Volume 1

Capítulo 2: Tudo pela Princesa

EM OUTRO LUGAR, a Princesa usava todos os músculos em seu rosto para mostrar sua desaprovação.

Rugas profundas se formavam em sua testa conforme ela apertava os olhos. Cerrando os dentes, dobrou os cantos da boca para baixo e suas mãos transformaram-se em punhos bem apertados. Seu cabelo e roupa estavam uma bagunça. Nem mesmo uma sombra de sua antiga aparência permanecera em seu estado desgrenhado de agora. Além disso tudo, folhas e suco de amora estavam presos às suas roupas e cabelo.

— Com licença — disse uma voz.

Ela estava ocupada comendo amoras quando um saco foi colocado repentinamente em sua cabeça. Seu captor não deu atenção para ela se debatendo e aos seus gritos. Carregou-a sem ouvir um único pio e, então, alguns momentos atrás, jogou-a no chão com um baque.

“Estou cansada de ser colocada dentro de sacos, já chega!”, pensou a princesa, contorcendo-se rapidamente e sozinha, de dentro do saco. Agarrou os galhos presos ao seu cabelo e puxou. Eles estavam emaranhados demais para serem removidos apenas ao puxar.

— Não vou te perdoar! — Fez força contra o chão e se levantou, balançando a cabeça violentamente para olhar a pessoa à sua frente.

Ooh. Oooooh! Amada Princesa! Por favor, não se irrite. Seu charme simplesmente atingiu meu coração à primeira vista. Entenda, essas minhas mãos não conseguiram aguentar e precisaram agir um pouco.

Seu sequestrador era um homem com cachos dourados e olhos pretos. Suas características faciais são acentuadas por um nariz reto, o qual algumas pessoas achariam bonito. Sua barba também é bem aparada; o completo oposto de seu bárbaro Cavaleiro Negro. É um homem com um leve sotaque nasal e que usa palavras doces. Durante todo o tempo em que a manteve no saco, tentou acalmá-la com palavras gentis.

Ela não o achou assustador. Mesmo com uma pele azul, suas orelhas pontudas, chifres saindo de sua cabeça e asas de morcego saltando de suas costas. A ofensa que sentiu pela forma de tratamento que recebeu dele era maior que o medo.

— Você sempre anda por aí com isso? — Ela chutou o saco no chão.

— Mas é claro que sim, adorável Princesa. — O homem chifrudo e louro assentiu de forma sofisticada. — Preciso levar comigo caso encontre minha alma gêmea!

— O que faz então? Deixe-me adivinhar, coloca um saco na cabeça dela e a sequestra? 

Ele não respondeu, apenas olhou-a de forma amorosa e riu com um sorriso torto. A Princesa Lala pensou que seu rosto era muito parecido com as máscaras usadas nos festivais do castelo.

“Ele meio que é assustador, até quando ri.”

— Tenho tudo o que você pode querer aqui. Veja. Não é um quarto maravilhoso?

Não era mentira. Tudo naquele quarto era florido e rosa. Embora a sombra varie de acordo com o objeto, todo o resto era rosa. Tudo era ROSA. As cortinas, o dossel da cama, as cobertas jogadas e os travesseiros. Tudo, tudo, era feito de amplas quantidades de seda macia e brilhante, com rendas cuidadosamente alinhando os aros e bordas. O tapete também era de um rosa-escuro. Flores de todas as estações possíveis estavam tecidas no tapete com linhas de seda dourada.

Mesas, cadeiras, banquinhos, armários e a cômoda, tudo feito de madeira e pintado de rosa, tinham pés elegantemente curvados com padrões de vinhas douradas aos lados. Pérolas embutidas delineavam as formas de flores, grama e borboletas. Um jardim dos sonhos estava selado dentro de cada superfície de madeira dos móveis. 

E, em cima de uma pequena mesa redonda, repousava uma tigela de cristal cheia de frutas cristalizadas, picadas e em conserva. Ela sequer sabia os nomes daquelas frutas, muito menos suas formas. Flores que nunca vira antes estavam arrumadas em vasos de cristal ao lado da tigela, as quais combinavam. As pétalas espessas e soltas a lembravam vagamente o corpo de criaturas vivas. Flores, frutas, açúcar e temperos, tudo misturado. Criando um aroma forte e doce que preenchia todo o quarto. Apenas ao inalar, a doçura invadia seu nariz.

