Peças Sobre um Tabuleiro Brasileira

Autor(a): Yan Vieira de Macedo


Volume I

Capítulo 3: Análise

“Formulário de Orientação de Carreira” — dizia o título na tela do computador.

Como o tempo passou rápido…

Eu tinha que tomar uma decisão importante: ou arriscar o clube de xadrez ou esperar a escola me dar uma direção. Mas, adiei tanto essa escolha que o tempo acabou decidindo por mim.

Só o fato de o formulário ser uma página no site oficial — e não uma folha de papel distribuída em sala — já passava a sensação de que aquilo seria diferente.

Antes das perguntas, vinham algumas instruções: não existe resposta certa ou errada; seja sincera; evite ambiguidades… O básico desse tipo de questionário.

As primeiras perguntas eram simples:

  1. Você já realizou algum teste vocacional ou recebeu orientação de carreira especializada (fora a fornecida por sua escola)?

  2. Você está convicta de que sabe qual carreira quer seguir?

Mas as coisas mudaram a partir da questão três:

  1. Assinale o que você prefere:

    1. Uma carreira que seja muito divertida, mas que paga muito mal.

    2. Uma carreira que paga muito bem, mas que não é nada divertida.

Sem meio-termo.

Não tinha certo nem errado, mas nem por isso eu deveria ter menos cuidado. Aquela questão decidiria meu futuro.

Ainda por cima, logo abaixo das alternativas, havia um espaço em branco chamado “justifique sua resposta (entre 100 e 500 palavras)”.

Que ótima maneira de me forçar a refletir sobre minha escolha…

Se todas as opções vinham com um pró e um contra, talvez o melhor caminho fosse escolher a menos pior.

“Mas como escolher? Qual critério eu uso?”

Raciocínio lógico não era meu forte, mas tive uma ideia: usar a imaginação para prever o futuro.

Primeiro, a opção “a”.

Meu trabalho era o mais divertido do mundo. Eu acordava motivada todos os dias, pulava da cama e corria para me arrumar, ansiosa para chegar logo ao… escritório — porque, quando pensamos em trabalho, sempre imaginamos um escritório, não é?

Os resultados iam bem. Eu era admirada e reconhecida na empresa. Me sentia útil, realizada. Mas, ao voltar para casa, a magia se dissolvia.

As contas se acumulavam sobre a mesa — que podia cair a qualquer momento, de tão velha. Não tinha água quente. Não tinha televisão. Minhas refeições não passavam de arroz e macarrão instantâneo. Eu economizava tanto que meu apelido no bairro era “a muquirana”.

Eu cortava gastos, fazia malabarismos no orçamento e, mesmo assim, a conta não fechava. Se apertasse mais, acabaria morando numa caixa de papelão.

Não era culpa minha. Era só que… meu salário era um dos piores do país.

Talvez “pagar mal” não significasse algo tão extremo. Mas, por via das dúvidas…

Depois, parti para o segundo cenário.

Eu tinha tudo o que alguém poderia querer: uma mansão, carros de luxo, um jato à minha disposição, dezenas de empregados e até guarda-costas. Porém, eu mal conseguia desfrutar de toda essa fortuna.

Minha única folga era domingo — isso quando não era pressionada a fazer horas extras. Meu chefe era insuportável. Meus colegas também. Só de pensar que teria que voltar àquele escritório no dia seguinte, um peso se alojava no meu peito. Era como andar na beira de um abismo, lutando para manter o equilíbrio e não cair lá embaixo.

No fim das contas, imaginar esses futuros absurdos só aumentou meu medo de escolher.

Quanto mais eu fitava a questão três, mais sentia que a resposta, na realidade, estava em algum lugar da minha memória.

“Carreira que paga bem… mas que não gosto…”

“Lembrei!”

Quando comecei a pensar seriamente sobre o futuro, meus pais me ensinaram que trabalho não é castigo. Se eu fosse passar a maior parte da vida fazendo algo, esse algo não podia me fazer desejar que o dia acabasse logo. “Dinheiro é importante”, eles diziam, “mas ele só compra conforto. Se o trabalho roubar seu ânimo, nenhuma cama de luxo vai te salvar.”

“Mas viver sem dinheiro também é ruim” — minha voz interior rebateu.

Viver no limite da subsistência não é fácil nem bonito. Ainda assim, comparando os dois cenários, resolver um problema financeiro é bem mais fácil do que conviver com um vazio existencial.

Falta de dinheiro assusta, mas eu conseguia imaginar meus pais me ajudando ou me pressionando a morar na casa deles. No cenário “b”, eu teria dinheiro de sobra, mas nenhum tempo para a família, para as amigas ou para mim mesma. Do que adianta o luxo se eu não tiver nem vontade de sair da cama? Essa realidade me apavorava muito mais.

