Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Ato 1

Capítulo 16: Briga de Cachorro Grande – Parte III

O sorriso no rosto de Paramhud irritava Rakhar. Em seus pensamentos mais sádicos o mercenário desejava contemplar Mro desfigurando aquele rosto cínico. Entretanto, deveria passar por Yiriurn.

O domador do leão negro temia aquela mulher mais do que qualquer coisa no mundo. Convivera com ela tempo suficiente para saber do que era capaz.

Yiriurn era uma das poucas mulheres domadoras em Kherug, e a única, até onde se sabe, capaz de domar dois leões ao mesmo tempo. Rakhar tentava a todo custo evitar o conflito com a ex-mulher, mas os olhos dela eram como brasas ardentes sedentas por vingança.

— Torn, Garut! — Yiriurn deu o comando para que o seu leão atacasse o mercenário. Torn era um animal de porte médio, juba alaranjada e pelagem amarela.

A fera partiu em disparada no afã de combater Mro. O leão negro desviou da patada desferida por Torn. Desviou-se também de uma segunda investida, entretanto não foi capaz de prever o ataque da leoa que saltou sobre a fera enquanto ela estava distraída.

— Rakhar, faça alguma coisa! Seu leão morrerá desse jeito! — disse Sigmurn.

O mercenário caiu de joelhos no chão e abaixou a cabeça. Mro estava todo ferido, mas resistia bravamente.

— O que significa isso, Rakhar?! Desistiu da luta? — falou Yiriurn.

Mro, aguente firme rapaz. — O mercenário mentalizou essas palavras para o seu leão. Manteve-se calado, o que irritou ainda mais Yiriurn.

A domadora correu em direção a Rakhar com sua adaga, mas fora bloqueada por Sigmurn que deu um chute na barriga da mulher e a afastou do mercenário.

— Rakhar, sei que você não quer lutar contra a sua ex-esposa, mas se ficar parado morrerá em vão!

— Eu não vou morrer. Não se preocupe.

— Ei, Sigmurn! O que foi isso que acabou de fazer? — disse Paramhud ao longe. — Sua luta é comigo, miserável! Qurot, Ragrut!

Ao dar o comando, Qurot abriu o olho mágico na testa e começou a rugir. O rugido era baixo, mas fez com que Sigmurn caísse no chão e começasse a gritar de dor. O Kirk tentou tapar os ouvidos, mas o barulho ensurdecedor ressoava dentro da sua cabeça.

Rakhar, vendo o amigo no chão, tentou ajudá-lo, mas nada podia fazer.

— O-o leão... — falou Sigmurn com dificuldade. — A-ataque o leão do Paramhud...

— Mro, Garut!! — Rakhar deu um grito e o leão negro libertou-se dos ataques das duas feras de Yiriurn.

Mesmo tendo no encalço os dois animais com quem lutava anteriormente, Mro disparou em direção a Qurot e golpeara o animal do alto sacerdote com uma patada na cabeça.

No mesmo instante em que Qurot foi atingido, Sigmurn libertou-se do poder do rugido do animal e voltou a respirar aliviado da dor insuportável na cabeça. Seu nariz sangrava muito.

— Torn, Miyurn, ataquem o Sigmurn! Garut! — Yiriurn e os seus dois leões seguiram rumo ao general que estava vulnerável.

Pirh, o leão de Sigmurn, colocou-se à frente do dono com o intuito de protegê-lo. O leão de Yiriurn foi atacado por Mro, que voltou rapidamente para proteger os seus aliados. A leoa foi derrubada por Pirh, e Yiriurn imobilizada por Rakhar.

Paramhud deu novamente o comando para que Qurot rugisse. Dessa vez o som era ainda mais insuportável, fazendo com que todos em um raio de vinte metros tapassem os ouvidos. Os mais fracos sangravam pelo nariz e vomitavam de dor.

— Minha paciência acabou, malditos! No começo estava até divertido, mas chegou a hora de acabarmos logo com a brincadeira!

— Paramhud! Pare com isso, as pessoas em volta do jardim não tem nada a ver com a batalha! — Mesmo agonizando no chão, Aru juntou forças para implorar ao alto sacerdote que desse um fim no rugido insuportável, mas fora ignorado. — Krur, ataque o Qurot! Garut!

