Peças Sobre um Tabuleiro Brasileira

Autor(a): Yan Vieira de Macedo


Volume I

Capítulo 5: Frankenstein-Drácula

Suspeitei desde o princípio.

Quando Daniela disse que um autêntico chess club foi inaugurado em Tóquio, fiquei cética.

Ela nem sequer falou o nome do lugar. Implorou para que eu não pesquisasse nada, argumentando que “a surpresa melhora a experiência”.

Normalmente, eu ignoraria ela sem pensar duas vezes, mas resolvi dar uma chance. Afinal, desde que fui arrastada para o Japão, não tive uma única partida presencial que prestasse.

E, como sempre, minha desconfiança estava certa…

O tal “clube” ficava em um prédio caindo aos pedaços, escondido nas entranhas de Akihabara — um paraíso para esquisitices que não têm absolutamente nada a ver com xadrez.

E o interior não era melhor. O lugar estava cheio de adolescentes e adultos desocupados, todos fingindo jogar xadrez enquanto babavam em mulheres fantasiadas — paródias ambulantes que manchavam o nome das maids vitorianas.

Mas, é como dizem: “it's too late”.

Voltar para casa e retomar a rotina só atrofiaria mais ainda meu xadrez presencial. Então decidi procurar alguma coisa minimamente boa naquele salão de horrores.

Enquanto a garçonete de cosplay distribuía as pessoas mais estranhas possíveis como oponentes para as minhas colegas, eu varria o salão com um olho clínico, como quem garimpa algo valioso no meio da lama.

Minha esperança diminuía a cada segundo… até que algo diferente chamou minha atenção. Não era exatamente interessante, mas destoava de todo o resto.

Sobre uma mesa, havia uma placa de papelão com algo escrito à mão:

“Top 1 do Japão”

Por que alguém colocaria uma coisa dessas ali?

Na mesa em questão, havia apenas uma pessoa. Um garoto, mais ou menos da minha idade, de cabelo espetado e visual digno de um palhaço — cores demais, sem nenhuma coerência — mascava uma colher enquanto encarava o teto.

Não é qualquer coisa que desperta minha curiosidade. Aquela placa era uma das que conseguiram.

Parei ao lado da mesa. Como esperado, não demorou nem um segundo para o garoto notar minha presença inigualável.

Até então, ele estava largado na cadeira, como se estivesse no sofá de casa. Mas, ao me ver, se endireitou e perguntou, tirando a colher da boca:

— Quer jogar?

— O que significa essa placa? — Fui direto ao ponto.

Ele olhou rapidamente para o pedaço de papelão.

— Ué, está escrito aí. Sou o top 1 do Japão.

— … Are you serious?

— Como é?

— Quem te deu esse título? Seu amigo imaginário?

— Você nunca viu o ranking japonês? Meu nome está bem lá em cima: Hayato Kanzaki.

— Não existe ranking japonês.

— Claro que existe! Você começou a jogar xadrez ontem, foi?

— Muito antes de você, garoto.

Eu estava pronta para discutir o dia inteiro até ele admitir que estava falando besteira, mas, em vez de continuar retrucando, ele puxou o celular do bolso, deu alguns toques rápidos na tela e virou o aparelho na minha direção.

— Você nunca viu isso aqui?

Me inclinei um pouco para ver melhor.

Era um site familiar — para mim e para qualquer pessoa que levasse xadrez a sério. Luchess, uma das plataformas de xadrez mais populares do mundo.

O ranking era legítimo… mas os nomes não eram. Nenhum deles me dizia absolutamente nada.

No topo da página havia a indicação da abrangência do ranking: global, regional…

Aquele era nacional. E a bandeira era do Japão.

— Desde quando isso existe?

— Sei lá. Quando comecei a jogar, já estava aí.

— Tá bom. Supondo que esse ranking é de verdade, qual é o seu rating?

— Mais ou menos 1700.

Pffff!

Até que enfim alguma coisa boa naquele dia: uma piada viva!

— Qual é a graça, loirinha?

