Santo Renegado Brasileira

Autor(a): Tomas Rohga


Volume 1

Capítulo 11: Domínio

Erik pensou na vez em que usou a Fúria do Sábio sem querer. Naquele dia, Eremita lhe disse que todas as lembranças de Dário haviam sido drenadas e transformadas num livro, o que teria feito do rapaz uma casca vazia não tivesse rasgado o objeto ao meio.

— No que isso vai me ajudar a enfrentar os… — Mas Erik foi interrompido ao sentir algo súbito lhe agarrar no braço esquerdo.

Ainda nu, olhou para trás, percebendo que um tentáculo emergia de dentro do magma e se enrolava em seu pulso.

— Cacete! — Erik fez força querendo arrebentar aquela coisa, mas só serviu para puxá-la de vez à superfície.

Surgindo do interior do fogo, uma criatura escura e sem forma despencou sobre a cabeça de Erik, agitando-se furiosa como se fosse feita de fumaça sólida conforme se avolumava e descia para o torso do rapaz, envolvendo-lhe o corpo como uma lona.

A visão de Erik foi repentinamente escurecida e a sensação de desespero se abateu. Tentou lutar contra o demônio esfumaçado, puxando e mordendo aquela segunda pele num acesso impensado de raiva.

“A calma é o primeiro passo, Erik”, irrompeu o Eremita. “Pare de lutar. Faça a criatura se submeter por si, aceitando a diferença de poder entre vocês dois.”

— Como… eu faço isso? — perguntou sufocado, esticando o ser para distante do rosto.

“Respire.”

Respirar? O primeiro pensamento de Erik foi que o demônio estivesse de sacanagem, mas considerou a conclusão imediatamente injusta: o Eremita nunca tinha mentido para ele, nunca tinha se enganado, então tentou inspirar fundo, mesmo envolvido pela cegueira.

Tenha calma… Controle a situação para enxergar com clareza. Tentando trazer os fatos novamente ao seu controle, Erik sentiu os olhos se abrirem para a escuridão, iluminando-a de vermelho conforme suas íris adquiriam aquela cor, seguido pelo arrepio estranho que lhe subiu pela coluna e pelo peso que escorregou de seus ombros.

Quando as vistas clarearam, Erik avistou algo diante de si: a criatura estava prostrada no chão como se uma carga enorme a pressionasse para baixo, adquirindo contornos esfumaçados de um animal quadrúpede.

— O que tá acontecendo? — perguntou Erik.

“Essa pressão é uma resposta à sua força. Mostra a diferença de poder entre vocês dois”, respondeu o Eremita. “Mantenha-se firme.”

Ele testemunhou o demônio tentar se erguer acima do enorme peso invisível sobre si, mas finalmente desistiu quando colou a extremidade que lembrava a cabeça no piso frio; quase um sinal de profunda reverência a Erik.

— Perdoe-me… — A criatura disse num tom profundo e gutural.

“Submissão”, soou o Eremita. “Toque-o, criança.”

O pedido foi executado quando Erik encostou o indicador na pele sólida e esfumaçada do ser.

Imediatamente, o rapaz sentiu uma guinada, como se um gancho o puxasse pelo umbigo, mas tudo aconteceu tão rápido que, quando deu por si, estava num lugar ermo e frio. Havia retornado à Biblioteca Imortal, embora estivesse um tanto diferente…

Erik se encontrava ao centro de um círculo bastante elevado de estantes feitas de obsidiana. Sete rochas lapidadas o rodeavam, trazendo à memória, a imagem vaga das pedras de Stonehenge. Alguns livros já haviam sido guardados nos compartimentos.

— Como se sente?

Espantado, Erik se virou para encarar o Eremita. Teve de olhar para cima.

— Pelado — respondeu, notando que também estava nu naquela realidade. — Essa ainda é a sua biblioteca?

— Sim. — O demônio apontou para as rochas. — Mas construí essa seção para você.

— Seção?

Eremita apontou para a mão de Erik e, tal como a primeira vez em que aconteceu, notou somente ali que segurava um livro grosso. Perguntou sem entender:

— Eu usei a Fúria do Sábio?

— Usaste… Meu poder só pode ser utilizado sobre os derrotados e a submissão, Erik, é uma forma de derrota. Há, contudo, uma diferença: ela é um presente oferecido de bom grado para quem domina a situação. Mostraste a diferença de poder entre ti e o demônio que te atacava, e ele assim aceitou.

Erik caiu num silêncio reflexivo. Analisou a capa do livro novamente e, quando o abriu, leu-o por completo numa virada vertiginosa de páginas. O objeto se fechou com um baque surdo, ao mesmo tempo em que um sorriso astuto invadiu o rosto do rapaz.

— Leste algo interessante, criança?

— Uma coisa aqui me chamou a atenção.

