavam-se eficientes no combate e abate de inimigos, quando nas mãos de um especialista.

Qin Ping se adiantou no palco e parou bem próximo daquele que seria seu adversário. Mantendo as mãos longe das armas penduradas em sua cintura, soltou um sorriso despretensioso e, como era de se esperar de dois jovens oriundos da mesma Família, falou demonstrando proximidade, talvez, um pouco até demais:

― Lunlun, ― chamou, utilizando toda a intimidade e carisma que podia. ― Eu estive pensando, talvez a gente não precise lutar. Se a gente trabalhar junto, eu posso fingir que fui derrotado e você passa para a próxima fase. É vantagem para nós dois.

Sua proposta foi feita através de um tom baixo, sussurrante, que o deixou parecendo um vigarista vendendo um produto ilegal num beco escuro.

No entanto, apesar de sua tentativa escusa, os ouvidos de um cultivar podem se mostrar especialmente atentos quando se conhece o caráter de alguém.

― O que foi que você disse, seu pivete? ― De repente, um grito áspero e envelhecido, mas cheio de vigor e severidade, ergueu-se do palanque, sobrepondo-se às massas que vozeavam abaixo. Quem berrou, demonstrando tamanho descontentamento, foi a Matriarca da Família Qin, Annchi. ― Se você desistir sem ao menos lutar, vou te dar uma surra tão grande que ficará duas semanas sem poder se sentar!

― Como foi que você escutou isso, sua velha maldita? ― Qin Ping não conseguiu conter a surpresa e frustração por suas palavras terem sido ouvidas e exclamou alto, encarando a imponente mulher escorada no parapeito da construção.

― Não ouse falar assim com sua avó, seu ingrato! ― vociferou Qin Annchi do outro lado. Ela podia não ser tão jovem quanto antes a ponto de poder escutar o canto de um pássaro a centenas de metros de distância e decerto, todo aquele burburinho a atrapalhava de desvendar sussurros afastados, mas conhecia o neto bem o suficiente para saber que ele tentaria aprontar algo do tipo. ― Se você não levar essa competição a sério, irei jogá-lo no meio da floresta junto de um cantil para beber a própria urina e ser caçado por monstros.

― Você já fez isso, sua velha louca! ― retrucou Qin Ping, exaltado.

A situação inusitada chamou a atenção de todos e mergulhou o alegre festival num estranho silêncio desconfortável. Ninguém podia acreditar que uma das pessoas mais influentes da cidade estava ao berros com o neto, dando-lhe uma bronca na frente de tantos espectadores.

― Escute aqui, seu neto ingrato! Se você perder essa luta, depois de jogá-lo no meio de um ninho de Bestas Demoníacas, irei fazê-lo correr mil vezes ao redor da cidade! ― Porém, ignorando os olhares curiosos e julgadores que a fitavam, a Matriarca Annchi prosseguiu com sua contenda familiar. ― Se acha que não tenho coragem, então ouse testar minha paciência! Quando eu acabar, você nunca mais irá levantar a voz para sua avó de novo.

Qin Ping amarrou a cara e bufou algumas vezes. Sabia que não adiantava discutir, pois sempre acabava perdendo, mas isso não o impediu de resmungar, descontente pela interrupção:

― Velha chata, intrometida! Um dia ela vai ver! Não sei como meu pai aguenta! Quando eu sair de casa, não volto nem se implorar! ― Ele continuou resmungando por mais algum tempo; tinha muita coisa para reclamar. Para começo de conversa, sequer desejava estar ali, foi obrigado a isso. Preferia ter ficado em casa, comendo alguns aperitivos e aproveitando o tempo livre.

No palanque, não muito longe da Matriarca Annchi, Xiao Shui olhava para Ning e depois para o resmungão no palco, como se estivesse comparando os dois em sua cabeça. E por fim, falou:

― Ele se parece com você. ― comentou, lembrando de todas as vezes que tentou sugerir ao preguiçoso para que deixasse de ficar se arrastando pelos cantos e procurasse alguma coisa para fazer, mas acabava recebendo apenas resmungos e desculpas em troca.

