Santo Renegado Brasileira

Autor(a): Tomas Rohga


Volume 1

Capítulo 4: Imutado

Com os braços sobre a sacada, as lágrimas de Pâmela corriam pelo rosto. Era muito bonita; o vestido preto e o salto alto contrastando ao cabelo cor de ouro.

A jovem se encontrava numa casa de praia enorme, com muitos quartos e banheiros, mas sua decisão era permanecer onde estava. Queria olhar para ele e odiá-lo, farta de ser burra e perdoá-lo tantas e tantas vezes, obrigando o cérebro a fixar a cena como quem marcava gado a ferro quente.

Do alto da sacada, ela encarava Dário Angelim, seu namorado, em companhia de vários amigos.

Às duas da madrugada e após muito festejarem, o grupo resolveu aproveitar a areia, formando um círculo em torno de uma fogueira à beira-mar que armaram numa decisão impulsiva. Gargalhavam como um bando de hienas com garrafas long neck à mão e algumas mulheres de companhia.

Entretanto, por mais chamativa que fosse a cena, algo desviou a atenção de Pâmela. Não havia dúvidas que a festa de Dário chegara ao fim, mas um novo carro se encaixou numa das vagas do estacionamento; um patamar enorme adjacente à casa, erguendo-se sobre um talude.

Pâmela escancarou a boca.

Uma silhueta masculina, pouco mais alta que Dário, surgiu de um Mustang preto. Não conseguiu distinguir o rosto devido à distância e ao fato de usar boné, mas foi tomada por uma estranha sensação de familiaridade.

Quando piscou, tornou a se focar em Dário, levando um tapa na cara ao presenciar a boca dele colada a de outra mulher enquanto os amigos ovacionavam.

“Chega!”, pensou ela. “Eu não mereço isso!”

Num ataque de nervos, Pâmela apertou os olhos marejados e deu meia-volta, disparando-se pela sala enorme até que…

— Ai!

E caiu de bunda no chão. Ela olhou para frente, notando que se esbarrou em Júlia, sua melhor amiga.

Júlia Ferrara, uma garota rechonchuda e de cabelos curtos, trajava um conjunto elegante com calça flare. Ela abriu a boca, ensaiando uma resposta malcriada, mas ao notar os olhos vermelhos de Pâmela, perguntou preocupada:

— Você viu o Dário, né?

Fazendo força para não recomeçar a chorar, Pâmela fez que sim.

— Ai, amiga… — Júlia a abraçou. — Subi correndo quando vi. Ia te chamar pra irmos embora agorinha.

— Aquele cretino! Canalha! Mulherengo de uma figa! — Pâmela se afastou de supetão, apanhando um copo sobre a mesinha de centro e lançando-o contra a parede.

— Eu disse que o Dário não prestava.

— Sei disso, Júlia! Sei disso… mas sou tão burra. Ele vivia me dizendo que ia mudar; que não me trairia mais porque nenhuma mulher era igual a mim e eu, a idiota, acreditava todas as vezes.

Júlia conteve a vontade de rir.

— É por isso que ele sempre fazia de novo: sabia que você perdoaria. Tem que ter um pouco de amor-próprio, amiga. Você sabe como são os homens.

— Os homens maus… — corrigiu-a Pâmela, atirando-se à poltrona mais próxima. Passou as mãos pelo rosto. — Não sei porque gosto tanto de homem assim, Ju. Esse tipo só faz a gente sofrer. Sorte que é a última Confra de Janeiro que participo. Graças aos céus me mudo oficialmente para os Estados Unidos mês que vem. Nunca mais vou olhar pra cara do Dário e aquela corja que ele chama de amigos…

À menção da viagem, um silêncio nebuloso surgiu entre ambas, até que Júlia indagou:

— A Bia continua por lá?

— Uhum. Ainda de férias com a família. Parece que volta em fevereiro pro início das aulas. Não sei muito mais que isso. Ela parou de responder minhas mensagens.

— As minhas também.

— Não a culpo. — Pâmela respirou longamente. — Depois do assalto na escola e do que aconteceu com o Erik, ela se fechou completamente. Nunca quis me contar a história direito, mesmo eu insistindo. Pelo menos vou conseguir me despedir dela antes de ir.

