Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Ato 1

Capítulo 11: Resposta

Três horas se passaram desde a partida de Rakhar.

Pontino estava entediado e impaciente. Armou uma pequena barraca para proteger-se do sol do deserto, enquanto Mro descansava à sombra de um arbusto mirrado. O escriba tentou dormir para passar o tempo, contudo, ouviu o barulho de uma carroça se movendo e correu para ver o que era.

— Já era hora — disse o sâmida.

— Olá, companheiro! Então você é o parceiro de viagem do domador brabo aqui? — disse uma pessoa estranha ao lado de Rakhar numa carroça.

— Quem te disse que eu sou domador? — falou Rakhar assustado.

Há! Há! Há! Eu conheço um domador de longe! Também vi o leão grandão ali na moita. — O homem que guiava a carroça era um velho gordo. Usava um turbante cor vinho e uma capa verde sobre uma túnica amarelada. Tinha dentes de ouro e uma maquiagem preta em volta dos olhos, pratica comum entre os andarilhos do deserto.

Quando os cavalos pararam, Rakhar desceu e começou a arrumar as suas coisas para partir.

A carroça tinha uma lona bege que envolvia as mercadorias do viajante. Pontino estava admirando a diligência, de repente, uma criança saiu de maneira inesperada da lona e o assustou.

— Oi! — disse a menina.

— Que diabos, quer me matar?! Pelo sol, quem é esse garotinho? — falou Pontino.

— É uma menina — disse Rakhar.

— É sua filha? — Pontino perguntou ao carroceiro.

— Pensei que fosse filha do domador. — O carroceiro retrucou confuso.

— É uma pirralha que vivia nas ruas de Merghurn. Ela não sai do meu pé. — Rakhar pegou sua bagagem e acariciou a juba de Mro.

— E você, você traz ela consigo? E se alguém der falta dela?

— Ela disse que não tem pais.

— Se eu fosse vocês, me livraria dela. Crianças de Merghurn são crias de lobo. Elas atraem o mal! — O carroceiro entrou na conversa.

— E você atrai o fedor, cara de sapo! — disse a menina.

— Sem chance, não vou levar essa “malditinha” até Surghurn.

Pontino olhou para a menina e teve compaixão da pobre criatura. Não poderia deixá-la naquele deserto.

— Eu pago... Eu pago a viagem dela.

O dono da carroça hesitou, mas aceitou a oferta.

— Depois não digam que eu não avisei. Estão atraindo mal agouro.

— Não se preocupe. Eu sou um domador, cuidarei desse “mal agouro” caso ele se manifeste.

Rakhar colocou a mão sobre o ombro de Pontino e acenou positivamente com a cabeça. Foi a primeira vez que o domador elogiara uma atitude do sâmida.

— Você me deve quatro moedas de ouro — disse o domador.

— O quê? Onde, onde gastou tudo isso? Você comprou, comprou a carroça junto? — falou o escriba.

A menininha de Merghurn olhava encantada para o Mro. Nunca havia visto um leão tão grande como aquele.

— Por que seu leão é preto? — disse a menina.

— Porque é o leão negro sagrado... — O carroceiro respondera antes de Rakhar. Não reparou nesse detalhe quando o observou pela primeira vez. Também ficara maravilhado. — Você não é um domador qualquer.

Apesar de ter andado muito tempo com Rakhar, aquela também era a primeira vez que Pontino prestava bastante atenção em Mro.

— Leão sagrado? — falou o escriba.

— Um dos quatro animais mais poderosos de Urn — disse o carroceiro.

— Calem a boca e vamos sair logo deste deserto maldito. — O domador encerrou a conversa.

 

 

O caminho até Kherug foi longo. Os dois dias de jornada planejados transformaram-se rapidamente em três, devido as constantes pausas do carroceiro em razão de seus negócios variados nas vilas da região.

