Um Alquimista Preguiçoso Brasileira

Autor(a): Guilherme F. C.

Revisão: Dante


Volume 1

Capítulo 11: Patriarca

Com o cabelo esvoaçando, o Patriarca da Família Xiao desceu do céu, fazendo cerimônia ao flutuar de encontro ao chão, sem se apressar em seu pouso. Parando entre os dois Anciões, perguntou, olhando de um para o outro:

― Interrompi algo? ― Seu tom de voz era profundo e se tornou particularmente afiado quando encarou o 1° Ancião Dong.

Assim como foi com o 1° Ancião, Xiao Ning nunca tinha visto o Patriarca, por isso, ao ver aquele homem irradiando Energia Espiritual, não pôde deixar de ficar impressionado. O líder dos Xiaos aparentava estar no ápice do Reino Espirituoso, prestes a romper para o Reino do Soberano do Despertar.

No entanto, seu cultivo não era a única coisa que impressionava. Sua aparência também era um tanto quanto chamativa. Não havia pelos em seu rosto, mas nem por isso sua face era delicada. Seu cabelo e olhos tinham o mesmo tom, um negro profundo, abismal, capaz de usurpar o brilho incandescente da luz. E os fios de preto profundo que coroavam sua cabeça, desciam feito cascata ao longo de suas costas, revoando ao mais leve sinal de brisa. Seus braços eram avantajados e sua altura passava dos dois metros. Presa na altura do ombro, encontrava-se uma capa cinza, com estampas douradas de arabescos místicos, povoados de mistérios e fascínios. E, para completar, ele vestia uma túnica turquesa, com mangas curtas nos braços.

― Não! Não interrompeu! Eu só estava dando o devido castigo a este pequeno bastardo. ― bufou o 1° Ancião Dong, que, sem dar muita importância à chegada do Patriarca, tornou a invocar a luz dourada em sua mão.

Vendo isso, Xiao Chang se pôs na frente de Xiao Ning e mais uma vez pediu:

― Irmão mais velho, por favor, não leve em consideração as palavras desse jovem tolo. Mostre sua sabedoria e o perdoe. ― Contudo, embora dito através de palavras educadas, seu tom de voz era firme e desafiador.

Por ser o 9° Ancião, Xiao Chang tinha muito poder dentro da Família Xiao. No entanto, quando se dirigisse a um dos Anciões superiores, como o 1°, que só estava abaixo do Patriarca, ele deveria demonstrar alguma cortesia. Porém, não era respeito que seu tom de voz indicava nesse momento.

Hunf! Não importa o quanto implore, eu ainda irei degolar esse animalzinho. ― rufou Xiao Dong, ignorando o pedido de Xiao Chang.

A tensão no ambiente subiu a um ritmo alarmante. Os dois Anciões se encararam. Parecia que eles estavam prontos para lutar, se fosse preciso. E tudo isso só porque Xiao Ning explodiu uma cabana velha. O 1° Ancião não perdoaria outra vez aquela boca imunda e irreverente. E Xiao Chang não o deixaria fazer o que quisesse com o único filho de seu estimado amigo falecido.

Vendo o seu pai encarar o 1° Ancião, Xiao Shui perdeu as cores. Ela sabia o quão forte seu pai era. E tinha plena confiança nele. Mas não queria vê-lo batalhando contra alguém tão importante dentro da Família. Ainda mais agora, que sua situação era instável.

Foi então que, a voz poderosa do Patriarca repercutiu, entrepondo-se entre os dois.

― 1° Ancião Dong, eu aprecio o seu entusiasmo em querer disciplinar os jovens travessos. ― O Patriarca fez uma pausa, ergueu o queixo como se estivesse olhando de cima para o 1° Ancião e sibilou, fazendo questão de ser rude. ― Contudo, eu ainda sou o Patriarca. Não é seu dever punir ninguém.

Ouvindo tais palavras, o rosto de Xiao Dong se contorceu em uma careta indescritível. Ele parecia querer amaldiçoar os Deuses e condenar aquela coisa abominável a um inferno de tortura.

Enquanto isso, Xiao Ning, que estava se esforçando para ficar invisível, apenas assistindo tudo de sua posição privilegiada, levou uma pancada no flanco esquerdo, fazendo-o dobrar de lado. Ele colocou uma mão na costela, no lugar em que foi atingido e olhou para o lado. Xiao Shui o encarava ferozmente e, deu-lhe um beliscão. Ao mesmo tempo em que torcia sua pele, ordenou:

― Implore por perdão agora! Isso tudo é culpa sua! Rápido! Implore por perdão! ― esganiçou ela, torcendo o braço de Xiao Ning.

