Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Ato 1

Capítulo 2: Leão Negro

O domador entrou na prefeitura junto com Paeris e Pontino e assentou-se em uma das poltronas. Pontino também se assentou e Paeris retomou os seus afazeres. O leão ficou do lado de fora, porque era muito grande para entrar na sala do prefeito.

— C-como eu posso te chamar, s-senhor? — disse Pontino, meio sem jeito, ainda abalado e se tremendo de medo do leão negro.

— Rakhar. O leão lá fora é o Mro.

— Bem, senhor, Rak-k... Rak... me desculpe, poderia repetir? A pronúncia é meio difícil pra mim — falou Pontino meio sem jeito com um sorriso amarelo. Não era para menos, a língua ghurnida era algo distante da sâmida e tinha muitas consoantes ditas de um modo gutural difícil de ser assimilada pelo povo do ocidente.

— Rak-har — O domador disse meio desgostoso.

— Entendi, entendi. Como eu falei anteriormente, sou um escriba a serviço do imperador, e estou aqui para fazer alguns relatórios, essa coisa chata de escriba, etc, etc.

— Sei o que os escribas fazem. Já trabalhei com alguns.

— Ah, é? Ótimo, ótimo.  Facilita as coisas. Gostaria de comer alguma coisa antes de começarmos?

Pontino pediu ao irmão que providenciasse alguma coisa para que ele, o domador e o seu leão comessem.

Pagou Rakhar adiantado. Não queria dar motivos para aborrecê-lo, uma vez que ele tinha um maldito de um leão enorme!

Antes de partirem, o escriba guardou algumas provisões numa bolsa e colocou papiros em branco numa outra. Vestiu também uma túnica velha, de cor azul meio esverdeada, com uma manga longa para proteger-se do sol. Queria se misturar o máximo possível para evitar conflitos.

Ao sair, Paeris o abordou.

— Tem certeza que quer andar por aí com um domador mercenário? Posso falar com a chefe das tropas sâmidas aqui de Ghurn e ela te conseguirá bons soldados para protege-lo.

— Não se preocupe, irmão. Vou me cuidar, vou me cuidar. Porém, preciso ganhar a confiança deles para conseguir reunir informações. Preciso também chegar a lugares que na companhia de soldados sâmidas eu não conseguiria. Além do mais, esse domador sabe que se me matar, ou deixar que me matem, as pessoas daqui sofrerão as consequências.

***

Pontino, Rakhar e Mro seguiram em direção ao primeiro objetivo estabelecido pelo escriba, que era fazer um o reconhecimento do distrito de Arghurn. Embora quisesse andar com o papel e carvão nas mãos, Pontino resolveu passar incólume. Sabia que se andasse por aí trajando seus objetos de escrita chamaria muita atenção.

Ghurn não era como Sames, onde poetas, escribas e eruditos ficavam nas praças declamando, escrevendo e apreciando contos e poesias, ostentando seus pergaminhos e materiais diversos. Aquele lugar carecia da cultura da metrópole, entretanto era parte do trabalho de Pontino entender o modo de vida dos outros povos.

Os ghurnidas reconheciam um estrangeiro de longe. Se os leões dos domadores eram capazes de farejar o medo, as pessoas de Ghurn farejavam muito bem um ádvena, e Pontino Limininus Paeris era tudo menos um local. Era calvo, dos olhos azuis e a pele branca. Os ghurnidas eram morenos, tinham longos cabelos pretos e os homens gostavam de usar barba cheia, diferente dos sâmidas que cortavam o cabelo curto e raspavam a barba.

— Não te afeta saber que eu estou saindo por aí coletando informações sobre o seu povo? — disse Pontino ao domador.

— Sou um mercenário e você já me pagou. Pouco importa o que você faz ou deixa de fazer.

— Entendi, entendi. Me desculpe a intrusão, mas por que se tonou mercenário?

Rakhar fez um breve silêncio. Não suportava tagarelas. Preferia mil vezes os latidos incessantes dos cães irritantes nas madrugadas de Erug. Todavia, estava sendo bem pago e necessitava daquele serviço. Respondeu a contragosto:

— Para sobreviver. Seu povo tirou tudo o que eu tinha.