— O melhor do Japão tem só 1700? E você tá se achando todo?

— Como assim? Meu rating com certeza é maior que o seu. Seu nome nem aparece aqui!

— É claro que não aparece. Eu não sou japonesa.

— Você… não é japonesa?

—  Nope. Sou americana. E meu rating online passa dos 2900.

Como esperado, a cara dele travou. Mas ele logo recuperou a compostura — e a presunção também.

— M-Mas e daí? Números não são nada no tabuleiro!

— Eles são bons em prever quem vence, principalmente quando a diferença é enorme.

— Você não veio aqui só pra me zuar e ir embora, né? Vamos jogar de uma vez!

Numa coisa ele tinha razão: eu não me desloquei até aquela mesa para nada.

Por mais que o jogador “mais forte” do Japão não passasse de um amador, dificilmente eu encontraria algo melhor no resto do salão. Se aquele garoto conseguiu me fazer rir uma vez… quem sabe o que ele faria em uma partida de verdade?

Me acomodei na cadeira enquanto ele dava uma colherada no pudim, como se aquilo fosse mais importante do que a partida.

— Qual vai ser o time control?

Depois de engolir, ele respondeu:

— Que tal um blitz?

— Um blitz? Contra mim?

— Posso ser mais fraco, mas, no blitz, tudo pode acontecer.

Apesar da ousadia, não era uma ideia tão ruim.

Blitz é um ritmo de jogo extremamente rápido. Com pouco tempo para pensar, as decisões precisam ser instantâneas — e com certeza muitos erros virão, independentemente da força dos jogadores. Ainda assim, para uma reviravolta acontecer, ambos precisam estar em níveis parecidos. No máximo uns duzentos pontos de diferença.

Em que mundo aquele garoto com mil pontos a menos teria alguma chance contra mim?

Ele ajustou o relógio para que cada lado tivesse três minutos de tempo, sem nenhum acréscimo por lance.

Kanzaki chegou primeiro à mesa e era mais fraco, então fazia todo o sentido ele jogar com as brancas.

— Você ainda não disse seu nome, loirinha.

— Para de me chamar assim! Meu nome é Rachel Sharp.

— Prazer em conhecê-la, Sharp-san.

Apertamos as mãos.

Ele abriu o jogo com o peão do rei e bateu no relógio com uma confiança irritante.

Sem demora, centralizei meu peão na mesma coluna e apertei o botão com pressa. Cada milissegundo era valioso.

Em vez do desenvolvimento mais natural — bispo ou cavalo do rei — ele trouxe o cavalo da ala da dama.

“Abertura Viena”. Uma escolha incomum nesse nível… embora eu duvidasse que ele soubesse disso. Era mais provável que estivesse apenas jogando “o que parecia certo”.

Desenvolvi meu cavalo do rei. Em seguida, o garoto fez outro lance inusitado: deslizou o bispo para a quarta diagonal branca.

“Não pode ser…”

Provavelmente mais um chute. Controlar aquela diagonal é comum em inúmeras situações.

Mesmo assim, o lance despertou uma lembrança incômoda…

Eu tinha uns 4 anos quando enfrentei a Viena pela primeira vez. Não sabia absolutamente nada sobre essa abertura, mas confiava cegamente no meu cálculo preciso.

Minha adversária — uma pedra no meu sapato desde a escola primária — jogou exatamente a mesma sequência que Kanzaki.

Em apenas vinte segundos, descobri uma tática naquela posição: capturar o peão, sacrificar o cavalo, fazer um “garfo” com o peão de d… Eu achei que tinha descoberto algo genial. Fiquei tão orgulhosa de mim mesma… Mas, quem riu por último foi a adversária.

Minha sequência não dava vantagem nenhuma. Pelo contrário: levava direto a uma variante obscura que ela conhecia muito bem.

Saí do torneio chorando. Se não fosse por aquela garota insuportável, eu teria conquistado meu primeiro título de mestre muito mais cedo!