Xiao Shui estava muito desapontada. Na noite passada, por um momento, pensou que Xiao Ning havia levado a sério suas palavras e não voltaria a dar trabalho para o seu pai. No entanto, apenas algumas horas depois, por causa dele ― aquele maldito vagabundo ―, seu pai estava quase brigando com o 1° Ancião. Se tivesse previsto isso, teria ela mesma o expulsado da Família a tapas.

 ― Ai! Ai! Ai! ― choramingou Xiao Ning, tentando se livrar dela. ― Eu não vou implorar por nada. Tenho o meu orgulho.

― Quem se importa com o orgulho de um vagabundo feito você? Peça perdão imediatamente! ― Xiao Shui apertou ainda mais forte o braço de Xiao Ning, fazendo-o uivar de dor.

Ai! Ai! Ai! Está bem! Desculpe-me! Eu não vou fazer de novo. ― desculpou-se Xiao Ning, à Xiao Shui.

― Não é comigo, seu idiota! É com ele! ― apontou para o 1° Ancião.

― Eu não vou me desculpar com ele. E mesmo que fosse, não adiantaria nada. ― disse Xiao Ning, que já estava começando a ter de usar sua Energia Espiritual para suportar a dor.

Ahn? Sobre o que você está... ― Sem entender o que Xiao Ning queria dizer, Xiao Shui estava prestes a apertar seu braço ainda mais forte, quando ouviu o Patriarca tornar a falar, em um silvo intimidador.

― Isso, é claro, se você ainda me respeita como o Patriarca. ― sibilou, olhando friamente para o 1° Ancião.

Quando ouviu tal comentário, ela, que não era nenhuma garota estúpida, soltou o braço de Xiao Ning e se perguntou:

― O que está acontecendo? ― Demorou um pouco, mas, no fim, Xiao Shui percebeu que havia uma inimizade já existente entre o Patriarca e o 1° Ancião. Ela só não entendia o porquê.

Para isso, Xiao Ning respondeu:

― Eu não sei o que está acontecendo, mas parece que o 1° Ancião não gosta muito do Patriarca e o sentimento é recíproco. Além do que, provavelmente o seu pai está do lado do Patriarca. É por isso que o tio Chang e o velhote parecem estar prestes a lutar. ― informou, enquanto massageava o braço, esfregando a pele, tentando aliviar a sensação de queimação.

Como um Alquimista, Xiao Ning precisava estar sempre atento aos detalhes, por mais ínfimos que aparentassem ser. Foi por isso que logo percebeu as caretas do 1° Ancião, assim como a veia saltando em seu pescoço, pulsando enraivecida, quando o Patriarca chegou, ou toda vez que falava. Por esse motivo, ele não teve dúvidas, a bagunça que aprontara, no final, era só uma desculpa para eles se desentenderem.

Enquanto os dois anciões e o Patriarca se encaravam, mais dois homens, que irradiava Energia do Reino Espirituoso, desceram do céu. Eles eram velhos, de cabelos brancos, e trajavam vestes extravagantes que reluzia ao brilho do sol.

― O que está acontecendo aqui, irmão Dong? ― perguntou um dos homens, que se juntou ao 1° Ancião.

― Uma besta fez isso? ― indagou outro homem, que também se juntou ao 1° Ancião, apontando para a cabana, com um aceno de cabeça.

Porém, para essas perguntas, Xiao Dong não respondeu, continuou a encarar o Patriarca com fúria nos olhos.

― Desde que o Patriarca está disposto a assumir a responsabilidade pelos atos desse pequeno bastardo, não há motivos para permanecer aqui. ― exasperou o 1° Ancião, virando-se. ― Vamos! ― disse aos dois homens que tinham acabado de chegar.

Os dois recém-chegados, trocaram olhares curtos, mas cheios de significados. Não precisavam perguntar em voz alta para obter respostas. Estavam plenamente cientes das contendas internas. Dessa forma, sem sequer cumprimentar o Patriarca, levantaram voo junto ao 1° ancião e partiram, deixando um sentimento de hostilidade para trás.

Assim que os três saíram, Xiao Chang foi até o Patriarca e curvou a cabeça.

― Peço perdão! Meu afilhado causou problemas ao Patriarca. ― desculpou-se com sinceridade.

Ahaha! Não há motivos para se desculpar. ― O Patriarca deu um sorriso jovial, abandonando o semblante soturno de antes. ― Mas... ― Ele olhou para o casebre destruído por um tempo, depois para Xiao Ning. ― O que foi que aconteceu aqui?

Xiao Ning olhou para o líder da Família com uma expressão insondável, quando por fim disse:

― Sério? Você também não conseguiu perceber que explodiu? ― Essas perguntas estúpidas cujas respostas eram óbvias irritavam Xiao Ning profundamente. Mas o que mais o irritava, ou devo dizer, frustrava, era todas essas pessoas virem até aqui, só para assistir a sua falha. Havia a necessidade de tanto alarde?