— E acredita cem por cento nesse negócio de assalto, Pam? Bia também não me explicou muito bem, mas sempre suspeitei que o Vicente tivesse parte naquilo. Ele foi uma das testemunhas, não é? E se na verdade fosse um dos culpados? Pra mim, ele odiava a amizade da Bia com o Erik.

— Besteira. O pai do Vicente e da Bia são sócios — lembrou-lhe Pâmela. — Ele nunca faria algo pra prejudicar os negócios do pai.

— Lá vai você defender aquele traste de novo… já entendi sua queda por boy lixo, Pam, mas passar a mão na cabeça do Vicente é demais. Aquele cara dá medo.

Pâmela mordeu a unha do polegar.

— Mas ele é tão gato… e ainda tem aquele jeitão de bicho selvagem… me dá um negócio.

Júlia suspirou.

— Às vezes me pergunto se não namora o Dário só pra ficar perto do Vicente.

— Não diga besteiras — riu Pâmela, um tanto corada. — Nunca traí o Dário. Já ele, em compensação, botou uma floresta na minha cabeça… De toda forma, eu jamais pegaria o ex de uma amiga. O Vicente, pra mim, é tipo o Travis Fimmel: algo só pra se admirar à distância.

— É bom que seja mesmo.

Pâmela sorriu, mostrando a língua para Júlia.

— Por falar nisso — prosseguiu —, não acha estranho o Vicente não ter aparecido na festa? Aliás… nem o Caio deu as caras.

— O irmão gêmeo do Dário? — Júlia deu de ombros. — Vai saber? O Caio é outro arruaceiro, então prefiro assim. O ambiente fica menos carregado sem aqueles dois por perto. Agora chega de besteiras. Vamos embora de uma vez, está bem?

— Não quero mais — decidiu Pâmela, ajeitando as madeixas com um sorriso forçado. — Já estou me sentindo bem de novo. Vou pedir o melhor drinque ao barman e falar umas boas verdades pro Dário quando ele aparecer.

Júlia passou a mão pela testa.

— Por que ainda me preocupo com você?

— Ora, porque me ama — brincou Pâmela.

— Amo mesmo, e é por isso que nós vamos pra casa. Já são duas e meia da manhã, Pam. Estou muito cansada.

— Já disse, Ju. Preciso beber um pouco. Espairecer a cabeça. Mas pode voltar tranquila. Meu celular ainda tem bateria. Se algo acontecer, te ligo na mesma hora.

— Promete pra mim?

Ela prometeu. As duas se despediram e, enquanto Júlia deixou a casa de Dário, Pâmela se encaminhou até o grande salão de eventos ao fundo da construção. Contudo, ao atravessar a entrada, novamente topou com algo sólido, mas dessa vez tão duro que imaginou ter esbarrado num monólito instalado à porta do bar.

— Mas que merda…?

Pela segunda vez àquela noite, Pâmela caiu de bunda no chão. No instante que elevou o rosto, porém, encarou os olhos mais sinistros que já viu na vida: olhos de um profundo e negro abismo. Por um segundo inteiro, sentiu-se coagida pelo olhar, como se a empurrasse para um lugar muito solitário e infeliz. Arrepiou-se dos pés à cabeça.

— Você está bem? — perguntou o rapaz, calmamente. Ele estendeu a mão para ela.

O contraste na voz do estranho a trouxe de volta. Pâmela reorganizou as ideias e só então notou que o monólito usava boné. “O cara que chegou agorinha”, lembrou-se ela. O que mais a intrigou, porém, foi comprovar que ele de fato lhe parecia familiar, embora não recordasse conhecer ninguém tão alto e forte.

Sua postura empertigada lembrava a de um aristocrata dos filmes de época que assistia e, não fosse aquele boné estranho, teria julgado seu estilo esporte-fino impecável. Ela mordeu o lábio inferior antes de dizer:

— Me paga um drinque que fica tudo certo entre a gente.

O monólito sorriu sem mostrar os dentes.

