Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Ato 1

Capítulo 1: Escriba do Ocidente

As ruas da decrépita cidade de Erug, grande centro urbano do distrito de Arnghurn, região norte do reino de Ghurn, estavam mais movimentadas do que de costume. Uma carruagem elegante desembarcara às portas do prédio do prefeito, e dela saiu um homem magro, por volta dos trinta anos, calvo e com a barba aparada. Vestia roupas típicas de uma pessoa importante, e o fato de estar escoltado por alguns soldados, reforçou tal teoria. O povo do pequeno reino de Ghurn espiavam pelas janelas das suas casas para ver o viajante.

Dentro da prefeitura, sentado em uma cadeira e lendo uma carta, estava o prefeito da província, Ivis Paeris. O magistrado fitava, muito concentrado, a tal carta, o que o impedira de ver um guarda entrar pela porta da frente.

— Saudações, senhor! — O guarda fez uma reverência. — O seu irmão acaba de chegar junto com a sua comitiva. Deseja recebê-lo?

O prefeito deu um suspiro, apertou os olhos com os dedos como se fosse afundá-los para dentro do crânio. Tinha um semblante digno de um alcaide, o de cansado. Fez um sinal com a mão, pedindo para o guarda os deixarem entrar.

— Sim, Lamios. Sua chegada já era esperada.

Lamios fez um gesto para que os viajantes entrassem na sala do prefeito. A sala era espaçosa, com poltronas vermelhas acolchoadas espalhadas pelo local. Havia também um grande tapete com um sol bordado no meio. A mesa do prefeito estava cheio de pergaminhos espalhados, junto com penas e tinta, tudo tão desajeitado, como se um furacão tivesse recém passado por ali. Nas paredes haviam estandartes do sol de Sames que conferiam um ar solene ao escritório caótico. O prefeito trajava uma toga branca com detalhes amarelos, bem como um cinto dourado, com um sol gravado na fivela. Era gordo como um orbe de carne ambulante. Ao ver o irmão, levantou-se e o recebera com um abraço, mas com uma cara um tanto insatisfeita.

— Embora eu tenha alertado e insistido para que não viesse a Ghurn neste momento, quem consegue convencê-lo do contrário, não é, Pontino?

— Que bom te ver, irmão! — retrucou Pontino de maneira sarcástica, desconversando. — A vida de um prefeito não é nada ruim, hein? Vejo que ganhou uns quilinhos. Não vai mais caber na armadura de general...

— Preferiria mil vezes as batalhas. Essa vida de magistrado está me tirando os cabelos que ainda restam!

— Como estão Linus e Maia?

— Bem. Estão em minha fazenda. A província está um caos! Retirei-os daqui por hora... Como te disse, o reino está em polvorosa, e não é um bom local para se estar no momento.

— Estou de férias irmão, de férias. Resolvi viajar pelo mundo. Além do mais, sempre quis conhecer o leste e os poderosos domadores! Gosto dos mistérios e a da mística do oriente — deu uma gargalhada alta. — Brincadeiras à parte, na verdade estou aqui porque o imperador me pediu um relatório da situação em Ghurn, e o porquê do grande império sâmida ter tantas dores de cabeça com um pequeno domínio como esse.

— Mais essa ainda. — Paeris sentou-se novamente e pôs a mão sobre a cabeça em sinal de preocupação.

— Esses domadores estão acabando com a sua reputação diante dos conselheiros e do imperador, irmãozinho. Estou aqui para te ajudar. Quero conhecer o inimigo para destruí-los por dentro. Seremos uma dupla! Mas por hora, estou cansado. Onde posso tomar um banho e descansar? 

O escriba estava muito cansado, e não era para menos, Ghurn ficava a 10 dias de viagem de Sames. Era uma viagem longa e extremamente fatigante para qualquer um. Geralmente as pessoas viajavam em grandes caravanas, que vistas de longe aparentavam robustos rebanhos de ovelhas vagando pelo pasto, unidas para se protegerem e colaborarem entre si. No deserto do leste, viagens longas e solitárias eram tão perigosas quanto um cordeiro pastando sozinho em território de lobos famintos.

