Santo Renegado Brasileira

Autor(a): Tomas Rohga


Volume 1

Capítulo 5: Retorno

A figura alta e de olhar inflexível caminhava em direção à entrada do Colégio Ganeden, destacando-se em meio aos estudantes.

Com o terno novo e impecável, Erik trazia uma mochila ao ombro esquerdo e, com a mão direita, girava o chaveiro do Mustang.

Parou de rodopiá-la e encarou os próprios dedos, lembrando-se do que havia feito mês passado no quarto da casa de Dário…

— Cadê o Vicente? — perguntou na época.

— Vai se foder! — rugiu Dário, entrando em posição de guarda. — Eu vou te matar! E DEPOIS É VOCÊ, PÂMELA! TÁ ME OUVINDO?

Erik sorriu, erguendo o queixo para ele antes de dizer:

— Aqui. — Indicou o maxilar. — Se não acertar esse soco, não acerta mais nenhum.

Dário trincou os dentes, tremendo o corpo inteiro de raiva. Partiu para cima num surto desvairado:

Aaaaaaah!!

O golpe de fato acertou o queixo de Erik, mas a reação foi tão mínima — um simples virar de cabeça — que a vantagem se inverteu.

Intimidado, Dário cambaleou para trás, mas Erik não lhe permitiu a mínima recuperação do choque incial, simplesmente atirando um míssil em formato de punho no estômago do oponente.

Dário cuspiu saliva, afastando-se aos tropeços enquanto tentava inutilmente respirar. Esticou o braço na direção de Erik, num pedido instintivo de clemência.

— Seu filho… — Dário arquejava. — Filho da…

— Você me atacou primeiro.

— Vai morrer…

A resposta de Erik foi praticamente um rasante. Jogou-se para cima de Dário, desviando-se de um golpe inútil antes de agarrá-lo e atirá-lo de costas para o chão. Erik agachou-se, descendo-lhe um soco rápido na fuça.

— CACETE! — praguejou de dor, o sangue estourando das narinas.

— Cadê o Vicente? — repetiu Erik.

— Você quebrou meu nariz!

— Responde ou vou quebrar seus dedos.

— Tu tá fodido, Marconde! Se o Vicente não te quebrar no meio, o meu irmão te mata. Só preciso de um telefonema pra descobrir onde tu mora!

Erik ignorou a bravata com outro soco.

— Filho da puta! — Dário fechou os olhos com tanta força que um fio de lágrima escorreu pelo canto.

— Vai continuar me enrolando?

O amigo de Vicente cuspiu para cima, mas Erik se desviou, deixando a saliva retornar ao olho de Dário. Perdendo a paciência com a teimosia, o rapaz fechou a mão ao redor daquele pescoço e começou a apertar.

“Pare, Erik”. A voz potente e repentina do Eremita ecoou em sua cabeça.

Mas ignorou o demônio, transformando seus dedos, pouco a pouco, em miniaturas de guilhotina. Dário começou a sufocar, esticando a língua para fora.

“Erik, sua força… vai matá-lo.”

— Já vou parar. É pra dar um susto e ele me contar sobre o Vicente.

“Erik!”

Fazendo ainda mais força, sentiu-se invadido por uma espécie de comichão. Erik moveu o rosto para o cima e seus olhos cravaram no teto da casa, faiscando de um escarlate intenso ao ser tomado por um turbilhão de lembranças.

Todo o passado de Dário começou a lhe atravessar a cabeça como num filme acelerado à velocidade máxima.

Sua infância, adolescência, juventude… A vida de Dário de repente se tornou um livro aberto para Erik. Assistiu à falta de limite que os pais impuseram a ele, o tamanho de sua admiração pela força de Caio — seu irmão gêmeo —, às diversas traições contra Pâmela e também os delitos, vários delitos, pequenos e grandes e, no meio deles, um crime… algo hediondo o bastante para fazer Erik se contorcer de repulsa.

— Chega! — bradou o Eremita.

Erik ofegava, sentindo as costas repentinamente prensadas contra blocos de livros.

