Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Ato 1

Capítulo 8: Medo

No mesmo dia em que se reunira com os kirks e com o rei, Paramhud realizou uma outra reunião à noite em sua casa. Tratava-se de uma solenidade privativa e contava apenas com a participação dos cinco clérigos da Urnukr.

A casa do alto sacerdote era tão majestosa quanto a do rei, porém um pouco menor. A sala de estar em que estavam reunidos era espaçosa, com divãs e poltronas espalhadas sobre os belos tapetes vermelho. Nas paredes haviam tapeçarias ghurnidas gravados com os leões sagrados.

Os religiosos se banqueteavam com vinho e cordeiro assado. Eram servidos por um grupo de belas mulheres. No entanto, a alegria do momento fora interrompido por uma forte batida no portão principal.

Uma das servas da casa verificou a ocorrência e se dirigiu até Paramhud, que estava assentado na poltrona principal, e lhe sussurrou algo no ouvido.

— Diga a ele que estamos em uma reunião importante e que não posso atender agora — disse o alto sacerdote.

— Mas, senhor, o servo disse que o rei está à porta...

Quando a mulher terminou de falar, todos se calaram e arregalaram os olhos na direção de Paramhud.

— O Rei? Aqui a esta hora? — falou um dos velhos sacerdotes.

— Mande-o entrar...

Aru andava a passos rápidos e entrou no salão principal com muita pressa.

— Alto sacerd... — Ao avistar a festinha dos clérigos, regrado a bebidas e mulheres, Aru calou-se de imediato. — Senhor Paramhud, o-o que significa isso?

— Não seja ingênuo, Aru. É isso mesmo o que vê.

— Mas... e todo aquele discurso de que os domadores deveriam se abster dos prazeres carnais? Ah, droga, deixa isso pra lá, eu vim aqui por outro motivo. — Aru balançou a cabeça em sinal de negação. — Senhor, eu vi um lobo em Kherug! Um domador de lobo!

A feição de todos mudou em questão de segundos. Paramhud exigiu que todas as mulheres e servos saíssem da sala.

— O que disse? — falou o alto sacerdote.

— E-eu vi um domador de lobo aqui em Kherug, senhor.

— Está louco? Onde você viu? — disse um dos clérigos.

— Na...— Aru pensou por um segundo. — Na praia, senhor.

— O que você fazia na praia, sozinho, no frio do meio da noite, Aru? — Paramhud levantou-se do divã e dirigiu-se ao jovem rei.

— Eu estava... eu estava caminhando.

— Alto sacerdote, se o que ele diz for verdade... — falou um dos velhos.

— Cale-se, Qirh! Estou falando com o moleque!

O leão do Paramhud começou a rosnar para o clérigo que interrompera seu mestre.

— Aru, não me subestime. Você sabe que eu vejo tudo, que eu sei de tudo o que acontece neste reino... O que você estava fazendo naquela maldita praia?

— Eu já disse que estava caminhando!

— Pois bem...Yura, traga o traidor até aqui!

Um dos sacerdotes se levantou do divã e foi até um outro cômodo da casa. Ao voltar, trazia consigo um homem amarrado e todo espancado.

— D-Dier? — O jovem domador começou a tremer de medo.

— O que esse homem estava fazendo contigo na praia? — O alto sacerdote gritou impaciente.

Ele não sabe da carta. O Dier deve tê-la destruído — pensou Aru. — E-eu estava apenas revendo um velho amigo.

— Não minta pra mim moleque! Qurot, Ragrut!

Qurot, o leão do alto sacerdote, abriu um olho no meio da testa e deu um rugido longo e baixo. De repente Dier caiu no chão e começou a gritar.

— A-aquele olho na testa. O que é aquilo? — Aru foi em direção ao amigo, mas foi impedido por Paramhud.

— Se você não disser o que foram fazer na costa, a cabeça dele irá explodir!

— Dier!

— Aaaaargh! — O espião gritava e rolada no chão de dor. O seu nariz começou a sangrar bastante e os seus olhos ficaram vermelhos como um rubi.

