Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Ato 1

Capítulo 15: Briga de Cachorro Grande – Parte II

— Esta é a sua última chance, Sigmurn! Arrependa-se de ter desacatado um representante de Deus! — Paramhud acariciava a juba do seu leão. Estava no centro do jardim, a uns cinco metros de Sigmurn e Pirh.

— Aí é que está! Não vejo nenhum representante de Deus aqui para que possa me arrepender... — falou Sigmurn.

He! He! He! Vamos ver se vai continuar zombando depois de experimentar a punição divina.

— Está errado outra vez. Você se acha muito poderoso, mas esqueceu-se que sou um dos melhores combatentes de Kherug! — Sigmurn sacou outra adaga. Empunhou as duas armas e colocou-se em posição de combate. — Pirh, Rigut!

Após dar o comando, Pirh correu em arco, à direita de Paramhud, enquanto Sigmurn correu para a esquerda. O leão do Kirk atacou o alto sacerdote com as garras da pata direita, mas foi bloqueado por Qurot, o leão sagrado do clérigo. Paramhud, por sua vez, retirou a faixa dourada que amarrava sua túnica e levou em direção à mão direita de Paramhud, bloqueando o golpe da adaga e amarrando a mão do general.

Sigmurn vendo que sua mão direita fora bloqueada, pensou rápido e atacou com a mão esquerda, mas foi girado fora do eixo por Paramhud que o lançou para longe do raio de ataque. O Kirk caiu rolando sobre o chão, e bateu as costas em um dos bancos do jardim.

Enquanto os domadores lutavam de maneira estratégica, baseando-se em técnicas marciais dignas de guerreiros bem treinados, os leões se enfrentavam no melhor estilo “besta desgovernada”. Por fim, Pirh tivera o rosto arranhado por Qurot e sangrava bastante.

— Qurot, Ragrut! — Paramhud proferiu um comando, e o leão sagrado abriu o terceiro olho, no meio da testa, e deu um rugido longo e baixo. Pirh, que estava um pouco distante para tomar fôlego após o golpe do adversário, caiu no chão e começou a rosnar de dor. Era como se o rugido destroçasse a sua mente.

Sigmurn estava caído e gemendo de dor, mas ao ver o animal agonizando, correu em direção a Pahamhud e o derrubou. O golpe desconcentrou o alto sacerdote, e isso interrompeu a técnica do rugido de Qurot. Vendo que o ataque não tinha mais efeito sobre si, Pirh correu em direção ao animal do clérigo e tentou agarrá-lo. O leão de três olhos desviou da investida e buscou um contra-ataque, mas a fera de Sigmurn também escapou.

Sigmurn deitou sobre Paramhud e começou a socá-lo na cara. O alto sacerdote protegeu o rosto com os braços e defendia-se como podia.

— Qurot, Ranurut! — Paramhud gritou no respiro de um golpe e outro, e deu o comando para o seu animal.

Qurot rugiu tão alto, que levou todos os presente e curiosos que contemplavam o combate a taparem seus ouvidos com força. Sigmurn não conteve-se, e ao colocar as mão sobre as orelhar para abafar o som, levou um soco na barriga e caiu rolando no chão. Paramhud levantou-se, pegou uma das adagas do general, e preparou-se para dar uma estocada no inimigo, mas fora impedido por Pirh, que deu uma cabeçada nas costa do clérigo, e o mesmo fora jogado a uns quatro metros de distância do seu dono.

Paramhud se contorcia de dor. Sigmurn, levantou-se e agradeceu o seu amigo.

O alto sacerdote pôs-se de pé com dificuldade, dirigiu-se ao seu leão e sacudiu a poeira da roupa de clérigo.

Há! Há! Há! Fazia tempo que eu não me exercitava assim — disse Paramhud. — Que belo entretimento estamos oferecendo para o público hoje. Tenho certeza que eles não esperavam por isso. Diga-me, general, acha mesmo que, se me vencer, ficará tudo bem? Que os tempos de glória dos domadores de Kherug retornará? O melhor momento para expulsarmos os sâmidas é agora, enquanto eles estão enfraquecidos neste reino! Estou oferecendo para vocês a liberdades das algemas! Quer mesmo continuar essa luta boba?

— Se atacarmos e derrotarmos os sâmidas eles não deixarão barato! Podemos ser os “poderosos domadores”, mas eles tem um exército e armas mais poderosas! Quanto tempo nossa liberdade duraria?

— É melhor viver um dia livre do que uma eternidade cativo por impuros!