Mas o tempo passou. Estudei aquela linha obsessivamente. Analisei cada ramificação, cada armadilha, cada tentativa de sobrevivência. Kanzaki não chegava nem aos pés da minha rival, então não havia motivo para temer aquele gambito nas mãos dele.

Capturei o peão.

Kanzaki deixou escapar uma risadinha.

Claro… com certeza ele venceu muita gente desavisada com essa variante. Mas, desta vez, ele ia se arrepender de tentar um golpe sujo contra Rachel Sharp, a segunda melhor prodígio dos United States!

Em vez de cair no golpe que supostamente me deixaria em vantagem, Kanzaki levou a dama até a coluna h — a melhor linha para as brancas.

Quando um iniciante olha esse lance, logo pensa no Mate do Pastor. Sim, ele acabara de ameaçar a mesma coisa, mas, naquela posição, a defesa das pretas não era tão simples.

Joguei o melhor lance: cavalo para d6.

Meu cavalo, que havia capturado um peão, agora atacava o bispo branco e, ao mesmo tempo, defendia o mate.

Meu peão central ainda estava sob ataque, mas, se Kanzaki capturasse, eu forçaria uma troca de damas e entraríamos em um final igual — que eu venceria, com certeza. Porém, ninguém escolhe aquele gambito a fim de entrar em um final chato.

Ele recuou o bispo para uma casa segura.

Segundo as engines de xadrez, bispo para e7 era o melhor lance das pretas, pois desenvolvia uma peça, preparava o roque e, mais uma vez, convidava as brancas a recuperarem o peão. Mas essa não era a linha mais comum. Se fosse, aquela variante não teria a fama que tem.

Desenvolvi o cavalo da ala da dama, defendendo meu peão central. Um lance natural… e também a porta de entrada para o próximo golpe.

Kanzaki saltou com o cavalo para b5, apertando o relógio com a mesma pressa de quem marreta marmotas num fliperama.

Ele apoiou o rosto na mão e soltou um suspiro irônico.

— Eu falei que tudo pode acontecer no blitz.

“Igualzinho a ela…”

Quando percebi que um mero iniciante estava conseguindo me irritar, respirei fundo discretamente.

“Sou eu que entro na mente das pessoas, não o contrário!”

O cavalo branco mirava meu peão de c e, ao mesmo tempo, o cavalo que defendia o mate.

Eu não podia, de jeito nenhum, tirar meu cavalo dali nem deixar ele ser capturado, então joguei a melhor defesa: atacar a dama branca com um peão.

A dama recuou para a coluna f, renovando a ameaça de mate.

Empurrei outro peão, bloqueando o caminho mais uma vez.

A dama então se alinhou com o bispo na quarta diagonal.

Não havia mais peões para bloquear. Qualquer descuido… e eu levava mate.

Só sobrou uma defesa: mover minha dama. Qualquer coisa além disso perdia de imediato. No entanto, tive que pagar um preço alto para continuar no jogo.

Kanzaki não perdeu tempo: fez seu cavalo pisotear meu peão indefeso, dando xeque. Depois que movi o rei, o mesmo cavalo derrubou minha torre no canto, tirando-a do jogo.

— É assim que uma “2900” joga?

Sim, minha posição estava uma porcaria — torre a menos, rei no centro, estrutura de peões instável… Mas havia um detalhe importante: tudo aquilo era teoria.

— O jogo não terminou — Fui curta e grossa.

Usei meus peões para prender o cavalo branco dentro do meu território. Só depois que capturei essa peça, a teoria finalmente terminou.

O blitz de verdade estava só começando.

Ambos estávamos com menos de 2 minutos no relógio. Sem a muleta da teoria, Kanzaki tinha que pensar por conta própria. Enquanto isso, eu respondia tudo ao toque.

Era como uma troca de socos. Tudo dependia de reflexos e intuição. Cada um tentava acelerar o ritmo, pressionando o adversário a reagir às pressas — e, quem sabe, cometer o erro que abriria caminho para o knock out.

O relógio estalava sem parar. Os cliques frenéticos eram como a trilha sonora de uma batalha silenciosa.