— Sei disso — afirmou o demônio. — Tudo o que acontece na Biblioteca se torna parte do meu Conhecimento. O que tu tomas ciência, Erik, eu também tomo. Dê-me o livro e observe.

O rapaz soltou o objeto, observando-o flutuar pelo ar gélido ao comando dos dedos do Eremita.

Dessa vez, contudo, o livro não foi rasgado, encaixando-se no compartimento de uma das estantes de obsidiana. Naquele momento, Erik sentiu uma única palpitação mais intensa no peito. Segurou forte no coração:

— O que… tá acontecendo?

Eremita não respondeu, restando a Erik apertar os olhos na tentativa de aliviar a sensação de desconforto. Quando os reabriu, estava de volta à sala de Ensino Religioso, mas algo havia mudado nele.

Erik não estava mais nu, trajando um terno preto que parecia ter sido feito sob medida: os sapatos lustrosos, a calça rente à canela, mas confortável nas coxas, a camisa branca apertada contra os músculos do torso, a gravata escura e o terno completando o conjunto do qual subia uma estranha fumaça negra, como se tivesse acabado de sair do forno. Contrastando a tudo aquilo, estavam os olhos vermelhos do rapaz.

“Couro do Soldado Infernal adquirido”, sentenciou o Eremita.

— Essa roupa — indagou Erik, um tanto impressionado, — veio daquele demônio?

“Veja por si.”

Adiante, o rapaz avistou o demônio em forma de animal quadrúpede, mas algo não estava como antes. No momento em que fitou a criatura, viu-a cair para dentro de si mesma, como os restos vazios de um inseto morto.

“Sem aquilo que transforma a existência em realidade…”

— Torna-se uma casca vazia — completou Erik.

“Exatamente. E como se sentes agora?”, perguntou o demônio.

O rapaz lançou dois rápidos socos no ar, experimentando a elasticidade do traje.

— É como se eu estivesse mais leve.

“Com a Fúria do Sábio”, prosseguiu o Eremita, “pode adquirir uma habilidade, e somente uma, do demônio cujas lembranças drenar e guardar entre as sete rochas de sua seção na Biblioteca. Estas vestes, por exemplo, são uma autoimpressão do melhor traje para ti, aumentando sua defesa e tornando seus movimentos mais rápidos.”

Sorrindo de canto, ele abriu e fechou o punho. Estava na hora de agir.

Quando Erik escancarou a porta da sala, deparou-se de cara com a criatura que havia lhe quebrado o braço. Ele não vacilou e, com uma investida alucinada, agarrou-a pelos tentáculos, seguido pelos três socos poderosos dados à curta distância. Sua força descomunal havia retornado aos punhos, observando com frieza enquanto o inimigo era rasgado ao meio na porrada.

Erik prosseguiu sem pestanejar: em pouco tempo, tornou-se o algoz da legião de demônios que vagava pelos corredores, golpeando, destruindo, quebrando e socando; deixando um rastro avermelhado para trás de si feita da luz desprendida de seus olhos e do sangue pútrido das entidades, enchendo o ambiente com o cheiro do ferro e do enxofre.

— Essas pessoas também fizeram contratos? — perguntou ao atravessar um demônio pela garganta tentaculosa, libertando o professor Nogueira, que permaneceu desacordado no chão.

“Não. Elas foram possuídas. No caso de um Renegado como você, existe um contrato entre demônio e receptáculo. Na possessão, o demônio apenas invade um corpo vivo, geralmente um coração predisposto a aceitá-lo.”

Erik pensou em Bento, finalmente atingindo o pé da escadaria para o terraço. Começou a subi-la a toda velocidade. Como estaria Mirelle?

— E o que realmente são os Sentinelas?

“Uma Ordem milenar”, respondeu o Eremita. “Ela permanece em oculto das luzes do mundo, criada por Pedro Apóstolo para eliminar demônios que simples exorcistas não conseguissem expulsar. Ele clamou ao Altíssimo que concedesse a proteção e o poder dos anjos a alguns poucos elegidos. Assim nasceram os primeiros Sentinelas.”

— Caramba…

“Hoje, a Ordem permanece formada por algumas famílias, cada uma sob a proteção de um anjo poderoso”, prosseguiu o Monarca. “Como visto, a da criança Choi recebe a benção de Miguel Arcanjo, por isso não é sensato subestimá-la.”

— Não somos mais poderosos que ela?

“Eu sou mais poderoso, Erik, não você. Seu corpo ainda não suporta a completude do meu poder, é por isso que, para o faro de um Sentinela, você parecerá meramente um Marquês. Ainda é necessário que se fortaleça até que fiquemos em total afinação.”

— E só me conta isso agora? — ironizou Erik.

“Tudo a seu tempo, criança.”

Freando ao alcançar o último degrau da escadaria, contemplou as feições ainda desacordadas de Samanta, Caio e dos dois amigos de Bento, aliviado que a proteção de Mirelle realmente tivesse funcionado.

