Ryota Brasileira

Autor(a): Jennifer Maurer


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 24: Ofertas

Olhos azuis estreitados de forma convencida encaravam o príncipe parado diante da mesa de trabalho. Um sorriso desafiador se estendia nos lábios da garota, algo até então bastante fora do que tinha se acostumado a ver em sua expressão. Ela parecia mais relaxada. Mais à vontade do que nos outros dias. 

Ryota balançou pra lá e pra cá o pé estendido sobre a mesa. Da sua visão, ele atravessava Edward como o pêndulo de um relógio, numa tranquilidade que poderia ser mortal caso ela não estivesse no patamar atual. Em outras circunstâncias, poderia ter sido enforcada por cometer tantos crimes e ousadias diante do futuro rei. 

— Tal pai, tal filho... É assim que dizem, não é? Os dois se atrasam para cumprir com as próprias palavras, com as próprias responsabilidades.

Edward, enfim percebendo a razão daquela visita inesperada, enrijeceu o corpo.

— Nós nunca discutimos sobre prazos.

— O prazo para manter o nosso voto era de uma semana — Ryota ergueu os olhos das próprias unhas desgastadas, agora hidratadas graças às empregadas do palácio, e fitou Edward do outro lado da sala — Não espera que eu a deixe naquele lugar imundo por tanto tempo, não é?

Edward fechou a cara por um instante, mas logo ergueu a sobrancelha.

— Como entrou aqui?

— Pela porta.

Ryota riu da expressão de desgosto de Edward, claramente incomodado com seu tom zombeteiro. Ela trocou a ordem dos pés, ainda os mantendo calmamente apoiados sobre a mesa.

— Parece um pouco surpreso. Eu poderia ter entrado facilmente aqui caso dissesse que fosse sua guardiã, sabia?

— Nenhum guarda permitiria sua entrada.

— Tem certeza? Umas palavras bonitas bem usadas podem facilmente mudar isso. Mas não se preocupe, não subornei seus homens. Aliás, eles nem devem estar aí fora, não é?

Outra risada divertida.

— O que você fez?

— Aaah, eu não fiz nada. Quando cheguei, os corredores já estavam vazios. Já tinham preparado o palco pra mim. Apenas fiz questão de estreia-lo de forma brilhante, como era esperado.

Ryota, finalmente, tirou os pés de cima da mesa e endireitou a coluna, dobrando uma coxa sobre a outra conforme mantinha os olhos no príncipe.

— Quer que liberte a garota.

— Bom saber que não preciso explicar. Liberte-a agora, ou eu mesma faço isso.

— Não pode me dar ordens.

— Aaaai, nossa, ficou brabinho. Credo — Ryota estalou alguns dedos — Não achei que tivesse tão pouca paciência. 

Edward fez menção de responder, mas se calou. Então, baixou a voz, como se lutasse para manter a calma:

— Só... Não é um dia bom.

— Sinto muito por isso, mas não é de minha conta. Temos negócios a tratar, Edward. E vou agir independentemente do que me responda esta noite.

— Então por que se dar ao trabalho de fazer todo esse show?

Ryota olhou por um longo tempo para o príncipe claramente desconfortável, e sorriu maliciosamente.

— Porque é divertido. E porque estou sendo generosa com você depois de ter mentido pra mim. Estou sendo legal vindo até aqui para falar sobre meus futuros atos porque quero ter certeza de que você não é um dos meus inimigos, também.

A calma letal de uma mulher que avaliava seus arredores, que determinava quem eram seus aliados ou adversários. Olhos azuis afiados o observavam calmamente. Estavam em postos diferentes em comparação com a vez em que se conheceram, onde o príncipe era aquele que avaliava as condições de uso da pessoa diante de si.

Agora que Ryota havia decidido se impor, Edward tinha o dever de corresponder à isso. O voto não impedia — quer dizer, jamais mencionou — que os contratantes buscassem com antecedência suas metas, mas havia a necessidade de ambos terem chegado ao seu objetivo final antes do prazo se esvair. Caso contrário, uma situação não muito confortável no futuro os aguardaria.

