Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Ato 1

Capítulo 7: Tarefa Árdua

— Onde estou?

— Taberna da Furhema. Você estava desacorda e eu a trouxe para cá.

— O que fez comigo? Me molestou?

— Te salvei de um leão ensandecido, sem domador e que me atacou sem nenhum motivo! No entanto, o mais curioso dessa história é que o animal maluco não estava atrás de mim, mas de uma prostitutazinha barata de Erug! Se não bastasse tamanha insanidade, aparentemente o leão nutria sentimentos quase humanos, de amor e ódio por tal pessoa! Por Urn, poderia escrever uma canção de amor com essa histó...

— Pare! Cale a boca!

— Quem era aquele leão maldito?

— Leão o quê? Que diabos...

— Não se faça de tola! O antigo dono daquele leão que te perseguiu a noite passada era um dos seus amantes, não era? Você provavelmente deve tê-lo abandonado, o que fez com que a mágoa do domador passasse para o animal, e o bicho veio até aqui para dar cabo da sua vida...

— Eu o amava! Eu o amava! — A mulher desabou em lágrimas.

Rakhar se calou por um tempo. Deixou a moça desabafar.

— Conheci um domador há um tempo. Ele era um homem gentil, e mesmo sabendo que eu era um prostituta barata, não deixou de ser bom comigo... Todos os outros domadores o censuravam por ele se macular com uma meretriz de Erug, mas mesmo assim ele não deixava de me trazer flores e me visitar. Eu realmente o amava...

— Então é pior do que eu imaginava...

— O que quer dizer?

— Paixões destroem domadores!

— Então domadores não podem amar? Não podem gostar de alguém?

— Uma coisa não tem nada a ver com outra. Essas filosofias estrangeiras... Amor e paixão não são necessariamente equivalentes. A paixão é cega, movida apenas pelo desejo desenfreado. O homem apaixonado está fora de si, e isso o enfraquece. Domar um leão exige muita perícia mental e espiritual, e a paixão deixa o guerreiro desatento. A doma consiste numa batalha entre o espírito do homem e o espírito da fera, se o espírito da fera sobrepujar o seu dono, o animal mata o seu senhor. O leão do seu namoradinho aproveitou-se da fragilidade da alma dele e o matou! E como se não bastasse, ainda absorveu junto os sentimentos dessa pessoa. Por isso ele te perseguiu.

— Como... como você sabe dessas coisas?

— Aconselho que vá até Kherug, procure um dos sacerdotes e purifique-se. A energia do caos dos leões malditos costuma atrair lobos. Você não vai querer passar a vida toda fugindo de feras sedentas pelo caos, vai?

Rakhar se dirigiu até a porta do quarto, abriu e fez um sinal para que a mulher se retirasse. A prostituta ficou parada com os olhos arregalados, fitados no domador.

— Cai fora daqui, eu tenho que trabalhar!

A mulher, no ímpeto do susto, se levantou e correu para fora.

— Lembre-se! Vá até Kherug e purifique-se, ou dirá adeus a sua vida miserável!

 

 

Era verão em Erug, e embora quase todos os meses do ano fossem bem quentes, essa época era ainda mais insuportável.

No porão da prefeitura havia uma pequena biblioteca aonde Ivis Paeris despachava todos os livros do recinto no intuito de conseguir mais espaço em seu escritório. Para Pontino aquilo configurava-se num terrível sacrilégio, afinal de contas, magistrados deveriam ser homens de leitura. O prefeito usava sempre a mesma desculpa, a de que era um ex-soldado, e nunca se interessou pela cultura como o irmão.

Numa tarde quente de um verão quente, no porão sem janelas e abafado abaixo da prefeitura, achava-se o escriba amontado em antigos manuscritos. Pontino estava cansado, quase cochilando sobre os papéis, quando ouviu uma batida na porta. Era o seu irmão.

— Limi, trouxe-lhe um lanche. — Limi era uma redução carinhosa do segundo nome de Pontino, Limininus. Apelidos eram comuns no ocidente, mas em Ghurn eram de má fama. Embora o prefeito tivesse absorvido um pouco daquela ultraformalidade, começou a agir diferente na presença do irmão. Pequenas atitudes que o relembravam da sua terra natal.

