Volume I
Capítulo 2: Mate do Louco
O turno inteiro foi dedicado às apresentações das dezenas de clubes do Hoshikawa. Vi clubes que nem sabia que podiam existir — corrida de pombos, borracharia, física quântica… Aquela montanha de opções inusitadas dava até uma tontura.
— E você, Yuu? Algum clube lhe interessou?
— Ah! Bem…
Fui pega de surpresa — tanto pela Mika quanto por mim mesma.
— O clube de xadrez parece legal.
— …
— Que foi? Por que esse silêncio?
— Você não vai falar algo tipo "nossa, tem tantos clubes que estou com muita dúvida de qual escolher"? — Saori me imitou, caricata.
— É que... É que...
Ela tinha razão.
Por que o clube de xadrez saiu tão rápido da minha boca? Entre todas aquelas opções, por que logo essa?
— Tô brincando! Eu sei que você quer escolher um ainda hoje.
— Você não se interessou por esse clube só porque foi o primeiro a aparecer, né? — Mika me examinou por cima dos óculos.
— É claro que não!
— Porque elas são engraçadas?
— Também não… quer dizer, talvez um pouquinho, mas esse não é o motivo principal, com certeza.
Refleti um pouco sobre minha escolha. Percebi que tudo começou no último sábado.
Depois de assistirmos aquela obra-prima no cinema, passei o final de semana inteiro pensando em xadrez. Pesquisei como se joga, artigos, vídeos e até quanto dinheiro rende. Eu não ficava tão curiosa sobre um assunto desde quando parei de pular de clube em clube.
Até então, era só curiosidade. Xadrez era apenas um jogo interessante. Mas, quando as quatro intercambistas subiram no palco, uma lembrança da noite de sábado voltou com força: a ideia de, talvez, seguir o mesmo caminho que Leonor, protagonista do filme.
Seria esse clube uma oportunidade de testar minha ideia na prática?
— O que vocês acham? Xadrez não combina comigo?
— Nada disso. Se você está a fim, então vai com tudo!
— Yuu, não foi você que falou que estava tendo cuidado pra não escolher por impulso?
Graças à Mika, percebi que estava acontecendo de novo. Um assunto me fisgou e eu estava prestes a me entregar sem pensar. Por pouco não quebrei a promessa de não cair mais nessa armadilha.
— Então é melhor eu pensar mais, né?
— Não acredito que você cortou o barato dela, Micchan.
— Não cortei o barato de ninguém. Só estou lembrando ela de algo que ela mesma falou.
Mika era minha voz da razão, mas, diferente do normal, ela desviou o olhar por um instante e, como se estivesse cedendo a contragosto, murmurou:
— … Mas, se você quer tanto, quem sou eu pra te impedir?
Ela era tão difícil de entender às vezes… aquilo era um incentivo ou não?
Eu estava com medo de ser apenas uma empolgação passageira, medo de o xadrez entrar na minha lista de tentativas fracassadas.
Mas… É que…
Se minha carreira predestinada estava naquela escola, eu tinha que começar de algum lugar, certo?
“Uma visitinha não vai fazer mal…”
♞
O prédio dos clubes era tão grande quanto o edifício principal. Os corredores fervilhavam de calouras correndo atrás dos próprios sonhos.
"Clube de Xadrez" — dizia a placa, em uma mistura de hiragana e kanji.
— Quem sair primeiro espera as outras, certo?
Depois que Saori reforçou nosso combinado, ela e Mika seguiram seus caminhos.
Eu fiquei ali, parada diante da porta.
Engoli em seco.
"Elas parecem ser legais… por que estou nervosa desse jeito?"
Bati algumas vezes.
Nenhuma resposta. Pelo menos não a que eu esperava.
Passos acelerados ecoaram do outro lado, como se um touro bravo estivesse vindo na minha direção.
— EM QUE POSSO AJUDAAAR?!
A porta escorregou com tanta força que quase pulei para trás. Uma garota de pele escura e cachos volumosos respirava como se tivesse corrido uma maratona.
— Eu vim visitar o cl—
— SÉRIO?! QUE MASSA! VEM, ENTRA!