Orgulhosa de ter conseguido argumentos tão bons, assinalei a alternativa “a” e escrevi uma tese de 499 palavras criticando a outra alternativa.

Mal eu sabia que cada uma das próximas questões trazia seu próprio dilema filosófico — e pedia uma justificativa entre 100 e 500 palavras também.

Tivemos uma semana para responder o formulário — e aquela era apenas a primeira etapa. A segunda veio na semana seguinte.

Os clubes faziam um rodízio para ceder suas salas aos orientadores. Eles não eram professores, mas profissionais contratados exclusivamente para esse trabalho.

Quando chegou minha vez, encontrei uma mulher de blazer sentada atrás de uma carteira escolar, bem no centro da sala.

— Pode entrar.

O ambiente estava tão silencioso que meus passos ecoavam nas paredes.

Sentei-me na cadeira à frente dela.

— Hanamura-san, assine ao lado do seu nome, por favor.

Ela deslizou uma folha na minha direção e me entregou uma caneta. Depois que confirmei minha presença, digitou algo rapidamente no laptop e ergueu o olhar.

— Meu nome é Shimizu Ayaka, serei sua orientadora daqui em diante. É um prazer, para mim e para o Colégio Hoshikawa, acompanhar você na sua jornada.

Ela exibiu um sorriso educado.

— Antes de começarmos, quero deixar claro que esta entrevista não tem respostas certas ou erradas e não interfere em notas ou avaliações. É apenas uma conversa, para que eu possa entender você melhor.

Assenti em silêncio.

— Analisei seu formulário e também seu histórico escolar, e algumas coisas me chamaram a atenção. Gostaria de falar sobre elas. Tudo bem?

— Sim, claro.

— Nos anos finais do ensino fundamental, você participou de muitos clubes, mas não permaneceu em nenhum por mais de um semestre. Você sabe explicar o motivo?

Essa observação não era novidade. Em todas as orientações que tive até então, os docentes apontavam essa mesma característica. Por isso a resposta estava na ponta da língua:

— Eu estava muito indecisa sobre o que fazer da vida. Achei que experimentar vários clubes me ajudaria a descobrir o que mais combina comigo.

— E você descobriu?

— Bem… Só descobri o que não combina comigo.

— Você tinha algum critério para escolher o clube?

— Se algo parecia interessante e existia um clube sobre aquilo, eu entrava sem pensar muito.

— Como era sua experiência nesses clubes? Era boa ou ruim?

— Não digo que era tudo perfeito, mas eu gostava muito.

— Então o que fazia você sair?

— É difícil explicar… Eu só sentia que aquilo não era o que eu queria fazer de verdade. Eu queria encontrar algo que eu… nasci pra fazer.

— E como você chegava a essa conclusão? De que não era aquilo que você queria fazer?

— …

Essa pergunta me jogou para trás no tempo.

No primeiro aconselhamento que tive, quando respondi que não sabia, o orientador pediu que eu refletisse sobre isso. Afinal, para resolver um problema, é preciso saber qual é o problema exatamente.

Passei dias, semanas revisitando minhas escolhas.

O primeiro clube que tentei foi o de literatura. Mika foi a primeira amiga que fiz e graças a ela me aproximei dos livros. Eu não era uma leitora voraz, mas lia um pouco toda semana. Ela me convenceu de que escrever não exigia talento — só prática.

Mesmo assim, depois de meses tentando, senti que estava forçando algo que não vinha naturalmente. Cheguei a escrever contos e poemas, mas, em vez de orgulho, aquilo me causava constrangimento.

Depois, veio o clube de artes visuais — desenho, pintura, escultura, essas coisas. As membros eram um tanto quanto excêntricas e exigentes. Levavam a arte muito a sério e constantemente me davam broncas. Fiquei assustada, desisti de novo.

Tentei coisas mais “simples”, como culinária e jardinagem. Em seguida, clubes pelos quais eu nunca tive grande interesse: vôlei, inspirada pela Saori; tecnologia da informação; cerimônia do chá; fotografia… Eu deveria ter feito uma lista.

Não importava o caminho. Todos exigiam dedicação, paciência e, acima de tudo, vontade real. Não empolgação momentânea, mas o desejo genuíno de continuar mesmo quando ficava difícil.

— Depois de um tempo, eu ficava frustrada, entediada… às vezes angustiada. Sentia que não estava evoluindo ou que estava perdendo um tempo precioso, que poderia ser gasto em uma atividade que eu realmente queria fazer. Eram atividades interessantes, mas não coisas que eu conseguisse imaginar como profissão.

Enquanto falava, pensei no que minhas colegas poderiam achar se ouvissem aquilo.

“Você foi falsa com a gente.”

