Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Volume 1

Capítulo 6: Lobos No Horizonte

No décimo dia do décimo mês, os sacerdotes da Urnukr convocaram uma reunião no Palácio Branco. A solenidade contava com a participação das dez personalidades mais importantes do Caminho de Deus. A assembleia aconteceu na sala de reunião do rei, um espaço amplo, feito de mármore e com uma grande mesa de madeira no centro.

Sentado na cadeira de maior importância na ponta da mesa, achava-se Aru, o jovem rei, acompanhando de Krur, o leão branco sagrado. Próximos ao rei, estavam os cinco sacerdotes da Urnukr.

Os clérigos tinham uma aparência carrancuda, eram carecas e de barba raspadas, com exceção de um deles. O sacerdote que não tinha a cabeça e barba raspadas possuía um animal tão grande quanto o leão branco, e tão especial quanto. Tratava-se de um dos quatro animais sagrados, o Olho de Deus. Pouco se sabia a respeito da fera, mas os boatos atribuíam a ele o poder da onisciência, da profecia e da vidência, graças ao olho supostamente mágico que ficava na testa da fera.

Dispostos paralelamente aos sacerdotes assentavam-se os quatro domadores de elite, generais dos exércitos dos domadores de Kherug.

O primeiro era um homem alto, moreno e com uma barba longa amarrada na ponta com uma fita vermelha. Ele tinha um leão de porte médio, um pouco maior que o normal, mas menor que o leão branco. A juba do animal era alaranjada e tinha algumas tranças amarradas com fitas de couro.

Ao lado do primeiro general estava uma mulher séria, mais velha e muito elegante. Seu corpo era forte e tinha uma cicatriz no lado esquerdo do rosto. Portava cabelos longos, decorado com alguns adereços de ouro. Possuía dois leões, o primeiro com uma juba metade alaranjada e metade negra, e uma leoa com a pelagem alaranjada.

O terceiro general era um ancião, de aparência frágil e bastante magro. As pupilas dos seus olhos eram cinzas, como se nuvens acobertassem a visão. O idoso tinha um leão com uma juba laranja escura e toda desgrenhada.

O último dos oficiais domadores possuía uma aparência forte e imponente, vestia roupas finas, mais coloridas que os demais e usava vários adereços de ouro e prata nos braços. Seu animal tinha uma pelagem bastante alaranjada e era aparentemente bem cuidada, com tranças e fitas de várias cores amaradas na juba.

— Irmãos, gostaria de agradecer a presença de vocês nesta reunião urgente. Prometo ser breve — disse o sacerdote domador. — Convoquei a todos para compartilhar a conclusão em que chegaram os Kirks numa reunião extraordinária que tiveram hoje pela manhã. Farghul, faça as honras...

Obrigado, Alto Sacerdote Paramhud. Saudações, irmãos. — O sacerdote alto de barba amarrada com a fita vermelha se levantou e cumprimentou a todos fazendo uma reverência. — Recebemos recentemente algumas informações que podem ser animadoras para a causa do Caminho. A mais importante é a guerra entre Sâmes e Gabilon. Segundo nossos contatos, a maioria do contingente de soldados sâmidas de Ghurn foram deslocados para as campanhas do oriente, deixando Arghurn ainda mais desprotegida.

— Vá direto ao ponto, Farghul — disse um dos velhos clérigos.

— Nós, os kirks, em consonância com o alto sacerdote, acreditamos que esse seja o momento mais propício para retomarmos Arghurn! Estamos refinando o plano de ataque, e gostaríamos da aprovação de todo o conselho para iniciarmos o levante. — O general fez um gesto de uma garra com a mão e se assentou novamente. A garra era o símbolo militar dos domadores, sendo inclusive o significado da palavra Kirk.

— O que me dizem, senhores? — falou Paramhud.

— Em teoria parece tudo muito bom, mas que garantia de sucesso nós temos? Assim que retomarmos o norte, como protegeremos as fronteiras da retaliação dos estrangeiros? — disse um outro sacerdote.

— De acordo com nossos informantes, Sâmes não tem um contingente tão grande de exércitos capazes de lutar duas grandes guerras simultaneamente. Sem falar de todo o prejuízo que isso os causaria. Gabilon neste momento é mais importante que Ghurn. Além do mais, souberam das recentes notícias? Numa revolta em frente à prefeitura de Erug, apenas dois dos nossos domadores conseguiram acabar com muitos dos soldados da polícia deles. A força e disposição dos nossos guerreiros é gigantesca! Eles estão animados, afinal, nosso Deus Urn nos presenteou com um novo rei, e estamos mais próximos do que nunca de podermos retomar nossas terras do invasor!

— Esplêndido! — Paramhud bateu na mesa empolgado. — Bem dito, general Farghul! Os sinais estão muito claros! Deus está nos dando a vitória de bandeja! Não é de bom grado rejeitar os sinais... o que me diz, Aru?

O rei estava de cabeça baixa e pensativo. Por alguns minutos esteve distante, absorto nos pensamentos.

— S-sim! Tem toda a razão. Chegou o momento de mobilizarmos os exércitos...

Paramhud olhou para o rei com uma certa desconfiança. O alto sacerdote era uma cobra velha, inteligente e sagaz como nenhum outro domador.

— Aprontemo-nos então! Cuidarei dos preparativos e dos rituais de guerra. Nos vemos novamente daqui a dez dias.