Antes que eu pudesse terminar a frase, eu estava sendo puxada para dentro.
Ela não me soltou. Em vez disso, começou a chacoalhar minha mão e disparar perguntas como uma metralhadora:
— Você já jogou xadrez? Há quanto tempo? Tem rating? Prefere jogar presencial ou online?
Eu não sabia qual responder primeiro!
— Hold on, Daniela! — Uma loira de olhos azuis separou nós duas. — Tá assustando ela!
Daniela piscou algumas vezes, voltando ao modo normal.
— Mil desculpas! Mil desculpas! Não vai embora, tá bom?! — Ela se curvou repetidas vezes.
— T-Tá tudo bem, juro!
A loira cruzou os braços e perguntou:
— So? O que você veio fazer aqui?
— Rachel! É assim que você recebe uma possível nova integrante?
— Qual é o problem? É uma pergunta normal.
— Mas o jeito que você falou foi bem rude.
Daniela se virou para mim e repetiu a mesma pergunta, só que com o sorriso de uma vendedora ansiosa para bater a meta do dia:
— O que lhe traz aqui, cara colega?
— Eu vim visitar o clube.
— Ótimo! Fique à vontade. Aliás, acho que te conheço… você é a menina que bateu a perna na mesa, né?
"É assim que fiquei lembrada?!"
Elas pediram para eu me sentar em uma cadeira.
Uma ruiva baixinha apareceu com uma xícara fumegante. Ela perguntou:
— Aceita chá, mademoiselle?
Era Beatrice Bardin, a colega que senta logo atrás da Daniela.
Aquele sorriso angelical e o aroma perfumado da bebida não davam a opção de recusar.
— Nossa, que delícia!
— Fico feliz que gostou.
O brilho nos olhos dela era tão puro quanto um bebê pedindo colo.
— Que chá é esse?
— Earl Grey French Blue. Um dos melhores da França.
"Um chá chique..."
Não comentei mais nada para evitar que elas descobrissem que eu era uma mera plebeia que nunca nem sonhou em tomar um chá daquele.
— Você lembra dos nossos nomes, Hanamura-san?
— Claro! Você é a Danyera-san e você é a… Beaturisu-san.
Os nomes delas eram difíceis de pronunciar, mas, pelo visto, elas não se importaram.
— E essa loira aqui? — Daniela cutucou Rachel.
— Seu nome é… Hechyeru-san?
— Não é assim que se pronuncia, mas serve — Rachel resmungou.
— O nome daquela dorminhoca ali, lembra?
Daniela apontou para um canto da sala, onde havia alguém dormindo sobre uma mesa como um gato depois do almoço.
— Ela é… Esumeraruda-san?
— Na mosca! Já que você lembra quem somos, vamos pular as formalidades.
Daniela se sentou na beira de uma mesa, Beatrice pegou uma cadeira e Rachel ficou em pé mesmo.
— Você joga xadrez há muito tempo?
— Comecei há três dias.
— Três dias? E como foi?
— Foi depois de assistir um filme. Um chamado… Kingu…
— King's Gambit?
— Esse mesmo!
— Viu, Rachel? A prova viva de que aquele filme popularizou o xadrez no Japão.
— Uma única japonesa não prova nada.
— Aquele filme é incroyable. Faz qualquer um se apaixonar pelo xadrez… — Beatrice juntou as mãos e suspirou, sentimental.
— Pois é, Bia. Você até chorou no final, né?
"Ela também?"
— Eu jogo há alguns anos, mas ainda sou intermediária. A Beatrice começou nas férias do ano passado, a Rachel—
— Sou uma professional chess player! — Rachel anunciou, com a mão no peito. — Jogo desde os dois anos de idade, tenho o título de international master e sou a segunda melhor prodígio dos United States!
— Do jeito que você fala, qualquer iniciante fica convencido de que você é a maioral…
— Eu sou a maioral, pelo menos no Japan inteiro. — Ela empinou nariz.
— Não esqueça que ainda tem a Esmeralda. Ela sim é a melhor enxadrista que já pisou nesse país.
Olhei para Esmeralda. Ela ainda estava em seu cochilo.
