Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Ato 1

Capítulo 13: Celebração

No dia do aniversário de dez anos da sua única filha, Sigmurn concedeu à toda nobreza de Kherug uma grande festa. Todas as personalidades dos três poderes regentes de Surghurn marcaram presença, os guerreiros de elite Kirks, os ricos Brorns e os sacerdotes Marghs.

Rakhar manteve-se escondido no porão da mansão de Sigmurn, enquanto Pontino e Luz desfrutavam da bela celebração.

Aquele momento era de extrema importância para os relatos do escriba. Embora Sigmurn tenha ficado receoso em permitir que um estrangeiro sâmida estudasse seus costumes, o domador confiava em Rakhar, e precisava do amigo naquele momento. Cuidaria de Pontino depois, caso desse trabalho.

No fundo do salão, escondido entre os convidados e numa mesa reservada, Aru comia discretamente. Ao avistar o domador, Pontino dirigiu-se até ele.

Não incomode o Rei. Ponha-se no seu lugar! Se der mais um passo, dezenas de leões o devorarão em questão de segundos!

O sâmida assustou-se e olhou para os lados a fim de descobrir de onde vinha aquela voz, mas não havia ninguém próximo dele. Pensou ter ficado maluco, mas quando olhou para cima, vira Paramhud numa das galerias da casa fitando em seus olhos com uma cara de poucos amigos. O escriba sentiu um medo terrível, como nunca antes, e voltou para a sua mesa.

— Quem é o estrangeiro? — Paramhud perguntou a Sigmurn. O anfitrião estava ao seu lado, segurando uma taça de vinho.

— É um escriba sâmida. Foi enviado pelo prefeito de Erug para escrever sobre nossos costumes. Eu o acolhi como um bom anfitrião.

— Não sabia que era amigo do prefeito.

— Sou um nobre. Tenho muitos contatos importantes.

— Espero que a sua “amizade” com os impuros não te distraia do nosso plano de insurgência contra o império...

— De maneira alguma. Antes de ser “amigo” dos estrangeiros, eu sou um bom ghurnida.

— Aliás, bela festa. Que Urn abençoe a sua filha e a mantenha sempre saudável! — Paramhud levantou a sua taça de vinho.

— Que Urn seja louvado! — Sigmurn repetiu o gesto do alto sacerdote.

— Sinto falta dessas comemorações. Kherug anda muito monótona ultimamente. O rei raramente se diverte.

Sigmunr olhou para Aru e vira o garoto sentado, triste e sozinho, na mesa.

— Falando no rei, deixe-me cumprimentá-lo. Com licença, alto sacerdote...

Sigmurn desceu as escadas da galeria e dirigiu-se até Aru. Antes de chegar no rei, o domador segurou no braço de uma das suas servas e disse-lhe algumas palavras no seu ouvido.

— His, distraia o leão pervertido — falou Sigmurn.

— Às ordens, meu senhor — disse His.

A fama de mulherengo do alto sacerdote era bastante conhecida em Kherug, e embora o clero tentasse a todo custo abafar o caso. Buscando tirar vantagem disso, Sigmurn tentou distrair Paramhud usando a sua mais bela serva.

His era uma das mulheres mais bonitas de Kherug, e todos achavam que fosse a esposa de Sigmurn. Ela era alta, tinha longos cabelos negros e olhos castanhos.

Especialmente naquele dia, a serva do Kirk colocou um vestido num vermelho vivo, um batom vibrante e um leve decote. Por onde ela passava, chamava a atenção dos presentes.

— Olá, senhor alto sacerdote — disse a mulher dirigindo-se a Paramhud. — Me desculpe a intromissão e o momento inoportuno, mas tenho andado muito atribulada por conta de algumas coisas. Sinto-me tão impura, acho que Deus me abandonou...

Paramhud que havia se sentado, tratou de levantar-se rapidamente. Ofereceu a mão para que a serva beijasse seu sinete de clérigo.

— Urn é bondoso para aqueles que o buscam, minha jovem...

— His! Me chamo His!

— Sim, His. Lindo nome, inclusive. Que indelicadeza a do Sigmurn em nunca ter nos apresentado...

— O meu senhor é muito ocupado.

— Então, o que a preocupa?

— Será que eu poderia me confessar ao senhor em particular? Há muitos ouvidos nesta festa.

— Oh, mas é claro!

— Venha comigo. Conheço uma sala privativa na mansão. Ninguém irá nos incomodar.

Paramhud seguiu a serva de Sigmurn, e pediu para que seu leão, Qurot, esperasse ali.