 

Aru estava deslocado. Ficou assim por toda a reunião. Não tinha cabeça para a guerra, mas sabia que mais cedo ou mais tarde precisaria mostrar a todos sua liderança e força de rei.

Enquanto divagava nos distantes pensamentos, chegara à frente da porta do seu quarto, e ao colocar a mão direita na maçaneta, Krur rosnou.

— O que foi, amigo? Algo errado?

O leão branco acenou e bateu a cabeça de leve na porta.

Aru colocou-se em posição de combate e puxou uma adaga que ficava nas costas presa à fivela do seu cinto. Abrira a porta devagar, porém entrou no quanto num ímpeto de luta.

O quarto do monarca repousava no breu. Os raios de sol foram totalmente anulados pelas grossas e magníficas cortinas reais. No entanto, o invasor não passou incólume, graças ao apuradíssimo olfato do leão branco, que logo denunciou o homem sentado em uma das poltronas ao lado da cama.

— Ei, ei! Calma aí, garoto — disse o homem misterioso.

Aru se dirigiu à janela e abriu a cortina de uma vez só.

— Ai! Meus olhos estão queimando! Aru, vai devagar aí, meu garoto!

— Dier? O que faz aqui? Como passou pelos guardas? Se te pegarem, te matam!

— Há, há! Eu sou o mestre da furtividade! Aliás, é melhor contratar guardas melhores. Se eu fosse um assassino, te matava facinho...

— Se você fosse um assassino o Krur teria te estraçalhado num piscar de olhos.

— Vamos com calma nesse negócio de estraçalhar. Não precisamos apelar, eu estava brincando. Fiquei sabendo que precisa dos meus serviços...

— Sim, mas devemos conversar sobre isso em outro lugar. As paredes do palácio tem ouvidos. Me encontre na costa ao anoitecer.

— Ora, ora. Segredinhos do rei?

— Na costa, ao anoitecer. Certifique-se de não ser seguido.

— Você me ofende falando essas coisas, sabia? Afinal, eu sou o...

— ...Mestre da furtividade. Eu sei, eu sei.

— Ei, garoto! Me respeite! Sou mais velho que você.

— Acho melhor o mestre da furtividade sair daqui. As paredes tem ouvidos, lembra?

— Tá bom, tá bom! Tanto tempo sem me ver, e ao invés de me dar um abraço e dizer “olá, meu amigo Dier! Quanto tempo? Vamos tomar um vinho?” Não! A fama lhe subiu a cabeça...

Dier abriu a janela e escalou até o telhado.

— Ei, Dier! — Aru se dirigiu até o parapeito e sussurrou — Foi bom te ver, meu amigo!

Dier sorriu.

— Leve um agasalho — disse Aru. — As noites de Kherug são frias.

 

A lua cheia conferia a costa do mar de Nirub um ar especial. A areia alaranjada do sol vivo e escaldante tornara-se em um azul melancólico e triste. O frio cortava a alma.

Quando Aru chegou ao local, Dier já estava à espreita.

— Foi seguido? — disse Dier.

— Engraçadinho... Se eu fosse seguido o Krur saberia.

— Você se acha.

— Deixemos de conversa fiada. Se perceberem que saí, estaremos enrascados... Preciso que entregue esta carta para uma pessoa.

— A bela moça de Tibrogr?

— O nome dela é Lahin. E ela não mora mais em Tibrogr. Seu pai tinha negócios no distrito de Arnghurn, e toda a família se mudou para a cidade de Purini.

— Se “mudou”, ou “mudaram-na”? Afinal, “um rei não pode se ocupar com paixões e futilidades”.

— Esperto como um lobo. Obrigado por me lembrar dessa célebre frase do meu tio.

— Quer me usar como o seu mensageiro do amor? Se o Paramhud e o seu tio me pegarem fazendo isso, estou morto!

— Dier, você sabe que eu não queria ser rei. Queria me casar com a Lahin, ter filhos e ser uma pessoa normal. Quero saber como ela está.

— Não quer ser rei, hein? Vamos trocar? Brincadeira... — Dier respirou fundo. — Deixe comigo, levarei sua correspondência.

— Obrigado, amigo.

Dier olhou para Aru. Sentiu pena do rapaz.

— Vá antes que sintam sua falta — falou Dier. — Aru, tenha cuidado. Sei que gosta muito da garota, e sei também que você não queria ser rei. Mas lembre-se, nem sempre podemos desfrutar daquilo que desejamos.

Aru calou-se por um instante.

Dier colocou seu capuz e começou a andar na direção oposta à do amigo. O manto negro fizera com que desaparecesse na noite.

O jovem domador permaneceu mais um minuto ali, parado e de cabeça baixa pensando no que Dier havia dito. Por fim, chamou Krur e seguiu para o palácio. Entretanto, antes que desse o primeiro passo, ouvira um uivo ao longe. Achou estranho, afinal, não existiam lobos naquela região.

— Ouviu isso, amigo?

O leão estava agitado, e começou a andar em círculos em torno de Aru.

Um outro uivo ecoou na praia. Parecia mais alto que o primeiro.

Aru sentiu calafrios. Olhou para um barranco elevado a uns cinquenta metros da praia. Sobre a elevação, vira um lobo.

—Krur, em posição! — Aru sacou sua adaga.

O lobo deu mais um uivo, que fora interrompido por um homem que passou a mão na cabeça da fera.

— U-um d-domador... de lobo?



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