Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Volume 1

Capítulo 4: Ventos do Sul

Os ventos do sul traziam consigo novidades. O prefeito Ivis Peris recebera logo cedo um informante contando o que acontecera em Surghurn.

Pontino ouvia atentamente as informações e anotava tudo o que considerava relevante.

Rakhar estava assentado em uma das poltronas vermelhas no fundo da sala, comendo algumas azeitonas em um pote. Usava as mesmas roupas desgastadas de sempre, enquanto o prefeito e seu irmão variavam suas túnicas finas vindas diretamente do ocidente. Paeris ostentava sempre o símbolo do Sol Sagrado, enquanto Pontino buscava ser mais discreto com suas roupas neutras.

Mro, o leão negro, vigiava a porta da prefeitura.

Fazia muito calor em Erug, e a brisa quente e seca dava o ar da sua graça. As pessoas diziam que o calor era resultado da maldição do Deserto dos Ossos que ficava bem mais ao sul, onde o sol matava mais que os bandidos de Merghurn.

— Malditos domadores! — Paeris deu um soco na mesa.

Rakhar olhou para o homem gordo com uma cara de mau.

— Sem ofença... — O prefeito se desculpou. Havia esquecido que o mercenário estava ali. — O que eles pretendem fazer com isso? Quando o imperador souber...

— Não se esqueça que você é o prefeito daqui, irmão. É de sua responsabilidade contê-los antes que o imperador se aborreça. Sugiro que convoque o destacamento do Sol Vermelho que está acampado em Gabilon. Posso escrever para Manes e Cimo, se quiser... Aliás, quantos guerreiros sâmidas temos em Ghurn?

— Não sei, talvez uns cem homens. Grande parte do nosso contingente também partiu para as campanhas de domínio em Gabilon. Ficaram apenas as patrulhas da polícia local. Vou pedir para que a comandante Vitri fique de prontidão caso algo aconteça.

— Aleinus, mais alguma coisa a relatar? – Pontino indagou o informante que estava em pé observando os murmúrios do magistrado.

— Eles fizeram uma cerimônia de nomeação do rei. O rapaz era jovem, devia ter uns vinte e poucos anos.  — O informante portava uma túnica verde desgastada e um capuz bege. Tinha cabelos castanhos e uma grande barba preta. Andava com uma bolsa velha com diversos equipamentos. Espiões eram hábeis em várias técnicas de sobrevivência e adaptação, tudo o que fosse necessário para passar desapercebido. — Não acredito que queiram dar algum golpe de estado secreto, afinal, nomearam o rei a vista de todos.

— Só covardes atacam de surpresa — falou Rakhar ouvindo a conversa de longe. — Domadores não temem a morte, mas temem a escravidão. Para eles, a servidão é pior que a morte. Não é segredo pra ninguém que a província de Kherug planejava se rebelar, e era apenas uma questão de tempo até que se organizassem em torno de um líder.

— Nesses meus quatro anos como prefeito da província sempre ouvi boatos de uma possível insurgência, mas não sabia que seriam tão corajosos. Sempre achei os domadores malucos, mas não a ponto de organizar uma revolta contra Sâmes.

— Podem ser loucos, mas apoiam-se em alguma garantia de que essa insurgência surtirá algum efeito. Seria um suicídio burro correr em direção à uma morte certa. Rakhar, quem é esse rei dos domadores? — Pontino perguntou virando-se para o mercenário.

— Não é qualquer um que pode se tornar o rei dos domadores. A coroa não é passada de pai para filho como vocês fazem. Os domadores seguem de maneira rígida uma religião que diz que apenas o domador de um leão branco pode governar. A questão é que o último leão branco morreu há mais de quatrocentos anos, e mais ninguém teve coragem de assumir o trono.

— Ou seja, é compreensível que o povo esteja animado em guerrear, afinal eles tem um novo rei depois de um longo período — disse Aleinus.

— ...Deus mandou um salvador. Um pensamento bem elementar de reinos oprimidos. — falou Pontino.

— Exato. — Rakhar levantou-se. Queria encerrar a conversa.

