Peças Sobre um Tabuleiro Brasileira

Autor(a): Yan Vieira de Macedo


Volume I

Capítulo 1: Gambito do Rei

— E então? Já tem ideia de qual clube escolher?

Mika me encarou por trás dos óculos, indiferente a qualquer obstáculo no caminho.

— Hum… Bem…

Revirei o vocabulário procurando uma forma criativa de dizer “está difícil decidir”, enquanto tentava me acostumar à falta de espaço do uniforme novo.

— Ainda não, né?

— É que… são muitas opções! Não deu pra escolher tão rápido, sabe?

— Você está lendo o catálogo desde dezembro.

— É mesmo… — Abaixei a cabeça. — Na verdade, é que estou tentando ser cuidadosa dessa vez. Não quero escolher por impulso e me arrepender depois.

— Pede um período experimental, como você fez até agora.

— Você sabe que isso não deu muito certo. Já tentei literatura, arte, culinária, cerimônia do chá… e vários outros que nem lembro mais. No fim, não me identifiquei com nenhum.

Ela suspirou, antes de desejar:

— Que o deus dos clubes lhe dê alguma luz…

Mika me conhecia desde o fundamental. Ela sabia muito bem do dilema que me assombrava há tempos.

Eu era do tipo que atrasa o formulário de preferência de carreira — aquele que a escola nos obriga a preencher de tempos em tempos. Começava pensando a sério sobre o que eu pretendia fazer no futuro, mas terminava escrevendo algo genérico.

Já tentei de tudo para resolver isso: testes vocacionais, conselhos, novas experiências… mas não adiantou. Nada me acendia uma paixão de verdade.

É claro que eu não queria ficar assim para sempre. Minha promessa de ano-novo era:

"No ensino médio, vou decidir de uma vez o que fazer da vida. É tudo ou nada!"

— Bom dia, meninas!

Uma voz ao longe me puxou de volta à realidade.

Lá estava Saori, esperando-nos em uma esquina.

— Nossa, que uniforme apertado, hein… — Ela tentou esticar a roupa, sem sucesso.

— Você que é muito grande — Mika retrucou, sem levantar o olhar.

— O que minha altura tem a ver? Tenho certeza que pedi o tamanho certo.

— Não estou falando da altura. Percebeu que você está rechonchuda?

— Re… Rechonchuda?!

De olhos arregalados, Saori começou a tatear o próprio corpo.

— Ela tá brincando. Você está em forma, como sempre.

— Ah, é? — Ela levou a mão à nuca, rindo sem jeito. — Poxa, Micchan…

— Por que você ficou preocupada? Seu peso aumentou mesmo?

— É-É claro que não! Aliás, por que vocês escolheram essa escola mesmo? Nem somos da alta sociedade e ainda temos que usar essa roupa apertada.

— Grandes escritoras estudaram lá. — Mika foi direta.

— Eles são bons em orientação de carreira — completei.

Mika sempre soube que queria ser escritora. Ela também foi a primeira de nós três a decidir onde queria cursar o ensino médio — bem antes do formulário de carreira.

Saori não ficava muito atrás. Ela tinha afinidade com esportes, mas ainda não tinha certeza se queria seguir uma carreira atlética — pelo menos ela tinha mais rumo que eu…

Achei que, para mim, restava ingressar em uma escola pública e torcer para a iluminação aparecer. Até que Mika nos contou que almejava a escola feminina mais prestigiada de Tóquio, famosa por lapidar pessoas de sucesso nas mais diversas áreas. Ela não queria ser mais uma escritora, queria ser uma das melhores.

Não sei se foi pensando em mim, mas ela também enfatizou o método "infalível" de orientação de carreira dessa escola. Nenhum aluno saía de lá perdido na vida.

A pergunta ficou martelando: era de uma escola assim que eu precisava?

— Primeiro aquele exame de admissão infernal, agora esse uniforme… o que eu não faço pra ficar perto de vocês, hein.

— Eu deveria agradecer?

— Claro que sim! Isso significa que me importo muito com você.

— Confessa: você só quer ajuda na lição de casa.

— Que tipo de amiga você pensa que sou?