As caravanas seguiam pelas estradas pavimentadas, conhecidas como as estradas sâmidas. Sames era o império mais poderoso do mundo conhecido, e há trinta anos investira em uma campanha contra os poderosos domadores de leão de Ghurn, que embora tivessem resistido bem, sucumbiram aos guerreiros sâmidas que eram mais organizados, inteligentes e possuíam poderosas armas de guerra. O leste era um importante centro comercial, e embora as cidades mais importantes ficasse no extremo oriente, Ghurn era o meio de ligação entre elas.

***

Pontino Limininus Peris era um homem simpático e mais alegre que o irmão. Tinha uma maneira especial de cativar as pessoas, e embora Ivis Paeris tenha ficado receoso pela sua vinda ao leste, gostava da presença dele. Ao fim do expediente de trabalho, os irmãos deixaram a prefeitura e rumaram para a fazenda do prefeito. Pontino viera escoltado por dois soldados amigos que o acompanharam em sua viagem, Manes e Cimo.

Ao chegarem na fazenda, foram recebidos pela bela esposa do prefeito, Maia, e seu filho Linus. Maia era uma mulher charmosa, parecia ser mais nova do que aparentava e se vestia de modo elegante. Linus tinha 10 anos, e não lembrava muito bem do tio. A última vez que o vira em Sames ainda era um bebê, mas logo se afeiçoara a Pontino, que era brincalhão e simpático com o garoto.

 Logo após o banho, a família Paeris preparou um belo jantar. Vários escravos traziam pratos diversos, alguns estranhos para Pontino: — Comida do leste. Estranha, mas deliciosa — dizia ele lambendo os beiços. Após o banquete, já limpo e satisfeito, Pontino avistara o irmão na varanda da sua casa, com uma taça de vinho e um semblante pensativo.

— Creio que esta seja uma boa hora para colocarmos o papo em dia — disse Pontino de maneira cordial, apoiando-se no parapeito de madeira na varanda. Contemplou uma bela vista, afinal, a fazenda do prefeito Ivis Paeris era enorme. No centro estava sua grande casa, feita no estilo de alvenaria sâmida, acabada em mármore e bela cerâmica. A casa contava com muitos quartos, portas e janelas. Havia ao redor do estabelecimento uma vasta plantação de oliveiras no imenso deserto seco de Ghurn, conferindo um belo contraste entre o verde das árvores e o amarelo quase cinza da terra do deserto.

— Como está o pai? — perguntou Paeris.

— Está bem, está bem. Desde que a mãe se foi, a única coisa que ele faz é cuidar das suas terras. O trabalho no campo o deixa forte e saudável. Mas não é sobre isso que quero conversar. O que quero saber é, o que há com essa terra que tanto te preocupa?

— He he... — Paeris deu uma risada nervosa — Este lugar é amaldiçoado! As pessoas daqui são malucas, e eu sou um estranho no meio do furacão. Quando o imperador me nomeou governador das terras do leste, eu e Maia ficamos muito felizes. Seria nossa oportunidade de mudar de vida! Mal sabia eu que era uma bela de uma armadilha. Preferiria mil vezes lutar contra mil bárbaros do que domar dez dos malucos que vivem aqui...

— Domar... bem sugestivo... — disse Pontino – Engraçadinho você, não?

Paeris, no entanto não achava nada daquilo engraçado, e continuou com uma voz de pesar:

— Esse leste mágico e místico que você quer tanto conhecer é um tanto complicado.

— Era isso, isso que eu queria saber. Em sames, as histórias dos domadores que vivem aqui são muito famosas. Contam que eles tem poderes mágicos, que controlam feras enormes com o poder da mente. Dizem que apenas um deles é capaz de derrotar vinte dos nossos melhores guerreiros. Inclusive, o próprio imperador ficou fascinado com os relatos. O mesmo discorreu que o seu pai, o falecido Minus Nitus, lutou na linha de frente para tomar este lugar. Aliás, como te disse anteriormente, esse é o motivo da minha vinda tão repentina. O imperador tem planos de vir aqui assim que acabar a sua campanha no norte. Ele me pediu para que pudesse escrever um relato detalhado das terras, do povo e dos domadores em especial.

