Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Ato 1

Capítulo 9: Hesitação

— Surghurn sempre foi a terra sagrada dos domadores. De acordo com a doutrina da Urnukr, ali onde hoje é o jardim templo, existia o antigo jardim sagrado, território outrora habitado pelos homens e animais primordiais.

— E o que aconteceu com esse tal jardim mágico? — disse pontinho enquanto escrevia as informações que Rakhar falava.

— Não era um “jardim mágico” ... por acaso está zombando de mim?

— Me desculpe, me desculpe. Não quis debochar da sua cultura.

— Quer mesmo que eu te fale tudo que sei sobre a religião dos domadores?

— Sim, sim! Temos tempo até chegarmos a Merghurn. Ainda mais com essa charrete lenta desse jeito.

— Ei, eu estou ouvindo tudo, engraçadinho! — disse o charreteiro que guiava os cavalos do lado de fora da carroça.

— Como eu disse, tudo começou quando Urn criou os seres vivos e os colocou no jardim sagrado. Todos viviam em harmonia até o momento da ruptura.

— Ruptura?

— Sim. A convivência harmônica entre Deus e os seres vivos no jardim sagrado se baseava no amor e obediência a Urn. Porém, a história diz que um espírito do caos, um trognosh, possuiu um lobo, que por sua vez matara um cervo e se alimentara dele.

— Trog-alguma-coisa, lobo, cervo... — Pontino pediu uma pausa para escrever. — Sim, continue, continue.

— Algumas versões dos poemas sagrados dizem que o lobo assou a carne, e o cheiro atraiu outros animais, dentre eles o homem, que fora escolhido por Deus para cuidar do local, mas ao invés disso, se alimentou do bicho morto. Aquela atitude deixou Urn irado, e ele puniu a todos pela desobediência, uma vez que ele havia proibido o assassinato de outros seres vivos. Assim, ele retirou o jardim sagrado dos seres vivos, que não poderiam mais se alimentar dos frutos da imortalidade contidos no local. A humanidade, como resultado da desobediência e por ter dado ouvidos ao lobo, foi condenada a passar a eternidade atormentada pelos espíritos do caos, tendo uma alma de lobo corroendo seu espírito. Contudo, Urn, com pena dos homens, deu a alguns escolhidos o espírito do leão, e a capacidade de controlar esses animais poderosos para que eles expulsassem os espíritos imundos das pessoas atormentadas.

— Nossa! Que história fascinante! Mas tem uma coisa que ainda não entendi. Como vocês conseguem controlar as feras. As palavras que vocês dizem, que idioma é aquele? É um poder passado de pai para filho? É algum tipo de técnica secreta?

— Como eu disse, todo homem tem dentro de si um espírito de lobo, a parte caótica e má, herdada do caos e da desobediência. Os domadores, por sua vez, tem o espírito do leão, a parte boa, dada por Urn. Os membros da Urnukr desde criança são doutrinadas nos ensinos do caminho. A Urnukr tem dois livros sagrados, Os Poemas da Criação e da Verdade, e o Livro dos Rugidos. Este segundo livro contém linguagem antiga que nunca fora traduzido para o dialeto atual. Pouco se sabe sobre a pronuncia dos termos contidos ali. Os livros dos Rugidos contém os comando para se controlar um leão. Uma dessas palavras é bastante conhecida por nós, Garut. Garut é a chave da doma do leão. Assim que a criança aprende as doutrinas da Urnukr, ela se torna apta a tentar domar um leão. Ela vai até a campina dos leões e pronuncia a palavra de doma. O leão julgará se o espírito dela é aprovado ou não, e se for aprovado, a pessoa se torna um domador.

— E se não aprovado?

— O leão a devora...

Pontino se assustou. Confiar a sua vida ao julgamento de uma besta parecia-lhe deveras arriscado.