— O tipo que sempre esquece de fazer a lição e implora pra copiar a minha.

Saori olhou para longe. Não admitiu nada, mas juntou as mãos e começou a rezar:

— Tomara que fiquemos na mesma turma, tomara que fiquemos na mesma turma…

Nem chegamos a entrar, mas já dava para ver a diferença entre um colégio comum e um de elite.

A entrada principal era adornada por um arco que reluzia ao Sol. Nele, estava fixada uma placa de bronze com o nome da instituição, "Colégio Secundário Feminino Hoshikawa". Mais em cima, a cereja do bolo: um escudo que continha apenas duas estrelas de quatro pontas, em contraste com os símbolos de outras escolas, que tendiam a ser excessivamente ornamentados.

“Elegância, porém simplicidade?” — Tentei interpretar o escudo minimalista.

A rua estava lotada de carros de luxo pretos e prateados. Na lateral de cada veículo, um homem de terno abria a porta traseira para que a “patroa” saísse. Algumas delas até andavam cercadas por seguranças, como se fossem mais valiosas que uma joalheria.

— Micchan… tem certeza que podemos entrar aí? — Minhas pernas ficaram bambas que nem uma cadeira velha. Segurei-me na Mika para não cair de repente.

— Por que não? Somos alunas daqui também.

— Tenho quase certeza que o manual exige vir de carro chique e cercada de guarda-costas…

— É claro que não tem isso no manual! — Mika deu um tapinha no ombro da Saori, como numa esquete de humor. — Chega de drama. Somos tão alunas quanto essas patricinhas!

Impassível, ela marchou em direção a entrada.

Saori e eu nos entreolhamos, demos os ombros e seguimos os passos da nossa amiga.

A cerimônia de entrada aconteceria no auditório. Os assentos carmesim eram tão aconchegantes que dava vontade de ficar ali e não sair mais.

Estávamos mais imersas na nobreza do que nunca. O ambiente era um oceano de perfumes caros e burburinhos de quem não precisa se preocupar com nada.

"Sério que você passou as férias em Paris? Tive que ir pra Londres, de novo…"

"Ganhei uma bolsa daquela marca famosa, por ter passado na admissão!"

"Meu pai é tão cruel… Eu falo que estou de dieta, mas ele continua me mandando doces deliciosos do mundo todo!"

Saori e eu inclinamos um pouco a cabeça, tentando captar mais daquelas conversas absurdamente distantes da nossa realidade.

Quando viu nossa atitude, Mika cruzou os braços e balançou a cabeça em negação.

A cerimônia começou. Vários membros da administração e do grêmio estudantil discursaram, inclusive a "coordenadora de clubes", um cargo que eu nunca vi antes.

Ela declarou, exibindo um sorriso sereno:

— O sistema de clubes do Colégio Hoshikawa é um de nossos maiores orgulhos. Com ele, unimos aprendizado, paixão e propósito. Somado ao nosso método exclusivo de orientação de carreira, ajudamos cada aluna a descobrir seus talentos e a cultivá-los da melhor forma possível. Mesmo que vocês ainda não saibam qual caminho desejam seguir após a formatura, fiquem tranquilas: estamos aqui para guiá-las até encontrarem sua vocação.

Se ela estivesse tentando me vender alguma coisa, eu compraria na hora — seja lá qual fosse o preço. Aquelas palavras eram tudo o que eu queria ouvir.

Depois dos longos discursos, veio a hora de conhecermos nossas turmas.

— Q-Q-Q-Q… — Uma única letra saía da boca da Saori.

— Que pena… parece que você vai ter que se virar na lição de casa.

— Eu também vou ficar numa sala diferente…

— Pelo menos você é mais independente que a Sacchan.

— Não pode ser! Buááá…! — Ela foi ao chão de joelhos.

— Levanta! Tá me fazendo vergonha!

No corredor de salas de aula, nos despedimos com um “até o almoço” — Saori seguia chorosa.

Quando passei pela porta da sala, a ficha caiu. Não era a primeira vez que ficávamos separadas, mas era a primeira em terreno desconhecido… e potencialmente perigoso.

