Os Prelúdios de Ícaro Brasileira

Autor(a): Rafael de O. Rodrigues


Volume II – Arco IV

Capítulo 46: O Abismo

A Torre dos Filósofos. O mecanismo divino construído pela autoridade da Correnteza Eterna com o intuito de conectar os mundos divididos.

Era possível vê-la de qualquer ponto de Arcadia, mas só de perto tínhamos noção de seu real tamanho. Uma estrutura aterradora e colossal, que não parecia pertencer a este mundo.

Segundo os escritos sagrados do Pergaminho do Abutre, seu núcleo resguardava o Amaranto. Isto é, a chave para adentrarmos o Jardim de Rosas da Sabedoria, pelo qual se alcança o poder miraculoso de Messias.

Erguemos as medalhas com o brasão da cidade, e os portões de aço se abriram. Passamos por incontáveis desafios e provações, enfrentando criaturas mecânicas apavorantes, até finalmente chegarmos ao Anfiteatro.

— É aqui? — perguntou Hector, encantado com as maravilhas e banquetes que nos rodeavam na recepção.
— Sem dúvida alguma.

Aproximei-me do monumento, onde havia outros nomes escritos.

— Outros chegaram antes de nós. Tivemos sorte. Irmão, faça como planejamos.
— O pergaminho diz mesmo a verdade, Kosmo? Nós... só teremos direito a um desejo?
— Sim. E você sabe o que pedir. Restaurar a pele, a carne, o sangue e os ossos do nosso povo. Nada além disso.
— E quanto às outras pessoas de Arcadia?
— Hector. — Peguei-o pelos ombros. — Já falei para não pensar nisso. Eu cuidarei de tudo. Eles são as Mãos do Mundo. Você é Padomektah. Você é quem alcançará o Messias. A bandeira de Vertumnus é o futuro da humanidade. Esqueça todo o resto e não fraqueje. Ouviu bem?

Os olhos dele, espelhos vivos dos meus, nem piscavam.

— ... Sim — ele respondeu. — Eu alcançarei Messias, e salvarei o meu povo.
— Repita.
— Eu alcançarei Messias, e salvarei o meu povo.
— Repita! Mais forte!
— Eu alcançarei Messias, e salvarei o meu povo!!
— Bom garoto.

A Santíssima Corte dos Heróis

Patroclus de Angerona, o Comprometido
Bellerophon de Juno
Perseus de Juno
Hippolyta de Juno
Paris de Quirinus
Hector de Vertumnus
Kosmo de Vertumnus
Heracles de Fortuna

Eu, Kosmo de Vertumnus, estive subornando o tempo.

Aproveitei cada minuto, cada fração de segundo, a fim de cumprir o meu dever: derramar sobre o cálice vazio que era Hector a glória do resplandecente Ícaro.

Até que o papel do Comprometido fosse dado a ele, induzi os outros desafiantes à derrota, manipulando suas mentes vulneráveis, semeando a dúvida, o conflito e o sentimento de traição às nossas terras natais.

Não demorou muito, e eles já estavam na palma das minhas mãos.

Paris, hostil ao servo de Angerona por considerá-lo um “traidor de Quirinus”, foi o primeiro a cair. Perseus, que tinha cabelos brancos como eu, foi o próximo. Cegou-se com um falso ideal de liberdade, quando liberdade não existia.

Assim que todos, inclusive o Filho de Trismegistus, já se encontravam emocionalmente abalados, expus a verdade e instiguei ainda mais a competição entre os três restantes, dois deles campeões. Isso se mostrou uma tática eficaz.

Hippolyta era altruísta demais e fracassou. Com a perda dela e do outro servo de Juno, o príncipe Bellerophon desesperou-se e foi à luta. Ele durou mais do que eu esperava. Achei que seria o mais fácil de eliminar.

Depois veio Heracles, o único a não se transformar em ouro, pois foi morto antes que sua máscara fosse arrancada. Não fosse isso, temo que o resultado mais provável desse combate teria sido a derrota do Comprometido.

Com isso, restava Patroclus de Angerona.

A princípio, sua derrota era certa. Embora invicto em cinco combates consecutivos, o Anfiteatro favorecia Hector. A cenografia refletia os conteúdos internos do "preenchido" da reação, tornando possível prever o perdedor.

Mas, em vez de se deixar derrotar dignamente, Patroclus se desfez da própria máscara e se rendeu. Houve uma Reavaliação de Dignidade tardia e, como só restávamos eu e meu irmão, foi demandado um duelo final.

Apesar de tudo, vi-me em paz.