— O imperador quer vir aqui? — Paeris arregalou os olhos e desapoiou do parapeito. — Se ele pisar nessas terras esse domadores malucos o devoram com seus leões. Para eles, o imperador é a encarnação do demônio! Eles odeiam o imperador tanto quanto odeiam domadores de lobos e as pessoas de Mergurn. Eles estão cheios de rancor acumulado pelo fato do império sâmida ter tomado a terra deles. Falando nisso, recebi relatórios hoje de manhã dizendo que há um grupo dissidente no sul que busca retomar o poder de Ghurn. Soube que levantaram um rei domador, e que ele está alinhado com alguns sacerdotes e nobres. Uma guerra civil está prestes a estourar neste lugar! Percebeu o porquê de eu dizer que não era uma boa hora para estar aqui?

 — Vai com calma irmão. Não estou entendendo mais nada do que está dizendo. Vejo que terei muito trabalho para me familiarizar com os termos e a situação política do lugar. — Pontino ficou calado. Estava reflexivo. Percebera que pela preocupação do irmão, a magia do oriente não era nada esplendoroso, mas complicada. Temeu por um instante, mas era o seu trabalho. Não queria ficar muito tempo em Ghurn, mas sabia que poderia haver contratempos. — É de fato uma situação complicada. Ivis, mudando de assunto, preciso que me consiga um bom guarda-costas. Quero começar o mais rápido possível o reconhecimento do lugar.

— E os dois soldados que vieram contigo?

— Manes e Cimo estão indo em direção ao destacamento dos guerreiros do Sol Vermelho mais ao leste. Como era caminho, eles me escoltaram até aqui, mas seguirão rumo ao seu destino amanhã. Não seria possível que algum desses domadores que vivem aqui me escoltassem? Sei lá, um do tipo mercenário?

— Endoidou de vez? Os domadores são fanáticos, orgulhosos e perigosos! Eles são adeptos de uma religião de malucos que odeia os sâmidas! Não brinque com fogo, irmão!

— Não se preocupe. O Sol de Sames e os Generais Do Céu irão me proteger! — disse Pontino de maneira sarcástica.

— Me engana que eu gosto. Você nunca ligou para os deuses. — Paeris abaixou a cabeça e fez um sinal de negação. Temia pelo irmão, mas temia também pela vida de sua família e pela sua carreira como prefeito. – Não me arrume mais confusão, Pontino. Já tenho muitos para resolver. Vou pedir para os meus servos aprontarem a sua cama. Deve estar cansado, pois já está falando muita besteira...

***

Na manhã seguinte, ao despontar os primeiros raios do sol escaldante do leste, os companheiros de Pontino, Manes e Cimo, partiram junto a uma caravana de mercadores rumo ao leste. Logo após uma farta refeição matinal, Pontino, na companhia do irmão, rumaram para Erug. A fazenda de Paeris era relativamente próximo da cidade, sendo possível ir a pé. Contudo o prefeito pedira para que um dos seus escravos que preparassem a sua carroça e os levasse à prefeitura, afinal, não cultivara o físico atual com esforço. Partiram logo cedo, e ao chegarem no local, Paeris pediu que Lamios, seu guarda pessoal, providenciasse um guarda-costas para auxiliar o seu irmão, de preferência um domador mercenário.

Lamios partira em busca de um guarda-costas, e sabia da difícil missão de se recrutar um domador que topasse escoltar um sâmida. A missão era tão complexa quanto misturar azeite à água. Os habitantes de Ghurn odiavam o povo de Sames, pois o império explorava o povo em demasia, cobrando impostos abusivos e fazendo pouco caso das pessoas.

Naquele tempo a região de Ghurn era dividida em três distritos, e cada distrito possuía dezenas de cidades e vilas. O distrito de Arghurn ficava ao norte, e a cidade mais importante do distrito era Erug. Merghurn ficava no centro, tendo como a capital a obscura Midom. Surghurn ficava mais ao sul, e era o lar dos domadores. Sua capital, Kherug, era o centro religioso do Reino.