"Será que alguma vilã vai me bulinar por causa da diferença de classe social?" — perguntei a mim mesma, comparando minha situação a alguns mangás que li.

Fitando meus próprios pés, procurei um lugar vazio — nem queria imaginar o que aconteceria se encarasse alguém por engano.

Sentei-me, ajeitei as mãos no colo e decidi que a mesa seria tudo que eu poderia observar até segunda ordem.

O sinal tocou. Chegou a hora da primeira aula do dia e do ano letivo inteiro.

A professora entrou, se apresentou e começou a chamar os alunos um por um, para também se apresentarem à turma.

— Meu nome é Daniela Albuquerque. Sou brasileira e estou aqui em intercâmbio. Conto com vocês!

Je suis Beatrice Bardin. Sou da França e também estou em intercâmbio. Conto com vocês.

"Uau… duas estrangeiras na minha sala!"

Elas estavam sentadas na fileira à esquerda, pertinho de mim.

Com certeza vinham da mesma elite que o resto da turma, mas havia algo diferente nelas…

Uma estava sempre sorridente, como se a vida fosse um morango; a outra, baixinha e com traços delicados, parecia uma fada saída de um conto. Eu não via nenhuma barreira em volta delas, como nas outras colegas. Elas pareciam tão… acessíveis.

“Será que consigo conversar com elas?” — Tive uma ideia mirabolante.

— Hanamura Yuuko-san!

— !

— Ai, ai, ai!

Demorei para perceber que a professora chamou meu nome!

Fui arrancada dos meus pensamentos tão de repente que, ao me levantar, acabei batendo as pernas na borda da mesa. É claro que as riquinhas não perderam a chance de rir… incluindo as intercambistas.

Lutando contra a vergonha, falei:

— M-Meu nome é Hanamura Yuuko. Conto com vocês!

Voltei à minha cadeira com o coração disparado.

"Que desastre! Já deixei uma má impressão…" — Escondi meu rosto com as mãos.

— Tá tudo bem, Hanamura-san? — palavras calorosas vieram da esquerda.

— Sim…

Quase não notei quem estava com pena de mim.

Uma das estrangeiras!

Quando olhei diretamente, ela lançou um sorriso acolhedor e, depois, voltou a prestar atenção nas colegas falando.

"Ela é… gentil?"

Hora do almoço.

O jardim do Hoshikawa era maior e mais rico que muitos parques. Caminhos de paralelepípedos avermelhados serpenteavam o gramado; perto do refeitório havia bancos de madeira, árvores fazendo sombra e uma fonte com água caindo como uma cachoeira pacífica.

— Ah! Perfeito pra cochilar depois do almoço. — Saori aspirou o ar puro enquanto esticava os braços.

— Nada de cochilar! Quer ser repreendida no primeiro dia de aula?

Pegamos um assento e abrimos as marmitas.

— Essa escola é tão boa que é comum virem alunas de outros países — Mika explicou, quando contei sobre as intercambistas.

— Na minha turma também tem um monte de estrangeiras. Uma até levou bronca por dormir na aula de matemática. — Saori riu ao lembrar da cena.

Enquanto mastigava um pouco de arroz, notei, a poucos bancos de distância, as duas estrangeiras da minha turma almoçando com outras duas que também pareciam vir do exterior.

Uma delas notou meu olhar — justamente a que tinha se preocupado comigo depois da minha trapalhada na sala de aula. Assim que nossos olhares se cruzaram, ela sorriu de novo e acenou discretamente.

Senti o rosto esquentar, mas ainda assim retribuí o aceno, tentando parecer natural.

Os professores não respeitaram a "semana de adaptação". Nos bombardearam com lição de casa — redações, pesquisas, questionários… Nosso tempo livre virou uma extensão da escola.

De algum jeito, sobrevivemos até a sexta-feira. Porém, no caminho para casa, Saori cambaleava e balbuciava igual a um zumbi atrás de cérebros.

— O grupo acetila é transferido a uma molécula de quatro carbonos… O oxaloacetato produz citrato…

— O que é isso? — Mika perguntou.

— Por que diabos precisamos aprender Ciclo de Krebs?! — Ela agitou os braços como uma criança fazendo birra. — Eu vou chegar nas Olimpíadas decorando o metabolismo das células?!

