Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Ato 1

Capítulo 12: O leão Maldito – Parte II

Já era madrugada quando os guardas da polícia sâmida chegaram à fazenda onde morava Ivis Peris, o prefeito de Erug. Eles gritavam desesperadamente pelo magistrado, que dormia tranquilamente com a família.

De imediato, assim que acordou, Paeris pusera uma túnica e descera até o salão principal de sua casa, onde os homens se encontravam.

— Por mil sóis, que algazarra é essa na minha casa?

— Me desculpe pelo inconveniente, senhor prefeito, mas a ocasião urge!

— Saiba, soldado, se não houver uma justificativa plausível para vir até a minha residência a esta hora e acordar a mim e a minha família, eu juro pelo Sol, que corto a sua cabeça!

— Senhor, leões! Leões estão atacando Erug!

A cara gorda e vermelha de raiva do prefeito convertera-se no branco pálido do desespero. O frio lhe subira a espinha. Parecia que o fatídico dia da guerra civil que tanto temia havia chegado.

— Os, d-domadores estão atacando Erug?

— Não, senhor! Não há domadores, só leões!

 

Tão rápido quanto os guardas que foram em sua casa, Ivis Paeris chegara a Erug na carruagem da polícia. Parou em frente à delegacia e encontrou-se com Vitri.

— O que está havendo aqui, comandante? — disse o prefeito.

— Esta cidade está um caos, Paeris! Como sempre, os malditos leões! Atacaram a praça principal, mataram pessoas em suas casas e estão aterrorizando o distrito três no leste. Onze soldados foram mortos e os outros fugiram aterrorizados. Segundo os relatos, não haviam domadores. Sugiro que volte para sua casa e refugie-se. Estamos providenciando um toque de recolher nos outros distritos para evitar mais mortes. Em breve eles estarão aqui...

O prefeito calou-se por um instante, fechou os olhos e saiu da presença da chefe da guarda. Em seguida, Paeris montou em um cavalo e seguiu em direção ao leste.

— O que está fazendo, prefeito? — Vitri gritou e correu na direção do magistrado, mas o cavalo já estava longe do seu alcance. — O que esse maluco tem na cabeça? Lionis, mande guardas para o quadrante leste!

— Senhora, os guardas...

— Mande guardas para o destacamento leste! Agora! O prefeito corre perigo!

Paeris galopou o mais rápido que pode, e em cinco minutos chegara na região de Erug onde os leões atacavam, e vira as três feras sem domador.

O lugar estava um caos.

Sangue e pessoas mortas pintavam o cenário da desolação, dilaceradas pelos animais, que mais pareciam demônios.

— Legal... eu definitivamente cavei a minha sepultura. Nem uma espada eu trouxe.

Vinte guardas chegaram logo em seguida, mas hesitaram em aproximar-se dos leões. Um deles foi até o prefeito e o conduziu para trás de uma casa, escondidos das feras.

— Senhor, aqui estamos seguros. Vamos sair devagar e fugir antes que eles nos vejam — disse um dos soldados.

— Fugir? Se não matarmos esses bichos eles vão arrasar toda a cidade — falou o prefeito.

— Não podemos lutar agora! Devemos realizar uma manobra evasiva e atacar com mais soldados outro dia. Uma solicitação de mais guardas já foi feito pela comandante Vitri.

— Esta é a minha cidade e preciso fazer alguma coisa! Soldado, dê-me sua espada!

O guerreiro recusou-se a colaborar com o magistrado, e tentou forçá-lo a abandonar a missão de lutar contra os leões. Após uma breve conversa, Paeris decidiu seguir com os homens. Contudo, ao olhar novamente na direção das feras, vira uma pessoa indo de encontro aos animais.

— Veja aquele homem! Será atacado! — Paeris tomou a espada da bainha de um dos policiais e correu para salvar o cidadão que seguia no caminho das feras. Os soldados desesperados desembainharam também seus sabres e acompanharam o magistrado.