Não podendo deixar esse comentário passar, Xiao Chang se adiantou e deu um tapa na cabeça de Xiao Ning, que fez um som de “Tap!”.

― Garoto idiota! Não seja desrespeitoso com o Patriarca. ― repreendeu, assumindo uma expressão severa.

― Está tudo bem, irmão Chang! Garotos são assim mesmo. ― disse o Patriarca, que não levou em consideração a falta de educação de Xiao Ning. ― Mas, o que eu quero saber é, por que sua casa explodiu?

― Isso mesmo, Xiao Ning. O que aconteceu aqui? ― Xiao Chang também estava curioso. Ontem mesmo ele esteve neste lugar e, naquele tempo, não parecia ter algo capaz de causar tamanha destruição nos arredores.

 Xiao Ning olhou para o lado e coçou a cabeça. Ele não se importava em falhar quando estava realizando uma Composição Alquímica, já que isso era normal. Mas ter de explicar aos outros seus erros, era um pouco vergonhoso e, de certa forma, humilhante para alguém igual a ele, que dedicou milênios de vida a essa arte.

― O caldeirão explodiu. ― sussurrou, virando o rosto para o lado, na esperança de suas palavras serem carregadas pelo vento.

Ahn? O que foi que você falou? ― Mesmo Xiao Shui, que se encontrava ao seu lado, não conseguiu ouvir o que ele havia falado.

― ... ― Xiao Ning ficou um tempo calado, até que, de repente, estalou a língua, deixando um som frustrado escapar de sua boca e falou, com a voz alta. ― Eu disse que o caldeirão explodiu!

― Caldeirão? Que caldeirão? ― indagou o Patriarca, parecendo confuso. Desde quando um simples utensílio de cozinha causaria tal estrago?

― Você fala do Caldeirão Encantado, que a Família Xu lhe deu? ― questionou Xiao Chang. ― Então você tentou fazer Alquimia?

― Ou melhor dizendo, você falhou miseravelmente. ― enfatizou Xiao Shui, olhando para os destroços do casebre, que estava caído por todos os lados.

― Eu não falhei! ― protestou Xiao Ning, indignado. Ele balançou os braços e exasperou. ― Aquele Caldeirão Encantado que estava podre. Se não fosse isso, eu teria tido sucesso, sua pirralha desbocada.

Hunf! Até parece. Você não passa de um vagabundo fracassado. ― debochou Xiao Shui, que fez questão de ressaltar o “fracassado”. Em outra ocasião, ficaria furiosa por ser chamada de “pirralha desbocada”, mas vê-lo tão irritado já era compensação o suficiente para acalmar seus nervos.

Enquanto Xiao Ning parecia prestes a perder as estribeiras com Xiao Shui, o Patriarca que enfim havia entendido o que estava acontecendo, gargalhou:

AHAHA! Então você estava tentando praticar Alquimia. De fato, seria bom ter um Alquimista na Família. Nunca tivemos um. ― Mostrando sua sabedoria e dando seu apoio para esse garoto que era desprezado por quase todos, o Patriarca colocou a mão sobre o ombro de Xiao Ning e continuou. ― Mas, lembre-se! Para ser um Alquimista, antes de qualquer coisa, você deve despertar sua Chama da Essência. E só é possível fazer isso quando alcançar o Reino Virtuoso. Até lá, estude bastante e foque em seu cultivo. Do contrário, você falhará de novo. Tenho certeza que um dia alcançará seu sonho. Só não perca a esperança.

Vendo de perto o Patriarca incentivar Xiao Ning, um garoto que ele acabara de conhecer e não possuía nenhuma ligação, Xiao Shui não pôde fazer nada, senão admirá-lo. O líder da Família Xiao era diferente dos outros que conhecera. Espirituoso. Bondoso. Misericordioso. Essas eram todas qualidades que ele possuía e o tornava um bom líder. Xiao Shui sempre o admirou por isso. Depois de seu pai e irmão mais velho, o Patriarca era a pessoa que ela mais respeitava.

Essa admiração não era exclusiva de Shui. A maioria dos jovens apoiava o Patriarca, pois ele era um dos poucos que os incentivava a crescer e realizar seus sonhos, independente das origens que tivessem. Diferente da maioria dos Anciões, que priorizam linhagens e status.

No entanto, apesar das palavras encorajadoras do Patriarca, Xiao Ning não lhe deu ouvidos e apenas contestou:

― Eu já falei que não falhei! Foi culpa do caldeirão enviado pela Família Xu, que estava em péssimas condições. ― disse, tirando a mão do Patriarca de seu ombro. ― Além do mais, eu já despertei as Chamas da Essência há muito tempo.

