O Primeiro Serafim Brasileira

Autor(a): Anosk


Volume 1

Capítulo 24: Princesa Nascida do Gelo

Raymond caminhava pela em meio ao mato da floresta e voltava para o acampamento. Apesar de não ser tão quente e densa quanto a floresta de K’ak’, ainda havia bastante vegetação, e vários insetos voadores e barulhentos irritavam-no insistentemente.

Naquele ponto, não acreditava que Sariel faria algo de ruim para Luna, por isso decidiu se afastar um pouco, apesar de ainda não confiar totalmente nele.

Enquanto caminhava, se lembrou do que vira na igreja e do comportamento estranho de Sariel. Não sabia o que o texto que Luna recitou significava, mas estava claro que aquilo atraiu a atenção do viajante.

Após algum tempo, chegou ao acampamento e se deparou com Aegreon e Shiina preparando os cavalos para partir.

— Decidiu aparecer é? — perguntou a assassina enquanto tentava abraçar o guarda-costas. — Deveria se envergonhar por deixar todo o trabalho em nossas mãos e fazer uma mulher carregar peso...

— Estamos partindo? — perguntou ele, ignorando Shiina.

— Assim que terminarmos, pode ajudar?

— Tá bem...

Raymond então decidiu permanecer alguns minutos para acelerar a partida, afinal, Luna não dava sinais de melhora e alguns minutos a menos não fariam muita diferença.

Enquanto fazia isso, sentiu um imenso poder de Gelo surgir de onde Luna e Sariel estavam, e subitamente, todo este poder explodiu e atingiu ele, Aegreon e Shiina.

Aquela explosão era tão poderosa, que Raymond foi arremessado alguns metros e caiu no chão. Atordoado e confuso, percebeu-se encarando um chão completamente branco e frio, e seu corpo todo tremia devido à temperatura baixa.

Quando se levantou, se deparou com um cenário completamente diferente. A floresta, que até agora pouco era verde e úmida, estava completamente branca e congelada.

Shiina também havia sido arremessada por esta explosão, mas Aegreon havia agido rapidamente e usou sua magia para proteger os cavalos, espalhando uma chama roxa que criou um escudo térmico para os pobres animais, que estavam visivelmente assustados.

Nenhum som podia ser ouvido exceto do gelo se quebrando conforme andavam nele. Os insetos irritantes haviam se calado, provavelmente estavam congelados, mortos, um destino que os cavalos teriam sofrido também se não fosse pelo Pilar.

Aegreon, com uma expressão de raiva intensa no rosto, disparou até a fonte daquela explosão.

Raymond também não se demorou e logo correu de volta para onde Sariel e Luna estava com sua espada em mãos e pronto para a luta.

“Maldito... Esteve fingindo ensinar magia a ela apenas pra que eu baixasse minha guarda...”

Chegando lá, viu Luna de joelhos e encarando com uma expressão assustada para as próprias mãos, enquanto Sariel estava sendo agarrado por Aegreon

— SEU MALDITO! O QUE DIABOS VOCÊ FEZ?

HAHAHA! Quem diria que uma simples princesa de um pequeno reino teria o poder de um Pilar! HAHAHA!

Ao ouvir aquilo, Aegreon soltou Sariel e olhou para Luna surpreso, que ainda olhava ao redor em choque.

— Como... é...? — perguntou com os olhos arregalados. Era a primeira vez em muito tempo que Aegreon se surpreendia com algo.

Raymond também estava sem palavras. Tudo em um raio de 3 quilômetros estava completamente congelado, morto, e a responsável por aquilo era a princesa frágil que sempre teve que proteger.

Shiina chegou depois e, ao ver aquela floresta congelada, se lembrou de algo que desejava nunca mais recordar. Aquele lugar branco, monocromático, e aquele frio indesejável a fez sentir raiva.

Luna olhou ao redor e para o rosto de cada um presente ali. Aqueles rostos assustados e surpresos, encarando-a, fizeram-na lembrar dos olhares de nojo, medo e raiva que as empregadas dirigiram a ela quando descobriram sua identidade.

— Não... olhem para mim... — sussurrou Luna.

— Luna, você... — Aegreon se aproximou.

— NÃO CHEGUEM PERTO DE MIM! — gritou enquanto colocava as duas mãos na própria cabeça e se encolhia de medo.

Em resposta a sua agitação, uma nevasca intensa surgiu ao seu redor e empurrou todos para longe. Shiina e Raymond foram jogados para mais longe, enquanto Sariel e Aegreon resistiram e permaneceram no mesmo lugar.

A força da nevasca arrancava com facilidade as árvores ao redor, e até mesmo a pedra que Sariel havia colocado parecia prestes a ser empurrada. O frio também era mortal e congelava ainda mais a vegetação.

