YUMETSUNAGARI
Capítulo 2: Graça
YUMETSUNAGARI
Graça
O sol forte bate em minhas pálpebras, atrapalhando meu sono. Acordo sem abrir os olhos, sentindo a cama um pouco maior do que ontem. Esse vazio me incomoda o suficiente para eu abrir os olhos e notar que Akihiro não está mais deitado ao meu lado.
— Aki? — chamo baixo, quase um sussurro para mim mesma.
Me levanto da cama ajeitando o short desajeitado e desço as escadas coçando o olho. Na cozinha, Akihiro e Rem estão sentados juntos tomando café da manhã.
— Bom dia, Misaki. Não quis te acordar pra não atrapalhar seu sono
— Está tudo bem, Aki. Fico feliz em ter acordado bem na hora.
Falo enquanto arrumo o cabelo bagunçado de qualquer jeito e me sento ao lado deles.
— Bom dia, senhora Misaki. Dormiu bem? — Rem pergunta educadamente.
— Ei! Não precisa me chamar de senhora, vou pensar que estou ficando velha — respondo com uma risada suave, bagunçando o cabelo dele.
— Ah, desculpa… É por educação.
Aceno olhando para o meu prato: sopa, arroz e salmão grelhado.
— Espero que goste. Dessa vez eu que cozinhei, em vez do meu irmão tapado Akihiro — Rem fala exibindo um sorriso orgulhoso.
— Seu boca grande! Você só sabe cozinhar por minha causa!
— Mas eu cozinho melhor que você.
— Ora, seu…
Acabo rindo da situação, e os dois garotos viram o rosto para mim ao mesmo tempo.
— Vocês pelo visto se resolveram, né? Fico muito feliz por isso…
— Ah, bem… Sim, nós resolvemos
— Você contou pra ela, Akihiro?!
— Claro? Ela é a minha namorada, afinal de contas.
Vejo o rosto de Rem avermelhar ainda mais enquanto ele tapa os olhos com as mãos.
— Tudo bem, eu compreendo você, Akihiro — digo com um tom leve.
— O que você disse? Não ouvi direito — Akihiro responde em tom sarcástico brincalhão.
— Você ouviu!
Abro um pequeno sorriso vendo os dois se dando bem. Depois do café, Akihiro recolhe todos os pratos e talheres e coloca na pia.
— Você quer ficar aqui até o almoço, Misaki?
— Sinto muito, Aki, vou almoçar na minha casa mesmo.
— Sem problemas. Qualquer coisa você vem aqui outro dia.
— Eu vou sim. Se quiser, eu chamo a minha mãe para o Rem conhecer ela.
— Eu gosto da ideia. Se quiser pode se arrumar no meu quarto, tem algumas roupas suas no meu guarda-roupa.
Abro um grande sorriso e dou um beijo na bochecha dele.
— Eu gosto dessa ideia da gente manter algumas roupas no guarda-roupa um do outro.
— Eu também adoro. Facilita caso a gente vá dormir na casa do outro.
— Exatamente. Vou me arrumar, ok?
Ele acena e eu subo de novo para o quarto dele. Troco de roupa: short feminino laranja, camisa branca e por cima um moletom vermelho.
— Está um pouco frio hoje… Esqueci de levar uma calça para ele guardar — murmuro para mim mesma me olhando no espelho.
Desço até o primeiro andar. Akihiro e Rem já estão na porta da frente me esperando.
— Tem certeza que não quer ficar até o almoço? — Akihiro pergunta, colocando a mão no meu rosto com carinho. Sua mão quente se encaixa perfeitamente em minha bochecha.
— Tenho certeza. Ainda vamos nos ver no resto dessas férias, certo?
— Certo…
Ele me abraça, me puxando mais perto, e me beija nos lábios. Retribuo sorrindo boba durante o beijo.
— Ei! Sem agarração do meu lado!
Viro para ele dando uma risada suave.
— Claro, sinto muito, Rem.
Me afasto e me aproximo da porta.
— Obrigada vocês dois por deixarem eu dormir aqui. Até a próxima.
— Tchau, Misaki — Rem acena e já se vira para o quarto dele.
— Adeus, Misaki. Até a próxima.
Aceno saindo pela porta, deixando a casa dos Nishida. As ruas estavam vazias para um sábado. O sol era fresco, combinava com o clima.
— Hoje está perfeito para ficar à toa… Talvez eu escreva um pouco.