“Não gosto deste cheiro.”

A Princesa Lala, instintivamente, tapou com a mão. Cobriu o nariz cheio de sardas e a boca, onde uma nova frente de dentes apareceu. Suas mãos, pintadas de roxo, tinham um cheiro azedo, vindo do suco das amoras. Mas era um cheiro muito melhor do que o outro. 

“Isso aqui é uma gaiola. Uma gaiola bem grande.”

O quarto tinha apenas uma janela. A mesma estava selada por espessas barras de ferro.

— Você é muito atraente. Simplesmente linda! Mas é uma pena que ainda seja um pouco jovem.

— Não entendi.

— PORÉM! Meus sentidos estéticos são absolutos! Além disso, você é humana, enquanto eu sou do Clã Daemônio. A passagem de tempo é apenas uma coisa trivial.

— Não entendi mesmo. 

— É simples, Princesa. Eu te criarei. Até que você se torne uma bela dama.

“Daemônio. Dae-mônio. Dae? Mônio?” A palavra estranha repetiu em sua mente várias vezes. Ela não sabia o que significava, mas de uma coisa tinha certeza: “Esta pessoa... está vendo algo que não estou. Mesmo que estejamos no mesmo lugar, jamais veremos a mesma coisa.”

— Então, agora, você viverá neste quarto daqui em diante. Eu lhe darei tudo o que seu coraçãozinho pedir.

“Isso é uma gaiola. Vou ficar presa aqui.”

— Não.

— Venha. Tire essas roupas sujas e coloque esse vestido.

O homem louro e com chifres estalou os dedos. As portas do guarda-roupa se abriram, fazendo um tecido rosa sair dançando do cabide para dentro do quarto, emitindo o farfalhar típico. O vestido possuía mangas redondas do tipo bufante e uma saia generosamente estufada. Servia muito bem na Princesa, mas a bainha ainda era muito longa. O vestido arrastou-se de forma graciosa ao longo do piso e cortou seus passos em direção à saída. 

A Princesa Lala bateu o pé no chão e virou suas costas para o vestido dançante.

— Odeio este lugar, estou indo para casa.

— Casa? — O homem de chifres girou ao seu redor, aproximando-se sem emitir som. Seu cabelo dourado flutuava e suas asas de morcego se abriram, bloqueando de forma efetiva o caminho dela. — Seu castelo se foi, Princesa Lala Lilia.

— Como... você sabe meu nome?

— Mas é claro que a conheço, Lala Lilia. Princesa de Reverfeat, o Reino que caiu em uma única noite.

A Princesa Lala congelou. Suas bochechas se enrijeceram; seus braços, peito, pernas e pés ficaram pesados como chumbo. Era como se tivesse sido cercada por uma camada invisível de gelo e rapidamente ficou presa. 

— Onde supostamente seria a casa para qual você voltaria? Pobre, pobre Lalinha Liliazinha. Seus amados pais já não morreram para te proteger? — Um sorriso gentil estava preso ao rosto azul que se aproximava. Ele murmurou com sua voz nasal e soprou seu hálito doce sobre ela. Suas mãos acariciavam suas bochechas. 

A Princesa Lala espremeu uma voz rouca, mesmo estando petrificada, com sua voz trêmula disse: 

— Por que diz isso enquanto sorri?

— Porque sou gentil.

“Mentiroso! Mentiroso! Ele é mentiroso!”

Ele lhe ofereceu a mão como um verdadeiro cavalheiro. A palma da mão voltada para baixo, cobrindo com perfeição o rosto dela de cima. Garras pontudas e afiadas saíam das pontas de seus dedos. 

— Venha, pegue minha mão. Torne-se a esposa deste grande Rei Daemônio. Isso é o melhor para você.

— N-não! Eu... vou para casa!

Suas asas de morcego a cercaram. Cobriram o corpo pequeno que tremia de raiva, tristeza e remorso. 

— É inútil lutar contra mim, Lala Lilia. Ninguém virá te resgatar.

“Ninguém virá me resgatar. Não resta mais ninguém. Pai, mãe... Capitão Rob...”

Um nó negro e frio enterrou-se em seu peito. Foi a primeira vez, desde que nasceu, que ela experimentou o desespero

 

KA-BOOOOOM!

 

Uma explosão ensurdecedora transformou as paredes em milhares de pedaços. Ouro e fragmentos de calcário branco do belo quarto foram explodidos, queimados e pulverizados no calor cauterizante. As lascas caíram como granizo flamejante nas asas de morcego que cobriam a Princesa.