— Sei que não parece, mas ela está no top dez do ranking mundial.
— !
Fiquei sem palavras. Eu não entendia nada sobre os títulos e rankings do xadrez, mas estar entre os dez melhores do mundo era extraordinário em qualquer lugar.
— "Top ten do ranking online", você esqueceu de dizer — Rachel alfinetou. — Ela nunca jogou presencialmente.
— E daí? É um grande feito mesmo assim. Ela só não tem título por motivos burocráticos.
— Motivos burocráticos? Pra mim ela tem medo de enfrentar os melhores face to face.
— Inveja mata, sabia?
— Estou satisfeita com minha carreira. Não preciso invejar essa slacker.
Daniela cortou o assunto fazendo outra pergunta a mim:
— Hanamura-san, você já jogou contra alguém?
— Só contra o computador.
— E aí? Ganhou?
— No nível fácil venci todas, mas no médio…
Ela riu, balançando a cabeça.
— É o esperado, já que computadores são os melhores enxadristas do mundo. Se você vence o computador, é porque ele deixou. Por isso o divertido mesmo é jogar contra humanos. Que tal fazer sua estreia agora?
— Eu adoraria! — Me ajeitei na cadeira, ansiosa.
— Vou arrumar o tabuleiro. “Sigam-me os bons”! — Ela saiu marchando.
— Have fun. Vou continuar estudando sozinha.
— Ué? Você não vai jogar com a gente?
— Qual é a graça de jogar sabendo que vou vencer todas?
— Não vamos jogar sério, bobinha. É só pra introduzir a Hanamura-san no xadrez de verdade.
— Você disse que eu não precisava fazer nada que eu não quisesse nesse clube.
— Qual é, Rachel… para de ser rabugenta, vai.
— Eu não sou rabugenta! Enfim, excuse-me.
Ela se afastou com passos irritados.
Daniela se aproximou de mim e sussurrou:
— Ela tá assim porque—
— O que você tá cochichando aí?!
— Só explicando pra Hanamura-san por que nossa “melhor” enxadrista está fugindo da jogatina.
— Bruh… Okay, eu jogo! Só para de falar besteira!
♟
"É assim que é um tabuleiro de verdade?"
Eu nunca tinha visto um tão de perto. A madeira era lisa, brilhante, sem um único defeito. As peças tinham peso, presença… até aquele cheirinho de verniz novo. E o tamanho do tabuleiro…
— Grande, né? — Daniela comentou.
Era grande mesmo — um pouquinho maior que quatro mãos minhas lado a lado.
— Esse é o tamanho oficial. Tabuleiros grandes evitam que o jogador derrube as peças sem querer, entre outras coisas.
Daniela puxou uma cadeira e se sentou de frente para mim.
— Você lembra direitinho as regras?
— Ainda me confundo com o movimento do cavalo. E com aquele em que o peão captura o outro por trás.
— O en passant?
— Acho que é esse.
— No começo parece estranho, mas depois fica tão automático quanto respirar e piscar.
De repente, ela estendeu a mão na minha direção.
— …
Encarei por uns segundos, tentando entender o que ela queria.
— Um aperto de mão, por favor.
— Ah! Claro!
Apertei a mão dela com um pouco de atraso.
— Quando seu adversário oferece um aperto de mão, você tem que aceitar. É uma etiqueta e também uma regra oficial.
— O xadrez tem regra até pra isso?
— Não é do xadrez em si, foi a federação que inventou. Mas é um bom ato de esportividade, né?
Daniela girou o tabuleiro inteiro, de maneira que as peças brancas ficaram na minha frente.
— Joga do jeito que você sempre joga, tá bom?
Assenti, mesmo não tendo ideia do que isso significava.
Daniela me deu as peças brancas, então eu tinha que fazer o primeiro movimento da partida.
Minha primeira partida de verdade… minha primeira grande decisão nesse mundo que eu mal conhecia.
Minha mão pairou sobre as peças. Bastava mover uma delas, mas um frio na barriga — igual ao que senti aguardando o resultado do exame de admissão — puxava meu braço para trás.