― Do que você está falando, pequena Shui? ― questionou Xiao Ning, franzindo as sobrancelhas. ― Eu nem tenho uma avó. E ninguém nunca me jogou no meio de uma floresta.

― É essa a parte que você quer corrigir? ― disse ela, acreditando existir outras coisas mais importantes na interação entre a Matriarca Annchi e o neto para se preocupar.

De volta ao palco, enquanto assistia seu adversário colocar as frustrações para fora, Qin Delun, que estava ansioso para começar a batalha, resolveu perguntar:

― Você está pronto? ― Notava-se pelo seu tom de voz que ele só precisava de uma confirmação e da autorização da juíza para brandir sua arma.

― Espere, espere um pouco, Lunlun. ― pediu Qin Ping, que parou de resmungar e voltou a sussurrar. Ele se aproximou do companheiro e, através de um ruído que chegava a ser quase inaudível, pediu: ― Parece que as coisas se complicaram. Então, que tal isso: Se você me deixar ganhar, eu prometo te pagar depois. Tenho dinheiro guardado, escondido daquela velha...

― Seu neto ingrato! ― Mais uma vez, a voz furiosa da Matriarca Annchi se ergueu, reboando pela cidade feito uma fera irritada. ― Acha que eu não sei o que está planejando?

― Velha maldita! ― rugiu Qin Ping em retorno. ― Qual o problema com seus ouvidos?

― Não preciso escutar para saber o que você está tramando, seu imbecil! ― retrucou a Matriarca, cuspindo e gritando na sua tentativa de colocar alguma responsabilidade nas atitudes do neto. ― Lute a sério, senão eu mesmo desço aí e te dou uma surra! ― esbravejou, erguendo o punho.

Tsc! ― Qin Pin estalou a língua, desgostoso. E apesar de ainda estar bastante relutante e descontente por ser obrigado a batalhar, ele sacou os sabres com extrema agilidade e se preparou para a batalha. ― Sinto muito, Lunlun. Vou ter que lutar. ― grunhiu, a contragosto.

― Não precisa se desculpar, pois eu não aceitaria o seu dinheiro. ― disse Qin Delun, através de uma voz grave. ― Se eu concordasse em receber o seu suborno, essa seria uma mancha na minha reputação. ― Demonstrando estar sério em sua declaração, ele agarrou o punho da espada presa nas costas e, com um movimento obstinado, cortou as tiras que prendiam a lâmina e sacou a arma, fazendo o metal uivar ao cortar o vento.

― Os membros dessa Família são todos viciados em sangue. ― Provando ter um amplo conhecimento das espadas curtas que tinha em mãos, Qin Ping assumiu uma postura peculiar, mas bastante conhecida entre os especialistas, de batalha. Esticando a perna esquerda para frente e deixando o pé na mesma direção da mão esquerda, ele flexionou o joelho direito, usando-o de base para a estrutura corporal, depositando a maior parte do próprio peso naquela região.

A ponta de ambas as lâminas foram apontadas para frente, visando o adversário. Porém, a localização de cada uma eram distintas. Enquanto o sabre manejado pela mão esquerda se via posicionado na altura do torso, seguindo a linha traçada pelo ombro, o braço direito fora erguido acima da cabeça, com o cotovelo dobrado, deixando a espada mais recuada e pronta para lançar um bote.

― Que a batalha entre Qin Ping e Qin Delun, ambos da 7ª Camada do Reino Mundano, comece! ― proferiu a juíza, concedendo a autorização para o início da disputa.

Disposto a dar tudo de si, Qin Delun chutou o chão e avançou feroz em sua primeira investida. Usando os dois punhos para segurar a espada, abaixou a ponta, deixando o metal quase tocar no piso, enquanto dava largas passadas, mirando seu oponente. E quando se aproximou, num movimento de extrema força bruta, girou o metal de baixo para cima, desenhando um semicírculo na vertical ― pelo menos, esse deveria ter sido o trajeto original.