Ele chutou a porta do terraço e invadiu o lugar, dando de cara com um cenário de pura destruição. Arregalou as órbitas ao reconhecer uma silhueta no chão.

— Mirelle!

Aproximou-se numa guinada, horrorizando-se ao perceber que ela não estava só caída: havia uma imensa queimadura no torso da garota, feia o suficiente para Erik não ser capaz de distinguir o que era pele, sangue ou roupas, tudo misturado numa anarquia com cheiro de carne tostada.

— Mirelle, reage! — Ele segurou a cabeça dela, colocando o ouvido a centímetros do nariz da jovem. Ela ainda respirava! — O que eu faço, Eremita?

“Infelizmente é tarde. Não há mais nada que possa fazer pela criança.”

— Não pode ser verdade… — Tentava manter a calma, uma tarefa extremamente difícil naquela situação. — Você sabe de tudo. Disse que conhece todos os segredos do Ceú. Não é possível que não exista nenhuma opção!

Houve silêncio.

— Eremita? — insistiu ele, incapaz de largar Mirelle.

“Talvez…”

— Talvez o quê?

“Mas nunca foi tentado.”

— Só me diga o que fazer — rugiu Erik. — Eu me joguei na porra do inferno. Nada pode ser pior que aquilo.

“Talvez o seu sangue possa ajudá-la. Sentinelas retiram seu poder dos anjos. Eu não sou um demônio desde o princípio; não nasci no abismo como os Soldados infernais. A natureza de um Monarca é muito mais próxima da de um anjo, embora caído em desgraça. Pode ser que funcione.”

— Tá dizendo para…

“Tentar fazê-la beber o seu sangue.”

Em angústia, Erik mirou aquele rosto, reparando mais atentamente nos traços graciosos de Mirelle. Sem os óculos, a garota lembrava a pintura de anjo sonolento, com seus olhos estreitos e cabelos pretos luzidios como noite estrelada.

Não pensou mais. Sentiu o gosto ferroso ao morder a própria língua e encostou seus lábios nos dela, deixando que o líquido escorresse gentilmente para dentro. Permaneceu ali durante algum tempo, observando que a queimadura estava, pouco a pouco, clareando e se curando.

Com o alívio tomando conta de si, não percebeu quando Mirelle abriu os olhos de súbito.

— Aaaah! — gritou ela, empurrando-o para longe. — V-v-você tava me beijando!

Provavelmente nervosa demais para se lembrar do uniforme queimado, Mirelle deixou os seios de fora; a pele branca adornada pelas extremidades cor de avelã apontando para Erik.

— Seu peito.

— Aaaaaaah! — Ela se curvou sobre si mesma, ruborizando dos pés à cabeça. — Eu vou te matar! Não! Eu vou me matar!

As vistas dela escureceram, surpresa ao entender que Erik havia jogado o paletó sobre ela.

— Não foi um beijo — disse com simplicidade. — Estava tentando salvar sua vida.

— Um Renegado tentando salvar a vida de uma Sentinela?

— A gente não tem tempo pra isso, Mirelle. Pra onde foi o Bento?

— Vai atrás dele sem poderes?

Ele fez que não. Os olhos dela estavam pretos. — Dei um jeito de recuperá-los, mas o que aconteceu com você?

— Eu… nunca tinha lutado contra um Duque antes. Não sabia que eram tão fortes. — Mirelle desviou o olhar e fechou o paletó de Erik, caminhando até o local em que havia caído sua cruz de prata e uma pequena esfera de vidro. Apanhou os objetos e apontou a esfera para o rapaz. — Eu só tenho mais uma Benção Celeste. Não sei se consigo derrotar o Bento só com isso. A-acho que vou precisar chamar o meu pai.

— Mirelle — disse em tom firme. — Sentinelas podem fechar as passagens do abismo?

Ela prontamente assentiu.

— Então faça isso. Eu vou atrás do Bento. Vou te mostrar que tá enganada sobre o tipo de pessoa que eu sou.

— E-eu vi a criatura pulando do prédio pouco antes de desmaiar. Acho que foi pra cidade, mas… mesmo que você fosse uma boa pessoa. — Ela não conseguia olhar para ele. — Você é só um Marquês.

Erik sorriu. — Então vou mostrar do que um Marquês é capaz.

Mirelle abriu a boca para falar, mas não houve tempo para nada, testemunhando a figura de Erik acelerar velozmente até a beira do prédio e cruzar pela abertura na grade feita por Bento, saltando para além dos limites da proteção.

Escancarou a boca, vendo-o quase voar pouco antes de pousar pesadamente sobre o pátio e sair correndo colégio afora.

— Que droga — sussurrou Mirelle, apertando o paletó de Erik contra o corpo. Tinha um cheiro bom, assim como o gosto doce que havia ficado em sua boca.



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