"Joga do jeito que você sempre joga..."
Considerando o pedido da Daniela, escolhi o único lance que já me trouxe vitórias contra o computador — no nível fácil.
Empurrei o peão à frente do meu bispo da direita, uma casa.
Para mim, jogar xadrez era como entrar numa mata desconhecida. Eu não sabia o que estava escondido atrás do próximo arbusto — um abismo? Um urso? Um pé-grande? Então, em vez de avançar corajosamente, preferia passos curtos, cuidadosos. O lance que escolhi era seguro e testado em combate — embora o inimigo não tenha se esforçado muito na batalha —, um equilíbrio perfeito.
Daniela apoiou o queixo na mão.
— Onde você aprendeu esse movimento?
— É… hum… intuição?
Ela estreitou os olhos.
— Ah, é? Intuição é uma arma muito poderosa no xadrez, sabia?
— Sério?
— Vamos ver como a sua se sai.
Daniela empurrou o peão do rei duas casas para frente, exatamente como o computador no nível fácil fazia.
Então repeti a sequência que eu “conhecia”: avancei o peão à frente do meu cavalo da direita, também duas casas.
— Xeque-mate.
— O quê? Mais já?
A rainha dela deslizou até o canto do tabuleiro, mirando meu rei como um míssil teleguiado.
Olhei uma, duas, três vezes… e realmente não havia saída. Nada bloqueava, nada defendia. Eu nem sabia que um xeque-mate tão rápido assim era possível!
— C-C-Como isso aconteceu?!
— Você jogou muito mal — Rachel foi franca.
— Não liga pra ela — Beatrice tentou tranquilizar. — É normal um iniciante levar o Mate do Louco sem querer.
— Mate… do louco?
— Eu vou explicar.
Daniela voltou as peças para as casas iniciais.
— Olha só. O peão da coluna f é tipo um estagiário com responsabilidade demais. Só o rei cobre ele. E ele é o único tampão natural dessa diagonal aqui, ó.
Ela traçou o caminho com o dedo.
— E ninguém consegue bloquear essa diagonal além desse peão e do peão de g. Peões não andam pra trás, então quando você mexe os dois, abre um corredor da morte direto pro seu rei. "Só um louco faria isso", entendeu a piada? A minha dama só aproveitou a oportunidade.
— Entendi… mais ou menos.
— Não precisa absorver tudo agora. Se for pra decorar uma regra por hoje, guarda essa: na abertura, não mexa os peões de f e g até fazer o roque. Entendeu?
— Até fazer o… “rock”?
— Não é rock, é “roque” — Daniela corrigiu, rindo. — Em inglês é “castling”, faz mais sentido. É um movimento especial do rei que coloca ele em um “castelo” seguro.
— Ah! Castling eu conheço! Eu não sabia que podia ser chamado de… “rock” também.
— Já disse que é “roque”, não rock. Agora o motivo pro nome em português ser esse, quem sabe...
Antes de começarmos outra partida, Daniela ensinou outra coisa:
— Quando estiver com as brancas, sempre comece com "peão e4". Tem muitos motivos pra ser bom, mas, por enquanto, só confia em mim e joga esse.
Fiz exatamente isso: empurrei o peão do rei, duas casas.
Daniela espelhou meu lance.
E a sensação voltou — aquela de estar entrando numa mata desconhecida, sem saber se meu próximo passo ia me levar a um penhasco ou a um urso faminto.
"O que eu jogo agora?"
Como se lesse minha mente, Daniela disse:
— Depois de colocar um peão no centro, sua prioridade é desenvolver as peças da ala do rei.
"Fala no meu idioma, por favor!" — gritei internamente.
— Em termos simples, você só tem que tirar essas duas peças aqui das casas iniciais.
Ela apontou para o cavalo e o bispo que estavam à direita do meu rei.
— Um desenvolvimento super comum e flexível é "cavalo f3". Seu cavalo ataca meu peão central e meio que me obriga a defender ele.
Segui a instrução. Depois de um salto bonito por cima dos peões, meu cavalo aterrissou na tal casa f3 — ou pelo menos na casa que Daniela apontou, já que aquele tabuleiro não tinha coordenadas.