Imaginar a cara de decepção delas me deu um frio na espinha.

Eu já me via ensaiando explicações, tentando provar que não era isso. Que cada experiência tinha sido sincera. Que eu realmente tinha gostado delas. Só que gostar… nunca tinha sido o bastante.

— Você está numa fase que chamamos de “fase da exploração”. Todos passam por ela, mas cada um reage de um jeito diferente. É um período marcado por curiosidade e angústia. Você quer descobrir sua vocação, mas sentem que não é “especial” em nada, têm dificuldade de listar qualidades, talentos… Isso soa familiar para você?

Tive a estranha sensação de ser lida como um livro aberto. Era como passar anos sentindo sintomas vagos e, ao descrevê-los para um médico, vê-lo apontar a causa em poucos segundos.

— Você está me descrevendo — respondi, abrindo um sorriso.

— Você sente ou já sentiu angústia e frustração por não conseguir encontrar sua vocação?

— Sim… Bastante. Tenho medo de ser aquelas pessoas que pulam de emprego em emprego porque não sabem o que querem. E também tenho medo de… não fazer nada de legal, nada que me dê orgulho quando eu ficar velhinha.

— Você quer um propósito para sua vida e ainda não conseguiu encontrá-lo. Isso é difícil. Mas o mais importante é que você já deu um passo concreto para resolver esse problema. O Hoshikawa acredita que os clubes funcionam como pequenos recortes do mundo real. Ao participar de um clube, você experimenta como seria sua vida se escolhesse aquele caminho. Quando você começou a experimentar clubes, você já conhecia o nosso colégio?

— Ainda não. Conheci por causa da Mika, minha amiga, no último ano do fundamental. Ela sim tinha o sonho de estudar aqui.

— Sem perceber, você já pensava como o Hoshikawa.

Ela sorriu — dessa vez, um sorriso mais aberto, quase orgulhoso. E eu acabei devolvendo o gesto, surpresa com a sensação de… aprovação. Como se eu tivesse acertado algo importante sem saber.

Ela continuou:

— Isso era tudo o que eu precisava entender. Antes de encerrar, preciso dizer mais duas coisas. Primeiro: o Hoshikawa não existe para ditar o que você deve fazer. Nosso papel é ajudar você a descobrir o que quer e, quando descobrir, dar as ferramentas para que se torne a melhor no que faz. Mais cedo ou mais tarde, você vai encontrar o que procura. Nós só encurtamos o caminho.

— Segundo: você não precisa depender exclusivamente da nossa orientação de carreira. Se quiser explorar por conta própria, vá em frente. O prédio dos clubes está à sua disposição. Use-o.

E foi assim que a conversa terminou.

Entrei naquela sala cheia de expectativas, imaginando se ali o Hoshikawa faria sua mágica. Pela facilidade com que a orientadora descreveu meu dilema, talvez eu não fosse um caso inédito. Talvez a resposta estivesse mais próxima do que nunca. Ainda assim, eu teria que aguentar mais alguns dias, esperando para descobrir o que ela tinha a me dizer… e se ela daria o que eu estava procurando.

Embora eu estivesse longe de decidir se entraria ou não no clube de xadrez, passei a conversar regularmente com a Daniela e a Beatrice — afinal, elas se sentavam bem do meu lado. Eu jogava xadrez pela internet de forma casual e, mesmo sem estudar pra valer, elas me davam algumas dicas aqui e ali.

Foi numa dessas conversas, pouco antes da aula começar, que a Daniela comentou:

— Hanamura-san, tive uma ótima ideia.

— Qual?

— Nós vamos em um clube de xadrez de verdade que foi inaugurado esses dias. Quer ir também?

— Clube de xadrez… de verdade?

— O que criamos na escola é meio diferente do que se chama de “clube de xadrez” no ocidente. Esse é maior, aberto ao público. Qualquer um pode entrar pra jogar.

— Tipo uma casa de shogi?

— Sim, tipo isso.

Aquele convite me pegou de surpresa. Eu nunca tinha saído com amigas que não fossem a Saori e a Mika. Na verdade, nem sabia se podia chamar a Daniela e as outras de “amigas”.

— Não sei se faz muito sentido eu ir com vocês…

Beatrice interveio:

— É só um passeio entre amigas, mesmo que você não entre no nosso clube.

— Vamos lá, por favorzinho… Prometo que vai ser divertido!

Ela era legal. As amigas dela também. E, gostando ou não, xadrez continuava sendo interessante para mim. Não havia um motivo real para recusar.

— Tá bom, eu vou.

— Massa! Você não vai se arrepender, prometo.

Eu estava indo para me divertir, claro, mas também era a chance perfeita de descobrir se meu interesse por xadrez era passageiro ou o começo de algo sério. Dois coelhos com uma cajadada só.

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