Volume 1
Capítulo 59: Despertar
Depois de ter sucumbido à tentação, provado da maçã proibida, Sophia voltou ao campo de treinamento onde encontrou seu mestre na mesma posição. Admirava sua resiliência. Diferente dela, ele estava focado, não era fraco como ela.
— Já voltou?
Seu mestre disse sem abrir os olhos.
— Eu cai, mestre.
Ela optou por ser sincera. De nada valia esconder suas batalhas internas se desejava alcançar esse poder sobrenatural, precisava abrir mão do seu orgulho e buscar por ajuda.
— É por isso que você devia ter permanecido aqui.
Em resposta, Sophia se sentou em pose de lótus em frente ao seu mestre e fechou os olhos.
— Eu também já caí. — Ela abriu os olhos ao ouvir isso. — Não tem problema cair, mas você deve garantir que levantará com mais força do que a tentação que te fez cair.
— E como eu faço isso, mestre?
— A glória da salvação da sua irmã não se comprará no momento da aflição presente. Pense nessa abstinência como um sacrifício curto e pequeno. Toda vez que a tentação vier, encha os seus pensamentos disso.
Essas palavras foram a flecha cravada no peito que Sophia estava precisando para acordar para a realidade. Sua irmã valia mais que dias de fome. Se a perdesse, aí sim lhe faltaria apetite e gosto pela comida.
— Muito obrigado, mestre.
Ela sorriu e fechou os olhos, entrelaçando as mãos em oração, os dedos firmes como a sua convicção dessa vez.
Depois de horas, seu estômago voltou a murmurar forme, a dor irradiava seu corpo em uma fraqueza. Mas ela precisava se manter firme. Encheu os seus pensamentos com o tão sonhado momento em que voltaria a ter sua irmã nos seus braços novamente. Precisava fazer isso por ela, pelo seu irmão e pelo reino.
Depois de mais horas, o sol ainda no auge, a pele percorrida por suor, Sophia caiu no chão ao não aguentar manter aquela pose. Deitou. Não havia problema. Poderia dormir ali, naquele chão empoeirado e frio, desde que não comesse nada.
Ela lançava suspiros enquanto se abraçava, se perguntando de o que seu mestre era feito para não cair perante a fraqueza humana. Esse era o sacrifício que ele havia pago, que seus inimigos haviam pago?
A força que fora capaz de aniquilar seus soldados trouxera consigo tamanho fardo.
Se ela pretendia eliminar seus inimigos, precisava permanecer no mesmo sacrifício. Rangeu os dentes, veias extrapolando as extremidades da sua testa e quando abriu os seus olhos a esclera estava vermelha. Com o corpo tremendo, ela voltou ao estado de pose de lótus, mas diferentemente da mulher que havia caído, essa levantou com a postura de um leão.
Mestre que mantinha os seus olhos fechados, foi forçado a abrir depois de presenciar uma mudança gigantesca na atmosfera.
— Sophia, você... — disse num sussurro quase inaudível, encontrando seus olhos fechados.
Sob as estrelas do céu, os olhos daquele homem foram tomados pelos primeiros resquícios de energia que estavam fluindo no interior do corpo daquela mulher.
Então sorriu e voltou a fechar os olhos, ao constatar que Sophia estava dormindo naquela pose, firme e imponente como uma rocha, nem os ventos fortes que sopravam estavam agora conseguindo a abalar.
(...)
Quando acordou no dia seguinte, o mestre percebeu que Sophia ainda mantinha aquela pose, seus olhos estavam abertos enquanto ela não parava de murmurar as palavras quero comida, as bochechas haviam perdido a fartura, entrando mais para dentro da boca. Os olhos sem sinal de vida, vazios, e as mãos ainda firmes, mas trêmulas.
Mestre não gostava nada daquela visão pobre e desgastante que Sophia exalava. Ela estava fora de si, não respondia a nada depois que parou de murmurar aquelas palavras, havia gasto suas cordas vocais e agora não tinha forças para falar.
— Sophia quer desistir?
Não houve resposta.
Mais tarde chegou Clementina acompanhada de Hana, com rostos apreensivos e preocupados depois de Sophia ter passado a noite fora de seus aposentos, sem agasalho, sem banho e sem comida. Clementina trazia consigo uma cesta de alimentos e água, mas ao ver o estado deplorável que sua soberana se encontrava, deixou cair aquilo, as frutas e cantis de água se esparramando no chão.
Hana arregalou e acompanhou os passos apressados de Clementina.
— Rainha!
Caiu de joelhos, segurando suas faces.
Hana encurvou as costas, tapando a boca estupefata. Nunca imaginara ver a grande e imponente soberana naquele estado como de muitos mendigos acabados que pediam por comida nas esquinas das ruas de Acácias.
— O que você pensa que está fazendo com a rainha?
Voltou seus olhos encolerizados para aquele homem, o cenho franzido realçando sua indignação.
— É o treinamento.
— Isso não é treinamento! Está pretendo deixar Acácias sem rainha?!
— Isso é demais, senhor. Por que ela precisa passar por todo esse sacrifício? Isso é demais!
Hana protestou.
— O que Sophia pretende alcançar é algo fora da ordem natural deste mundo. Esse sacrifício é ínfimo.
— Eu não vou permitir! — Clementina foi atrás da cesta, recolheu as frutas e os pães para dentro da cesta, e então caminhou de volta para a soberana enquanto Hana lhe acariciava as madeixas do topo da cabeça.
— Rainha, toma!
Agachada, ela entregou um cantil de água, mas não houve reação, seus olhos estavam vazios e suas mãos ainda entrelaçadas em oração.