Percebendo que Edward suava um pouco na testa, pensando, Ryota arrastou ruidosamente uma cadeira para seu lado e deu tapinhas nela. 

A contragosto, o príncipe obedeceu o comando silencioso depois de fechar a porta atrás de si, os deixando sozinhos naquele cômodo pequeno demais.

— Eu vou tirar a Marie daquele lugar podre, custe o que custar, Edward. Não posso deixar que ela fique nem mais uma hora lidando com aquele horror sozinha.

Ryota assim afirmou, dessa vez sem qualquer tom de superioridade na voz, com um semblante sério. 

— Ela é tão importante assim para você?

— Não exatamente. Na verdade, somos apenas conhecidas — Sentindo o olhar confuso dele, Ryota brincou com os dedos no colo, ainda recostada na cadeira — Mas eu percebi que, se eu quisesse fazer valer a pena tudo o que se passou até agora, se eu quisesse mudar de verdade e ser capaz de ajudar os outros como eu prometi a mim mesma que faria, preciso começar fazendo alguma coisa.

As palavras sussurradas continham um tom melancólico que ninguém além dela mesma sabia a origem. As pessoas que foram perdidas, as memórias que apenas ela ali sabia, as palavras que havia pronunciado e jamais cumprido... Tudo isso se acumulava debaixo dela, crescendo, pouco a pouco, como um amontoado de promessas em aberto e mentiras que precisavam se tornar verdades.

Ryota passou por muitas fases diferentes ao longo daqueles dias.

Foi de uma garota com sonhos e palavras superficiais para alguém que lutava contra os outros e contra si mesma por aceitação e uma razão. E, agora, quando tudo parecia ter se ajeitado, se viu de novo como aquela mentira que vivia desde pequena, uma mescla de tantas coisas que já não sabia mais se definir. E ela sabia que continuaria a viver daquele jeito até o dia em que encarasse tudo, principalmente seu passado, de frente.

Para uma mentira se tornar real, eu preciso fazê-la se tornar uma meta. As palavras que um dia prometi, hoje, ontem, e até antes disso... Eu preciso cumprir com cada uma delas. E, se não for possível...

— Me ajude a tirá-la das celas esta noite, e te tornarei um rei livre.

... Vou compensar todas elas, até o fim.

— Quebrar duas correntes de uma vez. É o que te ofereço em troca.

E assim Ryota jogou algumas das suas cartas na mesa.

O único sinal de surpresa que o príncipe deixou transparecer foi o ato de erguer a testa para suas palavras. Para o que ela sabia, ou parecia saber. 

Casualmente, ele dobrou uma das pernas sobre a outra, apoiando o cotovelo na mesa ao analisar a expressão séria da garota à sua frente.

— Achou mesmo que uma oferta dessas me faria te apoiar?

— Eu já te disse: vou fazer o que precisa ser feito com ou sem sua ajuda. Mas achei que seria interessante saber de que lado você está, afinal de contas. E até onde sua lealdade vai. Estou bastante ciente que o voto possui um prazo, mas não faria mal adiantarmos as coisas, não é? Pelo menos, uma das partes que me prometeu.

Edward semicerrou os olhos.

— Não vai conseguir tirá-la de lá sozinha.

— Meus meios não são de sua conta — Ryota arrumou a postura, estalando os dedos das mãos, então sorriu maliciosamente — É claro que considerei a possibilidade de ter fofocado as coisas para seu pai mais cedo, o seria uma pena, mas ainda assim-

— Não.

Ryota ergueu os olhos para Edward, que a interrompeu erguendo o tom de voz pela primeira vez. Ele flexionou os dedos nervosamente, então repetiu, dessa vez mais baixo:

— Eu não disse nada a ele. Na verdade, ele me perguntou sobre há pouco tempo, mas... 

Percebendo que ele hesitava em continuar falando, mas também curiosa a respeito, Ryota se apoiou na mesa, se aproximando dele.