— Quer matá-lo? — indagou o demônio, apertando o pescoço de Erik junto à prateleira de obsidiana, de volta à Biblioteca Imortal.

— Eu… — Tentava forçar o ar para os pulmões. — Só queria… ver mais.

— Sei que queria — vociferou o Eremita. — Mas você não estava só vendo, Erik, estava drenando as lembranças e o conhecimento daquela criança. O cerne de qualquer existência é a somatória de tudo o que foi vivenciado por ela. Estava transformando o rapaz numa casca vazia.

Erik começou a perder o fôlego; os dedos longos do Eremita o sufocavam.

— Não consigo… respirar.

— Aprecia a sensação? — ironizou o demônio.

Ele tentou escapar do cárcere, mas a força do Eremita era implacável. Pontos enegrecidos começaram a polvilhar sua visão. Quando enfim pensou que fosse apagar, o demônio o largou. Erik despencou pesadamente contra o solo de pedra, acariciando o pescoço enquanto tossia.

Ainda zonzo, admirou-se ao perceber o livro grosso que segurava na mão esquerda. Não sabia de onde surgira, contudo, por qualquer que fosse o motivo, reconheceu que o título na capa estava escrito em runas angelicais. Decifrou-as como um nome próprio: “Dário Angelim”.

— Que… houve? — perguntou Erik, ainda com a garganta em brasas.

— Sua raiva criou um caminho até o meu poder. Você usou A Fúria do Sábio, algo que apenas eu, O Eremita, sou capaz de fazer. Este livro na sua mão é a essência drenada daquela criança. Rasgue-o agora ou a consciência dela morrerá.

— É pouco pr’aquele merda! — Furioso, Erik atirou o livro para o alto.

Mas o demônio o agarrou ainda no ar, lendo-o por completo numa única virada de páginas. Rasgou o calhamaço ao meio e perguntou:

— Sua fúria provém do que estava escrito nas últimas páginas?

— Me leva de volta que eu te mostro.

— Se o matar, nosso contrato estará terminado — revelou Eremita, sombriamente. — Sua alma será levada comigo para o abismo.

— Não vou matá-lo.

O Eremita cerrou os olhos de manequim.

— Que seja.

Não houve tempo para resposta. Em dois piscares de olhos, Erik se enxergou de volta à casa de praia; Dário caído no chão do quarto com as narinas e os ouvidos vazando sangue, resmungando palavras em voz baixa.

Após assimilar as lembranças, Erik descobriu que o pai de Vicente enviara o filho para a Alemanha, mas havia algo de mais urgente a tratar no momento. Ele arrancou o celular do bolso de Dário, digitou a senha e encontrou a pasta de fotos e vídeos de uma garota dopada que Dário abusara semanas atrás.

Erik fechou os olhos e respirou fundo, apertando o punho com muita força antes de descê-lo várias e várias vezes contra o rosto de Dário.

— Chega, cara! Por favor! — Ele urrou misericórdia. — Vai me matar!

Erik parou de bater e se levantou, erguendo o celular à altura da visão de Dário. Indagou com frieza:

— E você deu chance pra ela?

Dário arregalou as órbitas. Um misto de pavor e descrença tomou seu semblante.

— Olha, Marconde… Sabe como é…

Cansado da voz de Dário, meteu-lhe o sapato no queixo, finalmente botando-o para dormir.

O restante da história resumiu-se a Erik partindo dali enquanto ligava para seu advogado, denunciando o amigo de Vicente.

Com a consciência de volta ao presente, abriu um sorriso breve ao se lembrar das consequências da prisão de Dário, já com dezoito anos, para a reputação da família Angelim, desde as perdas de contratos comerciais às várias parcerias desfeitas; a imprensa cobrindo o escândalo como um bando de urubus na carniça, arrancando cada pedaço de carne podre.

Daquele modo, percebeu surpreso que havia ficado para trás em relação aos demais estudantes: o portão gradeado quase se fechando. Naquele momento, permaneciam ali apenas ele e uma garota asiática que Erik nunca tinha visto no colégio.