— O quê? Espera, Para! — Luna se assustou com o próprio poder e tentou pará-lo, mas isso apenas a deixou mais ansiosa e intensificou ainda mais a nevasca.

— Luna, acalme-se! — gritou Raymond, tentando se aproximar dela.

— NÃO! PARA! EU NÃO QUERO MACHUCAR NINGUÉM! PARA! — Ela tentava o quanto podia parar aquela magia, mas quanto mais implorava mais sua própria magia se recusava a obedecê-la.

Naquele ponto, a nevasca estava tão intensa que não conseguia mais ver seus companheiros nem ouvir suas vozes.

Percebendo o próprio poder destrutivo, Luna começou a chorar e se lembrar de todas as vezes que lhe disseram que deveria morrer.

— Seria melhor se eu morresse mesmo... — disse enquanto soluçava.

Nem chorar era capaz pois o frio congelava suas lágrimas no momento que escapavam de seus olhos, que se misturavam naquela nevasca mortal, que muito provavelmente já havia matado seus companheiros.

— POR FAVOR! ALGUÉM ME PARA! ALGUÉM ME MATE! — implorava com tudo que podia. — Tudo seria melhor se eu não existisse...

Seu desespero já havia tomado conta dela. Parecia que sua magia continuaria acontecendo e aumentando, matando tudo naquela floresta, todos os animais que sempre foram os únicos seres que se aproximavam dela sem medo.

Foi então, que no meio desse caos, que uma voz calma soou em sua mente.

— “Shh... Tá tudo bem agora, acalme-se...”

Subitamente, ela se viu no colo de uma mulher com cabelos loiros — que já se tornavam brancos — e acariciando-a carinhosamente.

— O quê?

— Você vai ser odiada, desejarão sua morte... Te farão acreditar que é um monstro, uma assassina, e seu próprio poder talvez até a faça pensar isso... Mas lembre-se, Kura lhe deu este dom para proteger os indefesos e necessitados. Seus ensinamentos sempre disseram que os fortes devem proteger os fracos, e se seguir está virtude, Kura lhe recompensará com a felicidade.

— O que quer dizer? — perguntou Luna.

Contudo, a mulher parecia não escutar sua voz.

— Você terá uma vida difícil, mas jamais sucumba ao desespero. Confie em seus amigos, pois sei que você os terá! E tenha fé em Kura, pois ela irá te guiar.

— Você é... Elise?

Ignorando-a, a mulher a abraçou calorosamente, fazendo-a esquecer completamente do próprio desespero e acalmando-a.

Luna fechou os olhos e aproveitou o abraço. O tempo pareceu parar, até que ela decidiu abrir os olhos novamente e perceber que estava sendo abraçada por Raymond.

— Raymond...?

— Está tudo bem, Luna. Acalme-se...

— Hm...

Após se acalmar, percebeu todos os seus companheiros observando-a. A clareira que estavam havia se tornado mais aberta e congelada.

— O que eu fiz?

— Você não fez nada, Luna — disse Sariel se aproximando. — Na verdade eu sou o responsável por isso, já que não expliquei o que ia fazer, o que acabou causando isso tudo.

— O que você fez? — perguntou Raymond. — Por que ela conseguiu usar uma magia tão poderosa?

— O poder mágico dela estava selado.

— Selado? Como? — perguntou Aegreon.

— Não sei, talvez você possa nos dizer, Raymond — disse Sariel, encarando o guarda-costas.

— Eu não faço ideia! — respondeu Raymond. — Talvez Geoffrey tenha contratado alguém secretamente para que o Conselho não a detectasse.

— Selado? O que isso significa? — perguntou Luna.

— Explicarei depois, devemos partir agora que está tudo bem, esse lugar definitivamente será investigado pela Vigília.

— Tem razão — disse Aegreon. — Se estiver se sentindo melhor, podemos ir agora.

— Estou bem, me desculpem por isso...

— Não se desculpe, já disse que a culpa foi minha — disse o viajante. — Agora vamos.

Com isso, o grupo retornou ao acampamento que agora estava congelado. Durante o caminho, se depararam com vários animais congelados e mortos, como pássaros que pareciam estar cantando, veados que comiam grama, e predadores se espreitando. Agora, todos estes animais estariam presos realizando essas tarefas para sempre.

Raymond, para evitar que Luna visse aquilo e ficasse nervosa novamente, a abraçou com seu grande corpo e bloqueou a visão daquele cenário terrível.

Assim que chegaram no acampamento, partiram rapidamente. Raymond decidiu ir no mesmo cavalo que Luna para ter certeza que ela estaria calma e que nada acontecesse novamente, e a jornada prosseguiu sem mais imprevistos.



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