 

*******

 

Antes de subirem as escadas até o quarto, Pâmela descobriu duas coisas sobre ele: dizia chamar-se Marco e que estava ali como amigo de um amigo de Dário.

Embrulhada numa toalha branca, Pâmela encarava da porta do banheiro; a pele úmida da ducha que acabara de tomar. Havia preso o cabelo num coque frouxo, fitando Marco com uma expressão que misturava volúpia ao embaraço. Com o rosto corado, questionou:

— Por que ainda tá vestido?

Marco, sentado à beira de uma grande cama de casal, ergueu os olhos e perguntou em tom profundo:

— Quer mesmo fazer isso? Você não namora o anfitrião?

— Eu só quero dar o troco, tá legal? — justificou-se de pronto, ainda mais vermelha. — De que adiantou ser fiel esse tempo todo se Dário me traiu tantas vezes? Quero me vingar daquele filho da puta.

Marco abriu um sorriso ardiloso.

A cintilação alaranjada do abajur era a única fonte de claridade na suíte, criando um jogo de luz e sombras sobre os contornos de Pâmela. Ela desviou o olhar, balançando a cabeça para cima e para baixo, cruzando os braços como se esperasse por alguma coisa…

Num único movimento, Marco se levantou do lugar e sacou a camisa, deixando os músculos bem torneados à mostra.

Deslizou mais rápido do que Pâmela conseguiu acompanhar.

Quando deu por si, a mão firme de Marco já tinha lhe agarrado pelos cabelos e os puxado para baixo. O coque frouxo se desfez, forçando seu rosto para o teto. Surpresa, deixou escapar um gemido quando a boca foi subitamente invadida por um beijo autoritário. A língua de Marco era quente e macia. Ela revirou os olhos, entregando-se. O coração palpitou. As pernas fraquejaram, sentindo a umidade arder no meio delas.

Quando se separaram, foi desarmada pelo sorriso atrevido do rapaz. Ele a encarou nos olhos antes de sussurrar:

— E quer fazer valer essa vingança?

Pâmela concordou devagar.

— Quero…

E deixou a toalha cair.

Foi como se o tempo divagasse e, por um breve infinito, Marco admirou o branco e o rosado das carnes de Pâmela.

Ele a beijou novamente, dessa vez mais intenso, intercalando entre mordidas e carícias em lugares que a fizeram estremecer. Com o corpo forte colado às costas dela, Marco a segurou pelo queixo, deslizando a mão de leve pelo abdômen da garota…

 

*******

 

Meia hora depois, Marco observou Pâmela se levantar da cama. Porém, antes que se afastasse demais, meteu um tapa na bunda dela.

— Ai! — gritou ela, o susto, todavia, transformou-se num sorriso descarado. — Você me paga.

Pâmela entrou no banheiro e abriu a torneira da pia, nesse momento, também, Marco captou algo estranho. Uma sensação de ameaça o invadiu, camuflada em sons de passos que se aproximavam.

Alguém subia apressado as escadas que terminavam na suíte.

Ágil como um lobo, Marco agarrou as roupas e recolocou a própria calça.

Naquele momento, porém, tanto a porta do banheiro quanto a do quarto foram escancaradas ao mesmo tempo: a primeira revelando Pâmela, nua, com uma expressão de susto no rosto; a segunda, um Dário furioso flagrando toda a situação.

Pâmela gritou, girou nos calcanhares e se trancou no banheiro. Marco não se moveu, transformando-se numa estátua.

— TU TAVA ME TRAINDO NA MINHA PRÓPRIA CASA, PÂMELA? — berrou Dário. — TU TÁ FODIDA, GURIA!

— Esquece, Dário — disse Marco, sombriamente — Você colhe o que planta.

— E você cala a porra da boca porque também vai morrer, tá me ouvindo? Quem é você, porra? Vou cortar tuas bolas fora!

— Vai mesmo recepcionar um velho amigo com essa frieza?

Por um instante, Dário pareceu confuso. Depois apertou as pálpebras e encarou a figura de Marco com maior atenção. Pouco a pouco, seu semblante se transformou num misto de descrença, horror… e familiaridade.

— Marconde? Mas que porra…?

Erik sorriu enviesado. Apertou o punho com muita força.



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