— QUENTE! MUITO QUENTE! — O Rei Daemônio gritava conforme fragmentos em chamas queimavam sua pele azul e cortavam profundamente suas asas. Acabou desmaiando por causa da dor agoniante. Ainda assim, não a largou.

— Quem é o Rei Daemônio? — Uma voz educada soou. — É assim que você passou a se chamar por conta própria?

Nem um segundo depois, outro resmungo: 

— Um “autoproclamado” Rei Daemônio, hein? Que piada.

Escamas afiadas como lâminas brilhavam como rubi contra o sol. Asas valentes cortavam o céu azul. Punhados de fumaça branca saíam de seu focinho e boca, restos da bola de fogo que cuspira na parede. Pousando com as quatro garras na varanda, o dragão olhou para o autoproclamado Rei Daemônio.

— Para começo de conversa, Daemônios nunca tiveram um Rei. Como espécie, preservam com afinco seus princípios individuais e posições de poder.

Nas costas do dragão estava um homem completamente coberto de preto; chapéu preto sobre o cabelo preto, roupas pretas e luvas pretas, e até seu manto, o qual também era preto. As únicas partes brancas eram a do canto externo de seus olhos e as Estrelas do Inverno decorando seu escudo. Elas formavam um caçador correndo pelo céu noturno.

— Todo mundo odeia homens persistentes, autoproclamado Rei Daemônio.

Eles explodiram as portas da gaiola trancada e, agora, ventos externos uivavam dentro do quarto. Sopravam para longe o ar enjoativamente doce e venenoso. Só agora que a Princesa percebeu que estava no ponto mais alto de uma torre absurdamente alta.

— Gideon, Cavaleiro Aguilhão!

— Ei, Princesa. Está ferida? 

— Estou be... AHH!

Uma mão surgiu e puxou seu pulso para trás. Embora suas asas de morcego estivessem com ardentes ferimentos sangrentos, seu cabelo cacheado louro queimado, e sangue azul jorrava de seus chifres quebrados, o autoproclamado Rei Daemônio ainda se recusava a soltá-la.

— Me solta! Me solta! — A Princesa se debatia freneticamente com toda a força que tinha. Agitando seus pequenos braços, ela batia o pé desesperadamente com suas pernas delgadas.

— Não deixarei que fuja. Fique aqui, Lala Lilia. Antiga Princesa de um Reino destruído. Será melhor para você.

De repente, a Princesa parou. O Rei Daemônio riu, pensando ter vencido.

— Me... largue. — O sol iluminou seus penetrantes olhos verdes. Ela não recuou. Não cedeu ao medo. Pelo contrário, travou os olhos no homem azul. — Reverfeat não está destruído enquanto eu viver.

Tudo no quarto em chamas congelou — dragão, Princesa e o autoproclamado Rei Daemônio.

Sem deixar esta chance escapar, o Cavaleiro agiu.

— CAI FORA!

Ele saltou das costas do dragão, atingindo um ponto alto no ar. Pousou nas costas queimadas do autoproclamado Rei Daemônio. Colocando todo o impulso vindo do peso de seu corpo, espada, escudo e cota de malha nos pés, acertou as costas do inimigo com um violento pontapé!

— GRUAH! — Ao sofrer um golpe direto, acabou abrindo a mão conforme voava de ponta cabeça, dando cambalhotas no chão antes de se chocar em uma parede. Seu grito agonizante soou como o último grito de um sapo, ou uma cigarra, morrendo. — Minha ASAAA! Está... QUEBRADA! — Uma de suas asas, já torrada, ficou balançando a partir de uma das juntas.

O cavaleiro encarou o inimigo derrotado e declarou de forma resoluta: 

— Mantenha suas mãos sujas longe da nossa Princesa!

— Vá se ferrar. Vá se ferrar, lixo humano! Você foi longe demais!

O Daemônio ficou de pé com dificuldade. Sua boca abriu-se repentinamente, rasgando sua carne até as orelhas e expondo presas irregulares. Suas características refinadas e cavalheirescas despareceram como se nunca tivessem existido.

— Uou, essa aparência combina muito mais com você. — O Cavaleiro Gideon bloqueou o caminho com seu escudo, totalmente sem medo, enquanto mantinha-se protegendo a pequena Princesa ruiva. — Deixe-me adivinhar, esta é sua verdadeira forma?