Tendo a vantagem da velocidade, visto que não carregava um fardo tão pesado quanto o seu rival, Ping não se precipitou quando foi atacado de repente. Aguardou o máximo de tempo possível e, no instante em que a espada cortou o vento, indo em sua direção conforme emitia silvos agudos, girou os dois sabres ao mesmo tempo, defletindo o golpe.

O desvio da trajetória primária acabou desequilibrando Qin Delun por um segundo, devido ao peso excessivo do metal batido que tinha em mãos. O golpe perdeu potência e a espada debandou para a direita.

Aproveitando-se da brecha e do impulso criado ao se defender, Qin Ping não freou sua ação e girou os calcanhares, fazendo todo corpo rodopiar. Esticou os dois braços, deixando as lâminas lado a lado, no sentido horizontal, e acelerou ainda mais o movimento, impulsionando os ombros para acompanhar o rumo adotado.

― Vórtice Anavalhado! ― rugiu, executando uma de suas Técnicas de Combate.

Lâminas em formato de meia-lua, constituídas a partir de Energia Espiritual condensada, foram atiradas, girando em alta velocidade e emitindo um brilho visível.

Qin Delun estava próximo demais do ataque para realizar uma esquiva bem sucedida, tanto que, o brilho exercido da técnica, embora não fosse nada extravagante, bastou para confundir sua visão. Ainda assim, não se deixou levar pela urgência da situação e, ao invés de contra-atacar, suspendeu a espada na frente do corpo, virando-a de lado, mantendo-a erguida na horizontal.

― Impulso Opressor! ― revidou.

De repente, o ar na frente da espada dobrou e ondulou, como se uma força invisível estivesse agindo, tentando se manifestar. A coisa não possuía uma forma específica e talvez fosse até mesmo errado chamar aquilo de “coisa”, pois não possuía uma fisionomia própria e se expandia a um ritmo assustador, de modo que em um piscar de olhos, já cobria quase todo o corpo do usuário.

E quando entrou em contato com as lâminas giratórias, subitamente, a “força” invisível explodiu, liberando uma onda de choque que estilhaçou a técnica de Qin Ping e o atingiu no peito. O impulso foi tão forte que o jogou para trás, enviando-o pelo ar por alguns metros de altura.

Porém, ele era de fato uma pessoa ágil e sabia controlar o próprio corpo, dado que, após girar duas vezes, descontrolado, antes de cair no chão, abriu os braços e deu uma cambalhota, caindo de pé, muito embora, julgando pela expressão de angústia, era visível que tinha recebido algum dano.

Ei, ei! Lunlun, pega leve. ― pediu ele, exprimindo uma careta. Notava-se pelos olhos semimortos que não tinha a menor vontade de prosseguir naquele embate. ― Eu não gosto de lutar. ― grunhiu.

Abaixando a espada, deixando a ponta tocar no piso da arena, Qin Delun parou seu ataque, reprimindo os ânimos que estavam acelerados, entrando no clima da tão aguardada luta, e falou:

― Diferente de você, esta é minha primeira e última chance de participar do Festival da Geração do Caos e treinei muito para enfrentar cada um dos desafios. Mesmo que eu perca na primeira rodada, não terei arrependimentos se puder usar todas as minhas forças.

Terminando de falar, ele não mais perdeu tempo conversando e novamente lançou um ataque. Demonstrando ter força o suficiente para brandir a espada com certa leveza, ergueu a lâmina acima da cabeça, apontando para o céu noturno, e rugiu:

― Corte Único: Fissura!

A espada pesada desceu em um movimento vertical, indo direto contra o chão do palco, desenhando um traço reto. Quando a ponta se chocou contra a madeira, que era protegida por Runas Mágicas, uma linha incisiva se ergueu, tentando rasgar o piso, mas impedida por forças externas. E então, avançou em frente, mirando cortar tudo no caminho.

A linha, cuja extremidade frontal se fazia quase tão fina quanto um fio de cabelo, porém emitia um brilho ameaçador, atravessou o palco a uma velocidade impressionante, cobrindo a curta distância até o alvo em um instante.