O leão branco conseguiu correr em direção à fera do olho sagrado e atacá-lo, cessando novamente o poder do seu rugido. Em seguida, Aru disparou rumo a Paramhud e desferiu um soco no rosto do sacerdote que perdera o equilíbrio e caiu no chão.

Há! Há! Há! — Paramhud ria de maneira extravagante enquanto limpava o sangue do nariz. — Enfim criou coragem! Não me faça ter que atacá-lo na frente dos seus súditos, majestade! Não seria de bom tom...

— Sua máscara caiu, Paramhud!

— Acha mesmo que Kherug será a mesma depois que tudo isso acabar? Depois da bela festa que proporcionamos?! Felizmente eu tenho o poder de reverter isso! Tenho o poder de controlar as mentes inferiores ao meu favor...

— E quer que eu me una a você para continuarmos o teatro?

— De fato, contigo seria mais fácil. O povo daqui gosta de um misticismo. Mas tenho repensado a minha estratégia, afinal, você tem sido um pirralho inconveniente!

À medida que Paramhud discorria em seu monólogo e distraia os domadores, Qurot recompunha-se sem levantar suspeitas.

— Se me acha inconveniente — disse Aru— porque não me mata de uma vez?

— Estou cogitando essa possibilidade! — Paramhud levantou-se rapidamente, deu um passo para trás e gritou o comando para o seu leão executar um rugido.

A potência do bramido do animal foi maior que os anteriores e instantaneamente provocou um desmaio em massa dos expectadores. Todos, com exceção de Aru, desvaneceram.

— O-o que você fez, desgraçado? — Aru ficou terrivelmente assustado.

— Guardei meu melhor golpe para o final. Viu?! Sem testemunhas para presenciar sua morte pelas minhas mãos!

— Esse poder... É um poder maldito...

— É o poder de Deus!

— Agora você acredita em Deus?

— Eu já te disse uma vez que não desacredito. Apenas tenho uma interpretação diferente de vocês. Enfim, estamos aqui de pé, você e eu! Mostre-me novamente o que sabe fazer...

Paramhud pegou sua adaga com a mão direita e golpeou Aru fazendo um movimento de arco na horizontal. O rei desviou-se de imediato abaixando a cabeça. Enquanto o alto sacerdote girava o braço, Aru encaixou um soco potente em seu estômago. O clérigo colocou a mão na barriga e caiu de joelhos no chão.

— Parece que sem o seu leão você não é tão valente assim — falou Aru. Ficara mais confiante de repente.

Há! Há! Há! Calculei mal a minha abordagem. — Paramhud cuspia sangue. — Qurot, Garut!

Paramhud deu o comando para que seu animal atacasse o rei. Krur correu como pode, mas estava distante demais para impedir que seu dono fosse atingido. Qurot feriu Aru na bochecha direita e embora não tenha acertado em cheio, derrubou o jovem instantaneamente. O corte fora profundo e regou o rosto do rei com sangue.

Ao ver o dono no chão, Krur ficou paralisado e não foi capaz de imobilizar Qurot. Enquanto isso, os demais domadores abatidos pela magia de Paramhud retomavam a consciência aos poucos.

— Qurot, Ragrut! — Paramhud proferiu novamente o rugido direcionado ao rei.

Aru tapou os ouvidos mas a sua cabeça doía muito. Sentia o crânio inchar, como se fosse explodir.

Aos poucos, o rei começou a perder a consciência. A dor já não incomodava mais e tudo ao redor se convertera em trevas.

Tamher Hogarut....

Uma voz ressoava na cabeça do rapaz.

Tamher Hogarut....

Aru conhecia aquele dialeto. Era similar aos rugidos proclamados pelos domadores. O antigo dialeto dos ghurnidas. Muito das pronúncias dessas palavras arcaicas haviam se perdido, mas aquela palavra que ecoava em sua mente era compreensível.

Tamher Hogarut.... Era como se o seu Krur mentalizasse aquelas palavras para o seu dono.

Tamher Hogarut! — Aru bradou o vocábulo e recobrou a consciência.

Krur, ao ouvir aquele comando, vociferou o mais alto rugido que um leão poderia executar. A potência do bramido gerou uma onda de vento que agitava violentamente as árvores do jardim templo. Todos os presentes que haviam recobrado a consciência caíram novamente por terra. Por mais que as pessoas tentassem se levantar elas não conseguiam.  Uma pressão externa os colocavam prostrados.