A pessoa que rumou em direção aos leões começou a acariciar a juba das feras que não o atacaram. Vendo aquilo, os soldados pararam e observaram a façanha.

— Ei, cidadão — disse Paeris. — Por acaso, é o domados dessas feras? — O prefeito apontou a espada na direção do transeunte. A lâmina tremulava.

— Olá, companheiros! Creio que estes três garotos causaram muita confusão esta noite, não é? Peço desculpas por isso, mas são leões perturbados pelo caos. Sei que muitos dos seus morreram pelo estrago que eles causaram, “Que Urn os recebam em seu santuário eterno!” — falou o homem misterioso.

— N-não podemos simplesmente aceitar as suas desculpas e deixar que passa impune, domador! Guardas, prendam-no! — O prefeito estava com medo de aproximar-se daquela figura misteriosa, assim como os guardas.

— Eu não sou um domador. Pelo menos não da forma como vocês conhecem. Eu sei que buscam explicações, e estou disposto a depor em sua delegacia. Mas antes, aguarde um minutinho... Poderoso Urn, pelos poderes do Tamher, a mim concedidos, purifique o caos destas criaturas e que o espírito do leão retorne a Ti. Lamerut!

Após proferir aquelas palavras, o homem misterioso tocou a cabeça dos leões que morreram no mesmo instante.

— Pronto, podem me levar. — O rapaz estendeu a mão para que os guardas o prendessem.

 

Ao chegarem à delegacia, o homem misterioso foi inquirido por Vitri. Paeris ficou no fundo da sala ao lado de um guarda, a fim de ouvir o interrogatório.

— Quem é você? Por que atacou Erug com seus leões? Por acaso é um daqueles rebeldes servos do rei dos domadores? — disse a chefe da polícia.

— Nossa, quantas perguntas! He! He! He! Bem, quem eu sou não é importante. E outra vez, eu não ataquei Erug. Aqueles leões não eram meus. Quanto ao “rei dos domadores”, eu não sirvo a ele.

— Se você não domava aqueles leões, como conseguiu controlá-los e matá-los?

— Ah, sim. Aquilo é um poder especial concedido apenas aos servos do Tamher.

Tamher? Fale a minha língua!

— O Tamher é o domador do espírito do leão sagrado. O Arauto do Fim.

— Filimus, poderia traduzir pra mim o que esse idiota está dizendo? — Vitri chamou o guarda que estava ao lado de Paeris.

— Os domadores tem um livro sagrado chamado de Poemas da Criação e da Verdade — disse Filimus. Há algumas profecias contidas ali, dentre elas, a de que no fim dos tempos surgiria um homem chamado de Tamher, o maior de todos os domadores, que traria fim a era desses guerreiros, ou algo assim. As interpretações são diversas.

— Esse rapaz sabe o que diz — disse o homem misterioso.

— Calado! — falou a chefe da guarda. — Não tenho tempo para a mística desses bárbaros! Me diga o porquê daqueles animais desgraçados terem atacado a minha cidade!

Há! Há! Há! Você não quer saber da nossa “mística” mas é impossível explicar o que está acontecendo aqui sem recorrer a ela. Aquelas feras são leões malditos, animais que perderam seus domadores e vagam por aí em busca de vingança contra aqueles que mataram seus donos. O bizarro dessa história toda é que eu nunca presenciei três deles juntos, e o pior...

— “Pior” o quê? Diga logo, criatura!

— Foi a primeira vez que eu vi um leão falar...

— Filimus, jogue esse imbecil na cela e dê um bom corretivo nele! Está começando a zombar da minha cara!

— De todas as coisas que estão acontecendo aqui, você acha que um leão falar é a mais improvável delas? — O homem misterioso levantou-se da cadeira. — Saibam que eu ouvi o que eu ouvi. Os feras falavam com grande dificuldade, quase não dava pra entender...

Filimus colocou a mão na sua espada, preparando-se para contra-atacar caso o homem fizesse algo com Vitri.

— ... os leões diziam, “os lobos estão chegando”...



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