Qin Ping não pensou duas vezes quando girou o Sabre Borboleta, passando-o por dentro dos braços, como se fosse o número de um espetáculo, chegando bem próximo de cortar os antebraços. As lâminas oscilaram, repetindo o mesmo movimento algumas vezes, de modo que era difícil acompanhar com os olhos. E no segundo em que a linha cortante se aproximou, ele finalizou, agitando as espadas curtas enquanto vociferava:

 ― Redirecionamento Agudo!

As duas técnicas colidiram, causando um estampido estridente ao primeiro toque. Por um momento, o ataque de Qin Delun parecia ser mais forte e começou a ganhar espaço, prosseguindo no seu avanço. Entretanto, deixando a combinação do Sabre Borboleta e a Energia Espiritual fazer frente a investida, Qin Ping manteve o corpo firme, apenas tomando cuidado para não ser arremessado.

Então, naquele encontrão que perdurou por não mais que um piscar de olhos, quando a investida inimiga perdeu um pouco de sua força primeva, Ping balançou os braços, redirecionando o Corte Único, enviando-o para um lugar que não pudesse feri-lo.

A habilidade cortante foi arremessada na diagonal e por não ter perdido completamente seu impulso, avançou contra as cordas que formavam o teto luminoso da cidade, prendendo as lanternas. Por se tratar de fogo no centro das belas decorações, fazendo o papel cumprir a função de um refletor, se as cordas fossem cortadas e a cobertura despencasse sobre as pessoas, o risco de ferimentos seria grande e de incêndio maior ainda, visto que as casas e estabelecimentos ao redor, sem contar as bancas montadas para o festival, possuíam diversos componentes de madeira e outros produtos fáceis de serem incendiados.

Contudo, como era de se esperar, no momento em que a técnica deixou os limites do campo de batalha, um dos juízes logo a interceptou, impedindo prováveis acidentes.

Por não ter enfrentado o ataque de frente, apenas desviado sua trajetória, Qin Ping parecia que não teria dificuldades para se reposicionar. Porém, antes que tivesse a chance de fazer qualquer coisa, o colega apareceu em sua frente, com a espada varrendo na horizontal, já desferindo o próximo golpe.

Em um movimento de pensamento rápido, Ping não se preocupou com o equilíbrio, manter a postura ou defletir o ataque da espada. Chutou o chão de qualquer maneira e saltou para trás, evitando por pouco de ser atingido; pôde até mesmo ouvir um silvo perigoso e sentir o vento criado pelo metal tentando colidir contra o seu tórax. Ao cair, evitando sofrer uma torção ou algo semelhante, ele não tentou ficar de pé e rolou para trás, executando uma acrobacia simples.

Uma vez no chão, ele não perdeu tempo e logo tratou de se levantar, pois sabia, devido a tantas lições, que ficar caído poderia ser perigoso. Mas se reerguer e recuperar a estabilidade não o impediu de perder as cores e ficar receoso. O ataque passou perto, perto demais, e como se para ter certeza de não ter sofrido nenhum ferimento, tateou o corpo, desesperado.

Quando constatou que de fato não tinha sido atingido, suspirou aliviado e, em seguida, exasperou:

Ei, ei, Lunlun, está tentando me matar?

― Se eu te matasse, seria desqualificado. ― argumentou Qin Delun, que não insistiu numa investida.

― Mesmo assim, você sabe o quanto um corte de espada dói?  Você quase me cortou! ― protestou, atordoado por ter chegado bem perto de receber uma cicatriz que o marcaria para o resto da vida.

― Sim, eu sei. ― respondeu Qin Delun, mantendo suas respostas curtas e objetivas. ― Já fui cortado antes.

― Então você sabe como doí. Não faça mais isso. ― pediu, quase usando um tom de ordem. ― Por isso que eu não gosto de lutar. ― resmungou, demonstrando estar ainda mais desmotivado para continuar a batalha. ― Da próxima vez, use a parte que não corta.