— Dependendo da universidade que você quer entrar…

— E eu que vou passar meu precioso final de semana fazendo uma redação sobre "a mão invisível do mercado"…

— Vocês duas, hein. Sabiam muito bem que não ia ter moleza.

Depois de desabafarmos, Saori sugeriu:

— Vamos no cinema esse fim de semana?

— Esqueceu do tanto de lição de casa que temos pra fazer?

— Descansar também é importante, sabia? Se não fizermos uma pausa, nosso cérebro vai fritar de tanto trabalhar.

Eu toparia qualquer coisa para escapar um pouco daquela dura realidade escolar, então aproveitei a deixa:

— Concordo com a Sacchan. Essa semana foi muito difícil, vamos acabar enlouquecendo se não espairecermos um pouco.

— Tudo bem… Mas por que o cinema em específico?

— Tem um filme que tá bombando! Se chama… kinguganbito

King's Gambit? – Mika deduziu.

— Esse mesmo! Você conhece?

— Vi um anúncio na internet.

— Esse filme é sobre o quê? — perguntei.

— É sobre xadrez.

— Xadrez… aquele jogo que se parece com shogi?

— Na verdade o shogi foi inspirado no xadrez — Saori corrigiu.

— Vocês duas estão erradas. Tanto o xadrez quanto o shogi são inspirados no chaturanga indiano.

— Tá bom, nerd-chan… E aí? Topam?

— É claro!

— Já disse que tudo bem.

Por pouco não encontramos um cinema com ingressos disponíveis.

No caminho, eu imaginava as terríveis punições que uma escola de elite desfere nos alunos que não entregam a lição de casa a tempo, mas, com o mantra "se eu não descansar, aí que não conseguirei fazer mesmo", me acalmei — só um pouco.

Compramos os ingressos com antecedência, então pulamos a parte da bilheteria — que estava lotada de pessoas que deixaram para última hora.

Entramos na sala de cinema e nos acomodamos. Vários comerciais passaram no telão enquanto apreciávamos deliciosas pipocas amanteigadas e copos de refrigerante.

Uma tela preta e o esmaecer das luzes anunciaram que o filme começou. A sala ficou em silêncio absoluto. Até Saori, tão tagarela, ficou quieta e focada.

Sem cortes, a câmera se moveu suavemente, revelando o contexto da primeira cena.

No silêncio de uma sala escura, dois homens estavam sentados em lados opostos de um tabuleiro quadriculado. Um deles, com uma expressão carrancuda e olhar penetrante, movia as peças como se estivesse planejando um ataque real. O outro passava a mão no rosto suado enquanto encarava o tabuleiro como se sua vida dependesse daquilo.

Do nada, a câmera deu um close dramático em uma das peças sendo movida.

O som da madeira se chocando ecoou exageradamente. Embora eu não entendesse nada do jogo, aquela peça era fácil de reconhecer: era um cavalo.

"Por que eles estão jogando tão intensamente?" — perguntei-me.

Então, a voz do narrador ressoou, profunda e solene:

“O que é a vida pra você?”

Uma pausa dramática.

“Para mim, a vida é um jogo de xadrez.”

Com essa frase impactante, fomos jogados no desenrolar da história.

O protagonista, um britânico chamado Robert Feynman, era um homem devastado pela Segunda Guerra Mundial. Ele perdeu tudo: amigos, família e propósito. Depois de ser dispensado do exército, vagava sem rumo, passando os dias em bares, ganhando dinheiro ao vencer jogos de cartas. Mas, como toda fortuna mal adquirida, isso não durou.

Certo dia, ele apanhou de um grupo de apostadores frustrados e foi largado em um beco, espancado e sem esperanças.

Foi então que ela apareceu. Leonor, uma mulher altruísta, o encontrou, cuidou de seus ferimentos e, sem pedir nada em troca, lhe deu algo que ele não tinha há muito tempo: uma razão de viver. Quando descobriu que Robert era um dos melhores jogadores de xadrez do mundo, ela fez de tudo para se tornar aprendiz dele.