Quase um dia inteiro havia se passado. Pontino continuou a conversa com Rakhar por todo o percurso, desde a manhã quando saíram de Erug, até a noite, no ponto final do destino em Kimam, fronteira entre o distrito de Arnghurn com Merghurn.

— Este é o meu destino final, companheiros. Prometi ao prefeito que os levaria somente até aqui. Espero que saibam o tamanho da loucura que estão fazendo, colocar os pés em Merghurn é suicídio.

— Não se preocupe, Rubius. Meu amigo aqui é muito forte.

Rubius encarou Rakhar e Mro por uns instantes, e logo desviou o olhar da feição mal-encarada do domador.

— Se você diz. — O Charreteiro fez uma breve saudação, deu as costas e foi embora.

— Acho melhor acamparmos hoje à noite e continuarmos pela manhã — disse Pontino.

Rakhar retirou da sua bolsa uma colchão de palha trançada e o forrou com um lençol preto. Mro logo tratou de deitar ali.

— Leão folgado — falou o mercenário.

— Por que as pessoas de Arghurn tem tanto medo daqui? — disse Pontino enquanto preparava a sua cama sobre o chão.

— Há muito anos Ghurn fora um reino unificado. No entanto, os vários conflitos políticos racharam o império. Os outros povos, sabendo do enfraquecimento da região, invadiram os distritos e os dominaram. Arnghun, por conta da rota marítima com o ocidente, tornou-se um território multiétnico. Surghurn, por conta do templo se tornou o centro religioso e da “pureza” do povo ghurnida. Merghurn, o estado do “meio”, virou um tampão que divide o norte “sujo” do sul “limpo”. Merghurn tornou-se então a terra sem importância, fértil para que bandidos e malfeitores a dominasse. Como se não bastasse tudo isso, a região tornou-se também o local de uma religião totalmente antagônica à Urnukr, a religião dos lobos, os piores inimigos dos leões...

 

Tirando o frio da madrugada, passar a noite no deserto de Merghurn foi mais tranquilo do que o domador e o escriba achavam que seria. Embora Rakhar tenha mantido a vigília quase a noite toda, nada de ruim aconteceu. Talvez a única coisa que tenha preocupado o guerreiro carrancudo foram os uivos dos lobos, que logo se dissiparam na calada da noite.

Quando os primeiros raios de sol despontaram no horizonte, Pontino levantou-se. Rakrar, apesar de ter dormido pouco, também já estava de pé amarrando o colchão de palha e guardando as suas coisas.

— Há uma cidade próxima daqui. Estou pensando em ir até lá para comprar suprimentos e contratar um charreteiro que nos conduza até Surghurn — disse Rakhar.

— Ótimo, Ótimo.

— Quero que fique aqui com o Mro enquanto eu estou fora.

— O-o quê? Vai me deixar sozinho com esse bicho?

Mro começou a rosnar para o escriba.

— Domadores de leão não são bem-vindos em Merghurn, ou seja, não posso andar por aí com o Mro. Você não conhece nada aqui, não tem habilidade de combate e tem cara de idiota. Qualquer um pode roubá-lo. Se ficar sozinho neste deserto, pode ser morto, sendo assim...

— Tá bom, tá bom. Eu entendi.

— Mro, proteja o imbecil enquanto eu estou fora.

Whouf! — O leão acenou com a cabeça.

 

Rakhar dirigiu-se à cidade, próximo ao local do acampamento. O lugar era tão pobre quanto as favelas de Erug, mas o mal cheiro era ainda pior, uma mistura de frutas e legumes podres mesclado com peixe estragado.

O povo de Merghurn era bem parecido com o povo de Arnghurn, tirando o fato de Arnghurn possuir mais pessoas brancas por conta dos sâmidas e outros viajantes do ocidente. Rakhar, como um autêntico ghurnida, poderia passar desapercebido.

O domador cobriu o rosto com um lenço para não ser reconhecido, e para bloquear um pouco daquele cheiro insuportável. Procurava por alimentos mais tragáveis do que os expostos à vista.