Meu cavalo agora “ameaçava” o peão dela, então Daniela usou seu próprio cavalo para defender a ameaça.
— Beleza. Agora falta tirar o bispo de casas brancas pra você poder fazer o roque. Onde você quer colocá-lo?
Seguindo meu instinto medroso, coloquei o bispo em uma casa bem na frente do meu peão da dama. Ali ele defendia meu peão avançado, estava protegido e parecia longe de qualquer perigo.
— Piii! — Daniela imitou o barulho de resposta errada. — Lance ruim.
— É mesmo?
— Ele até defende seu peão central, mas agora bloqueia o avanço do peão de d. Isso vai te atrapalhar muito no futuro.
Ela então mostrou duas opções melhores:
— "Bispo em c4" é a Abertura Italiana. O nome não importa muito, é só pra ficar mais fácil de identificar. Aqui seu bispo mira meu peão de f, aquele estagiário incompetente, lembra? Se eu der bobeira, você pode montar um ataque de mate no futuro.
— Já “bispo em b5” é a Abertura Espanhola, ou Ruy Lopez, se preferir. Aqui você pressiona o meu cavalo, que é o principal defensor do meu peão central. Se eu reagir mal, você "troca" seu bispo pelo meu cavalo e ainda ganha o peão de presente.
Ela deixou que eu escolhesse.
A primeira opção tinha um termo complicado: “ataque de mate no futuro”. A segunda, por outro lado, parecia mais direta: capturar o cavalo e pronto. Então escolhi essa.
Deslizei meu bispo até b5, “grudando” no cavalo dela.
A cada lance que eu fazia, Daniela precisava me ensinar outra coisa. Se ela não freasse meus erros e me ensinasse o jeito certo de jogar, eu inventaria uma maneira nova de perder a cada jogada. Ainda bem que ela estava sendo paciente…
— Vamos variar um pouco. Bia, quer jogar contra ela?
— Oui!
Enquanto as duas trocavam de lugar, perguntei:
— Beatrice-san, há quanto tempo você joga mesmo?
— Desde as férias do ano passado.
— Na escala do xadrez, isso é pouco tempo de experiência, então, tecnicamente, vocês duas são igualmente iniciantes.
Um alívio correu pelo meu corpo. Talvez eu tivesse alguma chance contra ela.
Que ingênua eu fui...
— Não fica triste, Hanamura-san — Beatrice pediu, com aquele jeitinho impossível de odiar. — Quanto mais você perde, mais você aprende!
Dava pra perceber que os lances dela não eram tão precisos quanto os da Daniela, mas, mesmo assim, o placar era três pra ela e zero pra mim...
— Chegou a hora da estrela brilhar. Vai lá, Rachel!
Com a cara de quem foi arrastada à força para a cadeira, Rachel sentou-se à minha frente.
— Tem certeza que quer ser massacrada, Hanamura-san?
O olhar dela era tão sombrio que meu estômago revirou.
— E-Eu também não vejo sentido nisso, Daniela-san. Se eu perdi pra você e pra Beatrice-san, imagina contra ela!
Cheia de importância, Daniela citou:
— Um grande mestre disse uma vez: “jogar contra alguém mais forte te obriga a evoluir”. Então vai ser ótimo pra você jogar contra a Rachel.
— Com certeza foi você que inventou essa frase — Rachel acusou.
Sem escolha, fiz o primeiro movimento.
Rachel respondeu imediatamente — e me surpreendeu mais do que qualquer uma das outras adversárias. Ela avançou, duas casas, o peão do canto da ala da dama. Um lance totalmente aleatório.
— Poxa, Rachel, joga sério! — Daniela reclamou.
— Estou ensinando ela a pensar out of the box.
Daniela se inclinou até mim e ordenou:
— Não repita esse lance, jamais. Ele é ruim pra caramba!
— I agree, mas e daí? Como você vai me punir, Hanamura-san?
Rachel parecia um chefão de videogame em seu trono, provocando o jogador...
— Avança o peão de d, rápido! — Daniela ordenou.
— What? Por que você está ajudando ela?