Depois dos crimes que cometi, nada mais justo do que morrer pelas mãos dele. Eu, Koshmayah, estava pronto para sacrificar meu corpo e minha alma para tornar meu irmão mais velho, Padomektah, um ser completo.

À véspera do dia da Correnteza Eterna, a orquestra tocou, e o último combate da Corte dos Heróis teve início. As luzes vermelhas se acenderam, e o cenário ganhou vida própria, movendo-se e se transformando.

Eu não podia me render, ou isso o invalidaria. Minha única escolha era lutar com tudo o que tinha até que Hector tivesse coragem de dar cabo de mim, quisesse ele ou não. Por isso, eu gritava, suplicava para que ele me finalizasse.

Por mais que tivéssemos nascido do mesmo ventre, eu não era precioso. Meu coração era apenas uma engrenagem. Após dar movimento ao dele, meu papel era desaparecer. E estava tudo bem assim. Alguém como eu nunca deveria ter nascido.

Talvez esse fosse o verdadeiro significado dessa minha vida miserável. A razão das coisas terem sido daquela forma.

Por fim, a música parou. Os cacos de uma máscara quebrada se espalhavam pelo chão, e o silêncio tomou a arena. Ofegante, afaguei meu rosto com os dedos, ainda sentindo a peça de metal intacta, e me sobressaltei.

Olhei para trás, onde estava meu irmão, e então veio o pronunciamento do Imperador das Rosas:

— Kosmo de Vertumnus é o vencedor do combate de ultimação! Hector de Vertumnus está oficialmente desclassificado! Declaro encerrada esta Corte dos Heróis!

Largando o mangual de correntes no chão, corri até ele e o colhi nos braços.

— Hector, o que aconteceu?! Eu te dei abertura, não dei? Por quê...? Por que fez isso?! — interpelei, chacoalhando seu corpo. — Levante-se! Tome, pegue sua espada! Eu ainda tenho minha máscara, você ainda pode me vencer!
— J-Já acabou, Kosmo.
— Hã?!

Suas pernas e braços já haviam parado de se mexer. Eu podia ver as manchas de ouro em sua pele, se alastrando rapidamente.

— E-Eu não posso, irmão — disse ele.
— Não pode? Não pode o quê?!
— Nós somos gêmeos. V-Você... é tudo o que eu tenho. Você é tudo o que eu sempre tive. Me perdoe por não ter percebido antes... Por favor, cuide do Filho de Trismegistus. C-Cuide dele. Não deixe que-...
— Hector, você--!!!

Quando me dei conta, aquele em meus braços era apenas uma estátua rígida, com suas asas ainda esticadas. Chamei por seu nome, mas ele não me respondeu.

... Era um engano. Só podia ser um engano. Eu não tinha a qualificação, tampouco minha mente era forte o bastante para suportar esse vazio que rasgava dentro de mim. Não, esse papel não era meu. Eu não era Padomektah...!

Foi quando escutei grasnidos à distância, uma cacofonia que ficava mais alta a cada instante, e forcei meu olhar para o alto.

Era uma revoada de pássaros negros, mais parecendo uma nuvem de gafanhotos. Eles desciam do outro lado da torre que conectava nosso mundo a Agartha, como silhuetas valsando pelo céu crepuscular.

A luz do Sol havia sido eclipsada por uma grande rocha triangular. Ela mantinha cativo o Filho de Trismegistus, seus braços e pernas amarrados por correntes douradas. Sua expressão era sofrida e vazia.

Em um dado momento, os bicos afiados o vitimaram, dilacerando suas entranhas e arrancando a carne de seus ossos até restarem apenas trapos sangrentos. Pequenos pedaços de órgãos retalhados caíam como gotas de chuva.

Em pouco tempo, tudo o que um dia existiu dentro dele foi extraído e consumido.

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EMBLEMA XII
A Pedra que Saturno vomitou, sendo devorada no lugar de seu Filho Júpiter, é posta no Monte Hélicon como Monumento aos Homens.

"Você quer saber por que tanto falam do Monte Hélicon,
e por que há quem tente escalar seu cume?
Há uma pedra no topo, um monumento sustido nas alturas,
que seu pai vomitou em vez de Júpiter.
Se não compreendes o real significado disso, tua mente está doente;
pois aquela é a Pedra Química de Saturno."

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Quando estava prestes a gritar, despertei.

Eu estava em um lugar estranho, semelhante a um museu. Vi uma árvore que produzia frutos de ouro e, também, a estátua fúnebre do meu irmão, posta em exposição. A placa ao lado exibia o título “Putrefação e Destilação”.