— Entendo, entendo. — Pontino fez um breve silencio. Sabia o quão terrível os sâmidas poderiam ser com os povos dominados, afinal trabalhava para os caprichos do imperador. — Gostaria de te perguntar mais uma coisa. Existem muitos domadores por aqui? Não precisa ser em números exatos, só uma estimativa...

— Não existem muitos. Já tivemos nosso tempo de glória, mas hoje somos poucos. A maioria se concentra no sul, no distrito de Surghurn. Pode ter certeza que se fossemos um pouco mais vocês estaria mortos...

Pontino percebera o leve tom de ameaça. No fim das contas, Rakhar não o respondera de maneira satisfatória, e para não causar desentendimentos o escriba calou-se por um tempo.

Após alguns minutos de caminhada, o sâmida e o domador chegaram ao mercado. Aproveitando-se do grande número de pessoas, Pontino sentiu-se à vontade para escrever. Escrevia alguns tópicos do que via. Não poderia anotar tudo, pois tinha pouco papiro. Os tópicos serviriam para lembrar-se quando fosse reescrever com tinta no final.

O domador observava tudo de longe. Estava sentado com o seu leão fora da região onde os comerciantes se concentravam.

No fim da tarde, após ter coletado dados suficientes para um dia, Pontino resolver parar. Conversou com vários comerciantes e viajantes dos mais diversos lugares. Encantou-se com os mitos e histórias dos estrangeiros. O escriba percebera que poucos domadores passavam por li, e embora tenha visto alguns, notara que eles não se misturavam. Um dos comerciantes com quem conversou disse-lhe que eles eram uma seita fechada e consideravam os habitantes de Arghurn impuros.

Pontino resolveu encerar as atividades ao pôr do sol. Fez um sinal para Rakhar de longe, e eles foram embora.

No trajeto de volta à prefeitura, Pontino decidiu ficar calado, afinal tinha perspicácia o bastante para discernir que suas perguntas eram uma alavanca poderosa para o aborrecimento do seu guarda-costas.

— Agarre-se à sua bolsa — disse o domador. — As ruas à noite são perigosas, e acredito que não vá querer que todo o seu dia produtivo seja levado por um ladrãozinho qualquer...

Pontino segurou a bolsa com força e a colocou sobre o peito.

Ainda nem havia anoitecido, mas vira as pessoas fechando as portas das casas e parando de circular pelas ruelas. A região em que estavam era bastante simples, com casas quadradas feitas de tijolos cozidos cor de terra e pedras cinzas. Não havia nada esplendoroso ou muito elaborado.

Enquanto o escriba estava atento observando ao redor, um grito estridente e agonizante ressoou de uma das vielas.  Pontino apertava os olhos na tentativa de enxergar o que estava acontecendo, e vira um pequeno grupo de pessoas com paus e pedras tentando espantar uma alcateia que estraçalhava um garoto caído no chão.

— São cães! E estão atacando aquele menino! — disse Pontino.

— Não são cães. São lobos...

— Lobos? Há lobos nessa região?

Mro, que andava ao lado de Rakhar, deu uma grunhida. O leão estava inquieto.

— O garoto... está possuído por um trognosh. Aquelas pessoas tentando o ajudar devem ser da família...

— Um, o quê? Você não pode fazer nada?

— Sou um mercenário, esqueceu?

Pontino estava com pena do rapaz e não podia fazer nada para salvá-lo. Queria em seu íntimo ter força e coragem, mas era apenas um escriba.

— O que é um trog-sei-lá-o-quê? — Pontino continuou seguindo o domador.

— São espíritos do caos. Digamos que são inimigos de Urn, nosso Deus. Os lobos são atraídos por eles, carniceiros miseráveis que se alimentam do corpo dos homens corrompidos pelo caos. Esse é o julgamento daquele garoto, não há nada que eu possa fazer.

