Tsunagari Brasileira

Autor(a): Lich


YUMETSUNAGARI

Capítulo 4: Olhos dourados

YUMETSUNAGARI

Olhos dourados 

A tarde caía sobre a floresta de Aokigahara, e em uma caverna escura e úmida se encontrava um homem. O homem tinha roupas rasgadas, cabelo e barba longos, secos e sujos. Suas presas ficavam evidentes enquanto ele falava gaguejando, a voz soando fria.

— Por favor, mestre, eu prometo não te decepcionar na próxima vez…

Ele se curvava diante de uma silhueta grande, apenas os olhos dourados evidentes.

— Quantas vezes eu devo dizer para não sair das redondezas da floresta? Eu apenas te pedi para conferir se há humanos rastejando por aqui perto.

O homem mordeu o próprio lábio, inclinando totalmente a cabeça contra as pedras de forma desesperada. Bateu a cabeça com força e machucou a testa, o sangue se misturando com o suor frio no chão sujo de terra e pedras.

— Me desculpe, mestre! Me desculpe! Eu vacilei… Eu… Eu cometi um grave erro!

Um suspiro pesado e grosso ecoou. O mestre se aproximou, saindo das sombras. Era um homem alto, com cabelo castanho liso e comprido, amarrado. Cicatrizes marcavam seu rosto, algumas com um tom de pele levemente diferente. Usava botas, calça larga e várias camadas de roupas desgastadas. Seus olhos dourados eram chamativos e brilhantes mesmo fora das sombras.

— Subordinado, levante-se.

O homem se surpreendeu com a ordem e hesitou por um breve momento antes de levantar o rosto. Encarou seu mestre com esperança, a testa se cicatrizando rapidamente enquanto um leve sorriso surgia em seu rosto gentil.

— Mestre… Shuten Doji…

Ele sorriu de forma mais evidente, até que de repente seu rosto foi dividido ao meio. A expressão de alegria se transformou em puro horror. Os pedaços de seu rosto caíram no chão junto com o resto do corpo.

Shuten massageou o rosto com as palmas das mãos enquanto soltava um longo suspiro. Virou-se para o cadáver já pálido.

— Por que… eu me sinto tão indiferente?

Ele caminhou até a entrada da caverna. A luz da lua iluminava parte dela. Sua mente parecia uma bagunça, refletida na expressão nervosa de seu rosto.

— Eu deveria… ir dormir.

Olhou mais uma vez para a floresta densa. Nenhum sinal de humanos ou luzes próximas. Entrou no fundo da caverna, deu um leve pulo e alcançou uma pequena entrada no teto. Inclinou o corpo para cima, encaixando os pés e cravando os dedos e unhas nas rochas. Agora de ponta-cabeça, juntou os braços e roupas como um autoabraço, fechou os olhos e adormeceu facilmente sob a fraca luz da lua.

De repente… ele acordou deitado em um chão coberto de folhas, a mão parecendo pequena demais para ele.

— Já acordou?

Ele se inclinou, seguindo a direção da voz, e cruzou o olhar com um homem de marcas na testa, vestindo um kimono branco, cabelo curto, aparentando ser jovem.

— Eh… acordei. Onde estou?

— Você está em meu domínio. É uma grande sorte nascer aqui.

— Nascer aqui? Como… assim nascer?

O homem abriu um sorriso acolhedor.

— Não é óbvio? Você nasceu. Você se tornou um vampiro.

Shuten colocou a mão no próprio rosto, encarando o chão de folhas.

— Você parece confuso… Quer me acompanhar?

Doji encarou o homem antes de concordar. Levantou-se, analisando suas próprias vestes: um kimono simples preto. Os dois caminharam pelas florestas densas de bambu, com pouca entrada para o sol.

— Ei… Como você se chama?

— Eu? Obrigado por perguntar. Me chamo Jizo — respondeu ele, alegre, com um grande sorriso.

— E o seu? Como você se chama?

O garoto desviou o olhar para a estrada por um momento antes de responder.

— Shuten Doji.

— Shuten Doji? Belo nome!

— Obrigado… Na realidade eu acabei de pensar nele.

— Eu imagino. Eu pensei em algo que me familiarizasse comigo ou com minha personalidade e saiu Jizo.

