Peças Sobre um Tabuleiro Brasileira

Autor(a): Yan Vieira de Macedo


Volume I

Capítulo 6: Rainha

Je suis Beatrice Bardin. Prazer em conhecê-lo!

— Meu nome é Takumi Saionji. O prazer é meu, Bardin-san.

O rapaz à minha frente contrastava bastante com o ambiente descontraído. Usava uma camisa social branca, gravata preta e óculos retangulares. O cabelo liso repartido ao meio não tinha um único fio fora do lugar.

Ele perguntou:

— Você tem rating?

— Só no Luchess. Por volta de 1400.

— Estamos em um nível parecido. Eu tenho 1452.

Até a maneira como ele falava parecia calculada minuciosamente. O sorriso educado nunca desaparecia e o tom de voz remetia a um orador profissional.

— Quer jogar com controle de tempo? Ou prefere sem?

Quando jogava sem limite de tempo, eu podia passar minutos — às vezes até mais — tentando encontrar o melhor lance. Por isso preferia partidas com relógio, para me obrigar a decidir mais rápido… embora, na prática, isso nem sempre funcionasse.

— Se eu jogar sem tempo, vou acabar pensando demais…

— Para mim não tem problema. Estou aqui mais pela conversa.

Ao ouvir aquilo, lembrei da proposta do lugar. Jogar sem tempo significava mais tranquilidade para socializar.

— Então… vamos jogar sem tempo.

Eu jogaria com as brancas, mas, antes de fazer o primeiro movimento, tomei coragem para perguntar algo que me intrigou desde que me sentei:

— Esse tabuleiro é… diferente, não é?

Todo o conjunto era de plástico, em preto e branco. O tabuleiro era mais grosso que o normal e tinha uma pequena tela digital acoplada.

— É um tabuleiro inteligente. Ele tem várias funções, mas hoje estou usando apenas para registrar os lances automaticamente. Assim não precisamos preencher uma súmula.

— Entendi… mas precisamos registrar os movimentos?

— Pretendo estudar a partida em casa, por isso quero registrar.

— Deve ser por isso que não estou evoluindo. Eu nunca estudo minhas partidas casuais…

— Não é pra tanto. Estudar partidas casuais costuma ser útil, mas não é o fator de mais impacto.

Respondida a dúvida, estava na hora de jogar.

Quando comecei no xadrez, fui aconselhada a, quando estivesse com as peças brancas, jogar aberturas que começam com o peão do rei. Elas são mais dinâmicas e não exigem tanta estratégia profunda — o pesadelo dos iniciantes. No entanto, eu não estava satisfeita com meus resultados.

Sempre que me aproximava dos 1500 de rating, parecia que meus adversários sabiam exatamente como refutar meus planos. Além disso, a tática deles era quase sempre mais afiada que a minha. Assim, eu acabava presa na faixa dos 1400 pontos.

Para tentar mudar esse cenário, decidi alterar meu estilo de jogo. Abandonei as aberturas de peão do rei e passei a explorar as aberturas de peão da dama — também chamadas apenas de “Peão-Dama”.

Como o nome sugere, esse conjunto de aberturas começa com a centralização do peão à frente da dama. Elas são famosas pela solidez e caráter estratégico — o oposto das aberturas de peão do rei. Jogá-las é como cultivar uma flor: os resultados não aparecem imediatamente; é preciso cultivar a posição aos poucos, com paciência.

É um estilo admirável… mas nada fácil.

Eu estava buscando um jogo calmo, mas o primeiro lance do Saionji discordava de mim.

Ele empurrou o peão da coluna g, uma única casa.

Apesar de contrariar o primeiro princípio da abertura — controlar o centro —, era jogável e popular. Escolher aquele lance era como dizer: “não quero um jogo calmo. Eu quero bagunça”. Isso ficaria ainda mais evidente nos lances seguintes.

— Desculpa a pergunta, mas, por acaso, você é estrangeira?

Oui. O sotaque me denunciou?

— É difícil não notar.

Enquanto conversávamos, avancei o peão do rei, reforçando o controle das casas mais importantes do tabuleiro.

— Eu sou francesa. Estou em intercâmbio.

—  Que coincidência. Eu vou viajar à França em breve.

— Legal! Vai à passeio?

— Em parte. Eu vou acompanhar meu pai em uma viagem de negócios, mas vou aproveitar para visitar alguns clubes de xadrez.

— Se quiser, posso indicar uns lugares pra você ir quando tiver tempo.

— Eu adoraria suas recomendações.