Próximo a ele, jazia um corpo coberto, estirado sobre uma larga poça de sangue velho. Pessoas circulavam ao redor, falando em uma língua que eu não conseguia entender. Até o jeito como se vestiam era estranho para mim.

Uma delas colocou um medalhão — o Amaranto — dentro de um pacote transparente, e um par de lentes oculares em outro. Em seguida, transportaram o cadáver para um tipo de bolsa preta que abria e fechava.

Múltiplas perfurações no tórax, bem acima do coração. Vi também uma laceração profunda em sua garganta, como se o perpetrador tivesse tentado decapitá-lo em um momento de fúria e desistido no processo.

Pelo ângulo em que a cabeça se deitava, eu não podia ter certeza, mas o porte físico e a cor dos cabelos da vítima eram os mesmos de Terumichi Kinjō.

Ruídos altos, como sirenes, reverberavam em meus ouvidos. Meu corpo tremia, mas eu estava paralisado. Era como se estivesse preso em um pesadelo, daqueles que eu costumava ter, mas que nunca chegavam ao fim.

— Não, não. Isso não é nada tão triste quanto um pesadelo. É a realidade. — Uma voz amena veio da minha esquerda. — Esta é a luz do ontem, e a escuridão inevitável do amanhã.

Era um garoto de pele clara, algo raro em nosso mundo, e cabelos pretos. Vestia-se como uma espécie de aristocrata extravagante, como os que eu vira em livros, e seus olhos tinham a cor do ouro exposto ao Sol.

Sua presença emanava imponência e santidade.

— Saudações, Kosmo de Vertumnus. É uma honra recebê-lo aqui, neste santíssimo Jardim de Rosas da Sabedoria.
— Quem é você? — perguntei.
— Vamos ignorar as formalidades, então? Para você, quem eu sou não é tão importante. Mas você costumava ser importante para mim. Isto é, até fazer meus planos irem por água abaixo. O que será que desandou, me pergunto...
— Do que raios está falando?
— Sua vitória foi um imprevisto. Presumo que a aleatoriedade do elenco a tenha ocasionado. Os resultados foram um tanto inusitados, como pode ver. Confesso que fiz uma sujeira desnecessária.

Sujeira desnecessária...? Por acaso, ele queria dizer que foi o responsável pela morte do Filho de Trismegistus, e que... a minha vitória causou isso?

— De qualquer maneira, o dia prometido foi consumado — disse ele. — Outros sacrifícios em meu nome hão de vir. Este corpo, também, deve perecer. A Correnteza Eterna partirá para um novo receptáculo, a fim de que eu e ele sejamos reunidos. Da próxima vez, sem falha.
— ...
— Você não entendeu, né? Está tudo bem. Não precisa entender. Sendo sincero, os desafiantes caídos serviram como um bom combustível para o Atanor, logo, sou grato a você. Graças ao sacrifício deles e do Filho de Trismegistus, a vida em Arcadia será prolongada por mais uma era. Oh, mas um trabalho frutífero merece uma recompensa mais justa.
— Um único desejo em emanação harmoniosa.
— Que sagaz. Nem precisei explicar.
— As palavras do abutre não vêm de falsa sabedoria.
— Fico lisonjeado que depositem tanta confiança em mim.
— Você realizará qualquer pedido? Livrará a humanidade do Declínio?
— Lamento, mas não possuo o poder para ajudar com isso, tampouco trazer os mortos de volta à vida. Isso é impossível.

Meu silêncio se prolongou por alguns instantes.

— ... Era tudo mentira?
— Tivesse acabado de outra forma, não. Máquinas têm limitações. Tudo depende do que estiver ao alcance do combustível. Com o suficiente, seria possível até reescrever as leis do universo, criar e destruir mundos, dar vida e tirá-la. Houve precedentes disso, desde antes de a música existir! O que vocês reuniram simplesmente não satisfez os requisitos.
— Se isso não depende de uma só pessoa, não creio que, em meu lugar, Hector os satisfaria. Deuses têm mesmo um jeito perverso de mentir. Eles contam verdades pela metade.
— Essa não é uma particularidade dos deuses. Humanos fazem isso o tempo todo. Até você!
— Como descubro o que é possível com o atual combustível?
— Simples. Experimente.

De dentro da capa vermelha, ele tirou um fruto de romã e me ofereceu. O brilho ao redor dele pulsava no mesmo ritmo de um coração. Pensando bem, aquilo só tinha a aparência de uma romã, mas era um coração. O coração de Terumichi.