A caminhada parecia comum enquanto eu passava pelo parque de sempre, seguindo o mesmo caminho de todos os dias sem esperar nada de diferente. Até que meus olhos se fixam em uma figura sentada no balanço. Algo nela parecia estranhamente familiar. O terno preto que vestia, quase unissex, destoava do ambiente tranquilo do parque. O cabelo castanho estava bem mais curto que o normal, em um corte quase masculino, algo que eu não lembrava de já ter visto antes. O balanço rangia suavemente enquanto ela se movia. Então a pessoa levanta o rosto… e naquele instante eu reconheço aqueles olhos vermelhos inconfundíveis. Era Kimiko.
— Kimiko?
Minha voz sai cheia de estranheza. Olho em volta, notando que não tem ninguém ali. Me aproximo devagar até ficar ao lado da vampira.
— Olá, Kimiko. Não esperava ver você aqui… com essas roupas também.
Kimiko me encara fixamente. Seus olhos vermelhos atravessam meu rosto, carregados de um grande desconforto.
— Ah, oi Misaki. Decidi mudar um pouco o visual. Me sinto… mais confortável assim.
— Compreendo. Está linda a roupa.
— Agradeço, Misaki. Está voltando da casa do Akihiro?
— Como sabe? — pergunto, franzindo a sobrancelha.
— Meio óbvio… Já fui visitar ele várias vezes, e sei que o único lugar que você visitaria é a casa dele.
— Oh… — desvio o olhar, cobrindo a boca com a mão.
— Não precisa ficar assim — ela fala entre um riso suave. — Por que não senta aqui?
Olho para ela de novo. Kimiko bate levemente a mão no balanço ao lado. Abro um pequeno sorriso e me sento, usando os pés para balançar. Ela nota e faz o mesmo.
— Então, Misaki… Como está pensando nesses últimos dias?
— Vai começar outra sessão de terapia? — digo entre um riso sarcástico.
— Não exatamente… Notei que você falou de várias coisas, menos de uma. Isso me estranhou bastante.
— Por que você estranha?
— Achei que você falaria do seu pai para mim. Principalmente dele ser a razão dos problemas da sua irmã e da sua mãe.
— Ah, não precisamos falar sobre isso. Eu já superei.
Kimiko me olha com certa desconfiança.
— O que foi?
— Não confio em você. Meio óbvio.
— Mas por quê? Você não me deu um motivo plausível.
Ela suspira olhando para o céu enquanto ainda balança devagar.
— Você ainda é frágil, Misaki. Em uma situação como a que você passou, é impossível não despertar uma curiosidade, pelo menos.
Ela se vira para mim de novo.
— Essa sua atitude me lembra a do Akihiro quando eu o conheci.
Fico calada, olhando para meus pés que cravam no chão para dar impulso ao balanço, com um leve olhar deprimido.
— Sabe, Misaki… Apesar de não ser tão boa em escutar outras pessoas que não seja o Akihiro, você pode conversar comigo.
Viro o olhar para os pés de novo.
— Eu queria saber quem foi o meu pai.
Vejo o sorriso de canto de boca dela. Kimiko começa a balançar no mesmo ritmo que eu.
— Prossiga.
— O meu pai era um tal de Shuten Doji, não é?
— Exatamente.
— Então… Ele foi uma pessoa horrível, mas eu gostaria de saber um pouco sobre… ele.
— Bem… — Kimiko para o balanço e se levanta. — Vamos na gangorra? Quero brincar de outra coisa enquanto conversamos.
Concordo. Vou até a gangorra, me sento em um lado, e Kimiko se senta no lado mais alto. Dou um impulso para ela subir, e ela me devolve.
— Shuten Doji foi um dos únicos vampiros primordiais que sobraram e ainda estão vivos.
— Sério? Quantos vampiros primordiais existem?
— Bom, cinco, no total. Mas dizem que esses primeiros vampiros tinham poderes além da compreensão humana.
— E por que eles morreram?
— Lendas dizem que foram sacrificados. Os únicos que continuam vivos são Shuten Doji e Ebisu.
— Ebisu… Eu já entrei no túmulo dela para salvar o Akihiro. Me lembro disso.
Ela sorri para mim.
— Exatamente. Apesar de ter um túmulo, ela ainda está viva.
— Como você sabe disso tudo, Kimiko? Você também é uma das vampiras primordiais?
O olhar dela muda rápido, fica surpresa, mas logo dá uma leve risada.
— Claro que não. Sou apenas uma vampira qualquer.
— Mas você já fez algumas coisas que eu não vi nenhum vampiro fazendo até agora.
— De vampiros você já viu quatro, e esses vampiros não são iguais.