A região de Arghurn era mais tranquila que as suas irmãs desgarradas, com poucos conflitos e gente de toda a parte do mundo conhecido. Era o recanto dos comerciantes, marinheiros, mercenários, prostitutas e pedintes. Uma minoria de domadores vivia no norte, pois consideravam a região impura e o lar de muitos demônios. Era a sede do governo sâmidas e onde eles tinham mais liberdade para transitar. Se havia um bom lugar para encontrar um domador mercenário desgarrado, esse lugar era em Arghurn, mais especificamente, ali em Erug.

Já era o meio do dia quando Lamios retornara à prefeitura. Enquanto esperavam, Pontino auxiliava o irmão com alguns documentos e cartas, já que era um excelente escriba. Quando avistaram Lamios, logo o indagaram:

— Onde está o guarda-costas? Conseguiu encontrar algum? — Os dois irmãos questionaram em uníssono.

— Sim, senhores. Foi difícil, mas eu consegui. Mercenários não costumam dar a cara à luz do dia. Geralmente ficam nas tavernas e locais escusos, mas um dos meus contatos conhecia um homem.

— Tá bom, tá bom. E onde está essa pessoa? — falou Pontino meio impaciente.

— Está lá fora, senhor. — Lamios apontou para fora do escritório.

— É um domador? — Paeris perguntou antes do irmão, curioso.

— Sim.

Paeris e Pontino saíram para vê-lo. Pontino estava intrigado, gostaria de ver de perto o tal guerreiro e a sua fera; queria saber se as histórias que lhe contavam eram reais. Paeris, por sua vez, apesar de morar no local e já tivesse visto um domador, nunca esteve tão próximo de um. Tinha muito medo dos leões.

O homem vestia uma túnica bege com um colete reforçado por cima, além de uma placa de bronze no peitoral para proteção dos órgãos vitais. Portava uma faixa preta na cabeça, um cinto com o emblema de um leão nos braços, bem como uma capa preta desgastada. Embora trajes pretos fossem pouco usuais no calor de Ghurn, os mercenários gostavam da cor, pois passavam desapercebidos à noite, além da aura sombria dos tons mais escuros.

O domador tinha um semblante sério e uma cicatriz no lábio superior. Seus longos cabelos negros e uma barba cheia - falhada apenas no local do corte na boca – lhe conferiam um perfil sombrio de um homem de poucos amigos. Seu leão também possuía uma pelagem negra, muito diferente dos leões comuns. O corpo do animal estava coberto por cicatrizes e marcas de batalha e todos os que o viam passavam de largo, como se reconhecessem sua má reputação.  Mercenários domadores eram mal vistos pelos demais, pois muitas vezes matavam pessoas do seu próprio povo, o que configurava uma terrível traição.

Ao ver o homem, Pontino tremeu. Era para ele algo mágico e aterrorizante ao mesmo tempo. Sem perder a compostura, indagou:

— O-olá, senhor. Me chamo Pontino Limininus Paeris. Sou um escriba sâmida a serviço do imperador Ismus Nitus I e... — Pontino estendera a mão ao domador enquanto falava. Olhava de relance para o leão, com medo. Tremia como um punhal de aço mole tremulando ao ser recém lançado com toda força numa parede de madeira.

Mro, o leão negro, ao ver o escriba magricela aproximar-se do seu dono, num impulso instintivo assassino, arregaçou os dentes pontiagudos e avançou num bote fulminante. O escriba mal teve tempo de pensar, e ao conceber a visão daquele demônio negro enorme vindo em sua direção, congelou quase que instantaneamente.

No alto da sua postura inabalável, Rakhar, ao ver que o seu animal partira em direção ao sâmida, numa fração de segundos, proferira algumas palavras estranhas ao forasteiro:

Mro, Therut!

O leão, ao ouvir o comando, parou de imediato. Pontino, por sua vez, caíra no chão, estático e com os olhos arregalados. Paeris, correra para socorrer o irmão.

— Desculpem o Mro — disse Rakhar de maneira sarcástica. — Ele fareja o medo...



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