Nos lances seguintes, Saionji manteve um desenvolvimento discreto: avançou o peão da dama apenas uma casa, posicionou o bispo do rei atrás do peão de g — uma formação conhecida como “fianqueto” — e, por fim, desenvolveu o cavalo do rei.

Todos os movimentos dele apontavam para a “Defesa Índia do Rei”, uma das respostas mais agressivas contra Peão-Dama — apesar da discrição inicial.

Enquanto isso, eu aproveitava para ocupar o centro com firmeza. Três peões avançados e ambos os cavalos garantiam domínio total das casas centrais.

— O que você está achando do clube até agora?

— Estou gostando, claro. Essa combinação de maid café e clube de xadrez é muito interessante.

— É bom ouvir isso, mas também apreciamos receber críticas construtivas. Se tiver alguma, é só colocar na caixinha de sugestões que está ao lado da entrada.

— Você falou como se fosse um funcionário daqui…

Dei uma risadinha. Ele fez a mesma coisa, antes de revelar:

— Não sou funcionário, mas sou sócio.

“Um sócio…”

— Tem como se associar a esse clube?

— Não sou um cliente associado. Sou proprietário de um terço do clube.

— Um terço?

“Isso significa que…”

— Você é um dos donos?!

Ele assentiu.

Mon Dieu… tão jovem e já é sócio de um estabelecimento!

— Não sou tão jovem assim. Vou fazer dezoito anos no mês que vem.

— Mesmo assim, é um grande passo pra sua idade.

Me esforcei para focar no jogo, mas… o que se faz quando se tem a oportunidade de jogar contra uma pessoa tão importante quanto ele? Perguntas, é claro.

— Posso fazer uma pergunta?

— Vá em frente.

— Como vocês tiveram a ideia de construir esse clube?

— Meu tio e um amigo dele tiveram essa ideia. Eu não sei ao certo de onde eles tiraram, mas eles vieram me pedir ajuda quando meu pai não concordou em investir no negócio.

— Seu pai não gostou da ideia?

— Exato. Até porque meu tio já faliu algumas vezes por investir em ideias arriscadas. Mas, quando eu vi o plano de negócio, vi um grande potencial também.

De repente, ele voltou seu olhar para as outras mesas e comentou, com um leve desânimo:

— Mas esse potencial está demorando para se converter…

Acompanhei seu olhar. O salão estava longe de vazio, mas também longe de cheio.

— O clube não está indo bem?

Ele fez mais um lance, antes de admitir:

— Estamos sobrevivendo, o que já é alguma coisa. Mas queremos mais que isso. Queremos ver esse salão cheio. Como pode ver… ainda temos um longo caminho pela frente.

Logo em seguida, ele retomou a postura e disse:

— Mil perdões. Você está aqui para se divertir, não para ouvir os problemas do clube.

Aucun problème! Quem sabe desabafar um pouco não ajuda?

— Agradeço sua compreensão.

Chegamos no meio-jogo. Ficamos um pouco quietos, concentrados na partida, até que Saionji voltou a falar:

— Na posição de cliente… você sente que falta alguma coisa aqui?

— Hum…

Eu não era a melhor pessoa para fazer críticas — mesmo construtivas —, mas me esforcei para pensar em algo.

— Será que… é a localização? Aqui é meio escondido…

— Nossos estudos indicaram que esta localização é boa, mas, se um cliente está falando, vale a pena revisarmos.

Eu não fiquei satisfeita. Parecia uma observação superficial demais.

— Hum… huuumm…

Sem perceber, fechei os olhos e levei a mão ao queixo, canalizando toda a minha atenção para encontrar uma resposta melhor.

— Peço desculpas… não se sinta pressionada.

— Huuuuumm…

Ignorei o pedido. Eu queria ajudar de verdade!

“Crítica construtiva… criticar…”

Quando eu pensava em críticas, uma imagem vinha à mente: a imagem de uma pessoa que era especialista nisso.

— A Rachel, claro!

— Quem?

— Conheço alguém que pode ajudar!

Levantei-me da cadeira.

— M-Mas e o jogo?

— Empate? — estendi a mão.

Ele hesitou, mas logo disse:

— Se você insiste…

Depois do aperto de mãos, coloquei os dois reis no centro do tabuleiro, sinalizando que a partida havia terminado em um pacífico empate — apesar de, no ponto onde paramos, as brancas perderem um peão após mais uns lances.

— Como é essa Rachel?

— Ela é loira, tem olhos azuis e parece que sempre está emburrada com alguma coisa.

Enquanto procurávamos minha amiga, notei que quase todos os clientes do clube estavam reunidos ao redor de uma única mesa. Até as garçonetes observavam de longe, trocando olhares confusos.