Ouvindo o último pedido, mais uma vez, Qin Delun permitiu aos ânimos esfriarem, interrompendo o seguimento da luta. Ele colocou a ponta da espada contra o piso e objetou, balançando a cabeça:

― Eu não o entendo. ― começou, usando um tom de voz calma, distante de qualquer indício de agressividade. ― Sua força é sem dúvida uma das maiores entre os praticantes da nossa idade, tanto que, sua participação no Festival da Geração do Caos no ano passado foi merecida. A Matriarca e os Anciões fizeram a escolha correta. Caso se esforçasse um pouco mais, acredito que poderia superar Qin Jun. Mesmo assim, diferente do resto da Família, você não gosta de se envolver em combates, incluindo nos treinos. Eu sei que apesar de tudo, você cultiva todos os dias. Se não gosta de lutar, então porque se esforça tanto para ficar mais forte?

― Mas isso não é óbvio? ― retornou Qin Ping, ao passo em que expunha seus planos futuros. ― Pense bem, Lunlun. A vida de um cultivador é difícil e a de um Mortal pode ser pior ainda. Nós, praticantes mais fracos, estamos sempre tendo que lutar contra um inimigo ou uma Besta Demoníaca. É por isso que eu pretendo me tornar um Espiritualista. E então, quando as pessoas e monstros me verem, eles vão pensar: “Olha lá, aquele cara é forte demais. É melhor a gente não mexer com ele.”

Sua narração foi proferida com tanto gosto que no final chegou a fazer uma pequena interpretação, mudando o tom de voz e gesticulando. Ele não apenas não tinha vergonha, como também parecia ter orgulho do plano traçado.

Ouvindo tudo isso, Qin Delun exasperou e balançou a cabeça em lamentação. Para alguém que se dedicava igual a ele, isso tinha sido uma afronta do começo ao fim.

― Eu me pergunto se o motivo de você ter perdido na primeira rodada do ano passado tenha sido por entregar a luta. ― elaborou algo que passou por sua cabeça. E a julgar pelo susto do rival, era exatamente isso que tinha acontecido. ― Sendo assim, se você não me enfrentar com todas as suas forças, irei contar a Matriarca sobre.

Ah, Lunlun, você me entregaria para minha avó?

― Vamos lá! ― Desta vez, Qin Delun não se deu ao trabalho de responder e partiu para aquilo que acreditava ser a última investida desse embate.

Com um dos sabres pronto para receber o impacto e o segundo preparado para desferir um golpe, Qin Ping levantou a guarda, abandonando o sentimento relutante de quem não queria lutar. Quando as espadas se encontraram, ecoando o barulho estridente do metal se chocando, ele girou a segunda lâmina, passando o gume próximo ao antebraço, e lançou uma Técnica de Combate, que, apesar de não deter um poder significativo, sua fácil execução a tornava a mais adequada para uma investida surpresa.

Um brilho afiado voou em direção ao flanco direito de Qin Delun, que ao ver a habilidade sendo usada a poucos centímetros de seu corpo, teve a rápida decisão de puxar a espada para baixo, usando-a como um escudo improvisado e abandonando o confronto direto. A arma colidiu contra a Energia Espiritual e o protegeu no último instante de ser atingido de perto, mas em compensação, Qin Ping, fazendo um impressionante uso de seus dois sabres, aproveitou-se da brecha criado por uma tentativa de proteção mal executada e estocou com o outro sabre, atingindo o trapézio do oponente, quase perfurando seu pescoço.

Qin Delun cambaleou para trás, levando a mão ao lugar atingido, conforme sentia uma fina camada de sangue começar a escorrer. Naquele momento, não tinha como julgar se o ferimento havia sido grave ou não, apenas sabia que precisava continuar investindo, buscando pela tão aguardada vitória. Ele brandiu a espada pesada, notando ter perdido parte do controle da arma, e lançou um ataque diagonal, impulsionando o gume de cima para baixo.