Os joelhos haviam se dobrado diante do rugido do rei.

Aru colocou-se de pé. O poder do rugido havia passado, mas Pahamhud permaneceu ajoelhado. O alto sacerdote perdera aquela batalha.

— Não sou o único com cartas na manga — disse Paramhud.

— Desistiu de lutar lutar, Paramhud? Sabe muito bem que o crime de sacrilégio é a morte — falou Aru.

Rakhar e Sigmurn aproximaram-se do Rei. Sigmurn olhou para Yiriurn recompondo-se ao longe.

— Conte-nos Paramhud! Confesse diante de todas essas testemunhas como você matou o filho do Rakhar e o incriminou há três anos!

Ao ouvir as palavras de Sigmurn, Yiriurn fixou o olhar no alto sacerdote.

Hé! Hé! Hé! — Paramhud olhou para Rakhar.

— Conte-nos, senhor alto sacerdote! Fale como nos manipulou todo esse tempo com o seu demônio disfarçado de leão! Quem sabe, mediante confissão, não receba uma morte mais digna!

— Não cante vantagem, Kirk! Ainda não chegou a minha hora...

Auuuuuuu....

Uivos pairavam sobre o jardim.

Em meio à multidão, cinco domadores de lobos esgueiraram-se até os sacerdotes da Urnukr e os assassinaram à vista de todos. A multidão assustou-se e rapidamente se espalharam. Os demais domadores e Kirks que estavam de guarda no portão empenharam-se em capturar os algozes, mas a confusão os impediu de alcançá-los.

— Vejam só! Eles estão aqui! — Paramhud levantou-se e sacudiu a poeira da túnica sacerdotal.

Likoms profanos! — disse Yiriurn, realizando a verdade diante dos seus olhos.

Aru, Rakhar e Sigmurn colocaram-se novamente em posição de batalha. Os domadores de lobo haviam os cercado em questão de minutos.

— Olá, amigos. Leão negro — O domador de lobo fixou os olhos em Rakhar. Haviam se encontrado na praça principal pela manhã. — Fere o nosso orgulho ter que admitir isso, mas vocês domadores de leão sabem dar uma boa festa! Aliás, que belo rugido o do seu leão, majestade...

Aru permaneceu em silêncio. O ferimento no lado direito do rosto ainda o incomodava.

— Não se preocupem, não viemos lutar — disse o domador de lobo. — Estamos de passagem.

— Vocês acham mesmo que sairão daqui ilesos? Como tem coragem de adentrar uma cidade cheia de poderosos domadores de leão? — falou Sigmurn.

O domador de lobo esboçou um sorriso discreto.

— Ao invés de se preocuparem conosco, vocês deveria atentar-se para o seu rei. Mordida de lobo carrega consigo uma terrível maldição que pode consumir a alma...

— Mordida de lobo?! — Quando Sigmurn virou-se para olhar o rei, o mesmo encontrava-se caído no chão. Vira um lobo movendo-se rapidamente até o seu dono, bem como a mordida na perna esquerda de Aru. — Maldit... — Sigmurn olhou novamente na direção dos Licoms, mas todos, inclusive Paramhud, haviam desaparecido.

Rakhar tentou despertar Aru, mas o garoto estava inconsciente.

Licoms desgraçados!

— Veneno de lobo só pode ser revertido com o rugido de uma Darema — falou Yiriurn aproximando-se do rei.

— Y-Yiriurn... — Rakhar assustou-se ao ver a domadora. — O-O Paramhud...

— Não precisa falar nada. Eu vi ele fugindo com os lobos. Quanto ao Aru, se o veneno amaldiçoado não for revertido, o corpo do rei será destruído em alguns dias.

— As Daremas são as domadoras de Hogr! Elas foram banidas de Kherug há muitos anos! Elas nos odeiam — disse Sigmurn.

— Talvez devessem fazer as pazes... — Yiriurn deu as costas e foi embora.

— Y-Yiriurn! — Rakhar deu um grito desesperado. — Aonde você vai? P-por favor, nos ajude! Não me deixe perder um outro filho...

A domadora, ao ver Rakhar segurando Aru nos braços, caiu em prantos. Era como se voltasse ao fatídico dia da morte do seu garoto.



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