— O que será que está acontecendo ali? — Saionji perguntou.

Fomos até o aglomerado para descobrir.

Todos falavam ao mesmo tempo, mas, entre as vozes sobrepostas, dava para distinguir palavras como “incrível”, “não acredito” e “sério mesmo?”.

— Ei, Takayuki — Saionji chamou um dos rapazes mais próximos. — O que aconteceu?

— Saionji, você não vai acreditar!

O rapaz segurou os ombros dele.

— Uma garota venceu o Kanzaki!

— O quê?

Saionji ficou igualmente surpreso.

— Vem ver, vem ver!

Ele foi puxado para dentro do círculo. Eu fui logo atrás, ainda mais curiosa.

No centro do aglomerado estava uma mesa como qualquer outra. A diferença era que ali parecia estar acontecendo o match do século.

O relógio estalava sem parar. As peças se moviam com pressa — algumas até tombavam no caminho.

De um lado, um garoto com a testa coberta de suor. Do outro, uma loira completamente despreocupada.

— Rachel!

— Beatrice? O que veio fazer aqui? — Em nenhum momento ela perdeu o foco.

— Você conhece a Rachel-sama, mocinha? — perguntou um dos espectadores ao meu lado.

— “Rachel-sama”? Sim… ela é minha amiga…

Assim que falei, vários olhares se voltaram para mim. Eles queriam avaliar quem era a suposta “amiga da Rachel-sama”.

— Não somos amigas. Somos apenas colegas de intercâmbio — Rachel corrigiu.

— Ah, Rachel, para de ser tímida — disse Daniela, surgindo do nada. — Aliás, galera, eu também sou amiga da “Rachel-sama”!

Checkmate — Rachel declarou, finalizando a partida.

— Oooh…! o coro de admiração surgiu em uníssono.

— Que droga! Você é um ciborgue, por acaso? — reclamou o adversário, recostando-se na cadeira.

Enquanto os espectadores ainda comentavam a partida, Saionji ergueu os braços para os lados, pedindo espaço.

— Pessoal! Um pouco de ordem, por favor!

Quando o silêncio tomou conta da multidão, ele se dirigiu a Rachel, com seu melhor sorriso:

— Qual é seu nome, senhorita?

— Rachel Sharp. E o seu?

— Takumi Saionji. Sou um dos donos do clube. Vejo que você atraiu um grande público…

— É o esperado. — Ela esvoaçou o cabelo com a própria mão.

— Você é enxadrista profissional?

Yeah. Sou international master e segunda melhor prodígio dos United States.

— Oooh… o público reagiu novamente, ainda mais impressionado.

— É uma honra para o Queen's Promenade receber alguém tão ilustre.

— Se ele souber o que ela falou quando chegamos… — comentou Daniela, fingindo cochichar.

Get lost, Daniela!

— Rachel! Rachel!

— Que foi?

— Você é ótima em encontrar defeito em tudo. O que você acha que falta nesse clube pra atrair mais clientes?

— É isso que você pensa de mim, sua pentelha?!

— D-Deixa eu explicar melhor! — Saionji interveio.

Ele explicou rapidamente a situação do clube.

— Pois é… eu queria ver as maids com mais gente pra atender… — comentou um dos espectadores.

Os demais concordaram, cada um à sua maneira.

De repente, um deles se ajoelhou diante da Rachel, com as mãos juntas.

— Rachel-sama… tem alguma palavra de sabedoria para nos ajudar?

Como se aquilo fosse contagioso, vários outros seguiram o exemplo, ajoelhando-se ou inclinando a cabeça, enquanto pediam “palavras de sabedoria”.

Rachel, por sua vez, cruzou as pernas e os braços, fechou os olhos e começou a balançar lentamente a perna, mergulhada em pensamentos.

Let’s see… — ela murmurou.

— EUREKA!

Todos se calaram imediatamente e voltaram o olhar para a voz que surgiu do fundo do salão.

Um homem com pinta de galã abriu caminho pelo aglomerado até chegar ao centro.

— Tive uma ideia genial!

— Então diga, Evandro! — Saionji pediu, ansioso.

Assim como os outros, Evandro também se ajoelhou diante da Rachel. Mas, com sua boa aparência, o gesto parecia mais o de um príncipe perante a realeza.

— Rachel-sama, gostaria de ser a garota-propaganda deste humilde estabelecimento?

Um silêncio tomou conta do salão.

Então, alguém gritou, a plenos pulmões:

— Rachel-sama, a rainha do clube!!!

Logo, todos começaram a repetir o coro, como fiéis entoando uma oração improvisada.

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