Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Volume 1

Capítulo 5: Leão Maldito

O ataque dos domadores em frente à prefeitura há alguns dias, fizera com que a chefe da guarda, a pedido do prefeito Ivis Paeris, reforçasse o contingente de soldados nas ruas, reprimindo manifestantes e aplicando um severo toque de recolher. A repressão não deixou os cidadãos nada contentes, o que aumentou o conflito entre a polícia e o povo. Erug era uma panela fervente a ponto de entornar.

Nesse ínterim, Pontino enviara uma carta ao general do destacamento do Sol Vermelho, que atuava nas campanhas de domínio do reino de Gabilon, região mais ao leste das bordas do império sâmida. O escriba solicitou reforços militares com o pretexto de combater uma futura insurgência dos domadores.

Na delegacia da guarda municipal de Arnghurn, podia ouvir-se ao longe os gritos estridentes da chefe da polícia, um pouco mais exaltada que de costume.  

— Por mil demônios, Paeris! Eu saio da cidade por dois dias e estoura uma rebelião com quinze dos meus soldados mortos?

Paeris estava de cabeça baixa e calado, à semelhança de uma criança sendo censurada pelos pais.

No fundo da ampla sala da guarda sâmida estavam Pontino e Rakhar.

A delegacia tinha uma arquitetura semelhante à prefeitura, carregada de símbolos de Sâmes como o sol, pilares de mármores, tapetes e poltronas vermelhas e estandartes da guarda nas paredes. Haviam estátuas dos imperadores sobre os balcões e uma grande mesa no centro.

— É comum que suas mulheres gritem com os homens assim? — perguntou Rakhar a Pontino.

— Ela é a chefe da guarda sâmida aqui em Ghurn. Tenho tanto medo dela quanto tenho do seu leão.

— Há! Já conheci uma outra pessoa assim... Era assustadora.

Pontino deu um leve sorriso com o comentário do domador. Sentira um leve senso de humor no comentário do carrancudo mercenário. Fazia quase duas semanas desde que se conheceram, mas já se sentia próximo do ghurnida, por mais que ele não falasse muito.

— Há trinta anos, o imperador Ismus Nitus iniciou uma campanha de domínio do leste — discorria Vitri enquanto andava em volta do prefeito — e até hoje esses domadores dão trabalho!

— Então porque não simplesmente acabamos com todos eles — indagou Paeris.

— Iniciar uma campanha de extermínio descabido? Você nunca leu os relatórios de batalha sobre a invasão do distrito de Surghurn há vinte anos?

— Invasão de Surghurn? — Pontino falou com Rakhar baixinho.

Ao ser questionado, as lembranças do fatídico dia logo saltaram à mente do domador, tão nítidas como um espelho d’água. Em sua memória, Rakhar voltara a vinte anos no passado, em pé sobre cadáveres mortos. Lágrimas de desespero e medo escorriam dos olhos do jovem Leão Negro naquele dia.

— Quando Ismus Nitus chegou em Ghurn, ele invadiu o ditrito de Arghurn e o dominou com facilidade. Com a região central de Merghurn também não foi diferente. Contudo, no sul foi diferente. Quando souberam que estavam sendo invadidos, todos os guerreiros partiram para Surghurn com o objetivo de proteger o Jardim Templo de ser profanado. Por mais que os sâmidas fossem maioria, todos os domadores lutando juntos tinham uma força descomunal. Resistiram por dez anos, até serem massacrados. Os habitantes de Surghurn se renderam por um tempo, mas nunca que totalmente. Tanto que até hoje os sâmidas tem pouca influência por lá.

— Isso explica a atual revolta.

— Guerras custam caro — falou Vitri se virando para Peris — e batalhar contra esses domadores no momento em que estamos em um confronto contra outro grande reino vai sair mais caro ainda. Duvido muito que o destacamento do sol vermelho enviará mais do que cem homens para nos ajudar. Não podemos provocar uma guerra civil neste momento.

***

 

A noite já despontava quando os sâmidas saíram da delegacia.

Pontino e Paeris seguiram para a fazenda do prefeito acompanhado de dois guardas que os protegiam no percurso à noite. Rakhar, junto do seu leão, seguiram para uma velha hospedaria onde o mercenário se estabelecia.

O ghurnida não tinha moradia fixa. Antes de trabalhar para Pontino, vivia de favor nesse mesmo estabelecimento, oferecendo seus serviços de guarda como troca.

Ao adentrar no recinto, o domador cumprimentou a dona da espelunca. A velha proprietária herdara a estalagem do seu falecido marido. O local ficava numa região decrépita, habitada por prostitutas e bandidos da pior estirpe, mas graças à temível reputação do domador, aquele local em específico, se tornou um dos mais pacíficos de toda Erug.

Sempre que chegava à estalagem, a comida de Rakhar e a do leão já estavam preparadas. O ritual do domador consistia em se assentar no balcão, comer, conversar com alguns dos miseráveis ali e dormir.