— Como assim perguntou sobre? 

— Por algum motivo, ele parece meio... Incomodado com a garota. Qual o nome dela mesmo?

— Marie.

Edward piscou uma vez.

— O que ela tem de tão especial, afinal de contas?

— Bem... Nada, eu acho. Quando a conheci, ela tinha roubado umas maçãs na cidade, mas...

— Ela o quê?

— Ah.

Ryota engasgou ao perceber o que tinha dito, então prontamente se corrigiu, agitando as mãos no ar:

— Q-Quer dizer, isso é passado! O importante é que tem alguém procurando por ela, um cara que é tipo um irmão mais velho. E ele parecia bem gente boa, e provavelmente está bem preocupado com o paradeiro dela. Então eu preciso... Eu preciso levá-la de volta.

Se o príncipe estranhou o tom de voz sério colocado na frase final, não comentou.

— E se eu puder contar com a sua ajuda, vai ser ótimo. 

Os dois se encararam por um longo momento. Ryota, com uma expressão meio nervosa, os olhos voltando a ter aquele brilho redondo de esperança. Edward, no entanto, parecia preocupado. 

— ... Foi o Miura que te contou?

— Não tem como um cara daqueles me falar qualquer, sabia? E... Desculpa, não posso dizer quem foi. 

Ryota poderia ter levado aquela pergunta como uma ofensa, mas apenas seguiu falando, baixando o tom de voz.

— Então, é verdade que-

— É só mais um rumor. A relação que temos está longe de ser agradável, mas não desse jeito.

Ela engoliu em seco pelo tom colocado, então relaxou o rosto.

— Eu não sei muito bem sobre como é ter um relacionamento difícil entre pai e filho, mas não deve ser fácil.

O olhar que Edward lhe deu dizia tudo. Ryota, percebendo a pergunta não pronunciada, apenas riu, meio sem-graça.

— Ah, não, eu não tenho pai. Minha mãe dizia que eles precisaram seguir caminhos diferentes, mas que ela nunca me deixaria. E ela me criou e me amou tanto quanto um pai ou uma mãe normalmente amariam. Nunca deixou que nada me faltasse, fosse comida ou companhia. Ela me ensinou tudo o que sabia, e me disse pra sempre correr atrás das coisas que eu queria. Minha mãe... — Ryota soltou um suspiro — Era uma grande mulher.

O sorriso que ela demonstrava agora era sereno, nostálgico. Quase como se enxergasse aquelas memórias que contava. Após dizer tudo aquilo com tanta tranquilidade, a garota soltou um suspiro suave.

— Vocês deviam se dar bem — murmurou ele.

— Sim, nos dávamos muito bem. Quer dizer, de vez em nunca também tínhamos nossos momentos difíceis, como toda família, mas sempre acabávamos conversando sobre e a gente se reconciliava. No começo, éramos só nós duas, mas então eu conheci meu avô Albert. Ele era... Como eu posso dizer? — Ryota coçou a bochecha, rindo — Ele me mimava muito. Era bastante brincalhão, me presenteava toda vez que vinha visitar a gente, e não reclamava da comida que eu fazia.

Edward deu uma risada seca.

— Não é esse o Albert que conheço.

O sorriso de Ryota fraquejou.

— E tem uma pessoa que é como um pai pra mim, embora a gente chame ele de “tio”. Ele não é um cara muito... Assim, simpático, sabe? É bem grosseiro com as pessoas, e é meio assustador quando tá de bom humor. Mas, por dentro, é alguém com um coração gigante.

— Você fica falando “a gente”, mas...

— A-Ah! É que tem o Zero também.

— O guardião da senhorita Fuyuki?

— Isso!

— Não sabia que vocês se conheciam.

Ryota empinou o nariz e deu risada com superioridade ao ver a expressão meio surpresa e meio curiosa dele.

— Conhecer é pouco. Nós somos amigos de infância, praticamente vivemos juntos durante boa parte das nossas vidas.