— Tem razão… O Aki é meio um, você tem esses poderes, o Akagawa era um semideus… A única “normal” é a Morgan.
— Vampiros como a Morgan são mais comuns. Mas isso é a prova de que nenhum vampiro é comum.
Ela desvia o olhar por um breve momento, depois volta a me encarar.
— Mas eu sou assim porque rezo e tenho muita fé pelos vampiros primordiais.
Me surpreendo com a resposta, mas mudo de assunto.
— Sabe, Kimiko… Vamos trocar de brinquedo?
Ela acena. Vamos para o escorregador. Ela sobe as escadas e desce. Eu faço igual. Ficamos assim um tempo.
— Sabe, Misaki… Além da curiosidade, por qual motivo você quer saber sobre Shuten Doji?
— Não faço ideia…
— Que curioso. Você tem noção do quão perigoso é?
— Sim, notei com base nas minhas experiências.
Subo as escadas de novo. Vejo o escorregador pronto enquanto Kimiko me espera embaixo.
“Eu tenho um motivo?” — me questiono enquanto desço.
— Eu tenho… mas não consigo pensar bem agora…
— Talvez… pela sua família? Sua mãe?
— A minha mãe? Não acho. Apesar de eu amar ela, ainda penso em tudo que passei na mão dela…
— Espere.
“Em todas que eu pensei, eu pensei em poucas. Mas não nele…”
A imagem de Akihiro surge na minha mente, e eu abro um sorriso bobo enquanto brincamos com outros brinquedos. Desço das barras onde estava brincando e me sento no chão.
— Talvez… seja pelo Akihiro.
— Por ele?
— Sim, por ele. No final das contas, eu quero que o Akihiro se esforce menos. Ele ajuda tantas pessoas, mas eu sinto que sou inútil demais para retribuir o favor.
— Onde pretende chegar?
Kimiko sai das barras e se senta na minha frente.
— Se eu for sofrer, eu quero sofrer por ele. Gostaria de fazer ele sair desse mundo dos vampiros.
— Isso é impossível… Apesar de você provavelmente já saber tudo que ele passou quando virou vampiro. Ele sempre será um. Sempre vai conviver com os demais.
— Eu pelo menos tentaria. O Doji uma hora ou outra pode surgir na minha vida de novo, e o Akihiro vai estar ali para me proteger… Eu odeio ver ele se ferindo.
— Ele se regenera, Misaki.
— Eu sei, eu sei disso…
Meus olhos se abaixam para os joelhos.
— Eu sofreria tudo que ele passou e vai passar. Quero ser útil para ele.
— Pelo visto você ainda não entendeu esse ponto.
— Que ponto?
— Você o ama, mas o seu amor é tão forte porque ele foi a primeira pessoa a querer o seu bem.
— Onde pretende chegar?
— É claro que o seu amor é verdadeiro, mas você acaba pensando menos em você mesma. Quer retribuir os favores.
— Isso… Isso não é justo! — grito, sentindo os olhos se encherem. As lágrimas caem nos meus joelhos.
— O Akihiro salvou a minha vida, e eu quero salvar a dele. Quero ser útil para alguma coisa, quero ajudar ele.
— Você não precisa pensar assim. Está paranoica.
— Eu apenas… queria proteger ele.
— Você já o protege.
Minha face muda drasticamente. Levanto o rosto olhando diretamente para Kimiko.
— Pode dizer isso de novo?
— Você já protege ele, Misaki.
— Como?
— Acha que se você não fosse a namorada dele, ele estaria do jeito que está?
Fico quieta, sem saber responder.
— Você na vida dele fez diferença. Faz ele se distrair e pensar menos nesses assuntos que o perturbam.
— Por que eu não enxergo isso?… Por quê?!
— Humanos nunca enxergam qualidades em si mesmos. Isso acontece com você.
— Você… acha que ele está feliz comigo assim?
— Claro que está. Você é a graça dele. Mas antes de dar a sua vida por ele, você precisa se aceitar.
Aceno limpando as lágrimas.
— Eu sei que você não vai se aceitar agora. Ninguém muda de um dia para a noite.
— Eu compreendo isso…
— Apesar das minhas palavras não serem de motivação… Eu vou te ajudar com qualquer coisa.
— Você vai me ajudar?
— Claro. Qual vai ser o meu favor?
Suspiro, me levantando enquanto limpo as lágrimas.
— Me ajuda a enfrentar o Shuten Doji, por favor.
Kimiko se levanta ficando na minha frente. Coloca a mão no peito, perto do ombro.
— Seu pedido será realizado.
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