— Eu não pensei muito. Shuten Doji foi o primeiro nome que veio na minha mente.

— Isso é bem triste, Doji. O seu nome deveria ser algo extremamente especial, pois é a sua identidade.

— Eu não acho isso tão necessário… Eu poderia trocar de nome, certo?

Um sorriso se formou nos lábios do sábio.

— Você até poderia, mas ninguém mais te reconheceria por ele.

Shuten sentiu um leve arrepio na espinha com aquelas palavras. Seu olhar cruzou com o rosto tranquilo de Jizo enquanto caminhavam.

— Surpreso?

Eles continuaram em silêncio até o final da trilha. Ao saírem da floresta, notaram uma área aberta e urbana, com gramado baixo. Abaixo da ladeira, o terreno estava limpo, com grama baixa e alguns animais silvestres pastando.

— O sol está quente… e aqui é bem bonito.

— Você achou? Fico feliz que eu não seja o único.

— Por quê? As outras pessoas acham feio?

Jizo pensou brevemente antes de responder.

— Não… os outros vampiros nunca falaram o que acham daqui.

— Então não somos os únicos seres pensantes por aqui.

— Claro que não. Eu tenho meus irmãos vampiros, e também tem os humanos, mas… eu geralmente os evito — disse ele, ainda tentando manter o sorriso enquanto desviava o olhar.

— Bom, vamos.

Jizo começou a descer o morro e Shuten o seguiu.

— Quais são as diferenças entre humanos e vampiros?

— Bem… várias, ao meu ver.

Ele fez uma expressão pensativa.

— A principal é que nós vampiros somos mais fortes que os humanos.

— Isso é bom… certo?

— Vai depender da sua atitude. Um dos nossos vampiros é um pouco… fria até demais.

— ...

— Mas tudo bem! O outro vampiro é bem tranquilo, ao meu ver — completou, a voz tremendo levemente por um instante.

— De certa forma, eu acredito em você.

O sábio acenou rapidamente, deixando a caminhada silenciosa. A brisa era suave, o sol quente mas confortável. Quanto mais Shuten descia, maior ficava a grama, e seus dedos tocavam o verde sentindo a textura familiar… mesmo sendo a primeira vez.

— Jizo, onde você está me levando?

— Estou te levando para onde nós vampiros nos abrigamos. Você vai gostar de lá.

— Quantos vampiros somos?

Jizo finalmente olhou para o garoto novamente.

— Somos três até o momento, mas prometo que somos bem acolhedores.

“Pensei que teria mais vampiros, não deve ser tão ruim como eu imaginei.”

O silêncio voltou. Doji observava outra floresta densa adiante. Seus pensamentos pareciam grandes demais para seu pouco tempo de vida. A floresta transmitia uma mistura estranha de orgulho vigoroso, acolhimento e dor.

— Parece confuso, Shuten. Tem algo em mente?

— Nada a comentar.

A presença dos vampiros era rígida. Ele sentia o estômago vazio, frio, e o suor gelado aumentava a cada passo. Até que finalmente avistou uma casa simples, grande, com palha seca cobrindo o teto e as paredes. Uma pequena fonte de luz saía da porta improvisada e de pequenos furos nas paredes.

— Chegamos! — Jizo sorriu abertamente e agarrou a mão de Shuten, os passos apressados fazendo o jovem se sentir pior, como se algo terrível pudesse acontecer. Com o peito estufado, ele abriu a porta.

— Olá, Tengu! Hoje nasceu mais um!

O jovem Doji levantou o olhar e viu um homem alto sentado em um tronco grosso cortado. Seu kimono verde com branco estava sujo e desbotado. O cabelo negro e longo batia até o início das costas, e os olhos castanhos escuros combinavam com as sobrancelhas grossas e curvadas. Ele dava uma mordida em um pedaço grande de carne.

— Você que é o tal do próximo vampiro que o Jizo falava?

O jovem se surpreendeu com a pergunta, sentindo a voz presa.

— Qual é, eu não mordo. Pode falar.

— ...Sim, eu… eu acredito que sim.

Ele se levantou, revelando um tamanho apavorante, quase o dobro do jovem. Aproximou-se com olhar neutro, quase sério, parando em frente a Shuten e o encarando fixamente. Shuten sentiu um frio intenso. Se desviasse o olhar, tinha certeza de que morreria ali.