Particularmente naquele dia, estava mais cansado do que de costume. Talvez o maçante monólogo de Vitri, a chefe da guarda, o tenha sugado as forças. Queria apenas ir para a cama, mas só de pensar em ter que descer um lance de escadas até o porão da taverna, onde dormia, já ficava cansado. Resolveu ficar sentado e descansar numa mesa que estava no fundo do estabelecimento.

Umas duas horas se passaram desde que Rakhar se assentou e dormiu à mesa. O barulho da taverna continuava o mesmo, mas nada disso incomodava o domador.

Tudo parecia em paz, apesar da balbúrdia do local, não fosse a agitação de Mro. O leão negro que se levantou e pôs-se em posição de batalha. Rakhar também levantou-se no mesmo instante e notou a inquietação do amigo.

— Mro?! O que foi garoto, há algo de errado?

O leão se dirigiu para fora pulando sobre as mesas e assustando os transeuntes.

— Aaaargh! Ei, Rakhaaaaar! Controle seu bicho, ele está quebrando as minhas coisas e assustando a freguesia! — disse a velha, dona do estabelecimento.

— Tá bem, tá bem, bruxa velha! Eu vou te pagar pelo que ele quebrou!

O domador aproveitou que as pessoas abriram um corredor no meio da sala com medo do seu animal e correu por entre eles saltando sobre os obstáculos.

Ao chegar na porta, Rakhar foi subitamente atacado por um outro leão que pulou sobre ele e sobre Mro.

Os animais se agarraram um no outro e giraram sobre o chão da taverna, embaraçando-se com mais três transeuntes que foram pegos no meio do caminho, Rakhar incluso.

As pessoas começaram a gritar e a correrem de medo, esvaziando o estabelecimento em questão de segundos.

O leão que atacou Mro, ao ver as pessoas fugindo, correu atrás delas.

— O que está acontecendo, Rakhar? O que diabos está acontecendo? — A velha gritava ensandecida atrás do balcão.

— Droga... E eu sei lá! Arg! — O domador gemia de dor. Estava caído no chão e com dificuldades para se levantar. — Mro! Vai atrás dele! Garut!

Mro, como um vento fulminante correu atrás do leão misterioso.

A fera desconhecida, curiosamente, seguia uma das mulheres que fugira da taverna. A moça ao perceber isso tentou correr o mais rápido que podia, mas não era párea para a fera em seu encalço.

Enquanto o leão preparava-se para dar o bote, foi atrapalhado pelo gigante leão negro, que surgira de repente e dera uma cabeçada no tronco do seu inimigo.

A mulher desmaiou antes de presenciar sua salvação.

Apesar do porte e aparência de um leão comum, o animal misterioso assustava Mro, que hesitava em dar um golpe final no oponente. Os felinos se encararam por um minuto, até que Rakhar chegou. O guerreiro estava com um corte na testa, e o rosto lavado de sangue.

— Mro... arf, arf...onde está o domador? Conseguiu farejá-lo?

O leão negro permaneceu em silêncio.

— O que é isso, garoto?! Arf... Isso não é do seu feitio. Ou você está com o nariz entupido, ou esse leão não tem um domador, e nós dois sabemos que um animal não agiria de uma maneira tão precisa sozinho... arf...

Rakhar viu a moça desmaiada no chão e começou a se aproximar dela devagar.

— Essa mulher...— deu uma breve pausa e olhou para o leão inimigo — é ela que você quer, não é? Mas o fato de tê-la atacado, a desqualifica como sua domadora...

O leão desconhecido começou a se levantar e a rosnar para Rakhar.

— Essa expressão de ódio, sua feição é quase humana. Essa mulher, ela tem alguma ligação contigo...

Rakhar estendeu a mão sobre a mulher, pegou nos cabelos dela e começou a cheirar. O leão aproximou-se do domador devagar, com os dentes a mostra.

— Era sua amada? Ela te abandonou, não é? Você carrega as lembranças e o rancor do seu antigo dono, e persegue os seus desafetos... um animal sagrado que foi possuído pela corrupção do coração humano. Se tornou pior que um trognosh! Um leão sem domador, ou melhor, um domador que não foi capaz de domar o seu leão, e o seu espírito foi consumido pelo espírito da fera. Um leão maldito...

O leão preparou-se para dar o bote em Rakhar, no entanto, enquanto estava destraído, Mro pulou sobre o seu pescoço e o mordera sem compaixão.

Por mais que o leão misterioso tentasse lutar, Mro já o tinha dominado por completo.

— Pobre diabo. — Rakhar se aproximou do animal inimigo destroçado e estirado no chão. — Que Urn tenha misericórdia da sua alma miserável. Mro, acabe com ele, Garut!

O leão negro deu um fim no leão maldito.

Rakhar pegou a moça nos braços e retornou à taverna.



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