Tamher Brasileira

Autor(a): Gil Amorim


Ato 1

Capítulo 14: Briga de Cachorro Grande

Dois dias se passaram após o ataque dos leões malditos a Erug. Ao receber a notícia, Pontino temeu pelo irmão e cogitou voltar para vê-lo, mas Rakhar o encorajou a ficar em Kherug até o décimo dia do mês.

O número dez era especial para os ghurnidas, e no décimo dia de cada mês era realizado o ritual de submissão, aonde os líderes dos clãs de Kherug derretiam suas coroas em sinal de sujeição ao seu Deus. Pontino foi convidado pelo alto sacerdote para participar da celebração e registrar o evento, e embora tenha achado estranha a atitude do clérigo, aceitou meio desconfiado.

O ritual sempre começava pela manhã e acabava no meio do dia. Pontino fora acompanhado por Sigmurn, e assentou-se nas cadeiras de honra dos kirks, ao lado do general, que funcionou quase que como um intérprete do ritual para o estrangeiro.

Enquanto toda Kherug estava no jardim templo, Rakhar aproveitou-se da situação para andar livremente pela sua antiga cidade. Portava seu tradicional capuz negro, e caminhava sozinho, sem a companhia do seu leal companheiro Mro.

Ao chegar na praça principal, Rakhar acomodou-se em um dos bancos do lugar e respirou fundo. O cheiro nostálgico impregnou seus pulmões. Por anos, o único cheio que sentia era o fétido odor dos esgotos a céu aberto de Erug.

Um leão desgarrado em território de lobo...

Rakhar virou-se para descobrir de onde vinha aquela voz. Viu um homem alto, vestido com uma túnica num tom azul escuro, quase negra. Usava braceletes dourados, um cinto de couro e um colar com uma insígnia diferente de todas que já vira. No entanto, não aparentava ser estrangeiro. Tinha cabelos longos e pretos, a pele escura e porte de ghurnida. Contudo, os vibrantes olhos verdes denunciavam sua origem.

— Está perdido, senhor? — disse o mercenário, puxando discretamente sua adaga das costas.

— Não tanto quanto você. Afinal, é muita coragem da sua parte andar livremente por um território cheio de poderosos guerreiros que querem a sua cabeça. — O homem aproximou-se de Rakhar lentamente.

— Me desculpe, mas eu te conheço?

— Oh, que indelicadeza a minha! Me chamo Ikom.

— Nome pouco usual em Kherug...

— É que não sou do sul.

— O que quer de mim? E como sabe que estou me escondendo?

— Tenha calma. Você é sempre tão desconfiado e violento?

Enquanto Ikom falava, um lobo aproximou-se de Rakhar. O domador ficou imóvel. O medo o consumia.

— U-um domador de lobo em Kherug?

Há! Há! Há! Como é que você, que já assumiu um dos cargos de maior prestígio nesta cidade, pode ser tão ignorante? Nós sempre estivemos em Kherug! Os lobos estão em todo lugar!

— Foi o Paramhud, não é? Vocês se aliaram ao Paramhud para destruir os leões!

— Como eu disse, você é bem burro! Não nos aliamos ao Paramhud, ele que se aliou a nós! Os domadores de leão e a sua famosa arrogância... Cegaram-se da verdade! Vocês se acham os escolhidos de Deus, os donos desta terra, os poderosos e orgulhosos guerreiros de Ghurn. Nós, no entanto, estivemos relegados as sombras por milênios. Derrubamos e erguemos impérios, e vocês não viram que estávamos todo esse tempo debaixo do seus narizes! Saiba de uma coisa, domador, a história não anda em ciclos. Ela é linear. Tudo que começa tem um fim, e vocês estão rumando para a extinção! Em breve, os domadores não passarão de lendas! Os lobos governarão essas terras!

— Cale a boca, impuro! — Rakhar sacou a adaga.

— Se eu fosse você, não lutaria aqui. Está sem o seu animal, e a vantagem está ao meu lado.

— Como sabia que eu estava aqui? O Paramhud te contou?

— Você não ouvir o que eu disse? Os lobos estão em todo lugar! O Paramhud pode até ver algumas coisas com aquele olho esquisito na testa do seu leão, mas não enxerga tudo. Vocês mesmos provaram isso lá na festa do filho do seu amigo.

— C-como você sabe disso?

— Não se preocupe. Os lobos não contaram ao alto sacerdote que vocês estavam de conchavo para traí-lo.

— Eu não entendo...

— A sua ignorância está me fazendo andar em círculos com essa conversa. “O espírito do lobo vive em todo homem que se rebela contra a autoridade de Deus”. O objetivo dos domadores de leão deveria ser limpar os homens do caos, mas eles preferem lutar o seu jogo do poder. Não é isso que vocês aprendem nas suas doutrinas religiosas?

— Por que não contou ao Paramhud sobre o meu encontro com o rei?

— Está louco? Eu quero mais é que vocês se destruam por conta própria! É muito divertido! Aliás, se quer tanto acabar com o Paramhud, é bom correr. Acho que ele vai fazer um grande anúncio hoje!

— Aru...

Rakhar saiu correndo na direção do jardim templo. Chamou pelo seu leão mentalmente. A forte ligação entre os espíritos do animal e o domador permitia que os mesmos se comunicassem de onde estivessem.