Após uma longa procura, encontrou uma mulher que vendia pão e vinho, além de tâmaras frescas.

— Quatro pães e um odre de vinho, por favor — disse o domador de maneira direta.

— Pois não, senhor?! É pra já! — A mulher desembrulhou os pães envoltos em um pano bege.

— Por ventura, a senhora teria também algum tipo de carne para vender?

— Tenho carne de carneiro salgada, pode ser?

— Sim. Quanto fica tudo?

— Uma moeda de prata, senhor.

— U-uma moeda de prata?

O grito de Rakhar atraiu o olhar curiosos daqueles que passavam pelo mercado.

— Me desculpe — disse o domador num tom mais amigável. — Uma moeda de prata é um roubo descarado!

— Desculpe-me, forasteiro, mas o preço é esse. Se não quiser, compre em outra banca...

Rakhar olhou paras os lados a fim de encontrar um outro lugar, entretanto, aquela banca era a melhor que encontrara.

— Que os lobos te carreguem! — Rakhar deu a moeda a contragosto e pegou as mercadorias.

— Ah, sim! Blá, blá, blá! — A mulher deu uma boa olhada na moeda. — Prata sâmida. Você não me parece um ocidental...

— Não enche! — O domador saiu bufando. — Malditos merghurnidas! Bastardos, desgraçados!

O mercenário praguejou por quase todo o percurso. Aos olhos dos locais, parecia apenas mais um maluco que andava errante por ali. Partiu em busca da sua segunda missão, encontrar um charreteiro que os levassem até Shurghurn, mas tendo em vista a índole dos comerciantes locais, preparava-se para desembolsar uma grande quantia no transporte.

Rakhar continuou andando, mas uma estranha sensação tomou conta do seu ser. Era como se ouvisse passos leves próximos a ele. Virou-se uma segunda vez, e percebeu alguém se escondendo em uma viela. Fora averiguar, e encontrou uma criança, por volta dos dez anos, toda esfarrapada, suja e mal cheirosa.

— O que você quer moleque? Se continuar me seguindo irá apanhar!

A criança estendeu a mão como se pedisse um dos pães que o mercenário comprara.

— Esse pão me custou o olho da cara! — O domador virou e tentou ignorar, mas partiu o pão e deu para o jovem. — Agora some daqui!

Rakhar continuou seguindo o seu caminho, contudo, a criança continuava a acompanhá-lo. O mercenário respirou fundo, e preparou-se para gritar, mas desistiu ao olhar para aquela pobre criatura.

— Escute, garotinho, você tem que voltar para os seus pais. Eu não posso cuidar de você — disse o domador.

— Eu não sou um garotinho, sou uma menina.

Rakhar ficou envergonhado.

— Não importa! Volte pra casa! Já te dei comida!

— Eu não tenho casa. Não tenho pais. Moro na rua e como a comida que os outros me dão.

É dever dos domadores o cuidado dos órfãos e pobres. Essas palavras ecoavam na mente do ghurnida.

Por que eu ainda me importo com isso? Eu sou um mercenário. — O domador pensava consigo mesmo.

— Você não é daqui, é? — A garotinha falou com a boca cheia de pão.

— Não. — Rakhar continuou andando.

— De onde você é? — A menina acompanhou o mercenário.

— Não te interessa.

— Você é um guerreiro? Tem roupa de guerreiro.

— Será que não dá pra você comer e calar a boca?

— Você é um matador? Quantas pessoas você já matou?

— Era o que me faltava... guarda costas de um idiota sâmida e babá de uma pirralha de merghurn. — Rakhar parou de andar e olhou para o céu. — Quem diria hein, Urn! O Senhor realmente é um brincalhão! Há, há, há!

— O que é tão engraçado? — disse a garotinha.

— Às vezes Deus gosta de nos dar uma boa lição...



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