— CALE A BO... hein? — Chamas o interromperam, atingindo uma bola de fogo em sua barriga. O autoproclamado Rei Daemônio saiu voando. Ele caiu no chão e cuspiu sangue. — VÃO TODOS SE FERRAR! O que diabos foi iss...

— Eu.

O sopro de dragão encontrou seu alvo. Uma chama extremamente pequena, mas muito quente, atravessou o homem azul, levando-o a chocar-se contra uma parede no processo.

— Ooh, bela forma de ventilar o quarto — comentou Gideon —, agora consigo respirar melhor.

Os travesseiros destruídos e cobertas rasgadas espalharam penas em chamas no ar, as quais flutuavam gentilmente no ar feito vagalumes. O vaso de cristal, a mesa de madrepérola, frutas cristalizadas e o delicado e belo vestido rosa, feito para quem quer que fosse presa nesta gaiola, foram reduzidos a migalhas.

— Conseguimos... — murmurou a Princesa. Ela cerrou o punho e bateu o pé desafiadoramente.

— Ah! Aah! Aaaaah! O que vocês farão para me compensar? Vocês colocaram um buraco em minhas asas!

O dragão disparou mais um sopro fumegante na direção do Rei Daemônio, que não parava de berrar, para acabar de vez com ele. Mesmo que possuísse algumas chamas, não era quente. Olhando para o agora caído Daemônio, o dragão o advertiu com severidade: 

— Não se aproxime da minha pequena lady. Este será o único aviso que darei a tu. 

Desta vez, o homem chifrudo, louro e de pele azul, ficou em completo silêncio. A Princesa abriu bem os braços e correu.

— Senhor! — gritou ela, com alegria.

— Hã, isso é um pouco demais... se bem que sou um velhote.

Ela passou direto pelo cavaleiro envergonhado, saltou sobre o dragão e o abraçou com força.

— Ah, você se referia a ele...

Ela estava sorrindo. A Princesa estava sorrindo. As rugas profundas que fizeram morada em sua testa se foram. Alegria brilhava em seus olhos, ela mostrava seus dentes da frente enquanto toda sua boca abria passagem para seu sorriso. Suas sardas se destacaram ainda mais agora que ela recobrou uma aparência saudável.

O dragão assoprou algumas das penas em chamas.

— Bem, isso também funciona — murmurou o Cavaleiro.

Ao ver as covinhas das bochechas dela, ele concordou internamente, “pelo menos esse bastardo louro e chifrudo tem bons olhos quando se trata de beleza.”

 

*   *   *

 

ESTOU voando no céu pela primeira vez em minha vida! Agarrei-me às gigantescas costas cor de rubi. O Senhor Sol estava tão perto. Eu conseguia tocar as nuvens. No começo, isso me lembrava uma tapeçaria que decorava o grande hall do castelo. Me pergunto se a pessoa que fez aquilo também voou pelo céu. Depois, isso me fez pensar na manhã em que escalei pela primeira vez até a o topo máximo da torre do castelo. Vi o céu estender-se além do horizonte, igual ao que estou vendo hoje.

Mas as imagens na tapeçaria não eram reais. A torre do castelo não se movia comigo dentro. Agora mesmo, estou me movendo. Tudo o que vejo é real. As árvores, o chão, a água, vento — tudo isso é real. O vento me acertava. Batia contra meu rosto, brincava com meu cabelo, esfregava em meus braços e peito. Todo o meu corpo estava no meio do ar agitado. Era tão estranho tocar algo que não podia ser visto. Até esqueci sobre como usar minha voz.

Gideon e o Senhor Dragão estavam conversando desde que partimos. O vento assobiava e uivava em meus ouvidos. Mas a voz do Senhor Dragão era muito profunda e ribombava através dele. Sua voz gentil agitava meu corpo. Ouvi-la me deixava relaxada.

 Gideon segurava-me firmemente em seu colo. Seus braços estavam muito mais apertados ao meu redor agora do que quando estávamos a cavalo.

— Acha que aquele chifrudo bastardo está bem?

Eu estava próxima do peito dele, então conseguia ouvir com clareza sua voz rouca.

— Resistência a esmagamento é o forte do Clã Daemônio. Ele vai voltar ao normal depois de uns cem anos, igual a uma barata persistente.

— É bom ouvir isso. 