— Se são inimigos do seu deus, não deveriam combate-los?

Rakhar parou por um momento. Ficou estático no meio do caminho. Pontino ficou sem entender o que acontecera com o homem. Pensou ter dito algo errado e já se preparava mentalmente para sofrer as consequências. Rakhar abaixou a cabeça, virou-se na direção dos lobos e gritou:

Mro, Garut!

O leão negro partiu em disparada na rota da matilha. As pessoas que estavam lutando contra os lobos fugiram de medo do leão assim que o viram, e se esconderam. Mro era muito maior que os lobos e detinha uma vantagem física, entretanto os lobos estavam em maior número.

O leão aproveitou-se da distração de um dos lobo que devorava o menino estirado no chão, e de imediato, conseguiu dar-lhe uma patada violenta na cabeça, e enquanto o primeiro caia desmaiado, o segundo lobo levara uma mordida inesperada do pescoço e fora lançado longe da batalha.

Restavam ainda mais três feras, que circulavam ao redor do leão aguardando o melhor momento para dar o bote.

Das frestas minúsculas nas janelas das casas era possível ver os olhos curiosos das pessoas enclausuradas e temerosas, recolhidas em seus recônditos.

Estava armado o espetáculo sangrento das feras.

Pontino permaneceu atônito. Ficou paralisado observando o escarcéu. Rakhar, por sua vez, uniu-se ao seu leão em combate, sacou a adaga curva da cintura e gritou:

Mro, Rodut!

O leão se afastou da batalha com um pulo para trás, foi para frente do seu domador e rugiu três vezes, cada grito com uma intensidade diferente, sendo o último o mais potente de todos.

Os lobos paralisaram-se de medo, e enquanto estavam vulneráveis, Rakhar aproveitou-se da brecha e pulou sobre um deles e apunhalou o pescoço do animal que sangrou até a morte.

O domador estava banhado em sangue, absorto na catarse da batalha. Enquanto apunhalava sucessivamente uma das bestas, outro lobo pulou sobre suas costas. O peso do animal fez com que Rakhar caísse sobre os seus joelhos.

O guerreiro ghurnida tentou se desvencilhar como pode, e temendo uma mordida no pescoço, pegou a adaga com a mão esquerda e jogou o braço sobre o ombro direito onde estava a cabeça do lobo. A lâmina ficou em um dos olhos do bicho que caiu no chão, uivando e gemendo.

Rakhar num ataque de fúria, partiu para matar o animal, mas a fera fugiu do domador e correu cambaleando com a adaga fincada em seu olho. O outro lobo que restou também batera em retirada atrás do companheiro ferido.

Assim que vira os lobos fugindo, Pontino correu em direção ao garoto estirado no chão.

— Está morto — disse Rakhar aproximando-se do escriba.

Os familiares do menino chagaram logo depois e se jogaram sobre o moribundo chorando e lamentando a perda. Enquanto via a cena, Pontino sentia um aperto no coração.

— O-o que diabos, o que diabos aconteceu aqui? 

Rakar não respondeu. O semblante carrancudo do domador fora substituído por uma feição reflexiva. 

— No passado... — fez uma breve pausa — nossa missão era proteger este reino. 

Pontino estava ainda mais confuso. Aquelas confissões não faziam sentido pra ele. Parecia um desabafo sincero, sincero até demais para um mercenário calado que conhecera a menos de um dia.

— Não... não entendi, o que disse?

— Esquece... — Rakhar sacudiu a cabeça como se acordasse do transe e das lembranças. Queria se livrar daquele cheiro de morte. — Vamos antes que escureça.

Domador e escriba continuaram pelo resto do caminho em silêncio. Pontino estava imerso naquela loucura. Em sua mente haviam um turbilhão de perguntas. Nunca havia visto nada parecido em todos os seus anos de escriba. Por fim, não contara nada do acontecido para o seu irmão, e quando dormiu, seus pensamentos foram bombardeados por sonhos horríveis de domadores, demônios e terríveis leões o perseguindo e devorando, a semelhança do garoto morto naquela noite.



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