“Eu vou morrer, eu vou morrer, eu vou morrer!!”

Sua mente era uma bagunça. Cada segundo sem reação do homem parecia um milagre. Até que, de repente, o olhar sério se quebrou e uma gargalhada alta e exagerada saiu de sua boca.

— Olha a cara dele, Jizo! Parece até que está prestes a morrer!

— Certamente, Tengu. Chega a ser divertido de certo modo — disse Jizo, posicionando-se ao lado dele.

O olhar do jovem também se quebrou, tomado por sincera surpresa.

— Eu não vou morrer?

— Claro que não! Achou que eu iria te matar?

— Sinceramente… sim.

O homem colocou sua enorme mão sobre o ombro de Shuten, cobrindo-o completamente.

— Como se chama, jovem?

— ...Shuten Doji. Você se chama Tengu, não é?

— Ah! Exatamente! Me chamo Tengu, o mais forte entre os três vampiros.

Seu sorriso era radiante, exibindo as presas.

— Hmmmm?... — Tengu olhou ao redor da casa, as sobrancelhas se juntando, visivelmente irritado.

— Ei, Jizo! Onde está a Yuki-onna?

— Eu senti a presença dela aqui dentro de casa.

— Yuki-onna? — repetiu Shuten, sentindo a suavidade do nome na boca.

— YUKIII-ONNAAAA!

Tengu gritou extremamente alto dentro da casa, deixando Doji com um zunido nos ouvidos, enquanto Jizo ficava visivelmente nervoso.

— Ehehe… Tengu, eu não recomendaria você ficar gritando assim… Você sabe que ela não tem paciência.

— Ah? Você acha que eu ligo? Nem para ela dar boas-vindas pro novo vampiro recém—

Antes que terminasse, uma enorme estaca de gelo saiu de um cômodo ao lado em alta velocidade. A estaca perfurou a boca de Tengu, estilhaçando completamente sua mandíbula. O sangue se espalhou pelo chão.

— Ahh?? Tengu!

Shuten recuou apavorado. Mas se surpreendeu ainda mais quando o sangue secou rapidamente e Tengu arrancou a estaca com força. A mandíbula pendurada começou a se regenerar quase instantaneamente.

— Seu idiota cabeça-dura… Eu estava dormindo, verme nojento.

Uma figura saiu das sombras do quarto. Shuten se aproximou de Jizo, buscando apoio. Sentiu o mesmo calafrio que teve ao encontrar Tengu.

— Não sabia que você era tão descuidada com os recém-nascidos, Yuki-onna. Eu fiquei super feliz vendo o nosso novo vampiro.

O homem abriu um sorriso sarcástico.

— Eu mereço um descanso depois de passar todos os dias suportando você.

A figura se revelou: uma bela mulher de pele pálida, kimono branco arrastando no chão, cabelos negros longos até os calcanhares e unhas afiadas. Quanto mais se aproximava, mais frio ficava o ambiente, com uma fumaça gelada saindo dela.

— Não seja tão sem graça, Yuki-onna. A sua vida é tão deprimente assim?

Ele pegou sua lança apoiada na mesa, lâmina grande e completamente negra.

— Você está pedindo para ser torturado.

O clima tenso era demais para o jovem e o sábio. Jizo, visivelmente nervoso, colocou-se na frente dos dois e estendeu o braço.

— Por favor, vamos nos comportar e fazer uma boa impressão para o mais novo vampiro.

Tengu pareceu surpreso com a intervenção. Largou a lança, um pouco desapontado.

— Você tem razão, Jizo. A Yuki-onna não deveria discutir assim — disse, olhando para ela com um sorriso sarcástico.

— O que você disse, seu cretino? A culpa agora é minha?

O ar ficou extremamente frio. A mulher rangeu os dentes e caminhou em direção a Tengu, mas foi parada por Jizo, que parecia ainda mais desesperado.

— Ei, ei, ei, Yuki-onna! Não precisa ficar tão irritada! O Tengu só quer te tirar do sério. Por que não cumprimenta o novo vampiro?

Ela virou o olhar para Shuten. Havia puro desgosto em seus olhos.

— Novo vampiro, né?

— Sim… Shuten Doji. É bom te conhecer, Yuki-onna.

“Qual é o problema desses vampiros?!”

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