— E você Rakhar, como se sente com relação a isso? Afinal é o seu rei...

— Não acredito em salvação. Deus nos abandonou.

— Entendo. Entendo. Aleinus, obrigado pelas informações. Eu gostaria que retornasse a Kherug e continuasse a me enviar os relatórios, será bem recompensado por eles. Ivis, se possível, contate a general das tropas policiais de toda Ghurn, seria bom mantê-la vigilante. Acho que seria prudente montarmos uma tropa de resposta, afinal não sabemos o que os domadores planejam fazer daqui em diante.

***

Após uma longa conversa com seu irmão, Pontino resolveu descansar um pouco. Já estava em Ghurn fazia uma semana e ajudava o prefeito em tudo. Paeris não parava de dizer o quanto estava grato por ter o irmão ali.

No meio do dia foram almoçar.

A prefeitura possuía várias salas, dentre elas uma grande e robusta cozinha e um refeitório anexado. Ali eram alimentados todos os funcionários do prefeito, dentre eles secretários, escribas, guardas, cozinheiros e faxineiros.

No fundo do escritório havia uma sala privativa, reservada apenas para o governante. Ali havia uma mesa média com quatro cadeiras de madeira maciça. Numa repartição ao lado da sala ficava um banheiro e um lugar para guardar pertences.

Quando Paeris, Pontino e Rakhar adentraram a sala, a mesa já estava posta. O cardápio do dia era galinha assada e batatas ao molho de tâmara, pão com ameixas secas, vinho sâmida e uma farta variedade de frutas.

Rakhar salivava. Há tempos não via uma mesa tão farta. Geralmente se alimentava em tavernas de caráter duvidoso cuja procedência da comida poderia lhe causar um estrago mais mortal que uma briga contra bandidos do deserto. Estava satisfeito com aquele trabalho, pois além de render uma boa quantia de prata, proporcionava uma alimentação segura e saborosa.

O domador não fizera cerimônia e tratou logo de atacar a comida. Pontino e Paeris, olharam-no com uma cara de reprovação, pois o convidado nem mesmo se dera ao trabalho de lavar as mão numa das bacias de bronze sobre o balcão ao lado da mesa.

Enquanto comiam, Pontino e Paeris tentavam retomar a discussão acerca da melhor abordagem de contenção contra os domadores. Rakhar, por sua vez, colocava algumas das galinhas assadas numa bolsa para dar ao seu leão. De repente, ouviu-se um barulho ao longe, semelhante ao de várias pessoas gritando.

— Que barulho infernal é esse? — disse Pontino.

— Ah, não... — Paeris levantou-se, como se soubesse o motivo do alvoroço.

— Fanáticos... — falou Rakhar sem perder a compostura.

Pontino e Paeris dirigiram-se até a porta principal da prefeitura para ver o que estava acontecendo.

Haviam em torno de umas vinte pessoas portando espadas e paus gritando freneticamente palavras como “Morte aos sâmidas!”, “Nosso Rei está vivo!”, “A vitória de Ghurn está próxima!”.

Alguns curiosos aglomeravam-se para saber o que estava acontecendo.

A força policial de Erug reuniu-se no intuito de conter qualquer violência.

Paeris avistara o líder dos guardas e dirigiu-se a ele.

— Poligus, o que está acontecendo aqui?

— Senhor Paeris — fez uma saudação. — Fanáticos da Urnukr, senhor. Eles estão mais agitados do que de costume. — Poligus era um homem alto e forte. Portava um elmo de bronze aberto em forma de “T”, um peitoral com um sol entalhado e uma capa vermelha. Usava também um cinto e sandálias de couro, e por baixo da armadura uma túnica alaranjada.

Pontino observou atentamente as pessoas e notou a presença dos dois domadores entre eles. Os guerreiros estavam calados, e agiam com uma espécie de segurança dos manifestantes. Um deles, quando viu Rakhar passar pela porta da prefeitura com o leão negro, saiu do meio da multidão e se dirigiu até o mercenário.

Pontino se assustou.

Paeris notou que o domador vinha na direção da prefeitura e alertou Poligus, que sacou sua espada.

