Ryota Brasileira

Autor(a): Jennifer Maurer


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 1: Os Guardiões Gêmeos e a Curandeira Particular

Quando desembarcaram do trem numa enorme estação, Ryota paralisou. As portas se abriram com um grande rugido, dando espaço para um local enorme cheio de sons e cores novas rodearem a garota. Haviam muitas pessoas formando filas e conversando, sons altos ecoavam pelo ar e uma música padrão era tocada de forma uniforme ao longe. 

Enquanto caminhava, acabou se assustando com um barulho mais alto que os outros, vindo das caixas de som no teto, e ouviu uma voz robótica indicar os próximos trens a partirem. Mesmo ansiosa para conhecer todas aquelas coisas novas, Ryota sacudiu a cabeça e buscou se concentrar na sua tarefa: Carregar Jaisen para fora dali. 

Apoiando-o em seus braços, a dupla se afastou da multidão e se retirou da forma mais discreta possível - muito embora algumas poucas pessoas parassem para ver a cena de dois jovens praticamente arrastando um adulto grogue.

Por sorte, a espada de Jaisen era maleável, e sua empunhadura permitia que a lâmina fosse dobrada. Desta forma, a arma estava muito bem escondida dentro da mochila amarela de Ryota.

— Ué? Ô Zero, vamos pegar um atalho ou algo assim?

Guiada pelo rapaz de cabelos violeta que andava em silêncio, Ryota ficou confusa quando eles se afastaram em direção à floresta, passando por uma estradinha de terra estreita.

Zero não tinha dado detalhes sobre o meio de transporte, nem onde ficava a mansão da duquesa. Meio perdida, mas, ao mesmo tempo, confiando nas ações do amigo, Ryota apenas o seguiu e parou quando ele se afastou. Zero olhou para os lados e se aproximou de uma árvore, tocando-a com a palma da mão. Quase que instantaneamente, um desenho azul claro se formou no centro do tronco. O queixo de Ryota caiu ao ver o símbolo de floco de neve se fragmentar, piscando como um vagalume.

— Fica perto de mim.

Ainda meio em choque, Ryota se recompôs e o obedeceu. Um arrepio percorreu suas costas quando a temperatura começou a cair e uma luz branca quase lhe cegou completamente. Só teve tempo para pensar no que tinha acontecido quando piscou e percebeu que estavam em um lugar diferente. A árvore com a marcação tinha sumido.

Olhando ao redor, era perceptível que estavam num espaço aberto e agora podiam ver o céu da tarde.

— ... Ué? Que parada é essa?! Você tinha esses truques na manga e nunca me falou?!

— ... É, mais ou menos. — Zero coçou o ouvido quando ela ergueu demais o tom de voz.

— Então você sempre fez essas luzinha e fuuuiin? Hã? — Foi quando ela ergueu o rosto que percebeu a grade de um portão preto que circundava um grande terreno - na verdade, um jardim. E, aos fundos, havia uma casa gigante com três alas. — Caraca, essa é a mansão da tal duquesa?

— Mantenha um tom mais respeitoso ao falar da mestre, senhorita.

— Faça o favor de manter o tom baixo ao falar da mestre, senhorita.

As vozes que se sobrepuseram - uma serena e baixa, outra ríspida e baixa, respectivamente - chegaram à eles. Ryota prendeu a respiração quando viu as duas figuras se aproximarem, silenciosas, e a encararem com seus profundos olhos vermelhos. Ambas tinham lisos cabelos negros e uma franja simétrica, quase não sendo possível diferenciá-las.

— A senhorita está com uma expressão engraçada.

— A senhorita está com uma expressão desprezível.

— Poderiam fazer o favor de pararem de ficar falando as mesmas coisas? É esquisito, ainda mais quando uma de vocês duas tá me xingando desde o começo. — Ryota franziu as sobrancelhas para a da direita, que fuzilou-a com o olhar.

— Ah, senhorita, embora meu irmão seja muito parecido comigo, ele é um homem. — murmurou a jovem da esquerda com um sorriso neutro, e Ryota enrusbeceu um pouco com a falta de educação. Ela se desculpou imediatamente, mas o gêmeo não parecia interessado em suas palavras. — Permita-nos apresentar, já que nosso querido colega não se deu ao trabalho.