— Porque ela precisa, uai.
— Okay... quem sabe isso dá um pouco de graça.
Mesmo com a ajuda da Daniela, perdi feio.
— Desculpa não ser de muita ajuda, Hanamura-san… — Daniela murmurou, cabisbaixa.
— Posso ir embora agora? — Rachel perguntou, já se levantando da cadeira.
Daniela impediu a escapada dela segurando-a pelo ombro, e ordenou:
— Ainda não! É hora de revisar a partida.
— Revisar o quê? Ela errou tudo, that's it.
Aquela frase atravessou meu coração como uma flecha bem afiada.
— E você só piorou tudo, Daniela — ela finalizou.
Apesar da Rachel atirar flechas verbais em nós duas, Daniela não se deu por vencida.
— Uma das missões do clube é ajudarmos umas às outras a evoluir. Como você é tão talentosa, não deve ser nada difícil explicar exatamente onde a gente errou, né?
Rachel bufou, cruzou os braços e encarou o tabuleiro como se ele tivesse insultado a família dela.
— Foram tantas coisas que nem sei por onde começar…
Ela passou alguns minutos listando meus erros como um crítico de cinema destrinchando um filme cujo orçamento foi cem ienes. Além de não ter papas na língua, ela usava termos difíceis como "raio-x", "erro posicional", "peões fracos", entre muitos outros.
Daniela, percebendo que eu estava boiando em metade do vocabulário, interrompia para traduzir tudo para o “idioma iniciante”, e assim a revisão acabou sendo tão útil quanto dolorida — para nós duas.
Beatrice e Daniela ainda se revezaram algumas vezes para jogar comigo — as lições da Rachel tinham sido tão implacáveis que a própria Daniela resolveu dispensá-la da “obrigação” de continuar jogando.
Estava sendo tão divertido enfrentar as duas, descobrir coisas novas a cada lance e sentir aquela estranha mistura de desafio e evolução que, sem eu perceber, minha noção de tempo tirou uma folga.
É uma pena que, quando a gente finalmente encontra algo que faz o coração bater feliz, as horas decidem passar correndo.
♝
Caminhando pela estrada que cortava o jardim principal, avistei Saori e Mika sentadas em um dos bancos.
— E aí? Como foi? – Saori perguntou.
— Foi incrível! Acho que posso resumir assim.
Enquanto seguíamos rumo à saída da escola, contei tudo sobre minha visita ao clube.
— A Daniela-san é muito atenciosa e divertida. A Rachel-san… bom, ela é sincera até demais, mas não é má pessoa. E a Beatrice-san é uma fofura.
— Tá faltando alguém, não?
— Ah, a Esmeralda-san. Ela passou o tempo todo dormindo num canto da sala.
— Vida boa, hein... — Mika ironizou.
— Já que gostou desse clube, vai ficar nele mesmo?
Eu parei de andar.
A visita tinha sido tão divertida que eu havia esquecido o mais importante: eu ainda precisava decidir se entraria, de fato, no clube.
— Ainda não sei… elas são legais e tudo, mas… todos os clubes que entrei começaram assim, mil maravilhas. O problema vem depois…
Eu já tinha vivenciado isso muitas vezes: sorrisos me recebendo de braços abertos, colegas ansiosas para compartilhar suas ambições… e, não muito tempo depois, a certeza amarga de que aquele não era o meu lugar.
— Yuu, lembre-se que a orientação de carreira está por vir — disse Mika — Se você está com medo de escolher sozinha, pode esperar até lá. A coordenadora disse isso, lembra?
A orientação de carreira… O único método científico que ainda não tentei. Meu "último recurso”.
Talvez aquele processo famoso do Hoshikawa fosse capaz de me guiar para o caminho certo.
"Entrar no clube agora ou esperar a orientação?"
Minha cabeça estava começando a fritar, então recorri a algumas palavras mágicas:
— Quer saber? Depois eu penso nisso!
Em seguida, mudei de assunto. Saori e Mika também tinham que ter sua vez de contar como se saíram. Mas eu estava ciente de que, cedo ou tarde, eu teria que tomar uma decisão.
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