Então não teve escolhas se não a dar na boca, algo indelicado que poderia resultar em punição, mas o amor que tinha por ela superava isso. Clementina abriu a sua boca puxando seu queixo para baixo sob o olhar impávido e sereno do mestre e pasmo de Hana.
Mas quando enfim ia enfiar o cantil água entre os seus lábios, Clementina sentiu uma palmada na sua mão. O cantil foi lançado, caiu no chão e deslizou para bem longe. Os olhos surpresos de Clementina acompanharam o movimento e depois retornaram à soberana.
— Mas minha rainha... — Balbuciou, encarando o rosto severo da rainha com os lábios cerrados e olhos vermelhos e fixos, as veias ainda visíveis.
— Sophia tomou uma decisão.
— Não, eu não posso permitir! — Lágrimas deslizaram dos seus olhos, percorrendo suas bochechas. — Desse jeito ela não vai aguentar!
— Escuta, quem você pensa que Sophia é? Essa menina já perdeu muita coisa nessa vida, que não se importa mais em ir ao fundo do poço para recuperar aquilo que lhe resta.
Clementina arregalou os olhos, lembrou de tudo o que tornou essa rainha imponente como era agora. Então sorriu, levantou com a cesta e fez uma reverência para vossa majestade.
— É mesmo. Desculpa, estou me retirando.
Dito isso, deu de costas e começou a caminhar para fora daquele campo enquanto empunha a mão contra o peito, desejando forças para sua amiga.
— Acho que estou começando a achar que isso é verdade. — Hana se levantou, reparando aqueles dois. — Nunca vi tanta determinação na minha vida. Acho que ninguém que acredita numa mentira se prestaria a isso, não é mesmo?
Quando o mestre fez que sim com a cabeça, ela colocou a mão no peito e saiu atrás da Clementina ainda chocada, com a trauma da perda do filho para esse tipo de poder que rainha buscava permeando suas entranhas.
Mais um dia se passou, e Sophia não se movia dali. As visitas de Clementina e Hana, em meio as suas preocupações, não cessaram. Ficavam a um certo ponto e suspiravam de alívio ao saber que sua soberana ainda estava respirando.
Depois voltavam aos seus afazeres. Hana agora estava ajudando no ofício de empregada para matar o tempo e afastar para longe pensamentos negativos que frequentemente assolavam sua mente.
E mais um dia se foi, vindo outro dia de jejum. Nesse Garlick e Marlon vieram ver como estava correndo o treinamento de rainha, e ficaram tristes ao ver o quão rainha estava sofrendo quando poderiam muito bem ter evitado isso se tivessem ido com Helena naquele dia.
Nenhum juramento de não guerra seria capaz de cobrir a multidão de mortes que teriam evitado caso tivessem usado seu poder ao serviço do reino que tanto os acolheu.
— Está vindo... — murmurou o mestre, com olhos arregalados, mas brilhantes, que contemplavam a energia destravar o primeiro selo. A determinação de Sophia estava acima de qualquer determinação que houvera presenciado. — Destravou!
Sorriu, agora ela precisava aguentar e esperar mais alguns dias para destravar os próximos, mas não, ele se enganou quando pensou que aquela mulher seguiria um padrão. Ela naquele momento superou todas as suas expectativas, se tornando um dos pródigo que ele houvera presenciado durante sua vida.
— Sophia, você....
Palavras não cabiam na sua boca para descrever aquilo que estava acontecendo ali. A energia fluiu e destravou o segundo selo agressivamente como a fúria implacável das chamas de um dragão e avançou com pressa para o último selo.
Ele abriu um sorriso largo. Sophia balançou a cabeça para o chão como se quisesse cair, atraindo atenção da Clementina e da Hana que correram em direção a ela, temendo o pior. Desde que visitaram a rainha durante esses dias, ela jamais havia caído, o que significava que ela poderia ter alcançado o limite do que o seu corpo poderia suportar sem água, nem comida.
— Não, se afastem! — disse mestre, atónito. — Está vindo!
— O que está vindo? A rainha está desmaiando! — disse Clementina.
Mal houve tempo para próxima fala, nem próxima ação para impedir aquelas duas, quando Sophia ergueu sua cabeça e recompôs o corpo na pose em que estivera, um tremor emergiu da terra e abalou aquele todo espaço com vibrações. Mas não terminou aí, uma forte pressão gravitacional movida pela intensa aura que Sophia liberava enterrou os corpos de Clementina e Hanna na terra, que provocava cratera. Seu mestre se mantera firme, mas havia afundado um pouco.
— Sophia!!!
Quando o mestre gritou ao ver aquelas duas mulheres sendo esmagadas contra a terra, os olhos da rainha se abriram e com isso, a pressão cessou.
— O que aconteceu, mestre?
Garlick e Marlon se aproximaram para verificar se aquelas duas estavam bem, e quando as levantaram, as colocando sentadas, felizmente estavam, seu rosto e corpo apenas havia ficado empoeirados com um resquício de sangue saindo das suas narinas. Mas o terror do sufoco que passaram não foi nada se comparado a curiosidade do que havia acontecido.
Os olhos de Sophia encontraram aquelas duas com espanto, se perguntando o que havia acontecido. Esse tempo todo Sophia esteve inconsciente, havia desmaiado fazia tempo e havia acordado agora, confusa sobre o que estava acontecendo.
Por que Hana e Clementina estavam daquele jeito?
O que significava aquela cratera com rachaduras ao seu redor?
— Sophia...
Mas o pior era: o que era aquela energia formigante que ela estava sentindo percorrer seu corpo de uma maneira violenta?
Seus olhos encontraram seu mestre que havia pronunciado seu nome, e quem esperava encontrar a resposta para o que coração já lhe dizia o que era.
— Você finalmente despertou Aurimagia.
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