 

— Olá, majestade! Como tem andado? — Sigmurn aproximou-se de Aru e fez uma saudação.

— Olá, general. Estou bem, e o senhor?

— Radiante!

— Aliá, bela festa! A Minikri estava muito bela hoje.

— Minha garotinha é o meu maior tesouro. — Sigmurn olhou para a filha brincando com os amiguinhos ao longe e sorriu.

— Poderia me acompanhar?

Aru levantou-se da cadeira, chamou Krur e seguiu o general até o porão da casa.

— Acredito que o Paramhud não nos verá aqui. — Sigmurn abriu a porta do porão e pediu para que Aru se sentasse. — Gostaria de beber alguma coisa?

— Não, obrigado. Já bebi e comi bastante.

— Tem certeza? — Sigmurn fez um sinal para que seu servo viesse com o vinho.

Aru assustou-se ao ver o servo que trazia o vinho, e levantou-se da poltrona apavorado.

— Ra-Rakhar... o q-que significa isso?

— Majestade — disse Rakhar fazendo uma reverência.

— O que está fazendo aqui? V-você é um traidor do nosso povo e da nossa causa! Se o Paramhud te ver ele te mata!

— Perdoe-me a minha insolência, majestade! Mas eu precisava vê-lo para esclarecer os desentendidos do dia em que fugi de Kherug. Se me julgar indigno, puna-me como julgar neces...

Antes que Rakhar finalizasse o seu discurso, Aru o abraçou com toda a força.

— Por que você me abandonou? — falou Aru.

— Peço desculpas por essa terrível falha...

— Deixarei vocês conversarem a sós — disse Sigmunr. — Além do mais, se o pessoal perceber a minha falta, podem desconfiar.

 

Após a saída de Sigmurn, Rakhar contou ao rei a mesma história que havia dito ao general, os acontecimentos da noite em que abandonara Kherug até tornar-se mercenário em Arnghurn. O Rei voltou a abraça-lo, e lamentou a morte do seu filho.

— Como tem sido a vida de Rei? — disse Rakhar.

— Não é tão gloriosa assim. Meu pai me enganou...

Há! Há! Há! Ele idolatrava a coroa.

— ...E morreu tentando obtê-la. Meu pai e minha mãe, os dois morreram tentando domar o leão branco.

— Sim. Eu estava lá. Me arrependo de não tê-los impedido.

— Não funcionaria. E como alto sacerdote, você não poderia fazer nada.

Hunf! Será que Urn tem mais prazer nessas tradições do que na vida dos seus filhos?

— ...Gostaria de tê-lo aqui novamente como alto sacerdote. Sua sabedoria me ajudaria bastante. O Paramhud, além de nos aprisionar nas doutrinas proscritas, não pratica nenhuma delas. É só um legalista maldito... Além do mais, ele... deixa pra lá.

Rakhar pensou por um instante.

— Como anda o Brehu?

— Ele e o Paramhud não largam do meu pé.

— É bem a cara dele.

— Pretende ficar em Kherug?

— Não sei ao certo. Gostaria, tanto quanto você, de desmascarar o alto sacerdote, mas a minha permanência aqui pode causar muitos problemas.

— Você deveria arriscar! Essa pode ser a nossa melhor oportunidade de acabar com o Paramhud!

— O que quer dizer com isso?

— Paramhud está planejando atacar Erug e destruir o bastião dos sâmidas em Ghurn. Se ele tomar o controle da capital de Arnghurn, terá ainda mais poder e apoio. Se não destruirmos ele agora, talvez nunca mais possamos fazê-lo!

Rakhar ficou assustado. Constatou que, de fato, aquele era o melhor momento para combater o alto sacerdote. Embora quisesse puramente vingar-se e limpar seu nome, aquela luta era maior que um anseio egoísta. Era uma oportunidade de acabar com todas as artimanhas de um déspota que caminhava a passos largos de destruir tudo aquilo que lhe importava.

 

Ao findar a festa, os convidados foram pouco a pouco se retirando.

Minikri, a filhinha de Sigmurn dormia no sofá. O general pediu que His a levasse até o quanto.

— Como foi com o Paramhud? — falou Sigmurn.

— Não se preocupe, ele não fez nada comigo. Sei lidar com aquele tipinho de pessoa — disse His.

Rakhar, Pontino e Luz estavam preparando-se para dormir, quando Sigmurn chegara no quarto.

— E a conversa com o rei? — disse o general.

— Eu me decidi — falou Rakhar — vou ajuda-los a combater o alto sacerdote!



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