— Você é um cara intrigante. Por que se preocupa com o bem-estar de um Daemônio?

— Ele não é nosso inimigo. É um pedaço de lixo incorrigível, mas não é um problema, contanto que mantenha suas mãos sujas longe da Princesa.

— Concordo. Há um pouco de verdade nisso.

— Fico intrigado com o porquê de ele ter construído uma torre tão alta. Era um belo chamariz, independentemente da direção.

— Mesmo entre o Clã Daemônio, sua especialidade é querer estar nos holofotes. 

— Ahh. Então ele é um exibido. 

— Essa é uma forma simples de dizer, mas você está correto... Agora é hora de pousarmos. Segure-se bem, Princesa.

— Tudo bem.

O Senhor Dragão é tão grande, mas desceu dos céus como uma pétala voando ao vento. As copas das árvores da floresta se aproximaram e, então, passaram por nós, e o chão parecia ficar maior.

Suas asas se abriram para apoiar-se ao vento. Seus pés atingiram o chão, balançando-nos, então parou.

 

*   *   *

 

A PRINCESA, o Cavaleiro e o dragão retornaram para a base da Árvore Milenar juntos.

— Estou de volta, Botão de Ouro! — chamou a Princesa.

O cavalo âmbar deu as boas-vindas à pequena Princesa com um relincho. No entanto, ele não era o único a espera deles. Luzes roxas, brilhantes e cintilantes dançavam entre os galhos.

— Hm?

Elas se aproximaram repentinamente, quase como se tivessem vontade própria. Então, fundiram-se e uma figura apareceu dentro das luzes unidas. Uma mulher, usando um vestido e cabelo de um roxo-claro da manhã, aproximou-se. Sua bainha era de um índigo profundo. Seu cabelo curto se espalhava como as asas de um passarinho, quanto mais perto da ponta, mais transparente, gradualmente se confundindo com a cor do céu.

— Estou tão feliz de ver que você está segura, Lala Lilia. — Sua voz suave soava como sinos. Um sorriso realçou seus olhos cor de jacinto. Logo que viu seu rosto, a Princesa brilhou de entusiasmo.

— Fada Madrinha!

— Mas se não é a Dama do Alvorecer. — O dragão dobrou suas pernas dianteiras e baixou sua cabeça, curvando-a de forma respeitosa. — Já faz muito tempo.

— É um prazer revê-lo, meu nobre dragão rubi, Escamas Bravias.

O Cavaleirou virou-se para o dragão.

— Conhecida sua?

— Uma velha amiga.

“Então sou o único que não a conhece?”, pensou o Cavaleiro.

— Como vai, Cavaleiro Gideon?

— Prazer em conhecê-la, Dama do Alvorecer. — O Cavaleiro Gideon removeu seu chapéu e levou-o ao peito, antes de curvar sua cabeça. Não importa se era humano ou qualquer outra coisa, sempre devia-se mostrar respeito a uma dama. Essa era a lei de um Cavaleiro. 

Ela era uma Fada Madrinha e, assim, a guardiã de Lala Lilia. Todos os Nobres Abençoados tinham sua própria Fada Madrinha.

— Eu estava com muita vontade de vê-la, Lala Lilia.

— Estou feliz! Muito feliz!

A Afilhada e a Madrinha se abraçaram, regozijando-se com sua reunião segura. 

Enquanto isso, o Cavaleiro, de aparência obscura, franziu a testa. Seus lábios secos se contorciam e cuspiam uma voz rouca.

— Agora você aparece? Se planejava aparecer, viesse antes; Uou! — A Fada Madrinha surgiu diante de seu rosto antes mesmo que ele pudesse terminar sua última palavra. — Quando que você...

— A Fada Madrinha é assim mesmo. — O dragão assentiu com um olhar satisfeito.

— Nós somos assim.

— Você também?

Ao ver suas perguntas ignoradas, o Cavaleiro foi direto ao ponto: 

— Então, qual o plano de ação a partir de agora? Não vá me dizer que devemos levar a Princesa à Terra das Fadas?

— Quão maravilhoso isso seria, caso fosse possível. — A Dama do Alvorecer baixou os olhos e piscou uma vez. A luz ao seu redor cintilou fracamente. — No instante em que Lala Lilia passasse para o reino feérico, mesmo que momentaneamente, ficaria fora de sincronia com o mundo dos humanos. Distorções que não podem ser corrigidas acabam se enraizando, e ela não seria mais capaz de viver neste reino. Mesmo se parecesse como se voltasse ao seu lar, aqui, no final, sempre acabaria voltando ao outro reino. Então, perderia o que a torna humana.