Aos poucos, os lances do garoto ficaram mais lentos e imprecisos.

Ele percebeu que, apesar da torre a mais — geralmente uma vantagem vencedora —, sua posição estava ficando mais quebrada que a minha. Só então ele decidiu refletir um pouco mais a fundo.

— Resolveu pensar? Too late.

Ele apenas grunhiu.

Não importa o quão bom fosse o lance dele, eu sabia a resposta num piscar de olhos.

Em apenas um minuto e meio, a maré virou a meu favor.

As peças foram sumindo, até que sobrou apenas os reis e uma torre branca contra cavalo, bispo e dois peões pretos.

Uma torre vale cinco pontos de material. Cavalo e bispo valem três pontos cada um. O peão vale apenas um. Portanto, Kanzaki tinha que defender oito pontos de material com apenas cinco — algo impossível.

O xeque-mate era inevitável, mas o relógio apitou antes.

— Droga! — Kanzaki bateu na mesa.

I said. Os números são ótimos em ver o futuro.

Ele suspirou.

— Você é boa mesmo… nunca precisei ir tão longe nessa abertura.

By the way, onde você aprendeu a jogar essa porcaria?

— Na internet. Tem um canal que ensina um monte de armadilhas e aberturas agressivas.

Era triste ver como o xadrez ficou depois da popularização desses conteúdos rasos…

— Esse é o problema dos iniciantes. Em vez de estudarem de verdade, aprendem meia dúzia de truques pra ganhar rápido.

— Mas o meu “truque” funcionou. Ganhei sua torre!

— Na verdade não funcionou não. Tudo aquilo é theory.

— “Theory”?

— Você sabe o que isso significa?

— Significa… significa…

Ele desviou o olhar, como se procurasse a resposta em algum lugar do salão.

Eu não tinha obrigação nenhuma, mas acabei explicando:

— Teoria é sequências de lances que foram muito jogadas e analisadas. Em outras palavras, posições que foram estudadas a fundo, às vezes por décadas.

Teoria e abertura andam juntas. A maioria das aberturas sólidas já foi registrada em livros, bancos de dados ou estudos, prontas para serem memorizadas — e, claro, testadas na prática.

— Então… todos os lances até a captura da torre são normais?

Yeah, são “normais”.

No livro em que aprendi a derrotar aquela variante, o autor a descreve como um “ataque tão assustador que parece o Drácula lutando contra Frankenstein”. Na primeira vez que a enfrentei, senti exatamente isso — como se estivesse lutando contra um monstro sedento por sangue, avançando sem parar. Mas, depois que estudei a posição e finalmente consegui vencê-la, a sensação mudou completamente.

Superar a variante Frankenstein-Drácula da Abertura Viena foi como perder o medo de monstros debaixo da cama. No começo, tirou meu sono, minha paz de espírito. Depois, percebi que não passava de uma ilusão digna de risos.

— E aí, Hayato! Fez outra vítima?

— Que nada… ela acabou de me vencer.

— Tá brincando…

— Pior que não.

O sujeito me encarou com curiosidade.

— Qual é seu nome, colega?

Cruzei os braços, sem esconder o orgulho de mim mesma.

— Rachel Sharp. International master e prodígio americana!

— Eu ouvi certo? — outro rapaz, de uma mesa próxima, se inclinou em nossa direção.

— Sim. Eu perdi.

Uma reação em cadeia começou.

Alguns jogadores pararam suas partidas. Outros se levantaram e vieram até nossa mesa. Em poucos segundos, formou-se um pequeno círculo em volta de nós.

— Sério que ela venceu você?

— Foi naquela abertura?

— Não é possível…

Pelo visto, Kanzaki não estava exagerando quando disse ser o mais forte do Japão. Vencer ele parecia ser um acontecimento raro — ainda mais na abertura que ele supostamente dominava.

Enquanto os olhares curiosos se voltavam para mim, senti um leve sorriso surgir.

Até que enfim… Algo interessante aconteceu nesse intercâmbio.

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