No terceiro dia do percurso, os peregrinos chegaram em Surghurn, e hospedaram-se na casa de um velho amigo do dono da carroça. Dormiram em camas de verdade e comeram uma comida bem feita, o que renovou as forças dos viajantes. No dia seguinte, no despontar do primeiros raios de sol, a comitiva partiu em direção a Kherug.

Kherug era uma cidade diferente das outras. As casas eram construídas com base na arquitetura ghurnida clássica sem os ocidentalismos de Erug. As ruas possuíam muitas árvores, o que conferia ao local um ar úmido, fresco e agradável em meio ao deserto.

As pessoas vestiam-se com belas túnicas e pareciam felizes.

Pontino estava deslumbrado com a cidade. Rakhar, por sua vez, parecia assustado. O escriba notara o nervosismo do mercenário.

A carroça parou numa praça, último destino, e os passageiros desceram. Pontino pagou o carroceiro, que despediu-se e foi embora.

— Está tudo bem, Rakhar? — disse Pontino.

— Não podemos ficar à vista. Sigam-me. — O domador suava frio. Começou a agir de maneira estranha, mais insegura do que de costume.

Pontino, Mro e a garotinha merghurnida seguiram Rakhar por um beco estreito.

— Ah, que insensibilidade a minha — disse o escriba. — Estava com a cabeça tão longe que me esqueci de perguntar o seu nome, garotinha.

— Eu não tenho nome. Meus pais morreram quando eu era bebê. As pessoas da rua que cuidavam de mim me chamavam de Luz, porque diziam que eu não gostava de dormir no escuro, mas próximo às tochas da praça de Merghurn.

— Luz é um belo nome.

— Calem a boca! — disse o domador irritado.

— Para onde estamos indo? — falou Pontino.

— Para a casa de um conhecido.

— Por que está agindo tão estranho, como se estivesse sendo perseguido?

— Porque eu estou sendo perseguido!

Pontino calou-se. Aquilo parecia realmente sério. Mas o que um domador tão poderoso e seguro de si temia?

 

Rakhar andava pelas vielas e ruas de Kherug como um exímio conhecedor do lugar, como se já tivesse morado ali um dia. Vestiu sua capa com um capuz no intuito de esconder seu rosto. Agia como se não quisesse ser reconhecido.

Após uma longa caminhada, sentaram-se sobre uma ponte e ficaram ali até anoitecer.

Ao cair da noite, esgueirando-se pelas sombras, o domador e seus companheiros retomaram a jornada. Alimentaram-se da comida que sobrou da viagem e seguiram pelos becos até se aproximarem de uma bela casa no subúrbio de Kherug.

— Ei, criança. Tenho uma missão para você. Aproxime-se do guarda no portão daquela casa branca e diga para ele falar com seu chefe que a Ira de Urn está no portão — disse Rakhar.

— “Ira de Urn?” — falou Pontino.

— É um código. Só o Sigmurn e eu conhecemos o significado. Ele irá me receber se disser isso.

Luz partiu em direção ao guarda que vigiava o portão da casa de Sigmurn. Ao aproximar-se do homem, ela proferiu as palavras de Rakhar.

— O que disse? Cai fora daqui, moleque! Aqui não é lugar para mendigos!

— Eu sou uma menina! E não vou embora até você dar o meu recado ao seu chefe!

— Já que é assim, irá levar umas boas palmadas para aprender a respeitar os mais velhos! — Quando o guarda se preparava para bater em Luz, Mro apareceu de relance nas sombras. O vigia ficou imóvel observando o animal, e ao cair em si, correu até os aposentos do seu superior e lhe deu o recado.

Dez minutos depois, Sigmurn desceu até o portão da sua casa e conversou com a menina. Ele estava acompanhado de Pirh, seu leão, e acompanhou Luz até o beco onde Rakhar estava escondido.

— “A ira de Urn cairá sobre nós” — falou Sigmurn.

— “A ira de Urn cairá sobre o caos” — Rakhar completou o provérbio.

Os dois domadores se abraçaram como verdadeiros amigos reencontrando-se após muito tempo. Pontino ameaçava um choro de alegria, mas segurou a emoção.