— Vocês nem deixaram eu falar...

A gêmea ignorou o murmúrio de Zero e reverenciou com a cabeça.

— Kanami Akai. E este é meu irmão mais velho, Sora Akai, também guardião da duquesa Minami.

— É um prazer conhecer vocês. Eu sou a Ryota. — Ryota coçou o rosto, e viu Zero reverenciá-los rapidamente também. — E esse é o tio Jaisen.

Jaisen continuava grogue em seus braços, então não disse nada para os gêmeos. A garota, ainda sorrindo, estendeu a palma da mão para eles, que se entreolharam por um momento antes de a ignorarem completamente.

— Essa é a garota de Aurora que falei antes. Ela vai se encontrar com a mestre agora.

O da direita - Sora - franziu o cenho.

— A senhorita irá se encontrar com essa daí?

— Sim. Ela deve estar nos esperando nesse momento.

O gêmeo encarou Ryota por um momento, claramente irritado. Percebendo que era o alvo da conversa, ela tentou dar um sorriso tímido, apenas para receber um olhar de desprezo ainda maior do rapaz.

— Meu irmão, coloque-se em seu lugar. A senhorita Ryota deve ser tratada com respeito, como a convidada especial da duquesa.

— ... Peço desculpas por minha insolência. — Sora recompôs sua postura e tom de voz neutro. — Senhorita.

O gêmeo manteve sua hostilidade enquanto os guiava, junto da irmã, para dentro da mansão. Com um embrulho no estômago, Ryota sorriu fracamente para Zero enquanto passavam pelo extenso e bem cuidado jardim. A enorme porta que os recepcionou era tão alta que Ryota precisou erguer seu queixo ao máximo para ver o topo dela, assim como os símbolos de flocos de gelo em dourado que moldavam a madeira.

— Sejam bem-vindos, senhor Zero e senhora... Ryota. — Quem aguardava na entrada era um senhor de cabelos brancos e de boa postura. Sua vestimenta e bom porte indicavam ser o mordomo da mansão. Ele sorriu gentilmente quando Ryota se apresentou, mas ela não teve tempo para dizer mais nada, pois os outros já se direcionavam para o salão logo à frente.

Quem raios limpa tudo isso?! Tipo, quantas pessoas são necessárias pra limpar tudo e deixar sempre tão impecável? Eu gostaria de parabenizar todo mundo pelo trabalho incrível.

— A-Ah. Vocês voltaram. 

Uma voz baixinha e aguda soou pelo salão, e a dona dela se aproximou a passos ligeiramente rápidos, mas hesitantes. 

— Perdoe-nos pela demora, madame Eliza.

— Perdoe-lhes pela demora, madame Eliza.

— E mais uma vez ele trocou o sentido da frase... E, pera, ele colocou a culpa na gente?

O rosto de Eliza estava meio vermelho e ela se atrapalhou na hora da reverência.

— Se-Sejam muito bem-vindos... Ah, Zero e... Eh... 

— Só Ryota tá bom. E esse daqui é o tio Jaisen.

— Senhorita Ryota. Certo. Ah, céus, ele parece muito mal... — Eliza apressou o passo até ela, analisando o rosto cansado de Jaisen — Me deixe te ajudar... E vamos levá-lo a um quarto. Agora.

— Ah, ok. Tá. — Ryota olhou para Zero, que apenas assentiu pra ela, e ambas partiram para o corredor à esquerda.

***

O quarto escolhido era pequeno em comparação aos outros da mansão, mas confortável. Ao deitar Jaisen, ele apenas grunhiu, mas continuou de olhos fechados. Ryota sabia que estaria mais confortável ali.

— Muito obrigada, Eliza. E, caramba, é mesmo um quartão. Tem o dobro da minha antiga casa.

— A-Ah, é mesmo...? — Ela inclinou a cabeça, fazendo seus cabelos azulados amarrados em dois feixes cairem para o lado. Ryota reparou que Eliza parecia mais nova, e tinha uma presilha bonita em formato de flor nos cabelos. Seus olhos âmbar cintilaram quando se voltaram para Jaisen. — Ouvi o que aconteceu em Aurora. Eu s-sinto muito... Deve ter sido difícil.