“Aluna nova?”, perguntou-se.

A pele pálida da estudante lhe conferia um feitio de porcelana, contrastando com o cabelo muito negro e liso em torno dos olhos estreitos. O corpo era cheio de curvas; as pernas suavemente grossas e atléticas, mas Erik enxergou nos óculos redondos e nas tranças de vovó uma tremenda injustiça à beleza dela.

A garota suspirou, acariciando o crucifixo de prata que trazia ao pescoço. Caminhava distraída enquanto examinava um pedaço de papel.

— Tá perdida? — perguntou Erik.

Um pouco surpresa, ela fitou na direção da voz, parando de chofre ao perceber que quase atropelara um estranho.

— D-desculpe — disse ela, desviando com o olhar. — É o meu primeiro dia.

“Tenha cautela com essa criança”, soou a voz súbita do Eremita. “Ela é perigosa.”

A advertência fez Erik erguer uma sobrancelha, depois achou graça. “Perigosa? Essa baixinha…?” Olhou da garota, mais de vinte centímetros menor, para o bilhete na mão dela, lendo um “3-C” antes de arrematar com um sorriso curto:

— Vamos lá, novata. A gente tá na mesma classe.

 

*******

 

O professor parou de rabiscar a lousa quando as batidas ecoaram pela sala.

— Com licença — disse Erik, abrindo a porta e surgindo em companhia da aluna nova.

Sr. Nogueira era um homem baixo e idoso. Confuso, ergueu uma sobrancelha.

— Me desculpe, mas a direção só me informou sobre um aluno novo.

Toda a atenção da sala se voltou para a dupla e o vozerio cessou.

— Não sou novo, professor — respondeu Erik. — Só ela.

Fez um gesto rápido em direção à nova estudante, mais interessado nas feições dos velhos colegas de classe. As expressões se dividiam entre confusão, choque e desprezo, mas uma delas — apenas uma — parecia emocionada…

Bianca Kerr cobria metade do rosto com as mãos, ruborizando na tentativa de conter as lágrimas.

— Então quem é você, meu rapaz? — insistiu o professor.

— Erik Marconde.

O burburinho voltou a crescer; a sala toda imaginando a mesma coisa.

Excluindo o incidente, a imagem de Erik estava associada a um bolsista discreto e magricela, mas agora encaravam um sujeito forte e de postura ereta, irradiando uma confiança quase insolente. Não fosse a feição semelhante e confessar o próprio nome, sequer lembrava o garoto de cinco meses atrás.

Sr. Nogueira ergueu uma sobrancelha, insistindo ao comentar:

— Você não parece alguém que estava hospitalizado até pouco tempo.

— A recuperação foi boa.

O professor ignorou o sarcasmo, aproximando-se da mesa e correndo o dedo pela lista de chamada.

— É… seu nome está mesmo aqui, nesse caso, só escolha uma cadeira pra se sentar. Agora você…? — Ele se voltou à garota. — É a Srta. Choi, correto?

— Mirelle Choi… — murmurou para o chão.

— Não entendi, minha jovem.

Um forte rubor ardeu no rosto dela.

— Mirelle Choi! — gritou sem querer.

Quase todos da sala gargalharam, deixando-a ainda mais vermelha. Erik não os acompanhou, limitando-se a cochichar:

— Fica mais fácil se imaginar que as cadeiras são privadas e tá todo mundo com diarreia.

Mirelle conteve o riso, mas manteve o olhar sobre os próprios pés, parecendo divertida e ao mesmo tempo tão constrangida que não conseguia erguer a cabeça. Apenas o seguiu em silêncio.

Erik avistou um par de carteiras desocupadas ao fim da sala e tomou caminho. Tinha consciência do vespeiro, afinal, ali se sentava os mais próximos de Vicente, mas não se importava. Cruzou pelas mesas de Júlia e Bianca…

— Erik, eu… — Bia murmurou abatida, erguendo a mão para tocá-lo.