— Dier! Pare com isso, Paramhud! Eu... eu dig...

— N-não, A-Aru! — Dier interrompeu a fala do rapaz. — Aaaaaargh! Aaaaaaaargh! Não diga...

— Que pena... — disse Paramhud.

Segundos depois Dier parou de gritar e de se mexer. Morrera estrebuchado no próprio sangue.

— Nãããaaaaaaaao! — Aru partiu para cima de Paramhud e lhe deu um soco. O alto sacerdote fora lançado sobre um dos divãs da sala e começou a sangrar pelo nariz. Aru pegou a sua adaga e chamou Krur, que estava à espreita atrás da porta do salão.

— Sacerdote Paramhud! — disse um dos velhos que correu na direção do domador para ajudá-lo.

— Qurot, Ranurut!

 O leão sagrado de três olhos deu outro rugido só que dessa vez mais alto e mais longo. O som da fera fez com que todos da sala caíssem e tapassem os ouvidos, mas era inútil. O rugido doía na alma.

Nem Aru, nem Krur conseguiam se mover. Quando estavam a ponto de desmaiar, Paramhud deu o comando para seu animal calar-se.

— Até que é corajoso, moleque. É o segundo homem, que mesmo conhecendo a minha fama, tem coragem de me socar diretamente.

— O que significa isso, Pahamhud? — Aru chorava copiosamente como uma criança. — Esta festa profana, os lobos em território sagrado e o desacato ao rei escolhido por Deus? Que tipo de sacerdote você é?

— Há, há, há, há! Mais é muito ingênuo mesmo. Sabe, Aru, o homem cria pra si muitos deuses, Urn, o Sol, a Lua, mas no final das contas, todos servem apenas a um único Deus, o Poder! Eu sou um servo do Poder, e uso de todos os meios possíveis para cortejá-lo, inclusive tolerar um moleque e a crença dos idiotas deste reino

— Sacerdotes! Vocês o ouviram! É um blasfemo! Irão permitir que esse herege domine sobre nós? — disse Aru.

Os sacerdotes permaneceram calados e imóveis.

— Viu? Todos concordam comigo. Ouça, Aru... — Paramhud se dirigiu ao rei e pegou em seu queixo. — a partir deste momento, esqueceremos tudo o que aconteceu aqui, entendeu? Você vai voltar para o seu palácio, continuará fingindo-se de rei, e tudo ficará bem!

— Maldito, desgraçado! Você nos manipulou todo esse tempo! E como você ousa dizer que Urn não existe? De onde vem o nosso poder?

— Eu não disse que Urn não existe. Só não me importo.

— Que os lobos te devorem no juízo final! Eu não irei descansar até te matar, trognosh maldito!

— Nossa! Que selvageria! Não foi por esse homem que a nossa querida Lahin se apaixonou...

Aru se calou por um segundo. O medo voltou a consumi-lo.

— Mal...maldito! Não diga esse nome!

— Lahin, Lahin, Lahin. Tão jovem, e bela...

— Tudo bem! Por favor, Paramhud, não toque nela! Isso é entre nós dois.

— Para o deus Poder nós sacrificamos tudo! Ele não é um deus moralista como o seu Urn. Só que, quando oferecemos tudo, ele nos dá tudo! O que me diz?

O jovem rei abaixou a cabeça em sinal de rendição.

— O Rakhar era melhor do que você...

Ao ouvir aquelas palavras, o alto sacerdote começou a tremer. Calou-se por um segundo, sua feição era irreconhecível. Os sacerdotes velhos se afastaram, pois sabiam o que aquilo significava.

Aru apagou.

 

O rei acordou no dia seguinte, deitado em sua cama e com uma faixa na cabeça. Tudo doía, mas mesmo assim esforçou-se para levantar.

Sentou-se sobre a cama, e no mesmo instante, vomitou no chão, quase acertando o leão branco.

— Droga!

Aru, ainda com muito esforço, se deslocou até a janela do quarto, abriu as cortinas e começou a contemplar o mar.

— Rakhar, cadê você, amigo? Aonde foi parar?



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