Eu era um tanto quanto curiosa, por isso já tinha lido a sinopse e conferido as avaliações. Sinceramente, não esperava muito. Achei que seria só mais um romance hollywoodiano. Ainda assim, aquelas notas me deixaram intrigada. Nunca tinha visto um filme chegar tão perto do “10” e dos “100%”.

Pois bem… a resposta tinha duas horas de duração.

— Yuu? Tá tudo bem?

Me virei para elas. Ficaram espantadas, como se estivessem olhando nos olhos de um fantasma.

— O-O que aconteceu? Por que você tá chorando?

— É que… o final… — Mal consegui falar entre os soluços.

O grande "fim" escrito no telão iluminava tanto o público batendo palmas quanto minhas amigas me acudindo.

Enquanto esperávamos nossos lanches na praça de alimentação, o assunto não poderia ser outro.

— Nem vou perguntar o que a Yuu achou do filme. As lágrimas dela dizem tudo.

Dei uma risada sem graça.

— Um filme nunca mexeu comigo desse jeito…

— É um filme bom — Mika admitiu, apoiando o queixo na mão — mas não entendo por que você chorou, Yuu. Já vi filmes muito mais emocionantes que esse.

— Tá falando daquele romancezinho meloso?

— Não é um "romancezinho meloso"! — Ela bateu de leve na mesa. — É uma obra prima do drama moderno!

— Obra prima? Só se for do gênero “dramalhão”!

— Você nem gosta de romances, é claro que não entende a genialidade daquele filme!

— E você entende? Porque até desenhos infantis tem mais emoção que aquele festival de vergonha alheia!

As duas se encararam, como se estivessem prestes a iniciar uma guerra santa cinematográfica.

— Lá vamos nós de novo…

Consegui deixar a água da banheira na temperatura perfeita. À medida que eu submergia, as preocupações iam se dissolvendo no vapor que pairava no ar.

O filme ainda rebobinava na minha mente. Várias cenas marcantes apareciam nitidamente diante dos meus olhos, mas uma se destacava: o motivo de Leonor gostar de xadrez.

Ela foi inspirada pela irmã mais velha, uma pintora talentosa, a não ser apenas mais uma “dona de casa” na multidão. Decidida a encontrar seu próprio brilho, tentou seguir os passos da irmã, mas logo percebeu que não tinha a mesma criatividade — e as comparações constantes a deixavam cada vez mais abatida. A irmã, tentando consolá-la, disse que talvez o talento dela estivesse em outro lugar.

Então, Leonor se lançou em novas experiências: música, literatura, teatro… mas em todas esbarrava no mesmo muro: ela não tinha o que era necessário; ela não tinha "talento".

Um dia, passeando com os próprios pensamentos, deparou-se com um tio, bêbado e largado sobre uma das mesas de concreto de uma praça. Apesar da cara vermelha e dos movimentos errantes, parecia lúcido ao falar do tabuleiro à sua frente. Disse que estava “tentando resolver aquela posição há dias”, mas, quando viu a sobrinha cabisbaixa, deixou de lado o quebra-cabeça e a convidou para jogar.

Enquanto movia as peças sem saber o que estava fazendo, Leonor desabafou: não era boa em nada; tinha alguma coisa errada nela?

O tio pensou por um instante e teve uma ideia:

“Já tentou jogar xadrez?”

Tudo o que importava para ela era a arte, por isso nunca pensou em experimentar outras áreas, muito menos jogos de tabuleiro, como o xadrez.

“Sabe por que xadrez é perfeito pra você? Porque não depende de talento, muito menos de genialidade. Xadrez depende de esforço, de trabalho duro. É o jogo mais meritocrático que existe! Você tem esforço de sobra, tenho certeza que vai se dar bem.”

Aquele era um jogo difícil e dominado por homens, mas, sem uma ideia melhor — e ignorando o fato de o tio ter dito isso enquanto estava bêbado —, ela encarou o desafio.

Dias depois, o tio sofreu uma overdose fatal, mas Leonor continuou jogando, como se cada partida fosse uma maneira de manter viva a crença dele, mais do que a lembrança de um homem arruinado pela bebida.