― Não seja um mentiroso. ― Xiao Chang o repreendeu. Ele não conseguia acreditar no quão rude seu afilhado estava sendo. Já estava acostumado a isso, porém, agir assim na presença do líder dos Xiaos era inaceitável! ― O Patriarca está dando o seu bom conselho. Você deveria abaixar a cabeça e escutar.

― Mas eu não estou mentindo, tio Chang, veja você mesmo. ― Terminando de dizer isso, Xiao Ning esticou a mão direita e invocou suas Chamas da Essência. No mesmo instante, um lume vigoroso, que emitia um brilho laranja reluzente, brotou da palma de sua mão. ― Até parece que eu iria esperar para chegar ao Reino Virtuoso para fazer algo tão básico. ― zombou.

Xiao Ning era tolerante com muitas coisas. Sinceramente falando, poderiam lhe bater na cara e cuspir em suas roupas que ainda não se irritaria. Contudo, ele detestava que duvidassem de suas habilidades como Alquimista. Quando isso acontecia, sentia-se na obrigação de provar suas proezas.

Tanto Xiao Chang, quanto o Patriarca eram homens de conhecimento profundos. Quando se tratava de cultivo, poucos na Família Xiao poderia se comparar. Suas únicas fraquezas era a Alquimia. Essa técnica lendária, praticada por poucos. Se bem que não seria tão prestigiada e cobiçada se não fosse rara.

Entretanto, mesmo seus conhecimentos sobre Alquimia sendo superficiais, não tinha como eles não reconhecerem aquelas chamas de brilho laranja e presença única, bruxuleando na palma da mão de Xiao Ning. Sem dúvidas, aquelas eram as lendárias Chamas da Essência, de aparência comum, mas tão místicas e divinas.

O Patriarca, certa vez, quando fora na capital, em um dia de sorte, conseguiu se encontrar com um velho Alquimista. Naquela ocasião, o velho Alquimista lhe permitiu ver de perto a criação de uma poção. Por isso ele não tinha dúvidas de que aquele era o mesmo fogo usado pelo ancião para aquecer o caldeirão.

Contudo, isso não fazia sentido. Era de conhecimento comum que somente ao se chegar no Reino Virtuoso alguém poderia despertar as Chamas da Essência. E isso, é claro, somente se a pessoa tivesse um grande talento para a Alquimia. De outro modo, não existiria apena oitenta e sete Alquimistas em todo o Império.

 Mas, neste momento, Xiao Ning, um garoto conhecido por ser um vagabundo, estava de fato usando tais chamas lendárias.

O Patriarca e Xiao Chang tiveram que esfregar os olhos, para ter certeza de que estavam vendo com clareza.

Mas a mais confusa de todas era Xiao Shui. Ela não sabia o porquê de seu pai e o homem mais importante da Família estarem fazendo aquelas caras de bobos e trocando olhares a todo segundo, como se estivessem tentando se comunicar através do pensamento.

Após um tempo, quando enfim conseguiu se acalmar, Xiao Chang olhou para Xiao Ning e perguntou:

― Pequeno Ning, há quanto tempo você sabe usar as Chamas da Essência?

― O que? Essa é mesmo as Chamas da Essência? ― exclamou Xiao Shui, pasma. Como uma cultivadora, ela sabia bem o que era esse fogo tão especial. Só não imaginou que um vagabundo como aquele seria capaz de usá-las. Agora entendia o motivo de seu pai e o Patriarca estarem com aquela expressão abobalhada.

Com um aceno de mão, Xiao Ning fez as chamas desaparecerem, antes de responder:

Hm... acho que umas duas semanas.

― Mais alguém sabe disso? ― perguntou o Patriarca, em um tom de voz que parecia controlado, mas escondia uma urgência implícita.

― Não sei. Acho que não. ― Xiao Ning não estava preocupado com quem sabia ou não que ele era um Alquimista. para ser franco, ele nunca fez questão de guardar segredo algum.

Ouvindo isso, o Patriarca e Xiao Chang se olharam de novo.

― Pequeno Ning, já que sua casa foi destruída, a partir de hoje você irá morar comigo. ― afirmou o tio Chang. E, apesar de Xiao Shui não aprovar isso, ele não lhe deu ouvidos.

― Tudo bem! ― concordou Xiao Ning, dando de ombros, que pouco se importava com o lugar em que moraria.

Ele entendia bem quais eram as verdadeiras intenções de Xiao Chang e do Patriarca ao querer mantê-lo por perto. Mas não ligava para isso, já que dessa forma não precisaria gastar dinheiro reconstruindo sua cabana velha e poderia juntar para comprar um novo Caldeirão Encantado, de preferência, um que, desta vez, não explodisse.

 


Niveis do Cultivo: Mundano; Despertar; Virtuoso; Espirituoso; Soberano do Despertar; Monarca Místico; Santo Místico; Sábio Místico; Erudito Místico.

 


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