— Desgraçado, bastardo, amigo desnaturado! — disse Sigmurn. — Desaparece sem avisar e retorna como se nada tivesse acontecido?

— Eu fui obrigado a fugir, maldito! — Rakhar respondeu aumentando a voz.

O escriba, por sua vez, observava confuso. Não sabiam se os domadores estavam felizes ou bravos com o reencontro.

— Sigmurn, por que você não voltou-se contra mim naquele dia?

— Porque eu te conheço melhor que ninguém.

Pontinou não conseguiu conter o choro desta vez.

 

Após as formalidades do reencontro, Sigmunr convidou Rakhar e seus amigos para entrarem e se hospedarem em sua casa. O lugar era amplo e espaçoso, digna de uma residência da nobreza de Kherug.

— Sentem-se. Sejam bem-vindos ao meu lar. Minha  filha está dormindo, podemos conversar à vontade aqui no meu escritório — disse Sigmurn.

— Vejo que se deu bem na vida — falou Rakhar.

— Com a morte dos meus irmãos, toda a herança do meu pai foi passada para o meu nome. Confesso que me desfaria de todo o luxo para reaver a vida deles.

— “Que Urn os receba em seu santuário eterno” — disse o mercenário.

— “Que Urn os receba em seu santuário” — falou Sigmurn.

— “Que Urn os receba em seu santuário” — disse Luz, repetindo os domadores. Ela olhou para Pontino, para que o escriba também proferisse a prece.

— “Que Urn receba” blá, blá, blá...— O sâmida falou baixinho com vergonha dos domadores.

— “No santuário”! “No santuário”, fala... — A menina puxava a túnica do escriba para que ele falasse as palavras.

— Tá bom! “No santuário” …— disse Pontino ainda mais envergonhado.

— Quem é o estrangeiro e o menino? — falou Sigmurn.

—Eu sou uma menina! — disse Luz.

— Eles são castigo de Deus. — Rakhar assentou-se numa das poltrona no escritório do amigo.

— Não entendi... — disse Sigmurn.

— O magrelo careca é um escriba sâmida e a garotinha é uma órfã merghurnida.

— Puxa, é um castigo dos brabos! Há! Há! Há! — Sigmurn abriu um odre de vinho ghurnida. — Sabe que andar por aí com uma criança de Merghurn é sinal de mal agouro.

— Sou um domador experiente, conheço os riscos.

Hunf! Arrogante como sempre! Não era à toa que fora o melhor Alto sacerdote que já tivemos!

Pontino cuspiu o vinho da boca.

— Ei, estrangeiro! Está sujando o meu tapete — disse Sigmurn.

— De-desculpe-me, senhor! Mas, você disse, você disse que o Rakhar ... ele era... puxa vida! Alto sacerdotre?!

— Exato. — Sigmurn olhou para o mercenário — Rakhar, o que de fato aconteceu na noite em que fugiu? A notícia que recebemos do Paramhud foi que você uniu-se aos lobos e sacrificou seu filho aos trognosh. Mas eu te conheço desde criança, sei que nunca faria aquilo.

Rakhar abaixou a cabeça e começou a lembrar-se de daquele fatídico dia. Seu semblante era uma mistura de ira e culpa.

— Amigo, tudo bem se não quiser fal..

— Paramhud — disse Rakhar. — O maldito Paramhud me traiu! Aquele animal sinistro que ele doma tem o poder de controlar mentes fracas. Parece loucura, mas eu vi. Ele manipulou a cabeça de um dos meus sacerdotes mais leais na época. Chamava-se Oler, e era um bom homem. O sádico do Paramhud fez com que Oler sequestrasse meu filho recém-nascido... — Rakhar começou a chorar.

— Amigo, não precisa...