Quando essa cena passou no telão, senti que eu estava no filme. Eu não era tão bonita quanto a Leonor, mas sofria de um dilema parecido.

Conheci muita gente talentosa — na escola, na família —, pessoas que pareciam ter nascido sabendo o que queriam ser. Já eu… cada tentativa era como correr atrás de um arco-íris: quanto mais me aproximava, mais ele sumia.

Eu não era especial em nada. Não tinha o dom das palavras, como a Mika; nem o físico invejável da Saori; tampouco habilidades manuais, facilidade com tecnologia…

Eu era tão… medíocre.

— Essa é a palavra que melhor me define. — Ri de mim mesma, afundando a boca na água morna.

Minhas amigas eram como a irmã da Leonor, sempre tentando me ajudar a encontrar meu caminho. Mas eu não tinha um “tio bêbado e sábio” para me dar o empurrão final.

Levantei o rosto e fitei o teto.

— Uma carreira que não depende de talento, só de esforço…

Depois do banho e do jantar, sentei-me à escrivaninha disposta a começar a lição de casa. Mas, em vez disso, peguei o celular e abri o navegador.

"Xadrez" — digitei.

A tela se encheu de resultados, mas não era bem o que eu queria.

“Xadrez profissional” — Tentei de novo.

Li que o xadrez, assim como o shogi, era considerado um esporte — e que existiam pessoas que viviam disso.

“Xadrez… dá dinheiro?” — Pesquisei ainda mais.

Aparentemente era possível, mas difícil.

Eu já tinha cogitado esportes antes, mas nunca jogos de tabuleiro. Talvez porque, quando criança, tentei jogar go e, assim como Leonor, saí convencida de que aquilo era coisa para pessoas de QI alto.

Mas, se Leonor conseguiu…

— Depois eu penso nisso — ordenei para mim mesma. — Tenho muita lição de casa pra fazer agora.

Segunda-feira, segunda semana de abril. Mais uma vez, todos os alunos da escola se reuniram no auditório.

Minhas mãos e pés não paravam quietos. Fiquei imaginando como seria cada apresentação, tentando adivinhar qual clube me conquistaria.

— Que ansiedade é essa, Yuu? — Saori perguntou.

— Hoje é o dia em que eu tenho que escolher um clube. — Franzi a testa, sem tirar os olhos do palco.

Saori riu e aconselhou:

— Pensa com carinho, tá bom?

Não respondi nada, mas levei o conselho em consideração.

A mestre de cerimônia era ninguém menos que a coordenadora de clubes.

— Hoje é um dia especial para vocês, para os clubes e para o Colégio Hoshikawa como um todo. Todos os clubes fundados até agora terão a oportunidade de cativar o coração de vocês, novas alunas. Dada a quantidade de clubes, sei que não será uma escolha fácil, mas lembrem-se que não precisam ter pressa. Vocês poderão esperar até a primeira fase da orientação de carreira, que acontecerá em breve. Mas, se vocês já sabem o que querem, escolham o clube que mais combina com vocês.

A coordenadora se retirou sob aplausos e as cortinas vermelhas se fecharam.

"Qual vai ser o primeiro a se apresentar?”

Ninguém sabia a ordem das apresentações, o que tornava a expectativa ainda maior.

As cortinas se abriram de novo. Mais aplausos para receber o primeiro grupo.

— …

Minhas palmas morreram no ar.

Entre as quatro integrantes que surgiram no palco estavam… as estrangeiras que sentavam à minha esquerda!

Quando o silêncio retornou, uma delas deu um passo à frente e anunciou:

— Olá, colegas do Colégio Hoshikawa! Eu sou a presidente do clube, Daniela Albuquerque.

Je suis Beatrice Bardin, vice-président.

My name’s Rachel Sharp.

— Esmeralda Albacete~ — Ela bocejou alto, como se estivesse em casa.

— Que falta de educação é essa?! — Daniela brincou, arrancando risadas da plateia. — Bocejos à parte, nós somos o recém-criado Clube de Xadrez!

Um raio atravessou meu corpo.

Por um instante, o tempo parou.

"Um clube… de xadrez? Aqui na escola?!"

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