Manteve, contudo, a indiferença, limitando a se afastar da perna de algum engraçadinho que tentou fazê-lo tropeçar.

Caplof!

Erik olhou por cima do ombro a tempo de ver Mirelle caída de quatro à frente do pé esticado de Samanta Olívio, uma loura bonita, mas metida a delinquente. Ela gargalhava junto à melhor amiga e ao grupo de Vicente, mas parou no exato instante em que Erik a atravessou com uma fúria gélida no olhar.

— Que confusão é essa aí?

— N-não é nada, professor! — mentiu Samanta, tentando se forçar a ainda encontrar graça na situação. — É só a novata que escorregou.

— Aqui — disse Erik, esticando a mão para Mirelle.

Embaraçada demais para aceitar ajuda, ela se levantou apressada, correndo para se acomodar na cadeira mais próxima. Fixou o olhar no tampo da carteira, sem mais o desviar para os lados.

— Que cavalheiro! — zombou Bento Marlon, o terceiro em comando no grupo de Vicente. Seus seguidores gargalharam. — A gente tá ligado que você teve parte no que aconteceu com o Dário, Marconde. Acho que o Caio vai gostar de saber que voltou pra escola. Que tal uma voltinha mais tarde?

“Começou”, pensou Erik, constatando que se comportavam como um bando de animais cujo território havia sido invadido; as provocações e o comportamento de pavão perante as garotas reforçando a teoria.

Em silêncio, acomodou-se na carteira anterior à de Mirelle, terminando no assento ao lado de Bento.

— Tá me ignorando, sua bicha? — O valentão engrossou o tom de voz. — Querendo pagar de bonzão na frente da novata?

Ele, contudo, insistiu na indiferença, começando a perturbar a atmosfera ao seu redor.

Sem dizer uma palavra, alguns estudantes sentiram que Bento perdia o controle da situação, evidenciando o ar de intransigência de Erik como um lobo desgarrado que não se deixava intimidar por outros lobos.

— Olha aqui… — Bento foi tomado pelo ódio, arrancando uma pequena faca do bolso e enfiando na carteira de Erik. — Não é porque ganhou na loteria e começou a malhar que as coisas mudaram. Você continua aquele merda que entrou aqui com ajuda do governo, tá ligado?

Erik prendeu a risada. Perguntou:

— Acha que eu ganhei na loteria?

Bento relaxou, parecendo satisfeito em finalmente arrancar alguma reação. Continuava a segurar a faca pelo cabo.

— Caio tentou te achar, mas descobriu que tá morando no condomínio fechado mais caro da cidade. Você não tem bolas pra entrar pro tráfico, então só pode ser isso.

Erik deu de ombros, desviando a atenção para o entalhe bem feito da faca; havia um pequeno falcão no topo da empunhadura. Desconversou:

— Ouvi mesmo que o símbolo da sua família era um falcão, Bento.

— Gostou? — indagou com ironia. — Pertencia ao meu avô. Ele usava pra abrir veados quando saía pra caçar. Será que também funciona com verme bolsista?

— Se tá curioso, por que a gente não descobre?

Erik fez um gesto rápido e incompreensível, arrancado a lâmina da mesa e cortando a palma da própria mão, chocando a todos que assistiam.

Boquiabertas, Mirelle, Samanta e Bianca testemunharam o momento em que ele puxou a destra de Bento com a mão recém-ferida e a sujou de sangue.

— Tá louco, Marconde…?

Ninguém compreendeu muito bem o que aconteceu em seguida.

Houve um lampejo de movimento, que pareceu ter partido de Erik, depois um barulho duro e o grito apavorado do Sr. Nogueira.

A classe se voltou assustada para a lousa, encarando uma lâmina suja de sangue enfiada na última palavra que o professor acabara de escrever.

— Por Deus! — Estremeceu o idoso. — Quem fez isso? Quem jogou essa faca?!

Erik ergueu a mão ferida para cima, chamando toda a atenção da sala para si.



Comentários