— Kosmo de Vertumnus, tu és o diviníssimo vencedor da Corte dos Heróis. O milagre do Ícaro messiânico pertence a você. Diga-me, pois, o teu desejo.

Tentar de novo. Recomeçar desde o exato momento em que pisamos naquela maldita torre e corrigir todos os erros que cometi no meio do caminho. Eu precisava reencontrar meu irmão e devolver o que era dele por direito.

O sorriso que aquela pessoa me deu foi como o de um espírito maligno. Ahriman, o deus da escuridão, a quem vendi minha alma na esperança de encontrar força, agora me arrastava para o abismo de suas próprias ambições.

Aos meus olhos, um brilho escarlate surgiu.

A imagem do museu ficou para trás, dando lugar a algo novo. Era como uma cornucópia da qual flores e frutos de todos os tipos e cores extravasavam incessantemente. Ou, como uma correnteza, por onde minhas memórias fluíam.

— Kosmo?

A voz reconhecível me fez voltar aos sentidos. Era Hector. No momento em que eu ia derramar uma lágrima, me contive.

— Desculpe, eu me distraí.
— Você, se distrair? Desde quando? — Fez uma careta.

A Torre dos Filósofos. O mecanismo divino construído pela autoridade da Correnteza Eterna com o intuito de conectar os mundos divididos.

Era possível vê-la de qualquer ponto de Arcadia, mas só de perto tínhamos noção de seu real tamanho. Uma estrutura aterradora e colossal, que não parecia pertencer a este mundo.

Segundo os escritos sagrados do Pergaminho do Abutre, seu núcleo resguardava o Amaranto. Isto é, a chave para adentrarmos o Jardim de Rosas da Sabedoria, pelo qual se alcança o poder miraculoso de Messias.

Eu estava diante dela, uma segunda vez.

— Hector, eu preciso que saiba de uma coisa.
— Hm?

Fingindo se tratar de um segredo que aprendi em minha formação no Ministério das Profecias, expliquei a ele a real natureza da Corte dos Heróis.

O único desejo. A verdade do nosso povo. O sacrifício e morte do Filho de Trismegistus no dia da Correnteza Eterna e a impossibilidade de parar a maldição do Declínio, mesmo com o poder do Messias.

Nós fomos enganados. Tudo em que acreditamos desde o princípio era mentira. Nunca houve salvação. Mas esse não era o fim. O Declínio continuaria, e a humanidade viveria por mais uma era, como me foi prometido.

Sendo assim, restaurar a forma física dos nossos conterrâneos era o mínimo que poderíamos fazer. Ao verem suas peles renovadas, os cidadãos acreditariam piamente que, ao menos, haviam sido curados de suas maldições.

Milhões de vidas seriam poupadas. Era o melhor cenário possível.

Dessa vez, eu não permitiria que a situação saísse do controle, mas precisava da ajuda dele. Não podíamos levantar suspeitas nem contar a ninguém sobre o único desejo. Caso contrário, tudo poderia ir por água abaixo.

É claro que, para fins estratégicos, não revelei todos os detalhes. Em primeiro lugar, meu combate contra Hector deveria ser evitado a qualquer custo. Se o Anfiteatro me favorecia, não podíamos pisar na mesma arena.

Por baixo de sua casca rígida, Hector sempre foi o mais sensível, volátil e, talvez, o mais carente dos respingos de afeto que nos ofereciam, o que fazia dele vulnerável. Esse fato nos levou a um desdobramento ruim.

Fomos separados no labirinto de uma masmorra e, mesmo tendo a oportunidade de nos reunirmos, meu irmão fugiu e me deixou para trás. Eu tentei segui-lo, mas foi inútil. Ele estava aterrorizado, até mais do que eu.

Vi-me atônito. Quando contei que sacrificaríamos o mundo inteiro em prol da sobrevivência de Vertumnus, sua reação não foi tão grandiosa.

O que deu nesse idiota? Ele se sentiu sobrecarregado? Quem deveria estar sobrecarregado era eu, que assumi a responsabilidade que ele foi criado para tomar. Se não fosse a fraqueza dele, isso nem sequer teria acontecido.

Eu ainda me lembrava de boa parte do caminho até o Anfiteatro. Mesmo sozinho, eu tinha plenas condições de chegar até lá. Entretanto, se por ventura ele acabasse morrendo, todo o trabalho teria sido em vão.

Garantir que ele chegasse a seu destino ileso.

Era a minha prioridade. Do contrário, eu não teria escolha a não ser começar do zero outra vez.

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