E só agora eu fui encarar de frente os sentimentos dele...

— Ele chamou bastante atenção essa noite.

— ... É. D-De qualquer forma! — Percebendo que estavam caminhando pra uma conversa completamente fora da curva, ela aumentou o tom de voz. — Qualquer que seja o problema entre você e seu pai, deve ter um jeito de corrigir.

— Não tem.

— Vocês já tentaram conversar sobre isso?

O olhar que Edward lhe deu pareceu duvidar firmemente que ela realmente estava lhe perguntando aquilo. Ele arqueou uma sobrancelha.

— ... Tá. Já entendi.

Era bem fácil deduzir que as conversas entre os dois não eram exatamente agradáveis, talvez muito menos civilizadas — se fosse a partir do que tinha presenciado no jantar.

— Mas...

— Hm?

— ... Não era assim antes. Não sei quando foi que... 

Ryota inclinou a cabeça quando ouviu o príncipe divagar em pensamentos, apertando os lábios com algum sentimento oculto. 

Os olhos que antes viu brilhar com intensidade, daquela forma esperta que escondia algum segredo, agora pareciam mais sombrios. Melancólicos. Ele girava os dedos das mãos, o corpo curvado pra frente.

Demorou um instante até que Ryota tomasse coragem para falar. Para ter certeza de que, caso colocasse aquelas palavras em voz alta, não se arrependeria depois por fazê-lo se sentir desconfortável.

— Tá tudo bem... Se quiser falar sobre isso.

Um movimento nos músculos de seu rosto foi a única reação dele, como se finalmente se lembrasse de que ela estava bem ali.

— Quer dizer... Eu não sou a pessoa mais adequada pra um posto desses. Normalmente, são os outros que me escutam.

Edward ergueu os olhos ao perceber o tom baixo de sua voz. Ryota não se orgulhava desse fato. De como, normalmente, era sempre ela a pedir ajuda ou que recebia um ombro amigo ao qual se apoiar. Em especial, Zero sempre foi essa pessoa pra ela — em partes, porque ela nunca precisava dizer nada, mas mesmo assim ele sabia exatamente o que estava pensando. Ou parte.

Mas, uma vez, teve uma menina que também a escutou num momento em que estava desestabilizada. Em que não tinha confiança ou certeza do que precisava fazer, e achou que não prestava pra nada. Que isso era razão o suficiente pra invejar a todos ao seu redor naquela mansão, chegando ao ponto desse sentimento corromper até parte de seus relacionamentos com aqueles que lhe eram próximos.

Entretanto, Eliza, completamente alheia à tudo isso, conversou com ela. Escutou quando começou a se menosprezar de forma idiota, desejando ao máximo ser repelida. Ser atingida por palavras ruins que confirmassem aqueles pensamentos que lhe saltavam à mente. Mas então a curandeira, cuidadosamente, da mesma forma com que atendia seus pacientes, explicou que as coisas não eram tão simples assim.

E que estava tudo bem. Estava tudo bem se você não sabia se encaixar, porque a autodescoberta é um evento natural, assim como as mudanças, que vem de dentro pra fora. Jamais de forma fácil.

Porque, às vezes, as coisas só acontecem. E você não pode fazer nada pra mudar isso. E estava tudo bem se sentir mal — foi o que uma vez percebeu, após enterrar as memórias de sua família em Aurora, e Zero receber todos aqueles sentimentos de uma só vez nas suas lágrimas e lamentos. Mas, apesar disso tudo, ela nunca... Superou. Ao longo de todos aqueles dias, ela jamais se esqueceu do que viu ou sentiu.

Jamais se permitiu esquecer ou aceitar.

É por isso ela sabia o que precisava fazer.

— Mas acho que posso ser o pilar de alguém, dessa vez.

Havia aí um sorriso sem-graça, mas, também, a oferta de uma mão e escuta amigas. E, em resposta a esse sentimento de desejar retribuir aquilo que um dia lhe foi dado, um brilho de surpresa surgiu nos olhos do príncipe.



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