No entanto, Qin Ping estava preparado para o assalto obstinado de seu companheiro e exibindo uma ousadia admirável, levantou o braço esquerdo, com o gume apontado para o alto e as costas da lâmina rente ao antebraço, e recebeu a investida em toda sua potência. Era esperado que a colisão soltasse faíscas e fizesse o metal ranger, mas, sagaz como era, Ping flexionou os joelhos e abaixou a cintura no momento exato, amortecendo o impacto.

Tendo um de seus sabres livres, enquanto o adversário se via indefeso após um golpe mal sucedido, ele falou, parecendo ter certeza do resultado final:

― Sinto muito, Lunlun. Eu queria que você tivesse ganhado. ― Dizendo isso, girou o sabre nos dedos e proferiu. ― Corte Único: Versão Leve!

Uma linha fina, marcada por uma trajetória sinuosa, visando perfurar o flanco desprotegido do oponente, foi projetada.

Entretanto, antes de ser atingido, Qin Delun, de repente, largou o punho da espada pesada e desferiu um soco de mãos nuas, enquanto rugia a plenos pulmões:

― Impulso Opressor! ― Mais uma vez, uma força invisível começou a agir, dobrando e ondulando o ar, ganhando espaço em uma fração de segundo.

E então, quando as duas técnicas se encontraram, a força invisível explodiu, liberando uma onda de energia, que estilhaçou o Corte Único e acertou em cheio o corpo do rival, ao mesmo tempo em que protegia o usuário da repercussão.

O impacto foi tão poderoso que tirou um dos sabres da mão de Qin Ping e o arrancou do chão, enviando-o para trás, descontrolado. No mesmo instante, seu rosto perdeu parte das cores, deixando sua face tão branca quanto a tela usada no Teatro das Sombras. Ainda assim, aquilo não era o suficiente para nocauteá-lo e talvez teria conseguido se recuperar se não tivesse percebido tarde demais...

Em algum ponto, não sabe quando, foi empurrado para as bordas da arena e ao ser atingido pelo Impulso Opressor, acabou cruzando o limite, de modo que mesmo se conseguisse recuperar o equilíbrio, não teria chances de permanecer na luta. Talvez, esse fosse o melhor resultado, afinal, não gostava de lutar. Porém, havia algo em toda a situação que tornava aquilo uma conclusão frustrante... Já podia imaginar sua avó lhe dando uma longa bronca.

Quando Qin Ping caiu sentado no chão ― por pouco errando os espectadores ―, parecendo atordoado, a juíza foi logo anunciando:

― Vencedor, Qin Delun!

Ao fim da partida, os membros da Família Qin aplaudiram forte e soltaram rugidos festivos para o alto. Um tinha perdido, mas o outro, ganhado. Isso era motivo de comemoração e lamentação.

No palanque, a Matriarca Annchi olhou para a figura de seu neto derrotado com um olhar severo, conforme balançava a cabeça em desaprovação. Conhecendo aquele garoto, sabia que quando retornasse, ouviria muitas desculpas. Mesmo assim, apesar disso, não deixou de saudar o vitorioso. De certa forma, essa era também uma vitória para toda à Família.

Após recuperar sua espada, Qin Delun caminhou até a borda do palco para encarar o derrotado, que já havia começado a se erguer, e falou em um tom incisivo:

― Você perdeu por não ter levado o treinamento a sério! ― afirmou. Seu trapézio doía e podia sentir o sangue escorrendo ao longo do torso. Embora o ferimento não tenha sido profundo (algo que comprovou depois do fim da luta), por pouco não foi derrotado e aquilo serviu apenas para comprovar seu pensamento inicial: Ping era forte e poderia ser ainda mais, caso se esforçasse de verdade no caminho do cultivo. ― Acredito que você usou todas as suas forças, mesmo assim, irei contar a Matriarca sobre o motivo da derrota no festival passado. ― Dando as costas e se afastando, Qin Delun apenas ouviu, sem dar importância, os pedidos desesperados do companheiro para manter segredo.

 


Niveis do Cultivo: Mundano; Despertar; Virtuoso; Espirituoso; Soberano do Despertar; Monarca Místico; Santo Místico; Sábio Místico; Erudito Místico.



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