— É uma pena que não comunguemos das mesmas ideologias. Nossa liberdade está em Urn, e não nesta terra. Sei que Ele nos mandou o Aru para nos guiar a um caminho mais excelente que os combates incessantes que destroem o nosso povo.

Pff! Que discursinho ridículo. Saiba de uma coisa, traidor! — Paramhud diminuiu o tom da voz. — Depois que eu te matar, tornarei a vida da sua filha e da sua bela serva um inferno!

Ao ouvir as palavras do alto sacerdote, Sigmurn ficou possuído pela raiva. Seu rosto converteu-se num vermelho vivo.

— Rakhar! — Um grito entre curiosos que assistiam o combate fez com que a atenção que estava voltada para a luta dos domadores no meio do jardim se dirigisse para fora dele. O domador mercenário estava ao lado de Mro, e fez com que até mesmo Sigmurn esquecesse Paramhud por um instante.

— Rakhar, não! — disse Aru, que correu junto a Pontino para o portão do jardim.

— Ora, ora. Nem em todos os meus mais maravilhosos sonhos imaginaria algo parecido com este dia — Paramhud esboçou um sorriso largo.

— Rakhaaaaaar! — Uma voz feminina brotou da multidão. Um leão e uma leoa partiram em disparada na direção do mercenário que fora derrubado pelos animais em questão de segundos. A leoa manteve-se sobre Rakhar que não conseguia se mover. O leão, por sua vez, ficou encarando Mro.

Todos abriram espaço para a mulher passar. A domadora tinha uma presença ímpar, e colocava medo em todos os presentes.

— Y-Yiriurn... — falou Rakhar. Lágrimas escorriam dos olhos do mercenário.

— Como ousa voltar aqui depois de tudo o que fez? — Yiriurn chorava copiosamente.

— Yiriurn, não faça isso! — disse Aru ao longe, tentando passar por entre os curiosos que bloqueavam seu caminho. — O Rakhar não matou seu filho, o Paramhud enganou a todos!

— Majestade, não interfira! Esse assunto não lhe diz respeito! — falou a domadora.

— Diz sim! — Aru conseguiu aproximar-se dos domadores. — O bem estar do reino me diz respeito!

Ao longe, Paramhud se deleitava com o espetáculo. Aos poucos se recompunha da batalha.

— Tudo isso lhe satisfaz, lobo maldito? — falou Sigmurn.

— Como nada neste mundo! — disse Paramhud.

— Sua máscara irá cair hoje!

Hunf! Já não uso mais essa fachada de sacerdote bonzinho há anos, e mesmo assim, ninguém, além de você e o reizinho, me censuram. As pessoas querem um líder forte. Se pecarmos, depois fazemos uns rituais aqui e ali, e “aplacamos a ira de Deus”. 

— Homens, prendam o traidor! — falou Yiriurn tentando impedir que Rakhar fugisse.

— Yiriurn, não! — disse Aru.

— Senhor, eu entendo que é o rei, mas a autoridade de Deus está acima da sua!

— Yiriurn, eu entendo a sua mágoa — disse Rakhar — eu também sofri muito quando o nosso filho...

— Não se atreva a falar do meu filho!

— Eu não matei o Rayri! Foi o Pahamhud! Ele está aliançado com os lobos, ele armou tudo!

— Não me venha com essas mentiras novamente! Eu vi tudo! Eu o vi sacrificando o nosso bebê aos lobos!

— Ah, droga. Não adianta conversar! Mro, Garut! — Rakhar deu o comando para o seu leão que derrubou a leoa de cima dele. O mercenário levantou-se rapidamente e correu até o portão do jardim templo, driblando os kirks e avançando sobre Paramhud.

Paramhud avistando a antecipação do domador, esquivou-se da investida de Rakhar e correu para a outra ponta do jardim, ao lado do portão.

— Ora, ora, covardes! Dois contra um é jogo sujo! — disse o alto sacerdote.

Yiriurn aproximou-se do clérigo e pôs-se em posição de combate, com um leão à direita e o outro à esquerda.

— Deixe me cuidar do traidor, senhor — falou Yiriurn.

— Ele é todo seu... — disse Paramhud.

— Não queria que as coisas acabassem assim, meu amigo — falou Sigmurn a Rakhar.

— Eu encontrei um domador de lobo na praça principal. Ele está aliançado com Paramhud e planeja atacar Erug o mais breve possível. Se o alto sacerdote tomar o poder em Arnghurn poderá causar uma guerra civil, ou pior... — disse Rakhar.

— Ou seja, chegou a hora da verdade! Está disposto a lutar contra a sua ex-mulher, a domadora mais temida de Shurghurn?

— Não... — Rakhar sorriu.



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