— Ah! Obrigado, obrigado, Ivis. — Pontino levantou-se e pegou o pão e o vinho que Ivis Paeris lhe trouxera.

— Por que você está tão interessado nesses manuscritos acerca dos domadores?

— Porque é o meu trabalho. Quando conhecemos o inimigo...

— ...Fica mais fácil de derrota-lo, blá, blá, blá... só que eu não caio nesse seu papinho. Você sente uma atração pela mística desses bárbaros. Por acaso quer se tornar um deles?

Pontino pensou por um tempo antes de responder.

— O que você chama de fascínio eu chamo de curiosidade investigativa. Confesso que gostaria, gostaria de saber como eles fazem esse negócio de doma. E não acharia ruim se pudéssemos controlar um leão daqueles. Imagine o império sâmida poderoso como é... imagine se pudéssemos ter um desses animais lutando conosco!

— O calor deste porão está te cozinhando os miolos!

— Huum! (Glub) — Tomou um gole do vinho — Os livros que você tem aqui não falam nada de interessante. Queria um material mais rico...

— Esses manuscritos são relatos da batalha de Surghurn há vinte anos.

São do Otonius Licomi Restinus... Conheço esse escriba. “Mesmo em terrível desvantagem, os bárbaros não desistem de lutar. É como se essa terra fosse um território sagrado. Não se rendem. Não se abalam. Não aceitam a derrota. Adoram um deus domador, falam um idioma antigo e controlam feras mais destrutivas que qualquer arma de guerra.” Foi a batalha ao qual a chefe Vitri se referia na prefeitura enquanto te dava bronca.

— Sim.

— Ivis, quão louco seria ir até o sul?

— Ei, ei, ei! Nada disso! Não ouse...

— Muita loucura, não é mesmo?

— Nem pense nisso, Pontino! Você mesmo ouviu a repreensão que a Vitri me deu. Não podemos atiçar ainda mais loucura desses domadores a ponto de gerar uma guerra civil! Se pegarem um espião sâmida no território sagrado, eles botam o reino abaixo!

— Calma, calma, irmão. Não farei nada. Além do mais, eu não sou um espião, sou um escriba.

Pontino deu um leve sorriso.

 

Já era quase o meio do dia quando Rakhar apareceu na prefeitura. Entrara no refeitório sem cerimônia. Serviu-se e serviu também a Mro e sentou-se próximo a Pontino.

— Chegando cedo desse jeito, ganhará um aumento — falou o escriba.

— Poupe-me dos seus gracejos, sâmida!

— D-desculpa, desculpa! — Pontino retraiu-se em seu lugar. Por um momento esquecera da gravidade que era brincar com seu guarda-costas mal-humorado. Pensou por um momento que a convivência o permitiria certa liberdade. — aconteceu, aconteceu alguma coisa?

 Rakhar permaneceu comendo e nada respondeu.

— Ouça, tenho algo para te perguntar. — Pontinho começou a sussurrar.

— Por que está falando assim?

— É que não quero que o Paeris me ouça. É o seguinte, quero que vá comigo até Kherug, no distrito de Surghurn...

Rakhar se levantou da mesa e ficou encarando Pontino com uma cara de extrema irritação.

Pontino calou-se de medo.

— Você não tem noção do que me pede.

— E-eu t-te... pago o dobro? É, pago o dobro, o dobro!

O mercenário franziu a testa, cerrou os dentes e fechou o punho em sinal de consternação. Em seguida relaxou um pouco e sentou-se novamente.

— Para um escriba cagão, você tem muita coragem em querer pisar na terra daqueles que o odeiam com toda a alma.

— Pisaremos de maneira discreta...

— Saiba que não faço isso por você. Faço pelo dinheiro. Além do mais, estava mesmo precisando retornar à minha cidade natal...

— Sim, sim! Esse é o espírito...

— Por que esse interesse repentino em Kherug?

— Quero conhecer mais da sua terra sagrada e da história dos domadores. É para a minha pesquisa. E então, quando partimos?

Rakhar calou-se novamente. Pensar em enfrentar novamente os fantasmas do seu passado o deixou tremendo de medo a ponto de deixar o pão cair da sua mão.



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