Seus dedos longos, esbeltos e brancos acariciaram com gentileza os cabelos da Princesa. 

— Meu desejo para Lala Lilia é que ela viva alegre como uma criança da humanidade. Não é o mesmo para você?

— Exatamente.

— Então, permita-me perguntar-lhe, Dama do Alvorecer, como deveríamos proteger a Princesa? — perguntou o dragão, com um ar de dignidade.

— Ei! Essa fala é minha! — repreendeu o Cavaleiro.

— Mostre-nos o caminho, ó, Dama do Alvorecer! — O dragão continuou mesmo assim.

— Qual é, seu lagarto estúpido! Pare de agir como um Cavaleiro em uma missão!

A Dama do Alvorecer levantou graciosamente sua mão direita, apontando em direção às copas verdes das árvores. — Vocês devem escondê-la na floresta.

— Na floresta? — Tanto o dragão quanto Gideon perguntaram.

Ela dançou no ar e colocou sua mão no tronco da Árvore Milenar. 

— Ó, árvore. Ó, árvore. Enraizada nesta terra desde a antiguidade, tu cresceste muito com o passar do tempo. Por favor, empreste-me tua força para proteger e criar esta pequena vida — suplicou ela com sua voz harmoniosa.

A Árvore Milenar tremeu e respondeu às suas preces.

— Uau!

— Uou!

Os galhos, folhas e até mesmo o tronco começaram a estalar e quebrar à medida que mudavam. Ficaram mais compridos, expandiram-se e se aproximaram, tendo uma forma única no final. O solo levantava-se conforme as raízes, antes enterradas, e começavam a mover-se. 

No momento em que o silêncio voltou à floresta, a Árvore Milenar transformou-se em uma única cabana.

Gideon ficou de boca aberta.

— O que posso dizer... Não esperava por isso.

— Uma esplêndida demonstração de sua habilidade, ó, Dama do Alvorecer. 

Sinos tocaram ao longe: 

— Obrigada...

— Uou, Dama do Alvorecer, onde você está!?

Mesmo tendo ouvido sua voz, ninguém a via. Gideon rapidamente observou a área. 

— Estou bem aqui — disse de forma suave. Ela devia ter gasto seu poder, pois ficou tão pequena que cabia na palma da mão.

— Bem, parece que você ficou muito bonitinha. 

— Fadas mudam de acordo com o poder que possuem. — A pequena Dama do Alvorecer, agora sem peso algum, flutuou até o nível dos olhos de Gideon. — Cuide da Princesa Lala aqui. Junte-se ao Escamas Bravias para tal. 

— Escamas Bravias, hein? — zombou Gideon. — Você tem esse tipo de nome, seu par de botas crescido?

— Não se refira a mim desta forma tão desrespeitosa. Apenas aqueles que me são próximos podem me chamar pelo nome.

— Tanto faz.

— Cavaleiro Gideon.

— Sim, senhora.

— Escamas Bravias.

— Sim, minha lady.

— Minha barreira protegerá vocês e a Princesa. Entretanto, não irá durar para sempre.

— Por quanto tempo devemos nos esconder aqui, Dama do Alvorecer? 

— Você saberá quando a hora chegar. — A pequena Dama do Alvorecer beijou a testa da Princesa. — Lala Lilia, minha amável afilhada. 

— Espere, Fada Madrinha! Não vá!

Seu corpo tornou-se transparente e incorpóreo diante dos olhos da Princesa. Ao mesmo tempo, sua voz de sino ficava cada vez mais fraca e distante...

— Estarei sempre rezando pela sua saúde e segurança. Pela sua... alegria...

Suas palavras misturaram-se com a melodia do vento, as notas das folhas farfalhando e, então, desapareceram. O dragão e o Cavaleiro viraram-se um para o outro enquanto observavam a Princesa, a qual agora permanecia lá, sozinha. 

— Parece que nossa trégua será estendida por mais um tempo.

— Isso vai contra minha vontade, mas não temos muita escolha.

O dragão levantou sua perna dianteira e o Cavaleiro, o punho — eles, silenciosamente, os juntaram. 

— Pela Princesa.

— Pela Princesa.

 



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