 

No meio da cerimônia, enquanto os velhos sacerdotes derretiam as coroas dos líderes no ritual de submissão, Paramhud dirigiu-se até os presentes e começou a discursar em alta voz.

— Irmãos domadores e não domadores, hoje é um dia muito especial para nós, dia esse em que negamos a nossa glória de líder de clã, simbolizado pelas nossas coroas, e as entregamos a Urn, como expressão de submissão ao verdadeiro rei. Contudo, mesmo que Urn seja o nosso grande Senhor, ele nos designou um líder humano, que conhece e vivencia das nossas fraquezas e necessidades, e que nos guiará no caminho da vitória para que possamos progredir como nação! Aru, o Rei Branco!

Ao ser chamado, Aru dirigiu-se até o alto sacerdote. Os gritos de glória e louvor ao rei ecoavam por todo o espaço sagrado.

— Senhores, Deus nos presenteou com um rei para que possamos lutar contra o invasor que oprime nosso reino há anos! — Paramhud olhou de leve para Pontino. — Nos preparamos por anos a fim de participar deste momento glorioso, e por que deveríamos ficar parado esperando por mais algum sinal, sendo que o maior de todos já nos foi legado?!

Pontino começou a ficar bastante desconfortável com aquela situação, e pediu que Sigmurn o escoltasse até fora do jardim templo. Contudo, Paramhud pediu que os guardas levassem o escriba até o altar onde o rei e o alto sacerdote estavam.

— Vejam, senhores, a expressão do medo do estrangeiro. Eles não são páreos para nós! Somos os terríveis domadores de leão, que detém o poder divino de reger as nações!

Cada final de frase de Paramhud resultava no eco retumbante dos gritos de êxtase dos presentes. Aru, no entanto, estava assustado, assim como Sigmurn. O rei temia pela morte do escriba, que embora conhecesse a pouco tempo, criara uma afeição devido a amizade do estrangeiro com seu grande amigo Rakhar.

— Esse estrangeiro veio até nós para coletar informações e leva-las até seus líderes. Nada mal, afinal, queremos mesmo que eles saibam o quão poderosos nós somos!

— E-está errado! —Sigmurn gritou ao quatro ventos, interrompendo a fala do clérigo e silenciando a plateia confusa. — Os objetivo sagrado dos domadores não é esse! Irmãos, desde a nossa tenra infância, aprendemos as leis de Urn, dentre elas a misericórdia e compaixão! O objetivo dos leões não é dominar o mundo, mas salvá-lo do caos!

— Ora, ora. Que dia magnífico! Dia em que os traidores se revelam. Irmãos, não acreditem nesse tagarela! Como poderemos ser misericordiosos com aqueles que massacram o nosso reino, matam nossas crianças, escravizam nossas mulheres e nos exploram até a última gota de suor?

— Prendam o Sigmurn, maldito traidor! — Uma das pessoas da multidão gritou, e todos o acompanharam em uníssono.

— Facilitou o meu trabalho, general — disse Paramhud.

— Desgraçado! Não permitirei que continue esse reinado de terror! — falou Sigmurn.

— General, não faça isso! — disse Aru.

— General Farghul, evacue o jardim para que ninguém se machuque. Chegou a hora de sacrificar alguns hereges — falou Paramhud.

Farghul e os outros dois kirks, conduziram as pessoas presentes no jardim templo para fora do local, e vigiaram o portão para que ninguém entrasse. O povo curioso continuou ali, a fim de comtemplar o embate dos domadores.

Aru e Pontino tentaram amenizar a situação, mas o general Sigmurn estava disposto a dar cabo do alto sacerdote de uma vez por todas.

— Tem certeza disso, Sigmurn? Arriscar tudo, seu posto, sua filha, sua vida, apenas por um desentendimento com a minha pessoa? Pense bem, sou misericordioso. Se rogar por perdão, posso te conseguir um boa cela na prisão, e quem sabe, depois que aprender a lição, permito que volte a sua vida medíocre — disse o alto sacerdote com um sorriso sarcástico.

— General, ouça o Paramhud, não faça isso — falou Pontino.

— Não se trata de um desentendimento. Trata-se de princípios! Você se finge de sacerdote, mas cospe em nossas tradições. Fala de um Deus que nem conhece e oprime as pessoas em busca de poder! — Sigmurn puxou sua adaga do cinto e chamou seu leão que se pôs em postura de combate.

— Olha como fala, idiota. — Paramhud mudou o semblante. — Não permitirei que me difame assim.

— Paramhud, Sigmurn! Pelos poderes de rei concedidos a mim por Deus, ordeno que parem com isso!

— Senhor, lamento ter que desobedecê-lo, mas já tomei a minha decisão. Não espero sair vivo desta batalha, mas por amor a tudo que é mais sagrado para mim, eu preciso deter esse lobo maldito que se chama de leão!

— Afaste-se, majestade — disse Paramhud. — Se não quiser morrer...

Pontino pegou Aru pelo braço e levou para longe dos dois domadores. O rei estava descrente com a situação, e sentia-se fraco. Gostaria de poder resolver aqueles conflitos como um verdadeiro monarca, e não fugir como um covarde.



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