— ... É. Foi, sim. — Ryota piscou forte, tentando esquecer as memórias que saltaram na mente.

— Entretanto, estou surpresa. É muito raro ver alguém não reagir aos efeitos da Insanidade, principalmente depois de ter se ferido gravemente. — Eliza analisou de longe o corpo deitado, levando os dedos ao queixo. — Cuidarei dele daqui pra frente... E-Então, pode ficar... Tranquila.

— Você é a médica da mansão ou algo assim?

— C-Curandeira particular da mestre... — ela respondeu rapidamente.

Ryota sorriu, dando um toquinho no ombro dela, a fazendo estremecer.

— Então vai ficar tudo bem. Bom, o Jaisen já foi muito bem cuidado, mas tenho certeza que posso deixar ele nas suas mãos, Eliza. 

Eliza apertou as mãos junto ao peito, sorrindo de volta, e acompanhou com os olhos a garota sair do quarto.

***

Os passos dos quatro ecoavam pelos longos e vazios corredores. Eles subiram as escadas do salão que se dividiam em duas partes - as alas leste e oeste. Entre elas, havia um enorme quadro que Ryota ficou um tanto boquiaberta pela beleza da jovem exposta. Era mais uma pintura feita à mão que uma foto por conta de seus traços borrados e fragmentos do tempo.

— Esse é um retrato da duquesa? 

— Não, senhorita Ryota.

— É claro que não, senhorita.

Ignorando o tom de voz do irmão, Kanami continuou, virando um pouco o rosto para trás:

— Essa foi a primeira mestre dos Minami, a senhorita Rauroa Minami.

— Rauroa...?

Eles seguiram em frente, e Ryota cumprimentou com um sorriso duas empregadas que se curvaram enquanto passavam.

— A senhora Rauroa tem um passado desconhecido, mesmo para os descendentes da família, mas sabe-se que ela era alguém com grande beleza e um coração gentil. 

— Uaaaau. Parece o tipo de história que eu leria nos livros. Sobre uma garota pobre que subiu ao trono e tal.

— Podemos dizer que foi algo parecido... — disse Zero — Existem milhares de versões da sua história, mas todas dizem que Rauroa foi um grande exemplo de prodígio e extrema beleza da época, como uma espécie de princesa misteriosa, ou até um anjo caído.

Ela se lembrou dos grandes e redondos olhos verde-água de Rauroa, além de seus loiros cabelos cacheados. Sua pele era muito pálida, mas, de certa forma, linda. Quase como que atraída pelas histórias de fantasia, passaram em frente a uma porta dupla semiaberta que dava de frente para uma alta e longa estante recheadas de livros de todas as cores e tamanhos. Ryota se segurou para não correr lá para dentro, e apenas bisbilhotou uma ou duas vezes antes de alcançar os outros.

Sora e Kanami pararam em frente a uma porta no final do corredor, à direita, e bateram duas vezes cada um ao mesmo tempo. Ficaram em silêncio por alguns segundos antes de uma voz feminina e abafada dizer para entrarem, e assim o fizeram.

A primeira coisa que viram quando as portas foram abertas era uma larga janela aberta com suas cortinas azuis balançando. Uma mesa retangular estava colocada na horizontal, e, nela, haviam papéis muito bem organizados, além de algumas canetas e pastas empilhadas. Mas, o que mais chamou a atenção de Ryota foram os longos e belos cabelos brancos da moça de costas para eles.

Ela parecia mais alta, e exalava elegância. Mas, acima de tudo, imponência. Suas mãos delicadas atrás das costas eram magras e delicadas.

— Bem-vindos de volta. — A moça se virou num movimento só, e os olhos verdes dela se apertaram na direção de Ryota, que parecia estar hiperventilando de nervosismo. Ela abriu um sorriso caloroso enquanto caminhava na direção da poltrona. — E a você também, senhorita Ryota... Seja muito bem-vinda. 

Os três guardiões reverenciaram a moça durante algum tempo, em silêncio, mas Ryota permaneceu de pé, sem conseguir tirar os olhos da mulher mais bonita que viu na vida.

— Me chamo Fuyuki Minami, duquesa e atual matriarca da Casa Minami. É uma honra conhecê-la pessoalmente.



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