— Parado aí, domador! Não dê mais nem um passo...

— Leão negro! — disse o domador. Ele tinha barba e cabelos negros volumosos. Sua pele era marrom clara e usava uma túnica verde com um colete de couro reforçado. Portava um colar com uma insígnia do seu clã. Estava acompanhado de um leão com pelagem cor de terra e uma juba marrom espessa. — Rakhar, o traidor. Agora trabalha para o nosso inimigo? Não fora blasfêmia suficiente ter abandonado nossas tradições? Agora rejeita também nosso povo?

— Eu te conheço? — disse Rakhar. Seu semblante era o mesmo de sempre, calmo e indiferente.

— Ei, domador! Não está me ouvindo! Pra trás! — falou novamente Poligus, o chefe do destacamento policial. Os outros guardas começaram a aproximar-se dele. Portavam espadas, armaduras de bronze, elmos e capas na cor azul.

Pontinus e Paeris retornaram para a prefeitura buscando evitar o conflito. Preferiram observar o embate ao longe.

Rakhar permaneceu imóvel. Seu leão negro começava a rondá-lo para dar o bote no leão adversário caso o mesmo atacasse seu dono.

Um dos guardas desembainhou a espada e pôs a mão sobre o domador manifestante. O leão cor de terra, numa fração de segundos o derrubou e arrancou o braço do inimigo numa só bocada. Em seguida atacou mais dois guardas.

A multidão dispersou-se o mais rápido que pode.

Os outros guardas partiram para cima do leão que atacara o seu companheiro, mas não conseguiram conter o animal. A força e tamanho da besta os impediram de imobilizá-lo. Um dos soldados preparou-se para dar uma estocada no bicho, contudo o seu domador o transpassara com uma espada ghurnida em forma de facão curvado.

O segundo domador que estava misturado à multidão apareceu de repente e cortou a cabeça de Poligus. Os guardas da polícia bem que tentaram conter os rebeldes, mas a força dos domadores combinada à velocidade e força dos leões os impediram.

A batalha não durou muito, e em pouco tempo a polícia de Ghurn fora destroçada. Dois guardas ainda conseguiram fugir.

Rakhar apenas observava o massacre, enquanto Pontino e Paeris estavam horrorizados.

— Chegou a sua vez, Leão Negro — disse o domador do leão com a juba marrom. Dirigiu-se ao seu leão e gritou — Krobr, Garut!

O animal partiu em direção a Rakhar, mas fora impedido por Mro, que pulara sobre o leão adversário, cravando as garras no inimigo e girando-o sobre o chão.

As duas feras insanas disputavam a vida entre unhas e dentes, ou mais precisamente, entre presas e garras. Patadas e mordidas iam e vinham, mas Mro se sagrou vitorioso. Ele era maior e mais forte que os outros leões.

O segundo leão dos domadores manifestantes tentou ajudar o companheiro, mas Rakhar lançou uma faca que cravou na cabeça do animal, desnorteando-o, e dando tempo para Mro se livra do primeiro leão e atacar o segundo.

Enquanto seu animal lutava contra as duas outras feras, Rakhar avançara sobre os homens. O primeiro estava distraído observando seu animal ser morto, e tomou um soco que o derrubara de primeira. O seu companheiro sacou a espada e partiu para cima de Rakhar, mas fora impedido por Paeris, que entrara no confronto.

Paeris imobilizou o primeiro domador com um forte soco na cabeça. Mro, sem muitas dificuldades também derrotou os dois leões, os matando sem piedade.

Nesse interim, outros guardas sâmidas chegaram para dispersar e prender os rebeldes. O segundo domador manifestante, vendo que estava sem saída se rendeu. Por fim, a polícia prendera os domadores rebeldes e recolheram os corpos dos mortos.

A rua em frente a prefeitura era como um mar de sangue.

Pontino não se mexia. Nunca vira algo parecido, e passou a temer ainda mais os domadores. Eram verdadeiras bestas travestidas de homens que controlavam demônios sobre quatro patas. Por um momento, arrependeu-se de estar ali.



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