— Não. É bom que vocês saibam o que aconteceu. Oler sequestrou meu filho Rayri, o levou até a montanha de Proter e ameaçou jogá-lo aos lobos que estavam ali. Achei estranho, nunca vi lobos em Kherug, mas eles estavam lá, sedentos por carne. Oler, possuído por Paramhud, jogou meu filho aos lobos, que... Que o desmembraram na minha frente...

Pontino chorava copiosamente. Luz, mesmo nova para entender todas aquelas questões, também comoveu-se com aquele clima fúnebre.

— Oler fora morto logo em seguida pelos lobos. Foi tão rápido e inesperado que eu e o Mro não pudemos fazer nada. A única forma de me vingar foi matando as feras, mas o mal já estava feito. Paramhud chegou logo depois com toda a guarda de domadores, dentre elas Yiriurn, minha mulher, que mesmo se recuperando da gravidez, fizera questão de resgatar seu bebê. Quando ela viu os pedaços do seu filho em minhas mãos, ficou inconsolável. Paramhud... aquele maldito proferiu as piores mentiras a meu respeito. Ele disse que eu me aliara aos lobos e sacrificara meu único filho ao caos. Não tinha forças para fugir. Aceitei a minha morte naquele momento, mas o Mro me arrastou. Foi então que fugi e me escondi em Erug, sem perspectiva de nada. Tudo que eu ansiava era a morte, mas o Mro não me deixou morrer. Para sobreviver, me tornei mercenário, e foi então que conheci o nosso amigo sâmida aqui...

— Sim, isso esclarece muita coisa — disse Sigmurn. — Conhecia a índole do Paramhud, mas tudo isso...

— Como está Yiriurn?

— Ela tornou-se uma Kirk. Depois de perder tudo, o trabalho foi a única coisa que restou.

— Se ela me ver...

—Pode ter certeza que ela te mata!

— Quem diria — falou Pontino. — Quem diria que o domador coração de pedra tem sentimentos.

Rakhar sorriu.

— Dizem que o Paramhud pode ver tudo com aquele leão. Acha seguro nos reunirmos aqui? — disse o mercenário.

— Nem tudo, meu amigo. Há tempos venho estudando o alto sacerdote. E para que fique registrado, nunca confiei nele! Por muito tempo ficamos acuados com medo daquele crápula, mas ele tem um ponto cego. O alto sacerdote não é onisciente, ele só vê uma coisa por vez. Aliás, ele não sabe que você está aqui, então, não pode te ver. No momento, ele só tem monitorado o Aru...

— Aru! — Rakhar levantou- se da poltrona. — Sigmurn, como está o Aru? Soube que ele foi coroado!

— Aru vive naquele dilema, “ser ou não ser” rei. Na verdade o verdadeiro tirano é o Paramhud. Aru é só um fantoche.

— Maldito! Não permitirei que ele me tome um segundo filho!

— Você tem outro filho? — falou Pontino.

— Filhos não são só de sangue. — Paramhud respondeu ao sâmida.

— Por enquanto você não poderá encontrá-lo. O Paramhud está fiscalizando cada passo do garoto. Combinamos de nos ver aqui semana que vem, no aniversário da minha filha. No entanto, preciso distrair o alto sacerdote. — Paramhud parou e pensou por um segundo. — Sabe, Rakhar, eu não esperava vê-lo tão cedo. Para dizer a verdade, achava que estivesse morto, ou bem longe daqui. Contudo, parece que Urn nos uniu novamente, e isso não pode ser em vão! Gostaria de unir-se a mim na luta contra o alto sacerdote e a sua cúpula?

Rakhar não respondeu nada de imediato. Olhou para Pontino como se esperasse a aprovação do seu contratante.

— Eu não sei, amigo. Não sou bem-vindo aqui. Na verdade, vim a trabalho, a serviço do meu novo chefe.

— Rakhar — O escriba tomou a palavra. — Não se preocupe. Família é mais importante.

 Sigmurn sorriu.

— Em nome dos velhos tempos. — Sigmurn estendeu a mão para o mercenário.

Rakhar segurou firme.

O pacto estava selado.



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